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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

26 de mai de 2011

Godard e a Distopia de Alphaville (final)







Alfa 60: sabe o
que transforma
a noite em luz?
Lemmy
: a poesia





 

Orfeu em Alphaville
 
Na opinião de Chris Darke, Lemmy Caution é mais uma reencarnação de Orfeu, bardo da Trácia, que vem salvar Natasha, sua Eurídice. Darke explica que a versão de Godard para o mito inspira-se fortemente no filme de Jean Cocteau, Orfeu (Orphée, 1949). Além de fazer uma revisão do mito readaptando-o aos tempos modernos, o filme de Cocteau era por sua vez uma adaptação de uma peça teatral que havia montado em 1926. O Orfeu de Cocteau sai do Café des Poètes, é conduzido à terra dos mortos numa limusine, passa por uma paisagem com a imagem em negativo (como algumas cenas de Alphaville) e recebe mensagens de gente morta pelo rádio do carro. As cenas de Alphaville em que vemos pessoas tateando a parede dos corredores também é uma citação do Orfeu de Cocteau. Durante uma viagem de táxi, ouvimos a voz de Lemmy: “enquanto o radio tramite um programa de tráfego, Natasha fala comigo com sua voz de bela esfinge...”. Essa fala por cima da emissão de rádio e a referência à esfinge parecem uma referência as misteriosas comunicações em Orfeu. Paul Éluard, acredita Darke, surge como a figura do poeta morto no mito órfico de Godard, cujas palavras são trazidas de vota à vida por seu mensageiro-substituto Lemmy Caution (1).




Essa fixação no poder das palavras também pode ser
encontrada em Fahrenheit
451
, de François Truffaut





A mais poderosa arma de luz do arsenal de Lemmy foi dada a ele pelo ex-agente secreto Henry Dickson antes de morrer. É um livro! E tudo parece indicar que se trata de Capital da Dor, de autoria do poeta Paul Éluard (1895-1952). Lemmy se torna o guardião das palavras proibidas – amor, consciência, ternura – que os habitantes de Alphaville estão esquecendo. Mas Natasha vai se “curar” disso, o que já não se pode esperar do futuro de uma das sedutoras que acompanhava Lemmy no corredor do hotel – quando ela pronuncia uma palavra proibida (“por quê?”), logo se ouve uma reprimenda do onisciente Alfa 60. Chris Darke lembra que o livro de Éluard foi escrito na época em que ele fazia parte do movimento surrealista. E tudo que o Surrealismo representa – o poder criativo do amor, o irracional como força libertadora, a descoberta do “maravilhoso” no cotidiano – é hostil a uma sociedade como a de Alphaville, dedicada à lógica, ordem e a prudência. Mas Chris Darke conhece o trabalho de Adrian Martin e Julien d’Abrigeon e sabe que em Alphaville nem tudo é o que parece (2).

Paul Éluard em Alphaville






Não se deve julgar
o  livro  pela  capa!


Uma das várias versões
deste ditado popular




A capa de Capital da Dor serviu a Godard pela ressonância desse título para a visão de ficção científica distópica do filme. Mas a novidade não deve parar por aí, sob pena de deixar escapar toda a dimensão da associação com Éluard. Para começar os últimos poemas dele no começo dos anos 50 do século passado não são manifestações de um jovem bêbado com o devaneio do amor louco surrealista – e a articulação com o Surrealismo é a primeira ligação que os comentadores costumam fazer entre o Godard de Alphaville e a citação de Éluard. A descoberta recente da existência do amor do poeta por Dominique Laure dá outro tom ao casal Lemmy/Natasha. Martin aponta ainda a identificação de Godard com poetas românticos modernos (Éluard e Aragon), que enalteciam suas esposas/musas – incluindo aqui a diferença de idade (dez anos) entre o cineasta e Anna Karina. Martin ressaltou também uma dimensão política na articulação do nome de Éluard com o filme, já que ele rompeu com o Surrealismo e foi ser um ativista-poeta na Resistência francesa durante a guerra. De acordo com Adrian Martin, todas essas associações – amor e surrealismo, rebelião e resistência política – estão presentes nas colagens da obra de Éluard em Alphaville.






O livro e a obra de Paul
Éluard foram
reciclados
pela colagem de Godard





De acordo com Adrian Martin, a utilização da poesia de Paul Éluard em Alphaville vai além da citação e da colagem, ela é recriada por Godard (3). Além disso, dispara Martin, é um erro pensar que o fato de Lemmy dar a Natasha um livro com a capa de Capital da Dor significa que o livro que está dentro da capa é este. Tudo acontece durante uma seqüência de 15 minutos no quarto de hotel onde se hospedou Lemmy. O texto que Natasha começa a ler (“sua voz, seus olhos, suas mãos, seus lábios. Nossos silêncios, nossas palavras...”) não é de Capital da Dor. Um engano compreensível, já que sua pose na janela com o livro aberto funciona como uma espécie de atribuição bibliográfica. Martin concorda com Julien d’Abrigeon, para quem “esse poema” é uma grande colagem feita por Godard a partir de versos de Éluard retirados de vários poemas diferentes. Além disso, muitas frases e poemas podem ter sido divididos entre a voz de Natasha e o desfile de claro-escuro das imagens. Re-trabalhada de uma maneira singular na carreira de Godard, a obra completa de Éluard é a verdadeira assinatura poética de Alphaville.


Notas:

Leia também:


As Deusas de François Truffaut
Godard e a Distopia de Alphaville (I)
A Chinesa e o Cinema Político de Godard
O Rosto no Cinema (V)
O Rosto no Cinema (VII), (VIII), (IX)
François Truffaut e Seus Livros
Contestadores Integrados Franceses (I), (II), (epílogo)
Hiroshima Meu Amor (I), (II), (final)
Religião e Cinema na França
O Que Sobrou da Nouvelle Vague
O Silêncio de Jacques Tati
Nouvelle Vague: Ascensão e Queda
Jean-Luc Godard o Pierrô?
Jacques Tati e Seus Duplos (I), (II), (final)
A Mulher de Jean-Luc Godard
As Mulheres de François Truffaut (I)

1. DARKE, Chris. Alphaville. New York: I.B. Tauris, 2005. Pp. 94-5.
2. Idem, pp. 49, 54, 55.
3. MARTIN, Adrian. Recital: Three Lyrical Interludes in Godard. In: TEMPLE, Michael; WILLIANS, James S.; WITT, Michael (eds.). For Ever Godard. London: Black Dog Publishing, 2004. Pp. 252, 262-7. 


24 de mai de 2011

Godard e a Distopia de Alphaville (III)




“O filme acontece
num momento em que
comunismo e capitalismo não
são antagonistas políticos, mas
apenas dois sistemas distintos
de planejamento. Um deseja
programar a mente antes do
corpo, o outro trabalha
ao contrário”


Godard ao jornal
Le Monde, 1965 (1)




O
Encontro Entre Homem e Máquina

Godard estava cético em relação à tendência daquela época à tecnocracia, a sociedade humana se padroniza cada vez mais. Estamos cada vez mais parecidos com a sociedade dos cupins ou das formigas, disse o cineasta em 1965. No filme, ele diz isso de forma mais sutil quando Lemmy Caution chega ao hotel logo no começo do filme. Ele se apresenta como Ivan Johnson, repórter do jornal Figaro-Pravda, um nome derivado de dois jornais da época – Le Figaro, jornal francês de direita, e Pravda, jornal da antiga União Soviética. Ao discurso do “planejamento” Godard contrapõe a poesia e o romantismo: “Alphaville é um mundo sem romantismo. O mundo dos grandes conjuntos é um mundo que procura eliminar a aventura em favor do planejamento. A tarefa do artista é fazer armadilhas para o planejamento” (2). É isso que Lemmy deve fazer para levar Alfa 60 a entrar em curto-circuito, forçar a máquina pensante a pensar como um ser humano. Nesse momento, como diz Lemmy, a máquina se metamorfoseará “à minha semelhança, em meu irmão”. O tema de Alphaville também é o encontro entre o homem e a máquina.


Embora poesia fosse
a arma contra Alfa 60,
Jean-Luc Godard era
hostil à sua inclusão no
conceito de cinema de
poesia proposto por
Pie Paolo Pasolini


Alphaville
desenha uma caricatura do França tecnocrática do pós-guerra. Godard apontou dois tipos de tecnocrata, o funcionário e o visionário. O primeiro tipo inclui o engenheiro chefe e os professores Heckell e Jeckell, que raciocinam em termos de causa e efeito. O segundo tipo é o professor von Braun, o cientista que Lemmy deve persuadir a acompanhá-lo aos países exteriores ou matar. Ao lado da tecnocracia, Godard via o estruturalismo apenas como mais uma faceta dela, uma ideologia que desvalorizava o ser humano. O cineasta convidou Roland Barthes, um dos proponentes da crítica literária estruturalista, para ser um dos cientistas em Alphaville. Segundo Godard, Barthes não foi porque estava com medo de parecer ridículo. Chris Darke chamou atenção para o fato de que a reputação de Barthes como alguém que dissecava os elementos da cultura de massas (em Mitologias, 1957) não está distante da opinião de Godard em relação à cultura do consumo. Contudo, Godard era muito hostil em relação às análises estruturalistas do cinema baseadas em modelos lingüísticos desenvolvidas por Christian Metz, Pier Paolo Pasolini e pelo próprio Barthes. Em retrospecto, conclui Darke, parece compreensível a falta de interesse de Barthes em participar de Alphaville.

Godard Romântico




Em Alemagne Année
90 Neuf Zéro
(1991)
, Godard apresenta uma série de ecos
e citações de
Alphaville

Chris Darke (3)



Darke destacou a tendência de Godard neste filme à nostalgia e alienação ou desencantamento. De fato, quando jovem Godard era um entusiasta dos luminares do Romantismo alemão, especialmente Novalis (1772-1801). Portanto, alienação era mais do que um tema nessa fase de seu trabalho como cineasta. No sentido de que, através da tecnologia e da ciência, a divisão do trabalho e a economia de mercado, a modernidade parece ter alienado as pessoas de si mesmas, umas das outras e em relação à natureza. Nesse contexto, a arte seria um meio de re-encantar o mundo. Nas palavras de Novalis, “o objetivo do artista é romantizar o mundo, enxergar o infinito no finito, o extraordinário no lugar comum, o maravilhoso no banal”. Na opinião de Darke, esse pensamento poderia servir de lema para a abordagem de Godard em Alphaville. Segundo Darke, se a missão da arte romântica é restaurar a unidade e sua finalidade restaurar a mágica, o mistério e a beleza da natureza perdidos para a tecnologia, então certamente a personagem de Natasha von Braun assume a dimensão de uma heroína romântica. As últimas palavras dela no filme (“eu te amo”), mais do que simplesmente protagonizar um final feliz bastante diferente do estilo de Godard, são uma declaração de fé no credo do Romantismo (4).




Alphaville ia se chamar
Tarzan versus IBM
. Será que
Godard sabia da aliança entre
a IBM e os nazistas para o
extermínio dos judeus?
(5)




Mas Darke avisa que Godard não para por aí, em Alphaville o passado não é apenas um mundo de onde Lemmy vem. A velha questão sobre quais os planos das máquinas para o homem recebe uma resposta do passado que assombra Alphaville. Muitos notaram que Godard espalhou em seu filme várias referências à Alemanha nazista: os números tatuados na pele das sedutoras, a notável mudança de nome do pai de Natasha (de Nosferatu para von Braun) e o “SS” no botão do elevador em close-up (o que talvez sugira que ele não leva apenas ao “sous-sol”, subsolo). O professor von Braun carrega um nome cheio de ressonâncias históricas. Werner von Braun é o nome de um cientista que trabalhou para os nazistas e foi responsável pela invenção dos foguetes V-1 e V-2 no final da guerra. Ele fazia parte também de um seleto grupo de cientistas nazistas que os aliados retiraram da Europa depois do conflito numa operação conhecida como Paperclip. Quando o foguete norte-americano Apollo 11 decolou da Flórida em 1969, von Braun era um dos vários ex-nazistas que trabalharam no projeto.





“Tudo já foi dito. Sem
dúvida
. Se as palavras não tivessem mudado de sentido,
e o sentido de palavras”


Jean Paulhan, Clef de la Poésie
Uma dentre as várias citações
que Godard escrevia na folha
de serviço das filmagens (6)




Notas:


Leia também:



1. DARKE, Chris. Alphaville. New York: I.B. Tauris, 2005. P. 70.
2. BERGALA, Alain. Godard au Travail. Les Années 60. Paris: Éditions Cahiers du Cinéma, 2006. P. 249.
3. DARKE, Chris. Op. Cit., p. 90.
4. Idem, pp. 75-7.
5. Herman Hollerith, norte-americano de origem germânica, desenvolveu sistemas de classificação de cartões perfurados que permitiram a organização e coordenação do projeto dos nazistas para o extermínio dos judeus. A IBM era a detentora quase global do monopólio dessa tecnologia. Edwin Black escreveu um livro sobre o tema, IBM and the Holocaust: The Strategic Alliance between Nazi Germany and the America’s Most Powerful Corporation (2002). Ibidem, pp. 8, 77 e 81n84. No Brasil, IBM e o HOLOCAUSTO. Aliança Estratégica com a Alemanha Nazista e a Mais Poderosa Empresa Americana (Editora Campus).
6. BERGALA, Alain. Op. Cit., p. 251.

6 de mai de 2011

Godard e a Distopia de Alphaville (II)




Godard
não gostava de
atores muito maquiados
, mas o expressionismo de Alphaville o faria mudar de idéia, especialmente com relação aos olhos de
Karina (1)




Uma Luz no Fim da Sombra

Alphaville é um filme sobre a luz que em sua maior parte foi filmado à noite. Quando Natasha aparece pela primeira vez, ela para na porta do quarto de Lemmy e pergunta se ele pode acender seu cigarro. Natasha ainda está em parte na escuridão do corredor, acende o cigarro e se posiciona entre a luz e a sombra, num movimento que define sua jornada através do filme. Em Alphaville encontram-se muitas referências ao claro-escuro do expressionismo alemão e do film noir. De fato, embora existam algumas vozes discordantes, é geralmente aceito que o segundo emergiu do primeiro. A forte oposição entre o preto e o branco, personagens com sombras enormes e ângulos de câmera impossíveis, fazem da luz parte da história que está sendo contada através dela. Aquelas imagens de Alphaville em negativo são uma citação do Nosferatu (Nosferatu, ein Symphonie des Grauens, 1922) de Murnau, mas também do Orfeu (Orphée, 1949), de Jean Cocteau. A diferença é que Godard inverteu a conotação das imagens em negativo nestes dois filmes, criando um sinal de transição entre a terra dos mortos (Alphaville) e a dos vivos (as terras exteriores e além) (2).

A voz
de Alfa 60
é de um homem
operado de câncer

na laringe que fala
através de um

equipamento
eletrônico (3)


Alphaville
tem uma ligação com Acossado (À Bout de Souffle, 1960), mais especificamente com as técnicas desenvolvidas aí para a filmagem das cenas noturnas. Mas os cafés e bulevares foram substituídos por letreiros de neon e cortinas envoltas nas sombras expressionistas. Como observou Chris Darke, de Cidade da Luz e lar dos “irmãos na luz” que “inventaram” o cinema (os irmãos Lumières), Paris se transforma em Alphaville, Cidade da Luz e Capital da Dor - tecnocracia noturna iluminada por um brilho pós-atômico que brilha mais do que mil sóis. Godard explicou que “Lemmy é um personagem que traz a luz para pessoas que não sabem mais o que é isso”. Os habitantes de Alphaville dependem da eletricidade para sobreviver, mas parece que se esqueceram das origens sagradas da luz. Com seu isqueiro, Lemmy pretende religar as memórias deles, como um Prometeu novamente levando o fogo dos deuses para a humanidade. A evidência, Darke não nos deixa esquecer, está lá desde a primeira vez que vemos Lemmy. Sentado no escuro dentro de seu carro branco, seu rosto será momentaneamente iluminado pelo fogo do isqueiro ao acender o primeiro de tantos cigarros que aparecem em Alphaville.

Labirinto de Retas e Curvas



Para
God
ard, o círculo
representaria o
mal





Logo no início de Alphaville, Godard aponta para a luz, o círculo e a linha: quando Alfa 60 começa a “falar”, vemos um foco de luz branca e uma seta de neon. O próprio casaco preto de Natasha, ao final de seu primeiro encontro com Lemmy, é um exemplo. Em sua base encontra-se pelúcia branca fazendo um círculo em volta de suas pernas e subindo na frente, desenhando uma linha que vai até a cintura. O círculo e a linha estão espalhados pelo filme, em detalhes gráficos (discos piscando e setas de neon) e elementos arquiteturais (corredores e escadas), até mesmo no movimento de câmera e no diálogo. Incontáveis são os corredores e uma escada em caracol remete ao discurso de Alfa 60 momentos antes: “o tempo é como um círculo que gira sem fim. O arco que desce é o passado e o que sobe é o futuro”. Lemmy sai antes do fim e depois comenta com Natasha que não entendeu nada. Ela explica que “esta noite aprendemos que a vida e a morte existem na mesma esfera”. Enquanto Natasha fala, Chris Darke chama atenção, a câmera circula em torno dela, circularidade acentuada pela estrutura linear do pilar contra o qual ela se inclina (4).



Lemmy erra
em seu futuro como
num labirint
o de Jorge Luis
Borges
. Um futuro onde a sensibilidade é alterada
pela su
pressão de certas
palavras
, noções e
significados
(5)



Para Richard Roud, Godard dá uma conotação negativa ao círculo. Em Alphaville, tudo que representa a tirania dos computadores é circular. O quarto de hotel de Lemmy é quadrado, mas as pessoas caminham em círculos dentro dele. Os corredores podem ser retos, mas os personagens sempre terminam onde começaram. Sem esquecer que Alfa 60 descreve o tempo como algo circular. Mas num sentido tecnocrático, um tempo presente permanente que tem mais a ver com uma prisão – Natasha vai procurar o significado da palavra “amor” na bíblia, Lemmy verifica que se trata de um dicionário; e pior, de onde várias palavras foram suprimidas. Lemmy, por outro lado, mantém que se deve ir direto em frente, na direção daquilo que se ama – como quando Lemmy caminha por um corredor abrindo todas as portas em busca de Natasha. Segundo Kaja Silverman, os cumprimentos que se repetem (onde as pessoas cumprimentam como se já tivessem sido cumprimentadas) durante o filme sugerem alguém girando sobre si mesmo: “eu estou muito bem, obrigado, você é bem vindo”.

Godard é Uma Bomba 
 

Alfa 60
: Você veio das
terras exteriores
. O que sentiu ao passar pelo espaço galáctico?
Lemmy
: o silêncio desses espaços infinitos me aterrorizou




Em 1945, a teoria da relatividade elaborada por Albert Einstein em 1905 foi demonstrada através de efeitos devastadores quando os Estados Unidos detonaram as bombas atômicas sobre as populações civis das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Alphaville foi lançado em 1965, em plena guerra fria e sob a ameaça de uma guerra nuclear. Três anos antes, com a crise dos mísseis em Cuba (em função dos mísseis norte-americanos colocados na Turquia e apontados para a União Soviética), foi quase isso que aconteceu. Em 1964, Stanley Kubrick dirige Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Stop Worrying and Love the Bomb), uma sátira sobre o impensável. Um pouco antes, Alain Resnais abordou o tema de maneira um pouco menos hilariante em Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima Mon Amour, 1959). E=MC² (a energia de um objeto é equivalente a sua massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz), a fórmula de Einstein, aparece no filme de Godard e até ganha uma parceira. HF=MC² é a equação e Bertrand Roussel se arrisca a decifrá-la. Godard teria construído um jogo de palavras em francês, “h” significaria “homme” (homem) e “f” “femme (mulher). A equação heterossexual resultante: homem-mulher= para amar é preciso dois (6).

“Chegaremos mais e
mais a formas de sociedade
primitiva
. Mas em lugar de
povos diferenciados pela
nacionalidade, o russo ou o
americano
, teremos diferentes
categorias de tribos técnicas
.
Povo I.B.M
, povo Olivetti, povo
General Motors
, etc, cada um
possuindo seus próprios
totens tecnológicos”

 

Godard na estréia de Alphaville (7)


Godard também mostra uma “rue Enrico Fermi” e um “boulevard Heisenberg” (8), além de um “Mathematics Park”. No primeiro interrogatório de Lemmy por Alfa 60, perguntado sobre o que sentiu no espaço ele diz que teve medo. A resposta de Lemmy é uma citação de Blaise Pascal (1623-1662), que entre outras coisas é creditado como tendo inventado a primeira calculadora digital – conhecida como Pascaline. Talvez, sugere Darke, Lemmy esteja tentando lembrar à Alfa 60 (a máquina que sabe tudo) suas origens modestas no século 17. Na opinião de Darke, Godard estava plenamente consciente do paradoxo de expressar ceticismo em relação à tecnologia utilizando esta mesma tecnologia. Enquanto um filme “sobre a luz”, Alphaville é necessariamente um filme sobre a forma pela qual leis óticas possibilitam a existência do cinema, o qual mostra, desloca e distorce o mundo. Darke chama atenção para uma faceta romântica de Jean-Luc Godard nessa tentativa de unir a ciência e a arte.



Alfa 60
: qual
o pr
ivilégio
dos mortos?
Lemmy
: não
morrer mais

Purgatorium: A História de Uma Palavra (I), (II), (final)
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Abismo Labiríntico

1. BERGALA, Alain. Godard au Travail. Les Années 60. Paris: Éditions Cahiers du Cinéma, 2006. P. 234.
2. DARKE, Chris. Alphaville. New York: I.B. Tauris, 2005. Pp. 39-41, 55, 59.
3. Idem, p. 39.
4. Ibidem, pp. 60-1.
5. BERGALA, Alain. Op. Cit., p. 230.
6. DARKE, Chris. Op. Cit., p. 79n44.
7. BERGALA, Alain. Op. Cit., p. 249.
8. Fermi (1901-1954) recebeu o Nobel de física em 1938, co-inventor do primeiro reator nuclear, colocado em funcionamento nas dependências da Universidade de Chicago, em 1942. Fermi também foi um dos líderes do Projeto Manhattan, que construiu a primeira bomba atômica. Heisenberg (1901-1976) foi um dos maiores físicos do século 20. Ele também é conhecido por seu papel como líder do projeto nuclear alemão durante a Segunda guerra Mundial. Sua participação ainda é objeto de controvérsia. Ibidem, n45.  


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