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Roberto Acioli de Oliveira

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8 de jul. de 2018

Serguei Eisenstein e os Outros: Prós e Contras


 “(...) Parece incrível agora que a obra prima de Eisenstein, O Encouraçado 
Potemkinamplamente  reconhecido  como  um  dos  mais  importantes  filmes  na
história do cinema, não pudesse ser mostrado em público na Inglaterra até o início de 1950.
 Os   ferozes  ataques  pessoais  que  saudaram  Eisenstein  em suas  incursões  no  Ocidente, 
 especialmente  nos  Estados  Unidos,   sugere  um  também  que a  intolerância  com 
a  diferença  não  foi  prerrogativa  de  Stalin  e  seus  comissários  culturais (...)”

Richard Taylor (1)

Talvez o interesse central de Serguei Eisenstein para o cinema não deva ser buscado nos livros de técnica cinematográfica. Não resta dúvida de que sua contribuição à técnica é incontornável – ainda que conterrâneos como Andrei Tarkovski discordem. Mas talvez o foco do cineasta estivesse direcionado àquilo que Birgit Beumers chamou de a “ideia da Rússia”. Ela remete diretamente a The Russian Idea (1996), documentário escrito por Oleg Kovalov e dirigido por Serguei Selianov, encomenda do British Film Institute para as comemorações do centenário do cinema. O filme mostra como essa ideia se encaixou no cinema soviético das décadas de 20 e 30 do século passado. (imagem acima, cena final de Encouraçado Potenkim, 1925)

“(...) Por “Ideia da Rússia” Kovalov se refere, sobretudo, à busca de alguma existência ‘ideal’ para a nação num futuro radiante, [na] história transcendente. Uma ideia dessas normalmente seria desastrosa para a maioria dos indivíduos, Estados ou para o mundo como um todo, mas de alguma forma ela provou ser fértil para a cultura russa. De acordo com Kovalov, Eisenstein resolveu a contradição entre toda mitologia ‘velha’, ‘nacional’, e uma ‘nova, social’, porque ele fez da última um exemplo particular e um elemento estético da primeira” (2)

Aparentemente, podemos dizer que Eisenstein procurou substituir a contradição pelo caráter múltiplo da simultaneidade (entre velho e novo) – não por acaso, o título original de seu filme A Linha Geral é, justamente, O Velho e o Novo (Staroye i novoye, 1929). Foi apenas com o declínio da geração de cineastas da década de 20 que a preocupação com a “russianidade” desapareceu das telas, atravessando várias metamorfoses até chegar ao fim da União Soviética e o choque com a economia de mercado a partir dos anos 90. Essa preocupação talvez tenha sido o verdadeiro motor que impulsionou do cineasta, da Mãe Rússia e das lições de Vsevolod Meierhold ao México, passando pelo cinema alemão, a Ópera Chinesa e o Kabuki japonês. É neste sentido, por exemplo, que o interesse de Eisenstein pelo elemento épico deveria ser considerado.

Eisenstein, do Épico ao Espaguete


Com a publicação em 1925 do livro L’Or. La Merveilleuse Histoire du General Johan August Sutter, o nome do escritor francês Blaise Cendrars juntou-se a uma relativamente longa lista de pessoas que escreveu sobre a vida atribulada de um suíço falido chamado Suter (ou Sutter), cujas terras ficavam bem no meio da região californiana onde ocorreu a famosa “corrida do ouro”. Infelizmente, Sutter não conseguiria provar seu direito e morreu meio louco aos setenta a três anos. O tema (a corrida do ouro) que se encaixa perfeitamente na mitologia do velho oeste norte-americano. De acordo com um crítico, o interesse de Cendrars foi capturar o mundo de viagens e aventuras maravilhosas através da velocidade e dos ângulos incomuns de uma câmera cinematográfica – o escritor já havia colaborado com o cineasta francês Abel Gance e estava ansioso para explorar as possibilidades daquilo que chamou de “uso cinematográfico da linguagem” (3). (imagem acima, final da primeira parte de Ivan, o Terrível, 1944)

Traduzido no ano seguinte para o inglês com o nome de Sutter’s Gold (Ouro de Sutter), esta edição acabou nas mãos de Eisenstein em 1930, por ocasião de sua visita à Hollywood. Em parceria com Ivor Montagu e Grigori Alexandrov, o cineasta elaborou um roteiro a partir da edição inglesa e ofereceu à Paramount, que acabou se recusando a financiar o projeto. No ano de 1936 duas outras versões baseadas no livro de Cendrars conseguiram chegar às telas. Uma delas, O Imperador da Califórnia (Der Kaiser von Kalifornien) foi realizada na Alemanha (a essa altura já sob o controle de Hitler) por Luis Trenker, um nazista de carteirinha. A outra, Sutter’s Gold, foi realizada por James Cruze (um dos fundadores do gênero Faroeste) para a Universal. A história de Sutter, concluiu Frayling, tinha um apelo óbvio, tanto para Cendrars, quanto para Trenker e Eisenstein: além dos aspectos de filme de viagem, o enredo carregava os ingredientes simbólicos de uma crítica do irrestrito capitalismo norte-americano.
Frayling também ressaltou que é preciso lembrar o contexto político e cinematográfico inerente ao roteiro de Eisenstein: o projeto era crucial para o desenvolvimento da indústria cinematográfica soviética, preparando-a para competir/comentar sucessos norte-americanos como O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation, direção D.W. Griffith, 1915) e A Caravana Gloriosa (The Covered Wagon, direção James Cruze, 1923). A preferência do público por filmes norte-americanos continuava forte na União Soviética, apesar da revolução Bolchevique. Não esqueçamos que o próprio Lev Kulechov (1899-1970) havia criado um guarda-costas caubói em As Extraordinárias Aventuras de Mister West na Terra dos Bolcheviques (Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov, 1924). 
Frayling se pergunta quem pode julgar se as adaptações de cineastas europeus como Eisenstein e Trenker (a única realizada) seriam faroestes ou não. Ainda de acordo com Frayling, é perfeitamente plausível afirmar que as quatro versões de Ouro de Sutter (Cendrars, Eisenstein, Trenker, Cruze) nos fornecem um quadro crítico de referência através do qual se pode olhar para o faroeste produzido na Europa (o mais famoso deles sendo o faroeste espaguete italiano): embora seu posicionamento ideológico, suas referências culturais e as técnicas cinematográficas europeias das versões de Ouro de Sutter pareçam estranhas à tradição do faroeste de Hollywood, nenhuma definição operacional do “mito do oeste” as exclui. (imagens abaixo, A Greve, 1925)

 
Eisenstein percebeu no livro de Cendrars todas as idéias e mitos em torno do “destino manifesto” embasando a “marcha para o oeste”. Mas isso não quer dizer que o cineasta soviético se ateve estritamente ao texto original. Muito pelo contrário, ele inventou índios, coiotes e caçadores. O cineasta esclareceu que seu interesse pela vida de Sutter se encaixava na proposta da introdução de uma figura heroica em seus filmes. Ele já havia feito isso com o personagem central de A Linha Geral, apresentado por Marfa Lapkina (única atuação dela para o cinema), processo que coincidiu com sua viagem aos Estados Unidos. Na época, Eisenstein contava ainda com outros dois roteiros do gênero centrados na descrição de personagens de vulto enfrentando profundas mudanças (4).
Embora o motivo principal da visita de Eisenstein aos Estados Unidos tenha sido conhecer as novas técnicas do então nascente cinema sonoro, foi das técnicas de teatro desenvolvidas por Vsevolod Meierhold que o cineasta se utilizou em seu roteiro de Ouro de Sutter. O teatrólogo encorajava seus atores a “modular” (aumentar a voz aos poucos), de forma a dar uma sensação de movimento para frente, além de conectar as ações anteriores com as seguintes. Eisenstein também remete a Meierhold ao misturar motivos musicais a certas ações, pois este último era também músico e suas técnicas exerceram grande influência na abordagem do cineasta em relação ao problema da unidade audiovisual no filme sonoro. Ambos seriam influenciados pela combinação entre música e atuação na Ópera Chinesa e no Teatro Kabuki do Japão, cujas técnicas estão indicadas nos roteiros não realizados de Ouro de Sutter e ¡Que Viva Mexico! (5). O caso do segundo roteiro, a ausência dessa síntese audiovisual seria uma indicação da distância técnica e intelectual das montagens realizadas tanto à revelia do cineasta quanto postumamente. Na opinião de Frayling, ¡Que Viva Mexico! seria (pelo menos o roteiro) um dos únicos dois filmes de Hollywood (o outro foi Viva Zapata!, direção Elia Kazan, 1952) em que a Revolução Mexicana foi apresentada de forma mais coerente. 
A adaptação do livro de Cendrars se encaixa no padrão dos filmes históricos de Serguei Eisenstein. Contudo, na batalha de versões sobre o motivo pelo qual a Paramount não se dispôs a financiá-lo está a justificativa de que ninguém nos Estados Unidos estava interessado em histórica naquela época. Outras hipóteses para o veto foram à presença de elementos temáticos socialistas e o temor da indústria de Hollywood por gente com pretensões intelectuais.
Referindo-se especificamente ao faroeste espaguete do cineasta italiano Sergio Leone, Frayling sugere que Era Uma Vez no Oeste (C’era Una Volta Il West, 1968) representaria um exemplo de “montagem intelectual” não muito distante de Eisenstein. Às vezes, explicou Frayling, Leone ligava imagens de forma a explicitar uma ideia abstrata (o trem de madeira de Brett, representando “o sonho de uma vida”, ligado ao trem de ferro de Morton), às vezes colidia imagens, de forma a criar a ideia (a transição rápida [shock cut] da imagem do revólver de prata de Frank para uma imagem fora de foco da chaminé da locomotiva). 
Na opinião de Frayling, Leone deve muito às técnicas utilizadas por Eisenstein, por exemplo, num filme como Outubro (Oktyabr, 1928) para sustentar e estender o tempo do clímax dramático de uma cena. “(...) O que nos leva de volta a Ouro de Sutter, primeira tentativa de criticar cinematograficamente as bases do Faroeste ‘épico’ (representado por A Caravana Gloriosa), lá atrás em 1930. Assim como também às observações de Eisenstein sobre a determinação da forma, escrito cinco anos antes” (6).

As Objeções de Andrei Tarkovski


 “(...) Seu Andrei Rublev é uma espécie de resposta aos filmes
 históricos de Eisenstein,  em especial  a  Ivan, o Terrível (...)

Opinião de Michel Chion a respeito de Tarkovski (7)
O cineasta soviético Andrei Tarkovski questionava o valor do “cinema de montagem” defendido por Lev Kulechov e Eisenstein, pois não acredita que um filme seja criado na moviola (em tempos de cinema digital, hoje ele se referiria ao computador). Tarkovski se concentra no ritmo da imagem cinematográfica, que expressa o fluxo do tempo no interior do fotograma. Durante as filmagens, Tarkovski procura captar a passagem do tempo no quadro, a imagem cinematográfica nasce durante a filmagem, ela existe no interior do quadro. Quando chega a fase da montagem, reúnem-se tomadas que já estão impregnadas de tempo, tornando aparente uma estrutura que preexiste a ela (8).

“Não aceito os princípios do ‘cinema de montagem’ porque eles não permitem que o filme se prolongue para além dos limites da tela, assim como não permitem que se estabeleça uma relação entre a experiência pessoal do espectador e o filme projetado diante dele. O ‘cinema de montagem’ propõe ao público enigmas e quebra-cabeças, obrigando-o a decifrar símbolos, diverte-se com alegorias, recorrendo o tempo todo à sua experiência intelectual. Cada um desses enigmas, porém, tem sua solução exata, palavra por palavra. Assim, creio que Eisenstein impede que as sensações do público sejam influenciadas por suas próprias reações àquilo que vê. Quando, em Outubro, ele justapõe a balalaica e Kerensky, seu método tornou-se seu objetivo, no sentido a que aludia Valéry. A construção da imagem torna-se um fim em si mesmo, e o autor desfecha um ataque total ao público, impondo-lhe sua própria atitude diante do que está acontecendo” (9)

Contudo Eisenstein, assim como Vertov ou Kulechov, apenas para citar mais dois personagens famosos, jamais escondeu o interesse em induzir o espectador a tomar determinado rumo. No caso e Eisenstein, seriam suficientes suas palavras em seu texto de 1923 sobre a montagem de atrações: “(...) O próprio espectador passa a constituir o material básico do teatro; o teatro utilitário (agitação, propaganda, educação sanitária, etc.) sempre tem por meta orientar o espectador numa determinada direção (estado de espírito) (...)” (10). No entanto, quem sabe, no caso de Eisenstein essa intenção declarada tenha sido obscurecida por seus escritos sobre montagem (ou, ainda, por seus seguidores mundo afora) e pela crença de que no final tudo isso aponta para a autonomia do indivíduo. 
Tarkovski também não acreditava na lógica silogística imposta pelo cinema de montagem, segundo a qual a montagem combina dois conceitos para gerar um terceiro. A interação de conceitos, Tarkovski insistiu, jamais poderá ser o objetivo fundamental da arte. O tempo flui através das tomadas e cria o ritmo, que não será determinado pela extensão das peças montadas, mas pela pressão do tempo que passa através delas: cinema é ritmo, não montagem. Ainda de acordo com Tarkovski, a montagem não determina o ritmo, este pulsará apesar dela e não por causa dela. O que o cineasta deve procurar fazer diante da moviola é captar o tempo já registrado nos fotogramas. É o tempo impresso no fotograma que dita o critério de montagem. É neste sentido que ele critica a sequência da famosa batalha em Alexandre Nevsky (Aleksandr Nevskiy, 1938). 
Imaginamos apenas que suas críticas levem em consideração que naquela altura Eisenstein (tendo seus projetos recusados pelo Estado Soviético a um bom tempo) aceitou muitas interferências externas (de caráter mais político do que estético) para que pudesse filmar, embora de acordo com sua esposa o próprio Tarkovski raramente tenha cedido a esse tipo de pressão (no máximo concordou em cortar alguns planos) (11). A julgar pelos termos com os quais Tarkovski descreve as limitações que encontrou em Eisenstein, não parece levar nada disso em consideração (é bom lembrar que, como Tarkovski faleceu no final de 1986, ele certamente sabia que seus próprios passos poderiam estar sendo monitorados pelo regime soviético, que só ruiu em 1989; quem sabe isso tenha influenciado suas palavras):

“Minha tese é comprovada pela obra do próprio Eisenstein. O ritmo, que, segundo ele, dependia diretamente da montagem, demonstra a inconsistência da sua premissa teórica quando a intuição o trai, e ele não consegue colocar nas peças montadas a pressão temporal exigida por aquele trecho específico de montagem. Vejamos, por exemplo, a batalha sobre o gelo em Alexandre Nevsky. Ignorando a necessidade de preencher os quadros com um tempo de tensão adequada, ele se esforça por obter a dinâmica interna da batalha mediante a montagem de uma sequência de tomadas breves – por vezes excessivamente breves. No entanto, apesar do ritmo acelerado com que mudam os fotogramas, os espectadores (pelo menos aqueles de mente aberta, [que não sabem de antemão] (12) de que se trata de um filme ‘clássico’, e de um ‘clássico’ exemplo de montagem, tal como ensinada no Instituto Estatal de Cinema) são tomados pela sensação de que tudo o que se passa na tela é lerdo e artificial. Isso acontece porque não existe verdade temporal em nenhum dos quadros. Em si, eles são estáticos e insípidos. Existe assim uma contradição inevitável entre o quadro em si, que não registra nenhum processo temporal específico, e o estilo precipitado da montagem, que é arbitrária e superficial por não ter relação alguma com o tempo de nenhuma das tomadas. A sensação que o diretor pretendia transmitir nunca chega ao espectador, pois ele não teve a preocupação de impregnar o quadro com a verdadeira percepção de tempo da legendária batalha. O acontecimento não é recriado, mas, sim, juntado de qualquer maneira” (13) (imagem abaixo, Alexandre Nevsky, 1936)


Certa vez Tarkovski admitiu que se alongamos uma tomada, inicialmente nos sentimos entediados. Contudo, se a distendemos mais um pouco começamos a nos interessar por ela. Aumentada mais ainda, ela acaba por adquirir uma nova qualidade, e uma nova intensidade de atenção nasce. Robert Bird lembra que as experiências do cineasta com Andrei Rublev (Andrey Rublyov, 1966) o encorajaram a desenvolver esta abordagem em seu livro, Esculpir o Tempo. A essência do trabalho de um cineasta é esculpir o tempo que se encontra nos fotogramas. Tarkovski localiza o esquivo conceito de atmosfera na imagem cinematográfica, que ele define como a observação dos fatos da vida de acordo com as formas da própria vida e suas leis temporais: “(...) eu vejo a crônica, o registro dos fatos no tempo, como a essência do cinema (...)” (14).
De acordo com Tarkovski, se o cinema tem por característica básica representar o tempo, ao cineasta cabe esculpir os blocos de tempo até encontrar aquilo que deseja mostrar. Tarkovski acreditava que uma pessoa vai ao cinema em busca do tempo, seja aquele que ela desperdiçou, perdeu ou ainda não encontrou. O cineasta insiste que o arranjo sequencial de imagens deve ser baseado em seu conteúdo interno, em sua “pressão” interna:

“(...) Só deixamos que permaneça no filme aquilo que se justifica como essencial à imagem. Não que a imagem cinematográfica possa ser dividida e segmentada contra a sua natureza temporal; o tempo presente não pode ser dela removido. A imagem torna-se verdadeiramente cinematográfica quando (entre outras coisas) não apenas vive no tempo, mas quando o tempo também está vivo em seu interior, dentro mesmo de cada um dos seus fotogramas. Nenhum objeto ‘morto’ – uma mesa, uma cadeira ou um corpo – enquadrado separadamente de todo o resto pode ser apresentado como se estivesse fora do fluxo temporal, como se fosse visto sob o ponto de vista de uma ausência do tempo” (15)

A atmosfera é justamente essa continuidade temporal, enquanto a descontinuidade na sequência de planos determina uma textura – a tensão entre a atmosfera e a textura constitui a “pressão do tempo”. Como esse processo não dá conta de capturar a realidade em sua totalidade, Tarkovski se concentrou em captar o elemento de conexão (o tempo) que existe entre sequências de eventos reunidos de forma descontínua – a continuidade na descontinuidade. A captura da tensão interna do filme pelo espectador é a única forma de perceber o tempo. Na opinião de Tarkovski, os planos individuais nos filmes de Eisenstein não possuem a verdade do tempo, constituindo apenas quadros estáticos e anêmicos. 

“(...) Em Esculpir o Tempo, Tarkovski critica Ivan, o Terrível [Ivan Grosnyy, 1944/1958], de Eisenstein, como um agrupamento opressivo de hieróglifos que se supõe simplesmente que o espectador deva decifrar. Além do mais, as imagens, estilo de atuação e ‘atmosfera’ do filme de Eisenstein ‘se aproxima do teatro (teatro musical)’ em sua mais loucamente expressiva (quase expressionista) e violenta natureza afetiva. Tarkovski conclui com severidade que Ivan, o Terrível [‘quase deixa de ser – segundo minha visão puramente teórica – uma obra cinematográfica’]. A frase qualificada aqui é crucial, pois mesmo assim Tarkovski elogia Ivan, o Terrível por seu ritmo ‘sedutor’. De fato, eu diria que, enquanto desconfiado da teatralidade de Eisenstein, Tarkovski estava defendendo um retorno à ênfase de Eisenstein no ritmo de plano e sequência [shot and sequence], que ele achava que tinha a chave para ativar o espectador enquanto participante no empreendimento narrativo. Sua polêmica com Eisenstein se resume essencialmente à reivindicação de que a montagem pode ser aplicada a blocos de uma duração mais longa do que Eisenstein permitia desde que o ritmo se mantenha consistente Tarkovski registrou repetidamente seu incômodo com a maneira como o ritmo rápido da Batalha do Lago Chud em Alexander Nevsky ‘contradiz o ritmo interno da cena como é filmada’(...)” (16) (imagens abaixo, à esquerda, citação de O Encouraçado Potemkin em Partner (direção Bernardo Bertolucci, 1968); à direita, capa de livro sobre Vertov mostrada em O Vento Do Leste, direção Jean-Luc Godard, 1970)

Eisenstein e o Vento Francês 


 “(...) O único grande problema do cinema me parece ser onde
 e por que começar um plano e onde e por que terminá-lo (...)

Jean-Luc Godard,
Histoire(s) du Cinéma, 4B – Les Signes Parmi Nous (1989)
A partir de 1949, em seus primeiros passos como cinéfilo, o cineasta francês Jean-Luc Godard frequentava o cineclube do Cartier Latin, onde assistia aos filmes soviéticos então em moda entre os estudantes. Referindo-se àquele local, Antoine de Baecque fala de uma “grande época de cinefilia comunista”, na qual Eisenstein representou a entrada clássica no universo do cinema (17).  Contudo, isso não impediria que, nos primeiros minutos de O Vento do Leste (Le Vent du Lest, 1970), Godard disparasse ferozmente contra Eisenstein e o próprio Vertov:

“(...) Hoje, a pergunta sobre o que fazer se coloca intensamente aos cineastas militantes. Para eles, não se trata mais de escolher um caminho, trata-se de determinar, determinar o que eles devem fazer na prática. Num caminho que a história das lutas revolucionárias os levou a conhecer. Num caminho que a história os levou a conhecer. Sim, o que fazer? Fazer um filme é, por exemplo, antes de tudo se fazer a pergunta: onde estamos? E o que significa para um cineasta militante colocar-se essa pergunta: onde estamos? E o que significa, para um cineasta militante, colocar-se a pergunta, onde estamos? É, em primeiro lugar, também abrir-se um parêntese e se questionar sobre a história do cinema revolucionário. Do cinema revolucionário” 

Godard se juntou a Jean-Pierre Gorin em 1969 para formar o coletivo Grupo Dziga Vertov. Dessa época ficaram as leituras dos textos de Althusser e a descoberta do cinema soviético dos anos 20, de Eisenstein, mas, sobretudo Vertov. Godard admitiu que embora a escolha do nome de Vertov considerasse honesta a proposta do cineasta russo de abrir os olhos e mostrar o mundo em nome da ditadura do proletariado, tratava-se principalmente apenas de destronar Eisenstein, já considerado um cineasta revisionista (alguém que distorcia os fatos para justificar ações do grupo de Stalin) (18). De acordo com Jeremy Hicks, tanto o ostracismo imposto pela elite stalinista quanto sua recepção desigual no ocidente, significou que Vertov foi menos contaminado do que seus contemporâneos aos olhos dos radicais das décadas de 60 e 70, conscientes das insuficiências do comunismo soviético. 
A Nouvelle Vague francesa, incluindo os cineastas de ficção, sentiu-se atraída por Vertov, especialmente à sua rejeição do conceito de arte – embora Eisenstein também tenha chamado de contrarrevolucionário o conceito de “arte pela arte”. Embora Godard tenha chegado a qualificar a tradução francesa dos escritos de Vertov em 1972 como um equivalente cinematográfico do Livro Vermelho de Mao Tse Tung, o cineasta francês admitiria posteriormente que sua escolha foi inspirada apenas ela polêmica. Colin MacCabe a definiu como uma provocação deliberada, num período em que Vertov era uma figura periférica se comparada ao interesse em torno de Eisenstein. Em pouco tempo, lembrou Hicks, além de brigar em função de Eisenstein e Vertov, os esquerdistas franceses também se deixariam levar por debates em torno das diferentes interpretações da obra do segundo. (19). Embora a narração em O Vento do Leste também critique Vertov, é a sua fotografia que está na capa do livro mostrado na tela:

“(...) Vitória do cinema revolucionário, 19 de julho de 1920. Depois que o camarada Lênin se dirigiu ao 2º Congresso da 3ª Internacional, sobre os deveres principais da Internacional Comunista, o camarada Dziga Vertov declarou à tribuna: Nós, cineastas bolcheviques, sabemos que não existe um cinema em si, o cinema de luta de classe. O cinema é atividade secundária e nosso programa é ultra simples: ver e mostrar o mundo, em nome da revolução mundial do proletariado. É o povo que faz a história” (Sequencia de Ivan, o Terrível, à qual Godard sobrepôs a cabeça de Stalin, em História(s) do Cinéma - Toutes les Histoires 4b , 1988)


A narração faz menção inclusive à tendência de mostrar apenas corpos e rostos que corroborem o padrão de beleza burguês vigente. Um padrão burguês que era seguido pelo cinema czarista pré-revolucionário, e que não foi abandonado pelo cinema bolchevique. Nota-se que na sociedade ocidental misógina algumas coisas nunca mudam, apesar de a mulher ter adquirido mais autonomia depois da revolução, para as telas de cinema a beleza exterior parece não ter deixado de ser sinônimo de um “padrão de qualidade”. Kulechov já havia se queixado disso no que diz respeito ao desinteresse em relação a sua esposa, Aleksandra Sergeyevna Kokhlova (1897-1985), que era atriz e cineasta – ela foi colocada numa espécie de “geladeira”, não conseguindo trabalho por um bom tempo. Segue a narração no filme do coletivo Dziga Vertov:

“(...) Entretanto, nas telas do hemisfério ocidental, sempre reinam belos homens e mulheres. Sob o pretexto de que, na tela, devem enfatizar os sentimentos e o instinto de expressar, sem qualquer inibição, as ideias corrompidas da burguesia, sempre se exige aos atores que, ao abrigo de sua maquiagem, representem sem escrúpulos o degenerado modo de vida burguês”. 

A questão era tão flagrante que, apesar de suas críticas à metodologia de Kulechov, Eisenstein não deixou de comentar sobre o fato. Num artigo datado de 1926, Eisenstein enalteceu a capacitação profissional de Kokhlova e lamentou perceber que, apesar de toda celebração em torno das conquistas femininas depois da revolução, os oficiais do governo responsáveis pelo cinema se apegavam firmemente às tradições do conceito capitalista das mulheres na tela. Nesse campo, disparou Eisenstein, a mulher simplesmente não é reconhecida. Os Conselhos artísticos dos estúdios, Eisenstein encerrou a discussão, sempre olham para a mulher como o faria um primitivo criador de gado (20).
Durante o episódio do fechamento do Festival de Cannes, uma moção saúda o fato: “O Festival de Cannes parou, todo o cinema em luta contra o poder gaullista [- ideologia política baseada no pensamento de Charles De Gaulle, então presente da França]. Os cineastas, jornalistas, produtores, recusam ser o instrumento de uma estupidez generalizada a serviço de uma sociedade capitalista contestam. Nossos objetivos são aqueles de todos os trabalhadores atualmente em luta. Nós queremos a reorganização dos meios de produção e de distribuição, a supressão das censuras” (21). Dentre as várias propostas de mudança, aquela elaborada pelos Cahiers du Cinéma foi intitulada “A Linha Geral”, em referência ao filme de Eisenstein. Na sequência, o narrador em O Vento do Leste faz um comentário negativo em relação ao filme de Eisenstein:

“(...) Derrotas do cinema revolucionário, 18 de novembro de 1924. Alguns dias após a morte de Lênin, Serguei Eisenstein sai transtornado de uma projeção de Intolerância, filme do imperialista norte-americano Griffith. Consequência: em 1925, confunde atividade principal com atividade secundária. Eisenstein filma a revolta dos marinheiros do encouraçado Potemkin ao invés de glorificar as lutas do momento. Consequência: em 1929, em A Linha Geral, a propósito da reforma agrária, se Eisenstein sabe falar em novos termos sobre a opressão czarista, ele ainda só sabe recorrer a conceitos antigos, para descrever a coletivização. Para ele, o antigo triunfa, definitivamente, sobre o novo. Consequência: cinco anos depois, Hollywood o chama para filmar a revolução mexicana, enquanto em Berlim o doutor Goebbels exige dos dirigentes da UFA um Encouraçado Potemkin nazista” (imagens abaixo, A Linha Geral, 1929)


A referência à revolução Mexicana remete a ¡Que Viva Mexico!, o filme inacabado de Eisenstein. Para Godard, realizar Potemkin era se desviar do tema da luta de classes. Ao que parece, o cineasta francês acredita que O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925) está muito mais próximo dos filmes de propaganda nazistas do que acreditava Kracauer! Finalizando seu discurso, O Vento do Leste voltou à Vertov:

“(...) As comemorações do cinema revolucionário, 17 de novembro de 1935. Preleção do camarada Stalin à 1ª Conferência dos Stakhanovistas da URSS. Atordoado pela ambiguidade dessa preleção, Dziga Vertov esquece que a política comanda a economia. Faz de seu filme, O Décimo Primeiro Ano, um hino ao resultado comercial, ao invés de fazer dele um veículo à glória dos onze anos da ditadura do proletariado, a ditadura do proletariado. Foi nesse momento que o revisionismo invadiu definitivamente as telas soviéticas” (...).

Alguns anos mais tarde, Godard iria se dedicar à exploração da linguagem do videotape. Hoje em dia, nos tempos da digitalização do mundo, muita gente nem sabe do que se trata. Mas na época, entre os anos 70 e 80, muitos cineastas se interessaram pelas possibilidades técnicas da nova mídia. Além de Godard, Wim Wenders, Francis Ford Coppola e Michelangelo Antonioni realizaram alguns filmes nesse novo formato. No prefácio de Cinema, Vídeo, Godard, livro de Philippe Dubois sobre esta fase da obra de Godard, Arlindo Machado define as “novas tecnologias” daquela hora como o lugar da fragmentação, em oposição ao cinema. Com o vídeo, afirmou Dubois, a problemática da montagem muda completamente. Machado resgata a presença avant la lettre de Eisenstein nesse campo:

“Outra característica da imagem-vídeo é a assimilação da à montagem à própria imagem, efeito que já havia sido referido nos anos 40 pelo cineasta Serguei Eisenstein como ‘montagem vertical’, ou ‘montagem polifônica’, ou ainda ‘montagem dentro do quadro’. No vídeo, monta-se (na verdade, edita-se) muito mais do que no cinema. Em vez de poucos e longos planos-sequência, como no cinema, o vídeo prefere multiplicar uma grande quantidade de fragmentos fechados e curtos. Mas, em lugar de obedecer a uma sequência linear de planos, as imagens videográficas são ‘coladas’ umas sobre as outras (sobreimpressão), ou umas ao lado das outras (efeito-janela), ou ainda umas dentro das outras (incrustação) e sempre dentro do mesmo quadro. Uma imagem pode terminar e ser substituída por outra, mas outra imagem presente no mesmo espaço do quadro pode continuar sem cortes. Dessa maneira, fica impossível saber quando terminar um plano e começa outro, pois a própria noção de plano, fundante no cinema, entra em colapso quando transportada para o quadro videográfico (...)” (22)
Machado cita a afirmação de Deleuze de que cineastas como Godard introduziram o pensamento no cinema. Isto é, conseguiram emprestar para o cinema a mesma eloquência de pensamento que outrora os filósofos conseguiram utilizando a escrita verbal. De acordo com Machado, este seria o pano de fundo de Dubois ao refletir sobre a idéia de um “ensaio audiovisual” godardiano através da utilização do vídeo, onde este não é mais uma forma de narrar e registrar, mas um pensamento, um modo de pensar. O objeto desse pensamento seria o próprio cinema, um metadiscurso sobre o cinema. Entretanto, o “filme-ensaio” se distingue do relato científico ou da comunicação acadêmica por ir além da do aspecto apenas instrumental da linguagem acadêmica. A questão nova é a possibilidade de ensaios não escritos, em forma de enunciados audiovisuais, que ultrapassam a forma verbal baseada na linguagem escrita. Resgatando a proposta de Eisenstein, mas em choque com a contribuição de Vertov (e trazendo novamente à baila a distância entre o pensamento de ambos em O Vento do Leste), Machado mostra como a reflexão de Dubois se encaixa aí:


“Essa discussão surge, na verdade, no interior do pensamento marxista, mais exatamente na Rússia soviética dos anos 20, quando alguns cineastas engajados na construção do socialismo vislumbraram no cinema mudo a possibilidade de promover um salto para uma outra modalidade discursiva, fundada já não mais na palavra, mas numa sintaxe de imagens, nesse processo de associações mentais que recebe, nos meios audiovisuais, o nome de montagem ou edição. O mais eloquente desses cineastas, Serguei Eisenstein, formulou, no final dos anos 20, a sua teoria do cinema conceitual, cujos princípios ele foi buscar no modelo de escrita das línguas orientais. Mas se Eisenstein formulou as bases desse cinema, quem de fato o realizou na Rússia revolucionária foi o seu colega Dziga Vertov, que conseguiu assumir com maior radicalidade a proposta de um cinema inteiramente fundado em associações ‘intelectuais’ e sem necessidade do apoio de uma fábula. Jacques Aumont propõe [...] que pensemos O Homem com Uma Câmera [Chelovek s kino-apparatom, 1929] de Vertov como o lugar onde o cinema se funda como teoria, baseando-se numa afirmação do próprio cineasta [...]: ‘Esse filme não é apenas uma realização prática, mas também uma manifestação teórica na tela’. Denso, amplo, polissêmico, o filme de Vertov subverte tanto a visão novelística do cinema como ficção, como a visão ingênua do cinema como registro documental. O cinema torna-se, a partir dele, uma nova forma de ‘escritura’, isto é, de interpretação do mundo e de ampla difusão dessa ‘leitura’, a partir de um aparato tecnológico e retórico reapropriado numa perspectiva radicalmente diferente daquela que o originou” (23) (imagem acima, Ivan, o Terrível, parte 1, 1944)

De acordo com Machado e Dubois, é com Godard que o cinema-ensaio alcança sua expressão máxima. Machado cita a ausência de enredo e narratividade em Duas ou Três Coisas que Sei Dela (Deux or Trois Choses qui je Sais sur Elle, 1966). Não é uma ficção, não é um documentário, é um filme-ensaio. Ou ainda, como Scénario du Film Passion (1982), onde o “cinevideasta”, sentado diante de sua parafernália, redecora o antigo modelo do escritório dos filósofos. Da vida do produtor de pensamentos audiovisuais, saem a escrivaninha e os livros, entram a ilha de edição, a câmera e o computador. O produto disso se pode assistir em História(s) do Cinema [(Histoire(s) du Cinéma: Toutes les Histoires, 1988)], colagem de recordações, anotações, fotografias e vídeos que Godard mistura na mesa de edição. Não é possível compreender verbalmente um pensamento audiovisual construído pela combinação indecomponível de imagens, sons e palavras. Curiosamente, Machado nos mostra que Godard acaba reencontrando, misturado à Vertov, ao mesmo Eisenstein que havia tripudiado em O Vento do Leste:

“Godard – assim Dubois finaliza seu livro – nos ensinou a pensar em imagens (e não mais em linguagem verbal): as sobreimpressões, as incrustações, as ‘janelas’ (que começam a aparecer em Six Fois Deux [1982]) são instrumentos com os quais ele busca ligações ou relações entre personagens, coisas e ações. Em [France/tour/détour/deux/enfants, 1977] começa a aparecer na obra de Godard um elemento novo, que, segundo Dubois, ‘marca a passagem a uma outra forma de escrita’: as mudanças de velocidade de exibição das imagens, as câmeras lentas sincopadas e o congelamento dos movimentos das crianças, que parecem apontar para uma atitude analítica, uma vontade de fazer as coisas irem mais devagar para que os seus processos constitutivos possam ser melhor apreciados e compreendidos. (...) Também aqui há um eco dos métodos criativos de Eisenstein e Vertov, que operavam basicamente com a montagem, mas já adicionando fusões, janelas múltiplas, alterações de velocidade de captação, congelamento de imagens, etc. Lá como aqui, ontem como hoje, algo parece se insinuar na história do audiovisual e poderia ser sumariamente interpretado como uma ânsia de passar do visível ao invisível, do concreto ao abstrato, da mostração à demonstração, com os novos instrumentos que o pensamento criou para melhor pensar” (24) (abaixo, ¡Que Viva Mexico!, 1979)

Os Editores de Eisenstein


Em 1934, o próprio Eisenstein reclamou de uma primeira versão de ¡Que Viva Mexico! lançada nos Estados Unidos e Inglaterra no ano anterior. Intitulada Thunder over Mexico (edição Don Hayes, Carl Himm e Harry Chandlee), o tom desgostoso de Eisenstein em relação esta versão obviamente sugere que tenha sido seguido outro critério de montagem que não era o seu. Outras montagens são Death Ray (Don Hayes, 1933), Einstein in Mexico (Hayes e Chandlee, 1933), Time in the Sun (Marie Seaton e Paul Roger Bunford, 1939), Mexican Symphony (William F. Kruse, 1942), Eisenstein’s Mexican Film: Episodes for Study (Jay Leyda, 1957) e ¡Que Viva Mexico! (Grigory Alexandrov, 1979). Eduardo de la Vega Alfaro citou ainda uma edição feita por Kenneth Anger em 1950 e outra em 1994-5, por Lutz Becher (que está na cinemateca de Paris), sob os auspícios do British Film Institute  (25).
Geralmente, O Encouraçado Potemkin costuma ser o mais citado dentre os filmes que as pessoas se lembram de ter sido realizado por Eisenstein. Nesse sentido, é curioso que o cineasta italiano Michelangelo Antonioni tenha citado ¡Que Viva Mexico! como seu filme predileto dentro da obra do cineasta soviético (26). Curioso porque, na realidade, este filme não existe. O projeto original foi abortado, as versões que se conhece hoje são compilações de imagens (essas sim feitas por Eisenstein e sua equipe), realizadas por algumas pessoas que tentaram “terminar” o trabalho de Serguei. E Antonioni disse isso em 1958, quando a obra de Eisenstein já contava com seis versões! ¡Que Viva Mexico! também era da preferência de outro italiano, Pier Paolo Pasolini, que deixou isso claro em 1973, através de um comentário relativamente hostil:


“Provavelmente eu sou um dos raros intelectuais a não gostar de Eisenstein. Eu sei que ele tem um grande talento, e que sua figura é talvez a cúpula que domina o Formalismo Russo. Mas acredito que todas as suas obras são fracassos, com exceção de ¡Que Viva Mexico!, porque não foi montado por ele (e aqueles que o montaram, o fizeram de uma maneira magnificamente convencional). O Encouraçado Potemkin é um filme verdadeiramente horrível, onde o conformismo com o qual são vistos os personagens revolucionários é aquele da propaganda mais sectária, mais ao gosto particular da forma própria ao ‘pôster’ (onde Vertov se sobressaiu, na mesma época). Os marinheiros do Potemkin são seres sem alma, sem corpo, sem sexo, que se movimentam como marionetes ‘positivas’. Não é suficiente estar certo e ser um herói para estar vivo. Eisenstein somente se libera desse servilismo propagandístico na célebre ‘sequência da escadaria de Odessa’: ali explode seu formalismo (no sentido usual e não apenas histórico do termo), e a sequência é muito bela, indubitavelmente; mas é exatamente ela que destaca toda a chantagem e falta de sinceridade do resto do filme (assim como a surpreendente sequência dos Cavaleiros Teutônicos destaca o lado de teatro amador ridículo de todo o resto de Alexander Nevsky, etc.)” (27) (imagem acima, Ivan, o Terrível, parte 1)

Para alguém cujo legado foi sua contribuição no campo da montagem no cinema, não deixa de ser irônico que um dos filmes mais cultuados de Eisenstein seja justamente aquele que o cineasta não conseguiu finalizar. Some-se à anterior outra ironia, pois ¡Que Viva Mexico! acabaria por se transformar no caderno de exercícios de adivinhação de vários editores, todos remontando o material que Eisenstein filmou naquele país. Para alguém cuja pretensão foi tentar compreender as formas que tomam as histórias de acordo com a maneira que se escolhe sequenciar as cenas, o destino foi bem direto quando mostrou a Eisenstein que a morte edita a vida. Como sugeriu Pasolini certa vez, a morte edita a vida! Mas quem sabe? Talvez seja a própria vida editando a si mesma.

Citações em Tempo de Guerra


 “Os degraus em O Encouraçado Potemkin são a mãe de todos
os degraus. Indubitavelmente, a mais impressionante
cena com degraus que o cinema já nos deu (...)

Pedro Almodóvar (28)

Alguns anos antes de se tornar conhecido como pai do neorrealismo italiano no cinema, Roberto Rossellini realizou três filmes quando ainda trabalhava para Benito Mussolini - eles enalteciam cada uma das forças armadas desse que, para muitos, será lembrado apenas como o aliado trapalhão de Adolf Hitler. La Nave Bianca (1941) mostrava a marinha italiana, na sequência inicial vemos o grande canhão de um encouraçado apontado em nossa direção. Muito provavelmente, Sandro Bernardi esteja certo, tais imagens remetem diretamente à dos canhões do grande navio dos marinheiros amotinados em O Encouraçado Potemkin (29). Talvez esta referência possa também ser relacionada ao interesse que o Ministro da Propaganda de Hitler expressou pelo filme de Eisenstein.
De fato, não parece uma coincidência que o grande canhão no filme de Rossellini esteja apontado ao mesmo tempo para os inimigos da Itália e para a plateia. Como bem lembrou Ruth Ben-Ghiat, se o filme de Eisenstein cumpria primariamente uma função propagandística, certamente a referência reforçava o slogan de Mussolini (tomado de empréstimo aos bolcheviques) de que o cinema seria arma mais forte dos fascistas para influenciar e doutrinar. Nota-se que tanto os nazistas alemães quanto os fascistas italianos, anticomunistas de carteirinha, reconheciam a capacidade dos cineastas soviéticos no que diz respeito à propaganda.
Evidentemente, a sequência mais citada de Potemkin é aquela da escadaria de Odessa. Quando o norte-americano George Lucas lançou sua Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977 em diante), seguiu o modelo iconográfico das manifestações públicas nazistas (que por sua vez se inspiravam especialmente nos fascistas de Mussolini). As cenas com escadarias no filme de Lucas remetem diretamente às imagens de O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens, 1935), documentário de Leni Riefenstahl. Neste ponto, a bem da verdade, é preciso esclarecer que, conscientemente ou não, talvez Eisenstein seja aqui uma referência por linhas tortas. Seu filme é de 1925, o de Riefenstahl veio dez anos depois (embora as escadarias nazistas já existissem antes).
Por outro lado, Lotte Eisner chamou atenção para uma atração profunda do Expressionismo alemão (que Hitler e Goebbels repudiaram) por escadarias – “a escada, em determinados filmes alemães, tem tanta importância quanto a que os cossacos descem em Potemkin” (30). Embora também seja verdade que estas tinham uma geometria tortuosa, bastante distinta das escadarias perfeitamente retas (racionais?) tanto em O Encouraçado Potemkin quanto em O Triunfo da Vontade

Para os mais jovens, é possível que a citação da escadaria de Odessa em Os Intocáveis (The Untouchables, direção Brian De Palma, 1987) venha mais rapidamente à lembrança. Mas é preciso resgatar também a mesma citação feita pelo italiano Bernardo Bertolucci em Partner (1968). O filme foi realizado em Roma, mais sob a influência direta dos distúrbios de maio de 1968, em Paris. Em 1900 (Novecento, 1976), Bertolucci voltaria a citar Eisenstein. 
Desta vez, Claretta Tonetti acredita que há uma referência a Alexander Nevsky quando o fascista Giovanni Berlinghieri fala da necessidade de uma cruzada contra “bolcheviques semiasiáticos”. No filme de Eisenstein, os cavaleiros teutônicos também fazem uma referência à cruzada contra a “raça semiasiática” comandada por Nevsky (31). É importante notar também que, embora não se trate de filmes de guerra como La Nave Bianca, à sua maneira Os Intocáveis e Partner remetem a mundos em desequilíbrio. Enquanto o primeiro fala de uma sociedade vivendo fora da lei, o segundo denuncia uma onde o mercado faz as leis. Sendo um eslavo originário da região do Mar Báltico, suficientemente próximo dos países nórdicos para ser considerado “menos eslavo”, o próprio Eisenstein poderia estar incluído nessa fala dos cavaleiros teutônicos (os mesmos alemães com quem mantivera intensa interlocução quando do lançamento de Potemkin naquele país) a respeito do perigo da “raça semiasiática”. 


Salvo pela aplicação do Acordo Ortográfico e acréscimo de imagens, Serguei Eisenstein e os Outros: Prós e Contras foi originalmente publicado na Revista Universitária do Audiovisual (ISSN 1983-3725), da Universidade Federal de São Carlos (RUA/UFSCar), Edição nº 55, 15 de dezembro de 2012

Leia também:

Notas:

1. TAYLOR, Richard. Now that the Party’s Over: Soviet Cinema and Its Legacy. In: BEUMERS, Birgit (Ed.). Russia on Reels. The Russian Idea in Post-Soviet Cinema. London/New York: I.B. Tauris, 2006. P. 35.
2. BEUMERS, Birgit (Ed.). Op. Cit., p. 5.
3. FRAYLING, Christopher. Spaghetti Westerns. Cowboys and Europeans from Karl May to Sergio Leone. London/New York: I. B. Tauris, 2ª ed., 2006. Pp. 5, 6, 7, 16, 19, 28-9, 214, 223.
4. TAYLOR, R. Sergei Eisenstein. Selected Works: Writings, 1934-1947. London/New York: I.B. Tauris, Volume III, 2010b. P. 22.
5. ROBERTSON, Robert. Eisenstein on the Audiovisual. The Montage of Music, Image and Sound in Cinema. London/New York: I. B. Tauris, 2009. Pp. 71-3, 78.
6. FRAYLING, C. Op. Cit., p. 214.
7. CHION, Michel. Andreï Tarkovsky. Paris: Cahiers du Cinéma/Le Monde, 2007. P. 52.
8. TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo. Tradução Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2ª ed., 2002. Pp. 135-6, 139.
9. Idem, p. 140.
10. XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do Cinema: antologia. São Paulo: Edições Graal Ltda., 4ª Ed., 2008. P. 189.
11. Depoimento de Larissa Tarkovskaja no documentário Dirigido por Andrei Tarkovski (Directed by Andrej Tarkovskij, idéia e manuscrito de Michał Leszczyłowski, 1988), lançado no Brasil pela distribuidora Continental Home Vídeo.
12. Neste ponto da frase optei pela tradução da edição francesa [qui ne sait pas d’avance qu’il s’agit d’un “classique” du cinéma...], pois a tradução para a edição portuguesa não faz sentido: “... que ainda não foram convencidos de que se trata de um filme ‘clássico’”.
13. TARKOVSKI, A. Op. Cit., p. 142.
14. BIRD, Robert. Andrei Tarkovski. Elements of Cinema. London: Reaktion Books Ltd, 2008.
197-201; TARKOVSKI, A. Op. Cit., pp. 72, 73.
15. TARKOVSKI, A. Op. Cit., p. 198.
16. BIRD, R. Op. Cit., p. 199.
17. BAECQUE, Antoine de. Godard. Biographie. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 2010. P. 54.
18. Idem, pp. 457-460.
19. HICKS, Jeremy. Dziga Vertov. Defining Documentary Film. London/New York: I. B. Tauris, 2007. P. 134; XAVIER, I. Op. Cit., p. 202.
20. TAYLOR, R. (Ed.). Sergei Eisenstein. Selected Works: Writings, 1922-1934. London/New York: I.B. Tauris, Vol. I, 2010a. Pp. 71-3.
21. BAECQUE, A. de. Op. Cit., p. 419.
22. DUBOIS, Philippe. Cinema, Vídeo, Godard. Tradução Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004. Pp. 14-5.
23. Idem, pp. 17-8.
24. Ibidem, p. 20.
25. VEGA ALFARO, Eduardo de la. Eisenstein e a Pintura Mural Mexicana. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006. P. 58; TAYLOR, R. (Ed.). Op. Cit., 2010ª, pp. 279, 325n9.
26. ANTONIONI, Michelangelo. Architecture of Vision. Writings and Interviews on Cinema. Chicago: University of Chicago Press, 1996. P. 7.
27. JOUBERT-LAURENCIN, Hervé (org.). Pier Paolo Pasolini. Écrits sur le Cinéma. Petits Dialogues Avec les Films (1957-1974). Paris/Lyon: Cahiers du Cinéma/Presses Universitaires de Lyon et Institut Lumière, 2000. Pp. 163-4.
28. DUNCAN, Paul; PEIRÓ, Bárbara. The Pedro Almodóvar Archives. Köln: Taschen, 2011. P. 362.
29. BEN-GHIAT, Ruth. The Fascist War Trilogy. In: FORGACS, David; LUTTON, Sarah; NOWELL-SMITH, Geoffrey (Eds.). Roberto Rossellini, Magician of the Real. London: British Film Institute, 2000; BERNARDI, S. BERNARDI, Sandro. Rossellini’s Landscapes: Nature, Myth, History. In: FORGACS, David; LUTTON, Sarah; NOWELL-SMITH, Geoffrey (Eds.). Op. Cit., pp. 24, 54.
30. EISNER, Lotte H. A Tela Demoníaca. As Influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Tradução Lúcia Nagib. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. P. 88.
31. TONETTI, Claretta Micheletti. Bernardo Bertolucci. The Cinema of Ambiguity. New York: Twayne Publishers, 1995. Pp. 158-9.

18 de set. de 2017

Serguei Eisenstein e o Cinema da Revolução


[A]  escola  de  cinema  [de Godard]  é  a Cinemateca Francesa
de Henry Langlois.  Fundada em 1936, se instalou em dezembro
de  1944,  no  final  da  guerra,  na  Rua Troyon,  perto da Place de
l’Etoile; posteriormente,  na  sala  dos  engenheiros  das  Artes  e
Ofícios, avenida Iéna, com um primeiro festival Eisenstein  (...)

Antoine de Baecque (1)

Do Teatro ao Cinema
Sobre o início de sua trajetória profissional, Serguei Eisenstein (1898-1948) contou que durante a guerra civil serviu na engenharia do Exército Vermelho. Em seu tempo livre começou a se interessar por teatro e arte. Em 1921, ele se juntou como pintor de cenários ao Teatro Proletkult (contração de “cultura proletária”). A função do Proletkult era encontrar uma nova forma de arte que correspondesse à ideologia e ao status quo da “nova Rússia” – deveria ser arte feita por proletários para proletários, sem vestígios da cultura burguesa. Em 1922, quando Eisenstein se torna o diretor exclusivo do Primeiro Teatro dos Trabalhadores de Moscou, surgem os primeiros choques de opinião entre ele e os lideres do Proletkult. De acordo com Eisenstein, não fazia sentido que, apesar de sua “intenção” vanguardista, o Proletkult seguisse a cartilha da velha tradição (2).
No entendimento de Eisenstein, enquanto membro ativo da revista LEF (Frente de Esquerda da Arte), ele e seu grupo eram os únicos que realmente tinham uma proposta de vanguarda - junto ao cineasta, seu mestre Vsevolod Emilevitch Meierhold (1874-1940) e Vladimir Vladimirovich Maiakovski (1893-1930), que fundou a publicação. Em oposição a eles havia o tradicionalista Konstantin Sergeyevitch Alexeiev, vulgo Constantin Stanislávski (1863-1938), assim como o oportunista Aleksandr Yakovlevich Tairov (1885-1950). O primeiro fora cofundador do Teatro de Artes de Moscou (1898) e um expoente na teoria e prática do realismo psicológico e do naturalismo no palco; o segundo fundou o Teatro de Câmera (1914) e defendia, em oposição ao naturalismo de Stanislávski, um estilo de atuação e produção expressionista - Eisenstein se dizia inimigo mortal do Teatro de Artes de Moscou (3).


Ivan, o Terrível (2ª parte)

Eisenstein utilizou em suas peças o que ele chamava de cálculo matemático do efeito das produções, que ele resumia com o termo “atração”. Considerava mera consequência o caminho que levava do teatro ao cinema, chegando a se referir ao primeiro como uma etapa ultrapassada. Seu primeiro longa-metragem, A Greve (Stachka, 1925), ainda seria realizado com o pessoal do Proletkult – antes disso, em 1923, o curta-metragem O Diário de Glumov (Dnevnik Glumova) não chega a ser um “filme”, já que sua única função era ser projetado no palco durante uma das peças de Eisenstein. Em suas palavras:

“(...) Ele não tinha enredo no sentido convencional: retratava o progresso de uma greve, uma ‘montagem das atrações’. Meu princípio artístico foi, portanto, e ainda é: não uma criação intuitiva, mas a composição construtiva racional de elementos efetivos; a coisa mais importante é que o efeito deve ser calculado e analisado antecipadamente. Se os elementos individuais do efeito são desprovidos de enredo no sentido convencional, ou se eles estão ligados por um ‘enredo carcaça’, como em meu Potemkin, não vejo distinção essencial. Eu mesmo não sou nem sentimental, nem sanguinário, nem especialmente lírico, como tem sido sugerido a mim na Alemanha. Mas estou muito familiarizado com todos esses elementos e sei que temos apenas que estimulá-los habilidosamente o bastante para provocar o necessário efeito e incitar maior emoção. Isto constitui, penso eu, uma questão puramente matemática, e não tem nada a ver com a ‘manifestação do gênio criativo’. Você não precisa nem um pouco de mais inteligência para fazer isso do que para projetar uma siderúrgica utilitária” (4) 

Na entrevista ao jornal alemão Berliner Tageblatt por ocasião de sua primeira visita a Alemanha em 1926, Eisenstein deixou muito claro que para ele a palavra “cinema” não significa outra coisa senão parcialidade (tendentiousness). Sem este elemento básico, insistiu o cineasta, não se pode nem mesmo começar a trabalhar num filme. Sem saber sobre quais sensações e paixões se vai especular não é possível criar. Depois de agitar as paixões da plateia, temos que dar a ela uma válvula de escape, um pára-raios. Esta é a conclusão de Eisenstein, para quem a parcialidade desempenharia justamente esta função. Para o cineasta, os finais felizes hollywoodianos representariam o contrário disto:

“(...) Eu penso que evitar a parcialidade, a dissipação das energias, é o grande crime de nossa época. Além disso, em si mesma a parcialidade me parece proporcionar uma grande oportunidade artística: não precisa de forma alguma de ser tão política, tão conscientemente política, quanto em Potemkin. Mas se for completamente ausente, se pensarem no cinema como um brinquedo para passar o tempo, como um meio de embalar e colocar para dormir, então esta falta de parcialidade me parece ser meramente para reforçar a visão tendenciosa [tendentious view] de que as pessoas estão levando uma existência gloriosa e contente. Como se a ‘congregação’ do cinema, da mesma forma que a da igreja, devesse ser criada para os cidadãos serem bons, quietos e nada exigentes. Esta não é a soma total da filosofia do ‘final feliz’ americano?” (5)

Cinema: Arte Coletiva

Na mesma época, Eisenstein questionou fortemente a posição de Béla Balázs.  O teórico húngaro escreveu um artigo enaltecendo o papel do operador de câmera no cinema, contribuição que Eisenstein também reconhecia, apenas não concordou em transformar esses profissionais em estrelas. Antes de qualquer coisa, Eisenstein via essa tendência à produção de estrelas como uma lógica burguesa. O cinegrafista, assim como atores e atrizes, como os cineastas e os carpinteiros que trabalharam no cenário, sem esquecer as pessoas sem treinamento profissional que trabalharam como extras e aqueles que guiaram seus movimentos dentro do cenário, são uma equipe - coletivo de pessoas que dá sentido à existência de cada um.
Questionando seus colegas alemães, Eisenstein criticou a incapacidade deles de compreender que uma “tomada do diretor” não existe independentemente. Uma “tomada de montagem” é algo, sentenciou Eisenstein, que os alemães não conhecem. Eisenstein está se referindo às supostas vantagens do pensamento coletivista (ainda) presente nos primeiros anos da revolução, este sendo um dos pontos de divergência com seu contemporâneo Lev Kulechov (1899-1970). O americanismo deste, com seus filmes de perseguições policiais, foram considerados por Eisenstein uma regressão metodológica. Embora reconhecesse o gênio do norte-americano D.W. Griffith, o cineasta soviético via a “montagem americana” (a “montagem narrativa”) como “outra coisa”, algo que não podia ser considerado montagem (6).
Para Eisenstein, o individualismo reinante no Ocidente não teria permitido a Balázs enxergar o coletivo para além do individual. O cineasta aplicou o mesmo raciocínio ao concluir que Balázs se equivocou ao atribuir simbolismo àquilo que aparece no material filmado (por exemplo, a gesticulação do um ator). O simbolismo emergiria apenas na montagem. 


Única imagem conhecida onde Eisenstein e Meierhold aparecem juntos

Se eliminarmos o curta-metragem O Diário de Glumov, podemos concluir que a cinematografia inicial de Eisenstein se configura numa trilogia em torno de quatro figuras revolucionárias: A Greve (1925) mostra o trabalhador, O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925) torce pelo marinheiro amotinado, Outubro (Oktyabr, 1928) apresenta os bolcheviques, enquanto A Linha Geral (Staroye i novoye, 1929) acompanha os camponeses (7). Em 1945, incluindo agora Alexander Nevsky (Aleksandr Nevskiy, 1938) e a primeira parte de Ivan, o Terrível (Ivan Groznyy, partes I e II, 1944/58), seus filmes sonoros, Eisenstein definiu seu objetivo: “A Greve analisou a natureza das formas de influência do cinema...

Potemkin, cujo sucesso é muitas vezes atribuído à sua distância da assim chamada ‘pesquisa formal’, tinha, contudo, justamente este objetivo: a questão da convenção e limitação do cinema como um todo, enquanto distinto do método então (e ainda mais agora) praticado, de ‘encadear’ certo número de pequenos episódios, em lugar de [criar] integridade estrutural. Eu não contestaria que esta tarefa consciente foi recompensada com um bônus adicional pela inspiração criativa, e, ainda mais, por aquelas características fundamentais do cinema, para as quais ele ganhou um público benevolente.

Outubro. Desconsiderando inteiramente a questão da integridade do filme, fui absorvido por problemas da linguística do filme. Interessado na metáfora dos leões pulando em Potemkin, enquanto uma inspiração, imediatamente fui pesquisar sob todos os ângulos a natureza da linguagem cinematográfica [...]. Também enfrentei elementos embrionários daquilo que se transformaria na concepção do ‘cinema intelectual’. Trabalhando simultaneamente em [A Linha Geral], sondei elementos que poderiam exercer influência emocional numa certa profundidade; isto foi formulado no conceito de ‘montagem atonal’ (8).

Quando terminei de investigar a montagem, e prevendo uma unidade de leis tanto na montagem quanto no plano, que examinei enquanto estágios, dediquei todo o meu trabalho (a partir desse ponto de vista formal acadêmico) à questão da natureza da composição do plano: Que Viva México! – meu filme sobre o México.

Como se me punindo por virtualmente deixar a montagem fora do esquema das coisas, este filme é frequentemente aberto às mais diversas interpretações por diferentes montadores, embora sustente a percepção do público. Provavelmente, apenas porque foi primariamente planejado com base no plano. 

Alexander Nevsky naturalmente coloca questões experimentais a respeito da unidade do audiovisual. Assim como Ivan, o Terrível coloca o problema da criação de um personagem e o desenvolvimento do enredo em resposta à arrogância de um cinema puramente ‘afetado’, o que fez meus ouvidos zumbirem com questões sobre caracterização e enredos super complicados, supostamente para além de nosso alcance de ‘poetas épicos’, que trabalhamos principalmente com o assim chamado ‘enredo fraco e nenhum personagem para explicar...’” (9)

Fritz Lang, Cinema Operário Alemão, Nevsky e Ivan

“O Expressionismo foi um poderoso fator na
formação de nosso cinema: foi um aviso”  (10)

Serguei Eisenstein (11)

Com o sucesso de Potemkin na Europa, Eisenstein se tornou ao mesmo tempo uma celebridade e um embaixador da arte soviética no exterior. Seu feito o levou à sua primeira viagem ao exterior (seu primeiro vislumbre da vida no Ocidente), ele foi promover o filme em Berlim. De acordo com Richard Taylor, as comparações feitas por Eisenstein entre o cinema soviético e o alemão foram veiculadas em apenas duas oportunidades, numa entrevista para o jornal alemão Berliner Tageblatt e em seu artigo O Cinema Alemão. Impressões de Um Viajante, ambos datados de 1926. Neste último Eisenstein zombou da visão de Potemkin que lhe foi apresentada na Alemanha, onde se sugeriu que simplesmente não havia “[...] homens e mulheres suficientes apaixonados uns pelos outros” – provavelmente uma referência à preferência banal pelo happy end hollywoodiano (12).
Eisenstein ficou impressionado com as dimensões dos estúdios que abrigaram os cenários e os milhares de extras de filmes de Fritz Lang como Os Nibelungos e Metropolis (1927) – situado a poucos quilômetros de Berlim, tratava-se de um velho hangar para Zepelins, convertido em estúdio. Ou ainda as instalações de Neubabelsberg, segundo maior estúdio alemão, lar dos cenários enormes de Fausto (Faust - Eine deutsche Volkssage, direção F.W. Murnau, 1926), e até de uma rua inteira de Berlim, com asfalto e tudo, construída para O Último Homem (Der Letzte Mann, direção F.W. Murnau, 1924) – Eisenstein esteve presente em alguns dias de filmagens de Fausto e Metropolis
Contudo, Eisenstein sugeriu que essas condições teriam contribuído para um engessamento da criatividade dos cineastas alemães. Eisenstein insistiu em dizer que os alemães estavam muito atrás no que diz respeito às condições de produção. Seria impensável para os alemães - fechar ruas inteiras, assim como as escadarias de Odessa, para filmar algumas cenas de Potemkin. Se os soviéticos quisessem gravar cenas numa rua alemã teriam que pagar mais dinheiro em propina do que custaria todo um filme russo.
Eisenstein também percebeu as limitações impostas à criatividade dos cineastas alemães. Como a maior parte das ações de um estúdio como a UFA pertenciam a um grande banco, a única chance para um cineasta mostrar sua criatividade seria a competição entre os bancos (donos de fato dos estúdios) para se mostrarem mais capazes de produzir uma obra-prima do que seus competidores. De acordo com Eisenstein, a grandiosidade de um filme como Metropolis teve origem apenas neste detalhe. Para o cineasta soviético, era possível perceber o Deutsche Bank por traz daquele filme. 


 Durante  as  filmagens  de  Ivan, o Terrível  (2ª parte). 
O homem atrás da câmera é, provavelmente, Eduard Tissé, 
operador de câmera em todos os filmes de Eisenstein

Em seu encontro com a roteirista de Metropolis, Thea von Harbou (que também era esposa de Lang), Eisenstein quis saber sobre os rumores de que o filme seria revolucionário e que faria mais sucesso na União Soviética do que nos Estados Unidos. Depois de ouvir os comentários de von Harbou sobre algum tipo de compromisso entre os trabalhadores manuais e o cérebro criativo do dono da fábrica, Eisenstein resumiu com estas palavras o enredo de Metropolis:

“(...) Uma jovem trabalhadora num vestido branco como o de Ofélia se apaixona pelo filho do dono das fábricas. O enredo se desenvolve até o ponto em que os trabalhadores se revoltam, destroem as máquinas, derrubam a cidade de Metropolis e encaram a morte certa porque são incapazes de criar alguma coisa. Então eles se voltam para seu antigo ‘líder’ (leia-se: chefe) e tem lugar uma reconciliação entre eles: contra esse pano de fundo, os amantes são reunidos. Eu deixo ao leitor para julgar o quanto isso é ‘revolucionário’” (13)

Eisenstein aponta seu tom irônico na direção do próprio Lang, ao sugerir que ele se parece com Kulechov (se este fosse bem alimentado por algum tempo). O gosto de ambos também seria similar, Eisenstein disse que Metropolis era bastante próximo daquilo que Kulechov conseguiu fazer em parte em O Raio da Morte (Luch Smerti, 1925). De acordo com Eisenstein, o que faltou a Kulechov foram os seis milhões de marcos que Lang teve para realizar seu filme – de acordo com a visão que Eisenstein tinha da situação da economia alemã, se nada mudasse, Fausto e Metropolis seriam as últimas grandes produções do cinema alemão. Eisenstein também questionou o interesse puramente financeiro que movia os profissionais do cinema alemão. Mas admitiu que, tanto na Alemanha quanto na União Soviética, a situação do ator era a mesma: o cineasta nunca dava muitas instruções para os atores e atrizes.
Durante a década de 1920, na Alemanha da República de Weimar, havia certos setores da sociedade investindo na tentativa de estabelecer um “cinema operário” que, além de abordar os problemas, propusesse soluções revolucionárias. Alguns interlocutores, entre eles Béla Balázs, acreditavam que o melhor modelo era o cinema soviético. Ele afirmou que, ao contrário do que acontecia com o cinema na Alemanha, o cinema soviético se desenvolveu devido a um “espírito reinante” naquele país que não contradizia o espírito do filme: não haveria um dilema mercadológico forçando uma concessão ao entretenimento puro (14).
Mas a visão ingênua de Balázs fica evidente quando se descobre que um filme como Potemkin só começou a fazer sucesso na União Soviética em função de seu grande sucesso no estrangeiro, como foi o caso na Alemanha – país que havia acabado de passar por uma revolução frustrada. De qualquer forma, durante a década de 30, até certo ponto a esquerda alemã manteve a crença de que o cinema de seu país viria a ter um papel progressista em relação ao público proletário, restava definir a estratégia para adaptar um cinema operário de cunho social em relação à indústria cultural.
Em agosto de 1925 Eisenstein publica no jornal Kino seu Método de Realização de Um Filme Operário (15). Neste artigo o cineasta, que só havia realizado A Greve (Potemkin seria lançado apenas em dezembro daquele ano), articula sua teoria das atrações à busca de um cinema antiburguês. De acordo com Eisenstein, o caráter de classe de uma obra se manifesta já na definição da proposta, na adequação ou não da utilidade social do efeito da descarga emocional e psicológica do público em relação a uma cadeia de estímulos que lhe é dirigida. “A este efeito socialmente útil chamo de conteúdo da obra” (16). O caráter de classe também se manifesta na escolha dos próprios estímulos, seja pela correta avaliação de sua eficácia, seja pela acessibilidade a eles (o cineasta contou sobre um livro burguês sobre a história do cinema que desaconselhava temas como perversões sexuais, crueldade excessiva, deformidade física e, talvez a única recomendação ainda vigente, as relações entre capital e trabalho). 
No primeiro caso, Eisenstein cita como exemplo a cena do matadouro em A Greve. Às críticas negativas e sugestões para cortar a cena considerada indigesta, o cineasta rebateu dizendo que para os camponeses, acostumados a abater o gado, não havia nenhum problema – para os operários citadinos, o sangue jorrando do boi estaria associado à fábrica ligada ao matadouro. No segundo caso, ao criticar a utilização equivocada de elementos de classe social como estimulantes das plateias, Eisenstein cita o expressionismo de O Gabinete do Doutor Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920) como exemplo de distanciamento da realidade concreta – o lúgubre doutor teve imitadores na União Soviética, tanto no palco quanto na tela.  Como exemplo negativo, ele sugeriu o “veneno pequeno-burguês nos filmes de Mary Pickford [(1893-1979)]”. Convém esclarecer que a atriz norte-americana e seu marido, Douglas Fairbanks (1883-1939), eram tão populares na União Soviética quanto no Ocidente. Além disso, Eisenstein não se opôs a utilizar os elogios do casal à Potemkin para estimular o público soviético a se interessar pelo filme (que fazia mais sucesso fora do que dentro do país).


 O   curta-metragem   Miséria  e  Fortuna  de  Uma  Mulher   (1930) 
só   apareceu   nas   telas   em   1944.  O  filme  fala  sobre  o  problema
do   aborto   ilegal.  A primeira   história  (esquerda)  foi  realizada  por
Eisenstein e Tissé,  a  segunda foi feita por equipe e atores  alemães

Nos primeiros anos da década de 1920, o nascente cinema soviético dava os primeiros passos com suas experiências e tentativas de sistematização – por sinal, Balázs parece ignorar o cinema russo tradicional, anterior à Revolução Bolchevique. Dentre suas influências estrangeiras, Eisenstein citou o Expressionismo no cinema alemão e os filmes do norte-americano D. W. Griffith. Contudo, no primeiro caso, o cineasta sugeriu que não havia lugar no espírito russo para aquela tendência estética germânica. De acordo com Ilma Esperança de Assis Santana, antes de 1925 o trabalho com cinema no meio operário alemão se resumia à exibição de filmes soviéticos. Portanto, concluiu Santana, os primeiros modelos do chamado cinema operário da República de Weimar provinham da União Soviética. 
Vale lembrar que Robert Wiene, o cineasta alemão que dirigiu Caligari, realizaria Raskolnikow (1923), adaptação expressionista de Crime e Castigo (Fiódor Dostoiévski, 1866), com um grupo de atores russos do Teatro de Artes de Moscou – é curioso que a referência histórica não remeta ao Teatro de Câmera de Tairov, este sim comprometido com um estilo expressionista.
A organização do cinema operário alemão atingiria o ponto alto em 1926. Além de Potemkin, A Mãe (Mat, 1926), realizado por Vsevolod Pudovkin a partir do texto de Maxim Gorky, também foi projetado. A censura de Weimar proibiu o filme de Eisenstein, mas acabou cedendo aos protestos e o liberou. Na época, o próprio cineasta escreveu o episódio em detalhes que poderiam até mesmo contribuir para uma análise das tantas cópias incompletas existentes:

“Tivemos outra tarefa: forçar Potemkin através da censura. Alguns detalhes são interessantes. Os censores alemães cortaram a cena em que o oficial é atirado na água, contudo estava tudo bem se o doutor fosse atirado porque, afinal, ele era a ‘causa original’ do motim na frota do Mar Negro. Ele cometeu o pecado da mentira e o mau hábito deve ser punido. Sendo assim, nos permitiram atirar apenas o doutor no mar. Um close-up do cossaco também foi cortado. O motivo por traz disso foi que a brutalidade dos cossacos do Czar era tão conhecida na Alemanha que mostrá-la além do necessário poderia endurecer o público. Como é bem conhecido, o Ministro da Guerra proibiu os membros das forças armadas de assistir ao filme. No total, os censores cortaram 29 metros de Potemkin” (17)

É como se, tanto no caso do oficial quanto do cossaco, os alemães pretendessem evitar uma crítica excessiva ao regime dos czares – talvez um desejo secreto de que a casa Real dos Romanov retornasse da tumba. Potemkin e A Mãe chegaram ao público alemão através da Prometheus, produtora fundada em 1925. Ligada ao Partido Comunista Alemão, sua função era promover a produção cinematográfica comunista soviética (18). Mas parece que as coisas não deram certo, a produtora lançou seu primeiro filme de ficção justamente quando a situação econômica entrou em declínio e o número de desempregados começou a crescer. 
Depois de Potemkin, os proprietários de salas de cinema esperavam um filme de conteúdo social mais forte do que a produção da Prometheus, algo que tratasse do problema dos desempregados. Em 1927 foi fundada uma nova produtora, Weltfilm, cuja função era coordenar iniciativas em torno do cinema operário, especialmente a distribuição de filmes, além das importações de filmes soviéticos. Uma “lei de contingência” restringiu a importação de filmes estrangeiros, especialmente os provenientes da União Soviética. Apesar disso, foram exibidos na Alemanha, de Eisenstein e Pudovkin, respectivamente, Outubro, Tempestade Sobre a Ásia (Potomok Chingis-Khana, 1928) e O Fim de São Petersburgo (Konets Sankt-Petersburga, 1928). 
Para Richard Taylor, seria um erro afirmar que na Alemanha de Weimar existisse um abismo intransponível entre um cinema comercial e outro proletário. De acordo com Taylor, elementos de realismo socialista são perceptíveis em filmes como M, o Vampiro de Düsseldorf (M, 1931) e O Testamento do Doutor Mabuse (Das Testament des Dr. Mabuse, 1933), ambos realizados por Fritz Lang, e filmes de G.W. Pabst como Rua das Lágrimas (Die Freudlose Gasse,1925), O Amor de Joana Ney (Das Liebe der Jeanne Ney, 1927), Westfront 1918 (1930), Companheirismo (Kameradschaft, 1931) e, inclusive, A Ópera dos Três Vinténs (Die 3 Groschen-Oper, 1931) (19).
Em seu comentário sobre a fase norte-americana (entre 1923 e 1929) do cineasta alemão Ernst Lubitsch (1892-1947), muito conhecido por suas comédias leves, Sabine Hake encontrou semelhanças entre o estilo de montagem dele com a noção eisensteiniana de montagem como conflito. Assim como Eisenstein, Lubitsch utiliza a montagem para incitar a participação ativa do espectador. Mas o alemão teria se limitado à exploração da percepção e da interação humanas, enquanto para o soviético trata-se de um conflito de ideia, não de percepções (20).
Lotte Eisner conta que a montagem de Mabuse, o Jogador (Mabuse der Spieler – Ein Bild der Zeit, direção Fritz Lang, 1922) deixaria o cineasta bastante impressionado, citando este filme como exemplo do caráter neutro dos fragmentos de filme, que adquirem certo sentido de acordo com o ponto onde são inseridos. O cineasta acompanhou o trabalho de “remontagem” de Mabuse na União Soviética, se satisfazendo com “o fundamento da inteligente e perversa arte de remontar o trabalho de terceiros” (21) - naqueles primeiros tempos do cinema havia a possibilidade de remontagem dos filmes (sem o conhecimento de seu realizador) para efeito de melhor compreensão da plateia, segundo a percepção que dela tinham os exibidores; originalmente, Mabuse é dividido em dois longas-metragens, mas a remontagem os fundiu em apenas um. De acordo com Eisner, Eisenstein assistiu ao filme de Lang várias vezes, estudou sua montagem e mudou a ordem das cenas antes de recolocar na ordem estabelecida pelo alemão (22).


Da esquerda para a direita, de cima para baixo, A Greve, Potemkin e
O Diário de Glumov. Provavelmente, esta imagem da suástica nazista se refere ao mal sucedido golpe de Estado articulado por Hitler em 1923

Fritz Lang ainda influenciaria diretamente Eisenstein com A Morte de Siegfried, primeira parte de Os Nibelungos. O cineasta soviético se espantou com o efeito ornamental dos capacetes medievais usados pelos bárbaros, estética que reproduziu em Alexander Nevsky. Outra influência foi a estilização decorativa do episódio Czar Ivan, o Terrível, de O Gabinete das Figuras de Cera (Das Wachsfigurenkabinett, direção Paul Leni, 1924), levando Eisenstein a criar abstrações elaboradas da disposição dos corpos na tela em sua própria versão, Ivan, o Terrível (23). Anton Kaes percebeu em Metropolis, certo eco das massas mobilizadas presentes no cinema bolchevique, muito popular na Alemanha da década de 1920. Depois que a massa domina a torre de Babel e destrói o líder, Lang utiliza um ângulo baixo para mostrar a multidão subindo rápido. De acordo com Kaes, essa imagem do poder destrutivo da massa remeteria às revoltas proletárias de 1918-19 nas cidades alemãs de Berlim e Munique.

“(...) O Encouraçado Potemkin de Serguei Eisenstein estreou [na Alemanha] em 1926 (pouco antes de Metropolis), depois de uma batalha com a censura muito divulgada na imprensa, e foi seguido por dezenas de filmes revolucionários da Rússia. Contudo, ao contrário dos operários individualizados de Eisenstein, o proletariado de Lang é concebido como uma multidão anônima de punhos levantados” (24)

mada e no quadro, foram características da continuidade narrativa em Lang, pelo menos em oposição àquela praticada pelo cinema de Hollywood, caracterizado pela ênfase na cena e na sequência. Noel Burch considerou Lang um formalista do cinema-montagem, já Elsaesser considera razoável concluir que seria ilusório identificar a montagem do cineasta alemão com a escola russa, mas não viu problema em aceitar o comentário da montadora e cineasta russa Esfir Shub (1894-1959), para quem Eisenstein teria aprendido muito com os filmes de Fritz Lang – foi ela que “remontou” Mabuse, sob o olhar maravilhado de Eisenstein. Pelo menos do ponto de vista da concepção política do “fazer cinema”, Kaes acredita que se possa admitir a influência da “montagem dialética” de Eisenstein e do cinema soviético da década de 1920 sobre o cinema alemão da República de Weimar (25).

Vossa Excelência Doutor Goebbels

“A estréia de O Encouraçado Potemkin em Berlim
foi  a  29  de  abril  de  1926O  filme  foi  selecionado
como   o   melhor   [daquele ano]  na  Alemanha (...)

Siegfried Kracauer (26)

Ministro da Propaganda do governo de Adolf Hitler, Joseph Goebbels elogiou O Encouraçado Potemkin, do comunista Serguei Eisenstein. Embora Goebbels houvesse sempre insistido que o melhor veículo da propaganda é o entretenimento (ao invés do filme político) (27), considerava o trabalho de Eisenstein uma primorosa peça de propaganda, chegando mesmo a sugerir que a Alemanha estava precisando realizar um Potemkin

“É um filme fantasticamente bem feito e exibe talento cinematográfico considerável. O fator decisivo é sua orientação. Através deste filme, qualquer um sem convicções ideológicas firmes poderia se transformar num bolchevique. Isso prova que uma perspectiva política pode muito bem estar contida numa obra de arte e que mesmo a pior perspectiva pode ser transmitida se isso for feito por meio de uma excepcional obra de arte” (28)

Na opinião de Siegfried Kracauer, o elogio de Josef Goebbels não tem nada a ver com a sugestão do ministro de que a revolução nazista deveria ser glorificada por filmes como Potemkin. Embora Goebbels acreditasse numa revolução nazista, sua verdadeira motivação seria a sugestão, que ele enxergava nos primeiros filmes soviéticos, de uma dominação do individual pelo coletivo. Goebbels teria visto aí uma forma cinematográfica de reprimir os valores individuais. Contudo, ainda segundo Kracauer, não há comparação possível entre Potemkin e um documentário pró-nazista como O Triunfo da Vontade (Triunph des Willens, direção Leni Riefenstahl, 1935). 


Alexander Nevsky (1938)

Enquanto o filme de Leni Riefenstahl acobertava a fraude coletiva criada pelos nazistas com bandeiras tremulantes e a suástica, Potemkin mostra pessoas reais. Mesmo que pareça contraditória a sobreposição de certa crítica ao filme de Eisenstein (a dominação do individual pelo coletivo), seguida de um elogio, Kracauer afirma perceber uma semelhança superficial entre documentários nazistas como Batismo de Fogo (Feuertaufe, Hans Bertram, 1940) e Vitória no Ocidente (Sieg im Westen, direção Fritz Brunsch, Werner Kortwich, Svend Noldan, Edmund Smith, 1941) (neste filme um tanque de guerra é filmado a partir de um ângulo inferior, como o encouraçado na cena final do filme de Eisenstein) com os filmes de Eisenstein, e Vsevolod Pudovkin (29). Mas o Potemkin nazista acabou sendo Tio Krüger (Ohm Krüger, direção Hans Steinhoff, Karl Anton e Herbert Maisch, 1941). Num de seus discursos, Goebbels declarou:

“(...) A vida real deve novamente tornar-se o conteúdo do cinema. Devemos tomar posse da vida sem medo, com coragem e sem temer dificuldades ou fracassos. Quanto maior o fracasso, mais feroz deve ser nosso renovado ataque aos problemas. Onde estaríamos hoje se tivéssemos perdido nossa coragem a cada fracasso? (muitos aplausos.) Agora que o entretenimento inútil foi eliminado de nossa vida pública, vocês, trabalhadores do cinema, devem retornar e enfrentar o tema do povo imortal da Alemanha. Enfrentar pessoas. Quem? Ninguém sabe melhor do que nós (...). Cada povo é o que as pessoas fizerem dele. (Bravo!) Nós demonstramos o suficiente aquilo que se pode fazer com o povo alemão. (Aplauso tempestuoso.) O povo não está afastado da arte. E eu estou convencido que se fôssemos mostrar num de nossos cinemas um filme que realmente captura nossa época e realmente for um ‘Encouraçado’ Nacional Socialista, então os lugares estarão esgotados por um longo tempo” (30)

Em carta aberta datada de 9 de março de 1934, Eisenstein repudia publicamente o elogio de Goebbels em fevereiro do mesmo ano. O cineasta soviético disse que elogiar o inimigo é uma tática sábia, mas que para tirar as lições de Potemkin seria necessário que os nazistas levassem em conta também todo o restante do cinema pós-revolucionário russo. Com efeito, insistiu Eisenstein, Goebbels precisaria de todo o sistema soviético, algo incompatível com a ideologia Nacional Socialista de Hitler. Não podemos nos esquecer de que Eisenstein, assim como seus colegas Vertov e Kulechov, tinha também problemas com a censura e a interferência do governo bolchevique, portanto seria conveniente uma carta aberta elogiando o regime de Stalin! 
Talvez por esse motivo Eisenstein citasse em sua carta um trecho com palavras do próprio Stalin. Num discurso em janeiro de 1934, o líder soviético afirmou não perceber nem um átomo de socialismo no Nacional Socialismo nazista. Então Eisenstein completou dizendo que apenas um socialismo genuíno como o que existia na então União Soviética seria capaz de dar a luz à grandiosa arte realista do futuro e do presente (31).

Muralismo Mexicano em ¡Que Viva Mexico!

“A técnica que estamos utilizando neste filme guarda
muita  relação  com  a  técnica dos murais de Orozco”

Serguei Eisenstein (32)

Antes que a Alemanha de Hitler invadisse a União Soviética de Stalin, este último autorizou uma grande viagem de Eisenstein fora do país. Já sabemos que ele esteve na Alemanha durante o lançamento de Potemkin, nos Estados Unidos o cineasta partiu para realizar um filme sobre o México. O interesse de Eisenstein por esse país vem desde a infância. Embora fosse uma grande oportunidade para ele, sua viagem não constitui um fato isolado, pois o país estava na moda entre os intelectuais de outros países - Eduardo de la Vega Alfaro sugere ainda que algumas correntes da fotografia mexicana do período 1920-31 também teriam exercido alguma influência nos trabalhos do cineasta soviético. 
Nos Estados Unidos, Eisenstein conseguiu um contrato com a Paramount para realizar um filme “não político” sobre o México – o cineasta interessou ao estúdio devido a sua fama, contudo ele não foi capaz de se adaptar ao sistema o suficiente para ter seus roteiros aprovados. Cancelado o contrato com a Paramount, Eisenstein fez um contato com Charles Chaplin, que o encaminhou a um produtor disposto a se arriscar (33).

“Depois da realização de O Encouraçado Potemkin, Eisenstein pretendeu realizar em três partes (O exótico, O desconhecido e O revolucionário) um grande filme épico sobre a vida e os conflitos sociais na China, outro dos países pelos quais tinha simpatia e interesse. O projeto foi cancelado, mas o cineasta não abandonou a idéia de traduzir para a linguagem cinematográfica as características de um épico nacional que finalmente encontraria no México” (34)

Acompanhado por Grigory Alexandrov (assistente e co-roteirista) e Eduard Tissé (câmera), Eisenstein chegou ao México munido de uma carta de apresentação de nada menos que Robert Flaherty - documentarista dos primórdios do cinema cujos filmes etnográficos parecem ter ficado mais famosos que seu realizador. Devido à crise vivida pelo cinema mexicano durante a visita de Eisenstein, o cineasta se voltou para as artes plásticas em busca de elementos visuais – a gravura de temas populares cultivada por José G. Posada, o paisagismo sóbrio de José M. Velasco e os muralistas Diego Rivera, José C. Orozco (Eisenstein os descreveu, respectivamente, como “apolíneo” e “dionisíaco”) e David A. Siqueiros, entre outros. 

“Segundo Naum Kleiman, especialista da vida e obra de Eisenstein [...], após encontrar Flaherty, Eisenstein ‘fez o seu filme mexicano também como uma obra flahertiana. ¡Que Viva Mexico! É uma obra flahertiana de Eisenstein’. Coincidimos até certo ponto com esta interpretação, merecedora, sem dúvida, de um estudo mais acurado. No entanto, acreditamos que no caso do projeto cinematográfico mexicano, Eisenstein não só assimilou a influencia de Flaherty, mas incorporou uma diversidade de aspectos temáticos e estéticos que descartam esta interpretação reducionista” (35)


¡Que Viva Mexico!

Sabemos que o projeto de Eisenstein foi abandonado. Contudo, ao logo das décadas, houve uma série de tentativas realizadas por terceiros, com o intuito de concluir “aquilo que Eisenstein teria feito”. Durante sua longa estadia no México, o cineasta filmou também para a realização de documentários curtos e cinejornais. Este material acabaria sendo utilizado por terceiros nas tentativas de completar o filme de Eisenstein. Na opinião de Alfaro, o único mérito desses filmes é o de ter preservado os materiais originais, o que pode permitir uma analise da “montagem interna” dos planos rodados pelo cineasta soviético. Em 1932, enquanto Eisenstein e sua equipe trabalhavam no interior do México, Adolfo Fernández Bustamante publicou num jornal as seguintes considerações aos seus compatriotas:

“Eisenstein, o magnífico diretor russo que não pôde trabalhar sob a tutela ianque porque a sua capacidade intelectual está muito acima da deles, nos deu a pauta do nosso futuro cinematográfico, marcou a senda por onde devemos seguir. Ele foi o orientador que não buscou valores feitos com açúcar candy para modelar seus tipos, não foi procurar o menino bonito nem a menina ‘ayancada’, mas pesquisou entre os moldes de índios, selecionou as paisagens mais mexicanas e teceu a maravilha de uma verdadeira obra de arte mexicana, profundamente nacionalista e bela. É preciso que os diretores mexicanos aprendam de Eisenstein esse grande segredo: o de encontrar nossas belezas nas nossas coisas, não nos híbridos quick lunch americanos de comida quimicamente pura, com gosto de nada e sem nenhuma característica (...).

Não devemos nos assustar com o espelhismo insosso da riqueza norte-americana. Esqueçamos Beverly Hills, as opulentas manifestações do rastaquerismo de Cecil B. de Mille, os argumentos imbecis com happy end do filme gringo, e façamos cinema mexicano, cinema com personalidade, com sexo, com relevo de arte. Sigamos Sergio Eisenstein pelo caminho que ele nos mostrou” (36)

Jorge Luis Borges

[Borges]  disse que, a princípio, foi
 partidário da Revolução russa, mas que
 os  filmes  russos sobre a Revolução lhe
propuseram as primeiras dúvidas”

Bioy (37)

Emiliano Jelicié e Gonzalo Aguilar mostraram como o poeta argentino reagiu a dois filmes de Eisenstein, Alexander Nevsky e Ivan, o Terrível. De perfil conservador, Borges admitia um interesse estético pelo primeiro filme, tendo inclusive escrito algumas linhas elogiando a famosa cena da batalha. Estela Canto, com quem o poeta teve um caso amoroso, insistia que o filme deveria ser considerado também em sua mensagem política – o casal chegou a brigar por esse motivo em 1945. Evidentemente, Alexander Nevsky possuía uma carga política. Realizado em 1938, retrata a resistência do povo russo à invasão germânica em 1242 – a partir da década de 1940, Hitler invadiria a União Soviética (38).
Para Canto, Borges não era contra nem a favor de russos ou alemães, apenas se comovia com o avanço da cavalaria. Jelicié e Aguilar afirmam que, naquilo que diz respeito a Borges, os filmes russos que assistiu (não necessariamente os filmes de arte e/ou engajados”) atuaram como um prisma através do qual sua ideologia se tornava mais perceptível. O que não impediu o poeta de dizer que “o pior de todos foi O Encouraçado Potemkin” (39). De fato, Borges contrapunha Alexander Nevsky a Potemkin, que desqualifica como intoleravelmente repleto de coisas improváveis (como o que ele chamou de “pontaria inócua” de um encouraçado) . Embora Jelicié e Aguilar sugiram que dúvidas em relação à revolução bolchevique já existissem na mente do poeta muito tempo antes de 1929 (quando o cinema soviético lhe foi apresentado), atribui-se a Borges a afirmação de que acreditava na revolução, até que os filmes russos sobre a revolução plantaram nele as primeiras dúvidas.
Para Borges, a escola soviética de cinema dos anos 1920 logo se converteria num “pedantismo do moderno”, cujo único valor teria sido o enriquecimento da técnica cinematográfica com novos “hábitos fotográficos”, e nada mais. Borges também qualificou a União Soviética de Stalin como um “novo czarismo” em oposição ao comunismo (que para Borges significava amizade entre os povos e o fim das fronteiras). Segundo Borges, em Ivan, o Terrível se pode verificar essa tendência “vira-casaca” dos revolucionários quando tomam o poder. 


Outubro (1928)

Ou melhor, o primeiro longa-metragem (que corresponde à 1ª parte do filme), em que Ivan aparece como um salvador (planejado como uma projeção de Stalin nos tempos antigos) é premiado pelo governo bolchevique. É bem diferente o destino do segundo longa-metragem (que corresponde à 2ª parte do filme), onde Ivan aparece como um tirano – uma 3ª parte não chegou a ser realizada. Inicialmente censurado, posteriormente Stalin ordenou que todas as cópias fossem destruídas – felizmente uma foi escondida e sobreviveu ao político; com finalidades revisionistas, ele foi o verdadeiro responsável pela encomenda inicial em 1943. De qualquer forma, Borges dizia preferir a noção de épica como narração de destinos individuais em Alexander Nevsky e Ivan, o Terrível ao invés da “etapa experimental” de Eisenstein, com filmes como Potemkin, Outubro e A Greve.

Para Não Concluir

Eisenstein nasceu em 1898, na cidade Riga, capital de um pequeno país chamado Latvia, à beira do Mar Báltico – depois da Revolução Bolchevique, a União Soviética engoliria o país, transformando-o em uma de suas repúblicas. Em 1918, Eisenstein aderiu à revolução e entrou para o Exército Vermelho. Originário de uma família burguesa, o futuro cineasta lutou contra o próprio pai, que apoiava o Exército Branco, antibolchevique. Contudo, apesar dos filmes que realizou enaltecendo a Revolução, toda sua dedicação não poupou Eisenstein das perseguições movidas por Stalin.

“Na noite de 11 de fevereiro de 1948, outro ataque cardíaco provocou a morte do cineasta de Riga. Inga Karetnikova, autora de um estudo sobre a estada de Eisenstein no México, afirma que horas antes do seu falecimento o artista traçou com um lápis ‘a silhueta de uma caveira mexicana’ e que ‘um enorme tapete mexicano com cujos ornamentos refletiam os ritmos, as cores, os desenhos deste país, pendia em cima do seu leito de morte’. Segundo Aldo Grosso (na sua análise introdutória para o roteiro de A Greve, [edição de 1978]), ao receber a notícia de seu falecimento, ‘Alexandrov, [Maxim, ator e amigo de toda a vida,] Strauch e Tissé acorreram prontamente e só tiveram o tempo de cobrir o seu cadáver com um tapete mexicano do deus da Morte asteca’. Uma foto da pequena sala do apartamento de Eisenstein nos estúdios cinematográficos de Potylika (perto de Moscou) e outra em que se vê o cadáver do diretor de cinema deitado sobre o que fora a sua cama, revelam de fato a presença de tapeçarias mexicanas (sarapes), objetos que, com certeza, traziam ao seu dono recordações do longínquo país no qual havia encontrado se não a plena felicidade, algo muito parecido com ela” (40)


Salvo pela modificação das notas 7 e 11, Serguei Eisenstein e o Cinema da Revolução foi originalmente publicado na Revista Universitária do Audiovisual (ISSN 1983-3725), da Universidade Federal de São Carlos (RUA/UFSCar), Edição nº 54, em 15 de novembro de 2012.

Leia também:


Notas:

1. BAECQUE, Antoine de. Godard. Biographie. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 2010. P. 50.
2. TAYLOR, Richard (Ed.). Sergei Eisenstein. Selected Works: Writings, 1922-1934. London/New York: I.B. Tauris, Volume I, 2010a. Pp. 74-6, 77-81, 303n5, 309n25.
3. Idem, p. 74.
4. Ibidem, p. 75.
5. Ibidem.
6. Ibidem, p. 81.
7. Comentário de Natacha Laurent no documentário Eisenstein. Dans le Souffle Révolutionnaire. Nos extras do DVD de A Greve, distribuído na França por Cinémathèque de Toulouse/ Carlotta Films, realização Pierre-Henri Gibert, 2008.
8. No original: “Overtonal Montage”. Adotei aqui a tradução proposta em A Forma do Filme, p. 77n3.
9. TAYLOR, R. (Ed.). Sergei Eisenstein. Selected Works: Writings, 1934-1947. London/New York: I.B. Tauris, Volume III, 2010b. Pp. 391-2n26.
10. Esta frase de Eisenstein (“Expressionism was a powerful factor in the formation of our cinema: it was a warning”) se encontra bastante modificada na tradução brasileira de Teresa Ottoni em A Forma do Filme (p. 182): “O expressionismo passou pela história da formação do nosso cinema como um poderoso fator – de repulsa”. Pelas referências encontradas na edição brasileira, a tradutora não trabalhou a partir do original russo, como o fez Richard Taylor em Sergei Eisenstein. Selected Works: Writings, 1934-1947.
11. TAYLOR, R. (Ed.). Volume III, 2010b. P. 198. 
12. TAYLOR, R. (Ed.). Volume I, 2010a. Pp. 6, 7, 85-88, 309n32.
13. Idem, p. 87.
14. SANTANA, Ilma Esperança de Assis. O Cinema Operário na República de Weimar. São Paulo: UNESP, 1993. Pp. 17-9, 21, 22.
15. XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do Cinema: antologia. São Paulo: Edições Graal Ltda., 4ª Ed., 2008. Pp. 199-202; TAYLOR, R. (Ed.). Volume I, 2010a. Pp. 65-6.
16. XAVIER, I. (Org.). P. 199.
17. TAYLOR, R. (Ed.). Volume I, 2010a. P. 88.
18. HAKE, Sabine. German National Cinema. London/New York: Routledge, 2002. P. 49.
19. TAYLOR, R. Film Propaganda. Soviet Russia and Nazi Germany. London/New York: I.B. Tauris, 2ª ed., 2006. P. 138; ELSAESSER, Thomas. Weimar Cinema and After. Germany’s Historical Imaginary. New York: Routledge, 2000. Pp. 23, 160.
20. HAKE, S. Passions and Deceptions. The Early Films of Ernst Lubitsch. Princeton, N. J.: Princeton University Press, 1992. Pp. 63, 63n8, 64.
21. EISENSTEIN, S. A Forma do Filme. Tradução Teresa Ottoni. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2002. Pp. 20, 26n7.
22. EISNER, Lotte H. Fritz Lang. Paris: Cahiers du Cinéma, 2005. P. 85.
23. Idem, pp. 86, 112n8, 164.
24. KAES, Anton. Shell Shock Cinema. Weimar Culture and the Wounds of War. Princeton: Princeton University Press, 2009. P. 192.
25. KAES, A. Passions and Deceptions. The Early Films of Ernst Lubitsch. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1992. P. 116.
26. KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler. Uma História Psicológica do Cinema Alemão. Tradução Tereza Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. P. 210n19.
27. “Goebbels, Mestre da Propaganda” In 4º Poder, série O Poder e a Mídia, TVE, Canal 2, RJ. 05/09/1996. Original BBC.
28. TAYLOR, R. 2006. P. 144.
29. KRACAUER, S. 1988. Pp. 332-3, 374.
30. TAYLOR, R. (Ed.). Volume I, 2010a. P. 281.
31. Idem, pp. 280-4.
32. VEGA ALFARO, Eduardo de la. Eisenstein e a Pintura Mural Mexicana. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006. P. 65.
33. Idem, pp. 14, 18, 29, 31, 52, 58, 68, 127, 144.
34. Ibidem, pp. 43-4.
35. Ibidem, p. 49n7.
36. Ibidem, pp. 131-2.
37. AGUILAR, Gonzalo; JELICIÉ, Emiliano. Borges va al Cine. Buenos Aires: Libraria, 2010. P. 115.
38. Idem, pp. 111-122.
39. Ibidem, p. 115.
40. VEGA ALFARO, E. de la. P. 128.

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