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Roberto Acioli de Oliveira

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12 de ago de 2010

Jacques Tati e Seus Duplos (final)






A comicidade de
Monsieur Hulot é uma

síntese bem realista das
relações,   pessoais  de Jacques Tati




 

Hulot, Um Nome Completo

O próprio Tati admitiu que o quepe do carteiro François evocasse um general. Além disso, muitos traçaram um paralelo entre sua figura e a do estadista francês Charles De Gaulle. Essas referências remetem ao passado relativamente recente da Segunda Guerra Mundial, à ocupação nazista e a destruição das batalhas que se seguiram à invasão do Dia D. Monsieur Hulot, por sua vez, é um personagem sem passado, sem laços ou raízes. Talvez não seja por acaso, Goudet sugere que seja um comandante aposentado um dos opositores de Hulot em As Férias de Monsieur Hulot. Tati admitiu também que Hulot significasse um distanciamento da tradição burlesca que envolvia François, o carteiro. Afastando-se dele, Tati deixava para trás o território de Charlie Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd, Harry Langdon, Max Linder, Ben Turpin e Mack Sennett. Jacques Lagrange (co-criador do personagem de Monsieur Hulot, juntamente com Tati, Henri Marquet e Pierre Aubert) confirma a história:

“Antes mesmo do lançamento de Dia de Festa, Tati sabia que seu personagem, François o carteiro, era um pouco convencional demais. O disfarce, não foi tanto o que ele queria do ponto de vista estético. Até disseram que ele quis fazer uma espécie de caricatura de De Gaulle... O carteiro é um personagem cômico bastante tradicional. Houve toda uma dimensão popular que não o agradava muito. Ele queria criar um personagem menos simples, mais ambíguo, mais distraído, com uma abordagem e uma filosofia particulares”(1) (imagem acima, Hulot conta piadas para a vizinha de sua irmã, que aproveitou uma reunião em seu jardim moderníssimo para empurrar uma mulher para a vida de Hulot, Mon Oncle; ao lado, François o carteiro olha desconfiado para as crianças, que tentam enganá-lo com uma carta falsa)

Até no nome do personagem as coisas mudaram. Se François era um nome que inspirava certa familiaridade, como com alguém que sempre conhecemos pelo primeiro nome, produz-se uma distância respeitosa quando nos referimos a um Monsieur... Tati não havia dado uma família a François, mas ele possuía colegas de trabalho, e seus movimentos diários eram sempre os mesmos. Já Monsieur Hulot era fruto de um desejo de Tati em criar um personagem a partir do zero. Um personagem de série desde As Férias de Monsieur Hulot (imagem abaixo, à esquerda, Hulot logo conquista a inimizade do garçom), que não poderia ser compreendido de outra forma senão esperando o próximo filme para capturar um pouco mais de informações sobre aquela figura excêntrica cheia de lacunas. De onde ele vem? De Paris, já descobrimos. Porque ele estava sozinho naquela praia? Qual sua profissão? Ele possui uma família, esposa, filhos? Muitas questões deixadas em suspenso que seriam as matrizes do filme seguinte, Mon Oncle.


Hulotte, o feminino
de  Hulot  em  francês
,
refere-se  a  um tipo  de
pássaro e/ou um tipo de

posição  de  um  tipo de
pássaro   ou    ainda   a

 cor de  suas  penas (2)


Goudet faz uma curiosa pesquisa a respeito do nome do famoso personagem de Jacques Tati. Ela segue, letra por letra, o encalço do excêntrico grandalhão. H.U.L.O.T.: H) Allo. Hello. Hulot. Sua incessante saudação está quase inscrita em seu nome. A letra H, de acordo com Goudet, é um elemento ambíguo; pelo menos em francês ou em português, é uma letra muda. Logo de saída, portanto, este nome impõe uma hesitação: pronunciá-la corretamente é não pronunciá-la! Uma letra discreta, que passa despercebida, ou às vezes vem como um sopro. Originalmente, ao que parece o personagem se chamaria U.L.O.T., mas a idéia fracassou. Com o H, o nome do personagem começa por um silêncio até chegar ao T, que também não é pronunciado! U-O) as duas vogais, colocadas na ordem inversa do alfabeto, ressonam e dominam. O par de vogais também não está muito longe do som que se emite para fazer andar o cavalo que puxa a charrete em Mon Oncle, quando Hulot sai com um grupo de operários da fábrica para esconder as provas de um péssimo trabalho. L) está no centro do nome e aponta para quem quiser ver aí sua preocupação não declarada com o feminino; a letra separa as duas vogais antagonistas, mas tende para a segunda reequilibrando o conjunto com um senso de justiça. Monsieur Hulot está quase todo em seu nome, conclui Goudet (3).


Um dos modelos
para  Hulot era soldado, gentileza era seu elemento
mais marcante, ao invés
de sua
bravura





A composição do personagem levou muito tempo, uma espécie de colagem de características de várias pessoas. O nome Hulot foi emprestado de um arquiteto vizinho de Tati. O cineasta tinha receio de “roubar” esse nome, acreditava que o homem iria gritar com ele! O modo de caminhar e o passo elástico de Hulot foram “capturados” de um soldado chamado Lalouette que Tati conheceu no exército. A definição psicológica do personagem veio também das roupas. Certo dia Tati experimentava de tudo, chapéus, coletes, até que passaram para ele uma capa de chuva muito curta. Ele achou engraçado, porque suas pernas sobressaiam e acentuavam seus 1 metro e 87centímetros de altura. Ainda no exército, certa vez Tati foi levado a uma situação a enfrentar uma situação sem saída que o fez experimentar uma hesitação grande. As hesitações de Hulot vêm um pouco dessa experiência, que Tati articulou com o comportamento extremamente gentil de Lalouette. Era como se a gentileza daquele soldado sempre o protegesse da agressividade das pessoas a sua volta. Eis Monsieur Hulot (4). (imagem acima, à direita, Hulot finalmente é comprimentado, embora tenha acontecido num enterro e por engano; imagem abaixo, à esquerda, dos vários sósias de Hulot, talvez sua imagem no espelho seja a mais parecida com Jacques Tati, As Férias de Monsieur Hulot)

Hulot no Mundo da Lua



Monsieur Hul
ot,
o   maluco   beleza
que levou Jacques
Tati à falência





De acordo com Jacques Lagrange, Tati experimentava um grande e complexo desafio ao atuar como Hulot. Para representar o monsieur, disse Lagrange, era preciso uma visão mais abstrata, e Tati era mais inclinado ao concreto, acostumado a um humor físico mais ligado ao music-hall. Transferindo-se de François o carteiro à Hulot, Jacques Tati parece renunciar a sua identidade como a “diversão noturna”. Em sua autobiografia inacabada, assim como em muitas entrevistas, ele assumiu esse passado de “engraçado”, de piadista solicitado após as refeições ou no final de uma partida para fazer a platéia rir. Hulot é uma negação de tudo isso. Nesse sentido, a criatura está à frente do criador, que mantém com ela uma relação distante. Uma distância em relação à Hulot que, curiosamente, é uma característica do próprio Hulot em relação aos outros personagens com quem contracena. A passagem de François à Hulot, diria Lagrange, mostra bem a diferença entre os desejos do Tati ator e do Tati cineasta.




 A postura arqueada de  Monsieur   Hulot     seria
fruto de sua insegurança
em relação  as pessoas





Monsieur Hulot possui algumas marcas registradas, muitas vezes percebemos que ele anda nas pontas dos pés. Geralmente, isso acontece porque ele está hesitando por algum motivo, seja na dúvida de cumprimentar, seja na dúvida de se retirar. Aliás, Hulot cumprimentar! Mais do que tudo, ele está sempre cumprimentando. De acordo com Stéphane Goudet, em As Férias de Monsieur Hulot ele cumprimenta mais de sessenta pessoas! Cumprimenta até o locutor que se despede no programa do rádio. Talvez, especula Goudet, para além da boa educação este comportamento tenha relação com um desejo de integração. No mesmo filme, durante o funeral, finalmente o cumprimentam, ainda que o façam porque acreditam que Hulot está dando as condolências (durante todo o filme apenas os estrangeiros o cumprimentam). Seu corpo está sempre na diagonal, sempre como se fosse cair para frente. Na opinião de Goudet essa postura física indica que frente aos outros, além da boa educação e da sensação de que o cachimbo dele é muito pesado (talvez os braços para trás e as mãos nos quadris sirvam como contrapeso), Hulot estaria sempre se desequilibrando (5).(imagem acima, à direita, no baile de máscaras, Martine se fantasia de Colombina, mas Hulot não será o Pierrô, apenas um pirata de salão; imagem abaixo, à esquerda, Hulot num dos vários aquários de Playtime, mergulhado numa sinfonia de sons do mundo industrial)


Tati insere alguns
sósias de Hulot como

se  desejasse   substituí-lo
 por  alguém   mais  jovem.
Nunca  víamos  Hulot
de cabelos brancos




Jacques Tati dizia que Hulot era um personagem lunar, inclusive raramente encostava os calcanhares no chão. Andava nas pontas dos pés como se quisesse se aproximar da lua. Talvez não seja coincidência que em Playtime uma mulher que confunde Hulot com um vendedor pergunte onde fica o salão Lua Nova. Em As Férias de Monsieur Hulot, talvez quando Martine escolhe se fantasiar de colombina Tati estivesse sugerindo a idéia de Hulot como um pierrô... Um pierrô lunar. Alguém que formaria um par com ele – ela que, inclusive, também não ouvimos falar muito! Entretanto, ao que parece, um par não é algo que a vida tenha programado para Hulot. Em Trafic por três vezes vemos imagens do vôo da Apollo em direção a lua. O próprio Tati chegou a declarar que as viagens à lua em nada mudariam a vida das pessoas, ele preferia olhar a lua de longe mesmo. Goudet conclui sugerindo que a proposta de Tati em relação à Hulot e a lua passam por outro universo (6): ao invés da lua ser transformada na Terra, não seria preferível que a vida na Terra se tornasse um pouco mais lunar?


Em  Prisão (7),   Ingmar
Bergman mostr
a o pesadelo
de uma jovem
.  É  quando ela
vê uma  senhora na cadeira de

balanço   dentro de uma  vitrine.
Ao   contrário   de   Hulot diante

dos  apartamentos-vitrine,   ela
bate     no     vidro,     mas     a
velha não responde  e  nem
 percebe sua presença
Yasujiro Ozu e Seu Japão
Yasujiro Ozu e a Nora dos Sogros

1. GOUDET, Stéphane. Jacques Tati, de François le Facteur à Monsieur Hulot. Paris : Cahiers du Cinéma, 2002. P. 46.
2. Como descreveu de forma pouco clara para não franceses Michel Chion em Le Son au Cinéma. Paris: Cahiers du Cinéma, 1994 (?). P. 22.
3. GOUDET, Stéphane. Op. Cit., p. 48.
4. Idem, pp. 70-1.
5. Ibidem, pp. 50-3.
6. Ibidem, p. 55.
7. Fängelse, 1949. 


11 de ago de 2010

Jacques Tati e Seus Duplos (II)



“O que me diverte
é pensar no que o guarda
pode estar dizendo,
lá, a um
motorista que cruzou com o sinal
vermelho.
Não é o diálogo que me
faz rir,
mas precisamente o fato de
nada ouvir.
Meu método apenas
supõe um pouco mais de
imaginação da parte
do espectador”


Jacques Tati (1)


Os Ruídos e o Francês François

Ao contrário dos filmes de muitos humoristas, não existe hierarquia entre os personagens de Tati, Hulot não chega a ser o centro das atenções como Carlitos é nos filmes de Chaplin. Muitos seriam os exemplos, mas pode ser citada a cena em Playtime em que Hulot passa para um segundo plano enquanto nós e ele assistimos ao desempenho do personagem do homem de negócios norte-americano, que pontua todos os seus gestos mecânicos com ruídos inesperados (última imagem do artigo). Aliás, como ressalta Goudet, as palavras geralmente não levam a lugar algum nos filmes de Tati. O cineasta acreditava, ele que era basicamente um mímico, que se dava excessiva importância às palavras, em detrimento do som e da linguagem corporal. Portanto, seus filmes constituem também uma trincheira na luta contra o logocentrismo. Seguindo a fórmula de Georges Sadoul (a palavra é um ruído entre outros), de fato a obra de Tati sugere que a palavra é na verdade (ou pelo menos na maioria das vezes) sinal de falta de comunicação! (2) Na obra de Jacques Tati, conclui Michel Chion, a linguagem é relativizada (3) - o que é característico de certos cineastas franceses (4). Chion chama atenção para o efeito alucinatório na cena dos apartamentos-vitrines com parece de vidro em Playtime quando cortamos o som das coisas. Acompanhamos a vida das pessoas nos dois apartamentos contíguos com ações paralelas. O efeito alucinatório de cenas mudas vem precisamente do fato de que sabemos que não estamos no cinema mudo (imagem abaixo, à direita). Outro exemplo no mesmo filme, quando no salão de utilidades domésticas é apresentada uma porta que bate sem fazer barulho. De uma maneira ou de outra, tendemos a preencher o silêncio “ouvindo” o som da porta batendo (5). (imagem acima, podemos ver também, à direita da cena, um dos sósias do Monsieur Hulot)

Além do exibicionismo
social
, a seqüência dos apartamentos-vitrines testemunha também o voyeurismo sexual e o
fim da vida privada (6)


Nos filmes de Jacques Tati, todos os ruídos do cotidiano retomam a palavra que lhes foi roubada e se mostram capazes de arrancar sorrisos do espectador. A cena do saguão em Playtime ilustra bem como a um plano de conjunto que domina a imagem (onde muitas ações independentes ocorrem simultaneamente) correspondem “closes sonoros” que acabam atraindo nossa atenção para ações acontecendo no plano de fundo, fora do foco e independentemente de uma eventual ação principal que justificasse a existência da cena (imagem abaixo, à esquerda). Também é característica desta tendência a cena em As Férias de Monsieur Hulot onde o ruído da bola na partida de ping-pong que ele está jogando incomoda aos jogadores de cartas da sala ao lado – como esses últimos, nós também apenas ouvimos o som repetitivo e insistente; apenas eventualmente vemos Monsieur Hulot, a não ser quando ele adentra a sala onde estão essas pessoas para procurar a bola, que sumiu naquela direção.


A sinfonia de ruídos
corrói a verborragia
que adormece nossas mentes preguiçosas




Ao não hesitar em colocar várias piadas na tela ao mesmo tempo, Tati faz o espectador escolher ele próprio o percurso de seu olhar. Fazendo-nos com isso perceber que nossa percepção do filme será apenas parcial, somos lembrados da lição de Hulot, um personagem que vive parcialmente a vida. Ele não sofre com isso porque não percebe nada. Mas nós, ao contrário, sofreremos no futuro porque, como acreditamos estar no controle de nosso destino, não nos damos conta de que na maior parte da vida o que vemos mais claramente é a vida dos outros e não a nossa. Assim como muitas coisas independentes acontecem na tela durante os filmes de Tati, é vã nossa tendência a acreditar que controlamos nosso destino completamente. O máximo que conseguimos fazer é apontar para aquilo que conseguimos finalmente ver. Como nos lembra Goudet a propósito dos filmes quase mudos (ou “Quasimodos” [7]) de Jacques Tati. Ele nos devolve a palavra justamente ao fazer com que o espectador fale durante a projeção (e até aponte com o dedo) para indicar uma das muitas ações simultâneas que outros talvez não estejam percebendo (8).



François não é
exatamente idiota,
como geralmente
o descrevem

Stéphane Goudet (9)





Um pouco antes de Monsieur Hulot nascer, François o carteiro francês vai ao cinema em Dia de Festa (Jour de Fête, 1949), assiste a um documentário sobre o correio norte-americano e se impõe o desafio de superá-los (imagem acima, à direita). Goudet sugere que François e Don Quixote têm muito em comum. A obsessão do primeiro era o correio, do segundo os romances de cavalaria. A ingenuidade de ambos é visível. Don Quixote carrega o nome de sua pátria (a região espanhola de La Mancha), enquanto François tem um nome foneticamente próximo daquele de sua terra natal (a França). Tati não teria utilizado essa referência literária, mas houve um momento em que o produtor do filme chegou a sugerir que o cineasta atuasse num filme sobre Don Quixote – mas que seria dirigido pelo cineasta italiano Federico Fellini. Embora admirasse o italiano, Tati não aceitou o projeto, por achar que uma adaptação do livro não seria de interesse do público, pois a obra é muito conhecida. De acordo com Goudet, para além de uma fisionomia quixotesca, chama mais atenção em François uma tendência à verticalidade (10).


As aspirações
profissio
nais de François
o distanciam da comunidade, que vive a temporalidade
das estações






Mais especificamente, uma verticalidade no comportamento dele - talvez como forma de resposta aos seus rivais norte-americanos. Apesar de posteriormente Tati conseguir montar o personagem de Hulot em função de sua altura, admitiu acreditar que a comicidade de alguém com baixa estatura é bem mais fácil! Portanto, desde François o carteiro Tati procura nos roteiros explorar seus 1 metro e 87 centímetros de altura. Afinal de contas, os rivais norte-americanos de François são capazes de alçar os ares através de aviões, enquanto ele fica preso ao solo em sua bicicleta. Como quando em Escola de Carteiros (L’école des Facteurs, 1947) François entra nula igreja para entregar a correspondência e encontra um homem tocando o sino – ele sobe e desce na corda. François estende o braço mostrando a carta, o homem dá a corda para o carteiro para poder pegar a carta e François é puxado pelo sino até sumir (imagem abaixo, à direita). No mesmo curta-metragem, François está pedalando na estrada quando se depara com um grupo de ciclistas disputando uma corrida, ultrapassando a todos. Quando ele desce da bicicleta para esperar a passagem de um trem, seu instrumento de trabalho fica preso na barreira, que sobe elevando a bicicleta aos céus.


Mon Oncle
mostra como a
sociedade francesa
da década de 50 estava contaminada pelo exibicionismo
burguês




O que distingue François e Hulot são as relações de cada um com a comunidade e o tempo. Por sua busca pela velocidade, François está sempre à frente de seu tempo - marcado pelo suave rolar da água do rio e o ritmo das estações, sensação forte no início de Dia de Festa. Já Hulot vive na temporalidade de onde estiver – em férias, pratica esportes como todos em volta. Hulot se torna escravo das atividades, como quando responde ao sino do almoço no hotel. O comportamento de François desafia o espírito francês interiorano, colocando em causa o funcionamento da sociedade ao pautar seu comportamento segundo os métodos de trabalho dos rivais norte-americanos. No caso de Monsieur Hulot, é toda a sociedade francesa que é posta contra a parede. Toda a ideologia norte-americana da produtividade, aparente no comportamento de Smith, o capitalista que está em férias mais não larga o telefone pra saber a cotação da Bolsa de Valores (As Férias de Monsieur Hulot), ou ainda a obsessão dos Arpel com a última moda tecnológica e a imagem de ascensão social (Mon Oncle). Também em Playtime, quando o senhor Giffard deixa que um cliente mais importante passe a frente de Hulot. Se antes François alegrava aos espectadores com sua lógica de concorrência, na década de 50 do século passado a França inteira estava contaminada. A preocupação principal de cada um era vestir mais chique do que o vizinho, ter um carro mais potente e uma casa mais cara e mais moderna.


Portanto,
agora n
ão é tanto
Monsieur Hulot
que faz
rir
, mas a própria
sociedade!
(11)

Notas:

Leia também:


1. GOUDET, Stéphane. Jacques Tati, de François le Facteur à Monsieur Hulot. Paris : Cahiers du Cinéma, 2002. P. 82.
2. Idem, p. 25.
3. CHION, Michel. La Toile Trouée. La Parole au Cinema. Paris : Cahiers du Cinéma, 1988. P. 100.
4. ---------------------. La Voix au Cinéma. Paris : Cahiers du Cinéma, 1993. P. 83.
5. ---------------------. Le Son au Cinéma. Paris: Cahiers du Cinéma, 1994 (?). Pp. 17-8.
6. GOUDET, Stéphane. Op. Cit., p. 83.
7. Para quem conhece o nome do corcunda de Notre Dame e a carga metafórica do livro escrito por Victor Hugo, publicado em 1831.
8. GOUDET, Stéphane. Op. Cit., p. 29.
9. Idem, p. 31.
10. Ibidem, p. 36.
11. Ibidem, pp. 39-41.

10 de ago de 2010

Jacques Tati e Seus Duplos (I)


“Minhas   relações
com  ele  são  cordiais
,
porém distantes
. Ele me permite apenas observar e tentar imitá-lo. Tudo o que posso dizer é que ele possui humanidade, simplicidade, modéstia, e acima de tudo
que ele é o contrário do
cômico
de cinema”

Jacques Tati explica
Monsieur Hulot (1)


Monsieur Hulot Somos Nós


Em Mon Oncle (1958), existe um chafariz no centro do jardim da casa super moderna onde a irmã de Monsieur Hulot vive com o marido e o filho. Trata-se de um peixe de metal, ligado cada vez que a casa recebe uma visita. Como as esculturas de elefantes de marfim, o peixe de metal é uma piada em si mesmo, mas também metáfora da situação de Hulot. Um peixe vive dentro d’água, mas este não só está fora d’água como esguicha água de sua boca. Nos quatro filmes que Jacques Tati dirigiu com este personagem, Hulot é como um peixe fora d’água. Em Mon Oncle sua vida se divide entre o velho bairro cheio de antigas construções e a casa super moderna e tecnológica de seu genro. Hulot é um pouco como alguns de nós, ou como alguns de nós realmente somos por dentro. Tati procurava articular o burlesco com um elemento realista, escrevendo uma crônica da vida na França do pós-guerra. Mas a humanidade de seu personagem ultrapassa fronteiras. (imagem acima, de frente para nós o genro de Hulot o encara e coloca as mãos nas nos quadris em sinal de protesto pelo que acredita ter sido um comportamento grosseiro de do irmão de sua esposa durante a entrevista de emprego mal sucedida. Enquanto isso, Hulot adota a mesma postura, mas por motivos completamente diferentes, embora quase nunca chegamos a saber porque Hulot toma qualquer atitude! Na imagem abaixo, à direita, Hulot leva seu sobrinho para passear, o menino já começa a adotar o mesmo jeito saltitante do tio; imagem abaixo, à esquerda, o feirante veio entregar as frutas e fica intrigado com o bizarro chafariz que poderia ser visto como uma metáfora da relação de Hulot com o mundo)



No   final   de   Playtime
,
 impedido  de levar   flores à 
Barbara,  Hulot encarrega um
de  seus  sósias  de  remeter
o    presente     para    ela

Comentário de Stéphane Goudet sobre a
tendência de Tati a renegar sua velhice (2)




Stéphane Goudet explica que Tati mostrou a França rural, mas também a modernização e a ameaça de desumanização que a acompanhava, arrastando junto consigo o exibicionismo da ascensão social (Mon Oncle), o triunfo do estilo internacional em arquitetura (Playtime, 1967) e o automóvel (Trafic, 1971) (3). De uma forma ou de outra, tudo isso se encontra um pouco em todo o mundo que se auto-intitula “civilizado” – ou, pelo menos, urbanizado. Mas se todos nós somos um pouco Hulot, Tati avisou que a raiz burlesca de seu comportamento é apenas superficial. Hulot não é engraçado, ele é desatento. Tati vê uma oposição onde muitos viram identidade: Hulot é o oposto de Chaplin. Este, dirá Tati, diante de uma situação problemática tem idéias, Hulot não. Ele não apóia nada e não constrói nada também. Tati citou como exemplo a cena do cemitério em As Férias de Monsieur Hulot (Les Vacances de Monsieur Hulot, 1953). Quando Hulot chega com seu carro enguiçado, coloca a câmara de ar do pneu no chão. Ela está pegajosa e fica cheia de folhas grudadas. Um funcionário do cemitério a confunde com um coroa de flores e a leva para o enterro que acontece naquele momento. Chaplin, explica Tati, teria percebido e colado algumas flores também para ela ficar mais bonita. Já Hulot nem percebeu o que aconteceu (4).





Hulot   é
como  um peixe
fora  d’água
,  o  que
o salva
é que ele
 não sabe!

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Quadro de Avisos

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