
“A verdadeira Alemanha
prefere muito naturalmente
a penumbra à luz”Lotte H. Eisner (1)
A 1ª Parte da Saga: A Morte de Siegfried

Na floresta, Siegfried aprende a arte dos ferreiros passada por Mime. Após produzir uma espada extremamente cortante, Siegfried escuta um contador de estórias sobre um reino e sua bela princesa chamada Kriemhild (ao lado). As palavras disparam a imaginação de Siegfried (abaixo), que decide sair da floresta em busca dessa princesa. Em seu palácio (acima), a princesa também escuta as palavras de um cantador sobre Siegfried – da mesma forma que ele, a imaginação dela constrói a imagem daquele herói. No caminho ele encontra Alberich, que tenta atacá-lo protegido por uma espécie de manto de invisibilidade. Nosso herói escapa e o atacante pede pela própria vida, em troca oferece a Siegfried seu manto e um tesouro.

Neste tesouro, Alberich mostra Balmung, uma espada poderosa. Imediatamente Siegfried se encanta por ela, dando pouca importância tanto ao tesouro quanto a uma lâmpada mágica de cristal que está sempre na mão de Alberich. Siegfried é atacado novamente. Desta vez ele mata Alberich, levando o tesouro e a espada. Antes de encontrar Alberich, nosso herói encontra um grande dragão e o mata com sua espada original, antes de substituí-la por Balmung (abaixo). Então escuta o canto de um passarinho e compreende a mensagem: caso Siegfried se banhe no sangue do dragão, tornar-se-à invencível. Entretanto, não percebe que uma pequena folha cai em suas costas. Isso significa que neste ponto Siegfried continua desprotegido.

Ao chegar a Worms, palácio da corte da Borgonha onde vivem o rei Gunther e sua irmã Kriemhild, Siegfried já comanda muitos príncipes. Pede a mão de Kriemhild, mas é recebido com desconfiança. Hagen Tronje, conselheiro fiel de Gunther, faz uma proposta. Siegfried deve ajudar o rei a subjugar Brunhild e trazê-la para Worms, pois Gunther deseja desposá-la. Siegfried aceita e utiliza seu manto mágico para aumentar a força do rei, que derrota Brunhild em duelo. Entretanto, Gunther é tão passivo que sequer consegue aproximar-se dela na noite de núpcias. Convoca Siegfried, que, assumindo a imagem do rei, força Brunhild a aceitar a consumação do casamento. Em seguida, sai do quarto e a deixa com Gunther.

Siegfried se casa com Kriemhild e tudo vai bem. Certo dia, Brunhild mostra um bracelete que Siegfried lhe dera e que confessou que havia tirado do braço de Brunhild quando esteve em seu quarto na noite de núpcias – a pedido de Gunther, Siegfried foi dobrar a esposa que o rei não controlava. Kriemhild revela que Siegfried havia se disfarçado de Gunther, deixando Brunhild furiosa. Injustamente ela acusa Siegfried de haver se aproveitado da situação para tirar a virgindade dela. Ela obriga o fraco Gunther a matar Siegfried. Hagen convence a pura Kriemhild a revelar o local vulnerável no corpo de Siegfried.
O rei programa uma caçada para que Hagen possa emboscar Siegfried. Uma lança que trespassa o corpo do herói, que ainda consegue caminhar até Hagen e apontar p

ara ele na frente de todos. No velório, Brunhild se suicida e Kriemhild jura vingança contra os assassinos de seu marido.
Aqui termina a 1ª parte de
Os Nibelungos. (ao lado, Siegfried se banha no sangue do dragão. Na imagem abaixo, podemos ver a folha em seu ombro esquerdo, selando o destino do herói)
Na 2ª parte (que não abordamos aqui), Fritz Lang nos mostra a vingança de Kriemhild. (imagens abaixo: acima,
O castelo de Brunhild no lago de fogo com as luzes do norte; abaixo,
O castelo de Brunhild no lago de fogo. Os dois esboços são de Erich Kettelhut, um dos desenhistas que trabalhou para o projeto do filme de Fritz Lang)
O que é a Alemanha?
A ópera em quatro partes
O Anel dos Nibelungos (1816), de Richard Wagner, e o filme
Os Nibelungos (1923-4), de Fritz Lang, seriam parte do que David J. Levin chamou de “elaboração de uma estética da identidade nacional” alemã. Estas obras perguntam: o que é a Alemanha? Após a dissolução do Sacro Império Romano, em 1806, os traços da “nação” germânica também se deterioraram (2). Ainda que se tratasse de uma multiplicidade de reinos, havia alguma unidade. Mas ainda não era uma Nação, no sentido dos Estados modernos.
Levin sustenta que Friedrich Heinrich von der Hagen, o homem que escreveu a introdução para o trabalho de Wagner, desejoso de contribuir na

batalha pela afirmação de uma legitimidade nacional alemã, pretendia transformar o
Anel em narrativa cultural. Na falta de uma História política preexistente, von der Hagen lançou mão de uma estória (
O Anel dos Nibelungos) para criar uma cobertura cultural. O
Anel torna-se uma “pré-história da nação alemã”. Como afirmou von Hagen, trata-se da mais antiga e verdadeira História interior da Alemanha.
A partir daí, O Anel dos Nibelungos foi registrado pela pintura, poesia, balé, escultura, literatura, drama, ópera e cinema. As forças do nacionalismo alemão se apropriaram da saga de Siegfried, culminando com a mitificação dos Nibelungos pela ideologia Nacional Socialista de Hitler ao tema entre 1933 e 1945.
Segundo Levin, a posição de Kracauer não analisa a função dramatúrgica desse monumentalismo. Elsaesser também critica o argumento de Kracauer, sustentando as “exigências do prazer visual” nos filmes produzidos durante a República de Weimar. Além disso, afirma Elsaesser, muitos dos cenários foram inspirados em ilustrações de livros infantis que representavam a Idade Média (3).
Notas:
1. EISNER, Lotte H. A Tela Demoníaca. As Influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Tradução Lúcia Nagib. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. P. 47.
2. LEVIN, David J. Richard Wagner, Fritz Lang, and The Nibelungen. The Dramaturgy of Disavowal. Princeton University Press: USA, 1998. P. 7.
3. ELSAESSER, Thomas. Weimar Cinema and After. Germany’s Historical Imaginary. London: Routledge, 2000. P. 27.