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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

10 de ago de 2010

Jacques Tati e Seus Duplos (I)


“Minhas   relações
com  ele  são  cordiais
,
porém distantes
. Ele me permite apenas observar e tentar imitá-lo. Tudo o que posso dizer é que ele possui humanidade, simplicidade, modéstia, e acima de tudo
que ele é o contrário do
cômico
de cinema”

Jacques Tati explica
Monsieur Hulot (1)


Monsieur Hulot Somos Nós


Em Mon Oncle (1958), existe um chafariz no centro do jardim da casa super moderna onde a irmã de Monsieur Hulot vive com o marido e o filho. Trata-se de um peixe de metal, ligado cada vez que a casa recebe uma visita. Como as esculturas de elefantes de marfim, o peixe de metal é uma piada em si mesmo, mas também metáfora da situação de Hulot. Um peixe vive dentro d’água, mas este não só está fora d’água como esguicha água de sua boca. Nos quatro filmes que Jacques Tati dirigiu com este personagem, Hulot é como um peixe fora d’água. Em Mon Oncle sua vida se divide entre o velho bairro cheio de antigas construções e a casa super moderna e tecnológica de seu genro. Hulot é um pouco como alguns de nós, ou como alguns de nós realmente somos por dentro. Tati procurava articular o burlesco com um elemento realista, escrevendo uma crônica da vida na França do pós-guerra. Mas a humanidade de seu personagem ultrapassa fronteiras. (imagem acima, de frente para nós o genro de Hulot o encara e coloca as mãos nas nos quadris em sinal de protesto pelo que acredita ter sido um comportamento grosseiro de do irmão de sua esposa durante a entrevista de emprego mal sucedida. Enquanto isso, Hulot adota a mesma postura, mas por motivos completamente diferentes, embora quase nunca chegamos a saber porque Hulot toma qualquer atitude! Na imagem abaixo, à direita, Hulot leva seu sobrinho para passear, o menino já começa a adotar o mesmo jeito saltitante do tio; imagem abaixo, à esquerda, o feirante veio entregar as frutas e fica intrigado com o bizarro chafariz que poderia ser visto como uma metáfora da relação de Hulot com o mundo)



No   final   de   Playtime
,
 impedido  de levar   flores à 
Barbara,  Hulot encarrega um
de  seus  sósias  de  remeter
o    presente     para    ela

Comentário de Stéphane Goudet sobre a
tendência de Tati a renegar sua velhice (2)




Stéphane Goudet explica que Tati mostrou a França rural, mas também a modernização e a ameaça de desumanização que a acompanhava, arrastando junto consigo o exibicionismo da ascensão social (Mon Oncle), o triunfo do estilo internacional em arquitetura (Playtime, 1967) e o automóvel (Trafic, 1971) (3). De uma forma ou de outra, tudo isso se encontra um pouco em todo o mundo que se auto-intitula “civilizado” – ou, pelo menos, urbanizado. Mas se todos nós somos um pouco Hulot, Tati avisou que a raiz burlesca de seu comportamento é apenas superficial. Hulot não é engraçado, ele é desatento. Tati vê uma oposição onde muitos viram identidade: Hulot é o oposto de Chaplin. Este, dirá Tati, diante de uma situação problemática tem idéias, Hulot não. Ele não apóia nada e não constrói nada também. Tati citou como exemplo a cena do cemitério em As Férias de Monsieur Hulot (Les Vacances de Monsieur Hulot, 1953). Quando Hulot chega com seu carro enguiçado, coloca a câmara de ar do pneu no chão. Ela está pegajosa e fica cheia de folhas grudadas. Um funcionário do cemitério a confunde com um coroa de flores e a leva para o enterro que acontece naquele momento. Chaplin, explica Tati, teria percebido e colado algumas flores também para ela ficar mais bonita. Já Hulot nem percebeu o que aconteceu (4).





Hulot   é
como  um peixe
fora  d’água
,  o  que
o salva
é que ele
 não sabe!

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