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Roberto Acioli de Oliveira

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8 de jul. de 2018

Serguei Eisenstein e os Outros: Prós e Contras


 “(...) Parece incrível agora que a obra prima de Eisenstein, O Encouraçado 
Potemkinamplamente  reconhecido  como  um  dos  mais  importantes  filmes  na
história do cinema, não pudesse ser mostrado em público na Inglaterra até o início de 1950.
 Os   ferozes  ataques  pessoais  que  saudaram  Eisenstein  em suas  incursões  no  Ocidente, 
 especialmente  nos  Estados  Unidos,   sugere  um  também  que a  intolerância  com 
a  diferença  não  foi  prerrogativa  de  Stalin  e  seus  comissários  culturais (...)”

Richard Taylor (1)

Talvez o interesse central de Serguei Eisenstein para o cinema não deva ser buscado nos livros de técnica cinematográfica. Não resta dúvida de que sua contribuição à técnica é incontornável – ainda que conterrâneos como Andrei Tarkovski discordem. Mas talvez o foco do cineasta estivesse direcionado àquilo que Birgit Beumers chamou de a “ideia da Rússia”. Ela remete diretamente a The Russian Idea (1996), documentário escrito por Oleg Kovalov e dirigido por Serguei Selianov, encomenda do British Film Institute para as comemorações do centenário do cinema. O filme mostra como essa ideia se encaixou no cinema soviético das décadas de 20 e 30 do século passado. (imagem acima, cena final de Encouraçado Potenkim, 1925)

“(...) Por “Ideia da Rússia” Kovalov se refere, sobretudo, à busca de alguma existência ‘ideal’ para a nação num futuro radiante, [na] história transcendente. Uma ideia dessas normalmente seria desastrosa para a maioria dos indivíduos, Estados ou para o mundo como um todo, mas de alguma forma ela provou ser fértil para a cultura russa. De acordo com Kovalov, Eisenstein resolveu a contradição entre toda mitologia ‘velha’, ‘nacional’, e uma ‘nova, social’, porque ele fez da última um exemplo particular e um elemento estético da primeira” (2)

Aparentemente, podemos dizer que Eisenstein procurou substituir a contradição pelo caráter múltiplo da simultaneidade (entre velho e novo) – não por acaso, o título original de seu filme A Linha Geral é, justamente, O Velho e o Novo (Staroye i novoye, 1929). Foi apenas com o declínio da geração de cineastas da década de 20 que a preocupação com a “russianidade” desapareceu das telas, atravessando várias metamorfoses até chegar ao fim da União Soviética e o choque com a economia de mercado a partir dos anos 90. Essa preocupação talvez tenha sido o verdadeiro motor que impulsionou do cineasta, da Mãe Rússia e das lições de Vsevolod Meierhold ao México, passando pelo cinema alemão, a Ópera Chinesa e o Kabuki japonês. É neste sentido, por exemplo, que o interesse de Eisenstein pelo elemento épico deveria ser considerado.

Eisenstein, do Épico ao Espaguete


Com a publicação em 1925 do livro L’Or. La Merveilleuse Histoire du General Johan August Sutter, o nome do escritor francês Blaise Cendrars juntou-se a uma relativamente longa lista de pessoas que escreveu sobre a vida atribulada de um suíço falido chamado Suter (ou Sutter), cujas terras ficavam bem no meio da região californiana onde ocorreu a famosa “corrida do ouro”. Infelizmente, Sutter não conseguiria provar seu direito e morreu meio louco aos setenta a três anos. O tema (a corrida do ouro) que se encaixa perfeitamente na mitologia do velho oeste norte-americano. De acordo com um crítico, o interesse de Cendrars foi capturar o mundo de viagens e aventuras maravilhosas através da velocidade e dos ângulos incomuns de uma câmera cinematográfica – o escritor já havia colaborado com o cineasta francês Abel Gance e estava ansioso para explorar as possibilidades daquilo que chamou de “uso cinematográfico da linguagem” (3). (imagem acima, final da primeira parte de Ivan, o Terrível, 1944)

Traduzido no ano seguinte para o inglês com o nome de Sutter’s Gold (Ouro de Sutter), esta edição acabou nas mãos de Eisenstein em 1930, por ocasião de sua visita à Hollywood. Em parceria com Ivor Montagu e Grigori Alexandrov, o cineasta elaborou um roteiro a partir da edição inglesa e ofereceu à Paramount, que acabou se recusando a financiar o projeto. No ano de 1936 duas outras versões baseadas no livro de Cendrars conseguiram chegar às telas. Uma delas, O Imperador da Califórnia (Der Kaiser von Kalifornien) foi realizada na Alemanha (a essa altura já sob o controle de Hitler) por Luis Trenker, um nazista de carteirinha. A outra, Sutter’s Gold, foi realizada por James Cruze (um dos fundadores do gênero Faroeste) para a Universal. A história de Sutter, concluiu Frayling, tinha um apelo óbvio, tanto para Cendrars, quanto para Trenker e Eisenstein: além dos aspectos de filme de viagem, o enredo carregava os ingredientes simbólicos de uma crítica do irrestrito capitalismo norte-americano.
Frayling também ressaltou que é preciso lembrar o contexto político e cinematográfico inerente ao roteiro de Eisenstein: o projeto era crucial para o desenvolvimento da indústria cinematográfica soviética, preparando-a para competir/comentar sucessos norte-americanos como O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation, direção D.W. Griffith, 1915) e A Caravana Gloriosa (The Covered Wagon, direção James Cruze, 1923). A preferência do público por filmes norte-americanos continuava forte na União Soviética, apesar da revolução Bolchevique. Não esqueçamos que o próprio Lev Kulechov (1899-1970) havia criado um guarda-costas caubói em As Extraordinárias Aventuras de Mister West na Terra dos Bolcheviques (Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov, 1924). 
Frayling se pergunta quem pode julgar se as adaptações de cineastas europeus como Eisenstein e Trenker (a única realizada) seriam faroestes ou não. Ainda de acordo com Frayling, é perfeitamente plausível afirmar que as quatro versões de Ouro de Sutter (Cendrars, Eisenstein, Trenker, Cruze) nos fornecem um quadro crítico de referência através do qual se pode olhar para o faroeste produzido na Europa (o mais famoso deles sendo o faroeste espaguete italiano): embora seu posicionamento ideológico, suas referências culturais e as técnicas cinematográficas europeias das versões de Ouro de Sutter pareçam estranhas à tradição do faroeste de Hollywood, nenhuma definição operacional do “mito do oeste” as exclui. (imagens abaixo, A Greve, 1925)

 
Eisenstein percebeu no livro de Cendrars todas as idéias e mitos em torno do “destino manifesto” embasando a “marcha para o oeste”. Mas isso não quer dizer que o cineasta soviético se ateve estritamente ao texto original. Muito pelo contrário, ele inventou índios, coiotes e caçadores. O cineasta esclareceu que seu interesse pela vida de Sutter se encaixava na proposta da introdução de uma figura heroica em seus filmes. Ele já havia feito isso com o personagem central de A Linha Geral, apresentado por Marfa Lapkina (única atuação dela para o cinema), processo que coincidiu com sua viagem aos Estados Unidos. Na época, Eisenstein contava ainda com outros dois roteiros do gênero centrados na descrição de personagens de vulto enfrentando profundas mudanças (4).
Embora o motivo principal da visita de Eisenstein aos Estados Unidos tenha sido conhecer as novas técnicas do então nascente cinema sonoro, foi das técnicas de teatro desenvolvidas por Vsevolod Meierhold que o cineasta se utilizou em seu roteiro de Ouro de Sutter. O teatrólogo encorajava seus atores a “modular” (aumentar a voz aos poucos), de forma a dar uma sensação de movimento para frente, além de conectar as ações anteriores com as seguintes. Eisenstein também remete a Meierhold ao misturar motivos musicais a certas ações, pois este último era também músico e suas técnicas exerceram grande influência na abordagem do cineasta em relação ao problema da unidade audiovisual no filme sonoro. Ambos seriam influenciados pela combinação entre música e atuação na Ópera Chinesa e no Teatro Kabuki do Japão, cujas técnicas estão indicadas nos roteiros não realizados de Ouro de Sutter e ¡Que Viva Mexico! (5). O caso do segundo roteiro, a ausência dessa síntese audiovisual seria uma indicação da distância técnica e intelectual das montagens realizadas tanto à revelia do cineasta quanto postumamente. Na opinião de Frayling, ¡Que Viva Mexico! seria (pelo menos o roteiro) um dos únicos dois filmes de Hollywood (o outro foi Viva Zapata!, direção Elia Kazan, 1952) em que a Revolução Mexicana foi apresentada de forma mais coerente. 
A adaptação do livro de Cendrars se encaixa no padrão dos filmes históricos de Serguei Eisenstein. Contudo, na batalha de versões sobre o motivo pelo qual a Paramount não se dispôs a financiá-lo está a justificativa de que ninguém nos Estados Unidos estava interessado em histórica naquela época. Outras hipóteses para o veto foram à presença de elementos temáticos socialistas e o temor da indústria de Hollywood por gente com pretensões intelectuais.
Referindo-se especificamente ao faroeste espaguete do cineasta italiano Sergio Leone, Frayling sugere que Era Uma Vez no Oeste (C’era Una Volta Il West, 1968) representaria um exemplo de “montagem intelectual” não muito distante de Eisenstein. Às vezes, explicou Frayling, Leone ligava imagens de forma a explicitar uma ideia abstrata (o trem de madeira de Brett, representando “o sonho de uma vida”, ligado ao trem de ferro de Morton), às vezes colidia imagens, de forma a criar a ideia (a transição rápida [shock cut] da imagem do revólver de prata de Frank para uma imagem fora de foco da chaminé da locomotiva). 
Na opinião de Frayling, Leone deve muito às técnicas utilizadas por Eisenstein, por exemplo, num filme como Outubro (Oktyabr, 1928) para sustentar e estender o tempo do clímax dramático de uma cena. “(...) O que nos leva de volta a Ouro de Sutter, primeira tentativa de criticar cinematograficamente as bases do Faroeste ‘épico’ (representado por A Caravana Gloriosa), lá atrás em 1930. Assim como também às observações de Eisenstein sobre a determinação da forma, escrito cinco anos antes” (6).

As Objeções de Andrei Tarkovski


 “(...) Seu Andrei Rublev é uma espécie de resposta aos filmes
 históricos de Eisenstein,  em especial  a  Ivan, o Terrível (...)

Opinião de Michel Chion a respeito de Tarkovski (7)
O cineasta soviético Andrei Tarkovski questionava o valor do “cinema de montagem” defendido por Lev Kulechov e Eisenstein, pois não acredita que um filme seja criado na moviola (em tempos de cinema digital, hoje ele se referiria ao computador). Tarkovski se concentra no ritmo da imagem cinematográfica, que expressa o fluxo do tempo no interior do fotograma. Durante as filmagens, Tarkovski procura captar a passagem do tempo no quadro, a imagem cinematográfica nasce durante a filmagem, ela existe no interior do quadro. Quando chega a fase da montagem, reúnem-se tomadas que já estão impregnadas de tempo, tornando aparente uma estrutura que preexiste a ela (8).

“Não aceito os princípios do ‘cinema de montagem’ porque eles não permitem que o filme se prolongue para além dos limites da tela, assim como não permitem que se estabeleça uma relação entre a experiência pessoal do espectador e o filme projetado diante dele. O ‘cinema de montagem’ propõe ao público enigmas e quebra-cabeças, obrigando-o a decifrar símbolos, diverte-se com alegorias, recorrendo o tempo todo à sua experiência intelectual. Cada um desses enigmas, porém, tem sua solução exata, palavra por palavra. Assim, creio que Eisenstein impede que as sensações do público sejam influenciadas por suas próprias reações àquilo que vê. Quando, em Outubro, ele justapõe a balalaica e Kerensky, seu método tornou-se seu objetivo, no sentido a que aludia Valéry. A construção da imagem torna-se um fim em si mesmo, e o autor desfecha um ataque total ao público, impondo-lhe sua própria atitude diante do que está acontecendo” (9)

Contudo Eisenstein, assim como Vertov ou Kulechov, apenas para citar mais dois personagens famosos, jamais escondeu o interesse em induzir o espectador a tomar determinado rumo. No caso e Eisenstein, seriam suficientes suas palavras em seu texto de 1923 sobre a montagem de atrações: “(...) O próprio espectador passa a constituir o material básico do teatro; o teatro utilitário (agitação, propaganda, educação sanitária, etc.) sempre tem por meta orientar o espectador numa determinada direção (estado de espírito) (...)” (10). No entanto, quem sabe, no caso de Eisenstein essa intenção declarada tenha sido obscurecida por seus escritos sobre montagem (ou, ainda, por seus seguidores mundo afora) e pela crença de que no final tudo isso aponta para a autonomia do indivíduo. 
Tarkovski também não acreditava na lógica silogística imposta pelo cinema de montagem, segundo a qual a montagem combina dois conceitos para gerar um terceiro. A interação de conceitos, Tarkovski insistiu, jamais poderá ser o objetivo fundamental da arte. O tempo flui através das tomadas e cria o ritmo, que não será determinado pela extensão das peças montadas, mas pela pressão do tempo que passa através delas: cinema é ritmo, não montagem. Ainda de acordo com Tarkovski, a montagem não determina o ritmo, este pulsará apesar dela e não por causa dela. O que o cineasta deve procurar fazer diante da moviola é captar o tempo já registrado nos fotogramas. É o tempo impresso no fotograma que dita o critério de montagem. É neste sentido que ele critica a sequência da famosa batalha em Alexandre Nevsky (Aleksandr Nevskiy, 1938). 
Imaginamos apenas que suas críticas levem em consideração que naquela altura Eisenstein (tendo seus projetos recusados pelo Estado Soviético a um bom tempo) aceitou muitas interferências externas (de caráter mais político do que estético) para que pudesse filmar, embora de acordo com sua esposa o próprio Tarkovski raramente tenha cedido a esse tipo de pressão (no máximo concordou em cortar alguns planos) (11). A julgar pelos termos com os quais Tarkovski descreve as limitações que encontrou em Eisenstein, não parece levar nada disso em consideração (é bom lembrar que, como Tarkovski faleceu no final de 1986, ele certamente sabia que seus próprios passos poderiam estar sendo monitorados pelo regime soviético, que só ruiu em 1989; quem sabe isso tenha influenciado suas palavras):

“Minha tese é comprovada pela obra do próprio Eisenstein. O ritmo, que, segundo ele, dependia diretamente da montagem, demonstra a inconsistência da sua premissa teórica quando a intuição o trai, e ele não consegue colocar nas peças montadas a pressão temporal exigida por aquele trecho específico de montagem. Vejamos, por exemplo, a batalha sobre o gelo em Alexandre Nevsky. Ignorando a necessidade de preencher os quadros com um tempo de tensão adequada, ele se esforça por obter a dinâmica interna da batalha mediante a montagem de uma sequência de tomadas breves – por vezes excessivamente breves. No entanto, apesar do ritmo acelerado com que mudam os fotogramas, os espectadores (pelo menos aqueles de mente aberta, [que não sabem de antemão] (12) de que se trata de um filme ‘clássico’, e de um ‘clássico’ exemplo de montagem, tal como ensinada no Instituto Estatal de Cinema) são tomados pela sensação de que tudo o que se passa na tela é lerdo e artificial. Isso acontece porque não existe verdade temporal em nenhum dos quadros. Em si, eles são estáticos e insípidos. Existe assim uma contradição inevitável entre o quadro em si, que não registra nenhum processo temporal específico, e o estilo precipitado da montagem, que é arbitrária e superficial por não ter relação alguma com o tempo de nenhuma das tomadas. A sensação que o diretor pretendia transmitir nunca chega ao espectador, pois ele não teve a preocupação de impregnar o quadro com a verdadeira percepção de tempo da legendária batalha. O acontecimento não é recriado, mas, sim, juntado de qualquer maneira” (13) (imagem abaixo, Alexandre Nevsky, 1936)


Certa vez Tarkovski admitiu que se alongamos uma tomada, inicialmente nos sentimos entediados. Contudo, se a distendemos mais um pouco começamos a nos interessar por ela. Aumentada mais ainda, ela acaba por adquirir uma nova qualidade, e uma nova intensidade de atenção nasce. Robert Bird lembra que as experiências do cineasta com Andrei Rublev (Andrey Rublyov, 1966) o encorajaram a desenvolver esta abordagem em seu livro, Esculpir o Tempo. A essência do trabalho de um cineasta é esculpir o tempo que se encontra nos fotogramas. Tarkovski localiza o esquivo conceito de atmosfera na imagem cinematográfica, que ele define como a observação dos fatos da vida de acordo com as formas da própria vida e suas leis temporais: “(...) eu vejo a crônica, o registro dos fatos no tempo, como a essência do cinema (...)” (14).
De acordo com Tarkovski, se o cinema tem por característica básica representar o tempo, ao cineasta cabe esculpir os blocos de tempo até encontrar aquilo que deseja mostrar. Tarkovski acreditava que uma pessoa vai ao cinema em busca do tempo, seja aquele que ela desperdiçou, perdeu ou ainda não encontrou. O cineasta insiste que o arranjo sequencial de imagens deve ser baseado em seu conteúdo interno, em sua “pressão” interna:

“(...) Só deixamos que permaneça no filme aquilo que se justifica como essencial à imagem. Não que a imagem cinematográfica possa ser dividida e segmentada contra a sua natureza temporal; o tempo presente não pode ser dela removido. A imagem torna-se verdadeiramente cinematográfica quando (entre outras coisas) não apenas vive no tempo, mas quando o tempo também está vivo em seu interior, dentro mesmo de cada um dos seus fotogramas. Nenhum objeto ‘morto’ – uma mesa, uma cadeira ou um corpo – enquadrado separadamente de todo o resto pode ser apresentado como se estivesse fora do fluxo temporal, como se fosse visto sob o ponto de vista de uma ausência do tempo” (15)

A atmosfera é justamente essa continuidade temporal, enquanto a descontinuidade na sequência de planos determina uma textura – a tensão entre a atmosfera e a textura constitui a “pressão do tempo”. Como esse processo não dá conta de capturar a realidade em sua totalidade, Tarkovski se concentrou em captar o elemento de conexão (o tempo) que existe entre sequências de eventos reunidos de forma descontínua – a continuidade na descontinuidade. A captura da tensão interna do filme pelo espectador é a única forma de perceber o tempo. Na opinião de Tarkovski, os planos individuais nos filmes de Eisenstein não possuem a verdade do tempo, constituindo apenas quadros estáticos e anêmicos. 

“(...) Em Esculpir o Tempo, Tarkovski critica Ivan, o Terrível [Ivan Grosnyy, 1944/1958], de Eisenstein, como um agrupamento opressivo de hieróglifos que se supõe simplesmente que o espectador deva decifrar. Além do mais, as imagens, estilo de atuação e ‘atmosfera’ do filme de Eisenstein ‘se aproxima do teatro (teatro musical)’ em sua mais loucamente expressiva (quase expressionista) e violenta natureza afetiva. Tarkovski conclui com severidade que Ivan, o Terrível [‘quase deixa de ser – segundo minha visão puramente teórica – uma obra cinematográfica’]. A frase qualificada aqui é crucial, pois mesmo assim Tarkovski elogia Ivan, o Terrível por seu ritmo ‘sedutor’. De fato, eu diria que, enquanto desconfiado da teatralidade de Eisenstein, Tarkovski estava defendendo um retorno à ênfase de Eisenstein no ritmo de plano e sequência [shot and sequence], que ele achava que tinha a chave para ativar o espectador enquanto participante no empreendimento narrativo. Sua polêmica com Eisenstein se resume essencialmente à reivindicação de que a montagem pode ser aplicada a blocos de uma duração mais longa do que Eisenstein permitia desde que o ritmo se mantenha consistente Tarkovski registrou repetidamente seu incômodo com a maneira como o ritmo rápido da Batalha do Lago Chud em Alexander Nevsky ‘contradiz o ritmo interno da cena como é filmada’(...)” (16) (imagens abaixo, à esquerda, citação de O Encouraçado Potemkin em Partner (direção Bernardo Bertolucci, 1968); à direita, capa de livro sobre Vertov mostrada em O Vento Do Leste, direção Jean-Luc Godard, 1970)

Eisenstein e o Vento Francês 


 “(...) O único grande problema do cinema me parece ser onde
 e por que começar um plano e onde e por que terminá-lo (...)

Jean-Luc Godard,
Histoire(s) du Cinéma, 4B – Les Signes Parmi Nous (1989)
A partir de 1949, em seus primeiros passos como cinéfilo, o cineasta francês Jean-Luc Godard frequentava o cineclube do Cartier Latin, onde assistia aos filmes soviéticos então em moda entre os estudantes. Referindo-se àquele local, Antoine de Baecque fala de uma “grande época de cinefilia comunista”, na qual Eisenstein representou a entrada clássica no universo do cinema (17).  Contudo, isso não impediria que, nos primeiros minutos de O Vento do Leste (Le Vent du Lest, 1970), Godard disparasse ferozmente contra Eisenstein e o próprio Vertov:

“(...) Hoje, a pergunta sobre o que fazer se coloca intensamente aos cineastas militantes. Para eles, não se trata mais de escolher um caminho, trata-se de determinar, determinar o que eles devem fazer na prática. Num caminho que a história das lutas revolucionárias os levou a conhecer. Num caminho que a história os levou a conhecer. Sim, o que fazer? Fazer um filme é, por exemplo, antes de tudo se fazer a pergunta: onde estamos? E o que significa para um cineasta militante colocar-se essa pergunta: onde estamos? E o que significa, para um cineasta militante, colocar-se a pergunta, onde estamos? É, em primeiro lugar, também abrir-se um parêntese e se questionar sobre a história do cinema revolucionário. Do cinema revolucionário” 

Godard se juntou a Jean-Pierre Gorin em 1969 para formar o coletivo Grupo Dziga Vertov. Dessa época ficaram as leituras dos textos de Althusser e a descoberta do cinema soviético dos anos 20, de Eisenstein, mas, sobretudo Vertov. Godard admitiu que embora a escolha do nome de Vertov considerasse honesta a proposta do cineasta russo de abrir os olhos e mostrar o mundo em nome da ditadura do proletariado, tratava-se principalmente apenas de destronar Eisenstein, já considerado um cineasta revisionista (alguém que distorcia os fatos para justificar ações do grupo de Stalin) (18). De acordo com Jeremy Hicks, tanto o ostracismo imposto pela elite stalinista quanto sua recepção desigual no ocidente, significou que Vertov foi menos contaminado do que seus contemporâneos aos olhos dos radicais das décadas de 60 e 70, conscientes das insuficiências do comunismo soviético. 
A Nouvelle Vague francesa, incluindo os cineastas de ficção, sentiu-se atraída por Vertov, especialmente à sua rejeição do conceito de arte – embora Eisenstein também tenha chamado de contrarrevolucionário o conceito de “arte pela arte”. Embora Godard tenha chegado a qualificar a tradução francesa dos escritos de Vertov em 1972 como um equivalente cinematográfico do Livro Vermelho de Mao Tse Tung, o cineasta francês admitiria posteriormente que sua escolha foi inspirada apenas ela polêmica. Colin MacCabe a definiu como uma provocação deliberada, num período em que Vertov era uma figura periférica se comparada ao interesse em torno de Eisenstein. Em pouco tempo, lembrou Hicks, além de brigar em função de Eisenstein e Vertov, os esquerdistas franceses também se deixariam levar por debates em torno das diferentes interpretações da obra do segundo. (19). Embora a narração em O Vento do Leste também critique Vertov, é a sua fotografia que está na capa do livro mostrado na tela:

“(...) Vitória do cinema revolucionário, 19 de julho de 1920. Depois que o camarada Lênin se dirigiu ao 2º Congresso da 3ª Internacional, sobre os deveres principais da Internacional Comunista, o camarada Dziga Vertov declarou à tribuna: Nós, cineastas bolcheviques, sabemos que não existe um cinema em si, o cinema de luta de classe. O cinema é atividade secundária e nosso programa é ultra simples: ver e mostrar o mundo, em nome da revolução mundial do proletariado. É o povo que faz a história” (Sequencia de Ivan, o Terrível, à qual Godard sobrepôs a cabeça de Stalin, em História(s) do Cinéma - Toutes les Histoires 4b , 1988)


A narração faz menção inclusive à tendência de mostrar apenas corpos e rostos que corroborem o padrão de beleza burguês vigente. Um padrão burguês que era seguido pelo cinema czarista pré-revolucionário, e que não foi abandonado pelo cinema bolchevique. Nota-se que na sociedade ocidental misógina algumas coisas nunca mudam, apesar de a mulher ter adquirido mais autonomia depois da revolução, para as telas de cinema a beleza exterior parece não ter deixado de ser sinônimo de um “padrão de qualidade”. Kulechov já havia se queixado disso no que diz respeito ao desinteresse em relação a sua esposa, Aleksandra Sergeyevna Kokhlova (1897-1985), que era atriz e cineasta – ela foi colocada numa espécie de “geladeira”, não conseguindo trabalho por um bom tempo. Segue a narração no filme do coletivo Dziga Vertov:

“(...) Entretanto, nas telas do hemisfério ocidental, sempre reinam belos homens e mulheres. Sob o pretexto de que, na tela, devem enfatizar os sentimentos e o instinto de expressar, sem qualquer inibição, as ideias corrompidas da burguesia, sempre se exige aos atores que, ao abrigo de sua maquiagem, representem sem escrúpulos o degenerado modo de vida burguês”. 

A questão era tão flagrante que, apesar de suas críticas à metodologia de Kulechov, Eisenstein não deixou de comentar sobre o fato. Num artigo datado de 1926, Eisenstein enalteceu a capacitação profissional de Kokhlova e lamentou perceber que, apesar de toda celebração em torno das conquistas femininas depois da revolução, os oficiais do governo responsáveis pelo cinema se apegavam firmemente às tradições do conceito capitalista das mulheres na tela. Nesse campo, disparou Eisenstein, a mulher simplesmente não é reconhecida. Os Conselhos artísticos dos estúdios, Eisenstein encerrou a discussão, sempre olham para a mulher como o faria um primitivo criador de gado (20).
Durante o episódio do fechamento do Festival de Cannes, uma moção saúda o fato: “O Festival de Cannes parou, todo o cinema em luta contra o poder gaullista [- ideologia política baseada no pensamento de Charles De Gaulle, então presente da França]. Os cineastas, jornalistas, produtores, recusam ser o instrumento de uma estupidez generalizada a serviço de uma sociedade capitalista contestam. Nossos objetivos são aqueles de todos os trabalhadores atualmente em luta. Nós queremos a reorganização dos meios de produção e de distribuição, a supressão das censuras” (21). Dentre as várias propostas de mudança, aquela elaborada pelos Cahiers du Cinéma foi intitulada “A Linha Geral”, em referência ao filme de Eisenstein. Na sequência, o narrador em O Vento do Leste faz um comentário negativo em relação ao filme de Eisenstein:

“(...) Derrotas do cinema revolucionário, 18 de novembro de 1924. Alguns dias após a morte de Lênin, Serguei Eisenstein sai transtornado de uma projeção de Intolerância, filme do imperialista norte-americano Griffith. Consequência: em 1925, confunde atividade principal com atividade secundária. Eisenstein filma a revolta dos marinheiros do encouraçado Potemkin ao invés de glorificar as lutas do momento. Consequência: em 1929, em A Linha Geral, a propósito da reforma agrária, se Eisenstein sabe falar em novos termos sobre a opressão czarista, ele ainda só sabe recorrer a conceitos antigos, para descrever a coletivização. Para ele, o antigo triunfa, definitivamente, sobre o novo. Consequência: cinco anos depois, Hollywood o chama para filmar a revolução mexicana, enquanto em Berlim o doutor Goebbels exige dos dirigentes da UFA um Encouraçado Potemkin nazista” (imagens abaixo, A Linha Geral, 1929)


A referência à revolução Mexicana remete a ¡Que Viva Mexico!, o filme inacabado de Eisenstein. Para Godard, realizar Potemkin era se desviar do tema da luta de classes. Ao que parece, o cineasta francês acredita que O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925) está muito mais próximo dos filmes de propaganda nazistas do que acreditava Kracauer! Finalizando seu discurso, O Vento do Leste voltou à Vertov:

“(...) As comemorações do cinema revolucionário, 17 de novembro de 1935. Preleção do camarada Stalin à 1ª Conferência dos Stakhanovistas da URSS. Atordoado pela ambiguidade dessa preleção, Dziga Vertov esquece que a política comanda a economia. Faz de seu filme, O Décimo Primeiro Ano, um hino ao resultado comercial, ao invés de fazer dele um veículo à glória dos onze anos da ditadura do proletariado, a ditadura do proletariado. Foi nesse momento que o revisionismo invadiu definitivamente as telas soviéticas” (...).

Alguns anos mais tarde, Godard iria se dedicar à exploração da linguagem do videotape. Hoje em dia, nos tempos da digitalização do mundo, muita gente nem sabe do que se trata. Mas na época, entre os anos 70 e 80, muitos cineastas se interessaram pelas possibilidades técnicas da nova mídia. Além de Godard, Wim Wenders, Francis Ford Coppola e Michelangelo Antonioni realizaram alguns filmes nesse novo formato. No prefácio de Cinema, Vídeo, Godard, livro de Philippe Dubois sobre esta fase da obra de Godard, Arlindo Machado define as “novas tecnologias” daquela hora como o lugar da fragmentação, em oposição ao cinema. Com o vídeo, afirmou Dubois, a problemática da montagem muda completamente. Machado resgata a presença avant la lettre de Eisenstein nesse campo:

“Outra característica da imagem-vídeo é a assimilação da à montagem à própria imagem, efeito que já havia sido referido nos anos 40 pelo cineasta Serguei Eisenstein como ‘montagem vertical’, ou ‘montagem polifônica’, ou ainda ‘montagem dentro do quadro’. No vídeo, monta-se (na verdade, edita-se) muito mais do que no cinema. Em vez de poucos e longos planos-sequência, como no cinema, o vídeo prefere multiplicar uma grande quantidade de fragmentos fechados e curtos. Mas, em lugar de obedecer a uma sequência linear de planos, as imagens videográficas são ‘coladas’ umas sobre as outras (sobreimpressão), ou umas ao lado das outras (efeito-janela), ou ainda umas dentro das outras (incrustação) e sempre dentro do mesmo quadro. Uma imagem pode terminar e ser substituída por outra, mas outra imagem presente no mesmo espaço do quadro pode continuar sem cortes. Dessa maneira, fica impossível saber quando terminar um plano e começa outro, pois a própria noção de plano, fundante no cinema, entra em colapso quando transportada para o quadro videográfico (...)” (22)
Machado cita a afirmação de Deleuze de que cineastas como Godard introduziram o pensamento no cinema. Isto é, conseguiram emprestar para o cinema a mesma eloquência de pensamento que outrora os filósofos conseguiram utilizando a escrita verbal. De acordo com Machado, este seria o pano de fundo de Dubois ao refletir sobre a idéia de um “ensaio audiovisual” godardiano através da utilização do vídeo, onde este não é mais uma forma de narrar e registrar, mas um pensamento, um modo de pensar. O objeto desse pensamento seria o próprio cinema, um metadiscurso sobre o cinema. Entretanto, o “filme-ensaio” se distingue do relato científico ou da comunicação acadêmica por ir além da do aspecto apenas instrumental da linguagem acadêmica. A questão nova é a possibilidade de ensaios não escritos, em forma de enunciados audiovisuais, que ultrapassam a forma verbal baseada na linguagem escrita. Resgatando a proposta de Eisenstein, mas em choque com a contribuição de Vertov (e trazendo novamente à baila a distância entre o pensamento de ambos em O Vento do Leste), Machado mostra como a reflexão de Dubois se encaixa aí:


“Essa discussão surge, na verdade, no interior do pensamento marxista, mais exatamente na Rússia soviética dos anos 20, quando alguns cineastas engajados na construção do socialismo vislumbraram no cinema mudo a possibilidade de promover um salto para uma outra modalidade discursiva, fundada já não mais na palavra, mas numa sintaxe de imagens, nesse processo de associações mentais que recebe, nos meios audiovisuais, o nome de montagem ou edição. O mais eloquente desses cineastas, Serguei Eisenstein, formulou, no final dos anos 20, a sua teoria do cinema conceitual, cujos princípios ele foi buscar no modelo de escrita das línguas orientais. Mas se Eisenstein formulou as bases desse cinema, quem de fato o realizou na Rússia revolucionária foi o seu colega Dziga Vertov, que conseguiu assumir com maior radicalidade a proposta de um cinema inteiramente fundado em associações ‘intelectuais’ e sem necessidade do apoio de uma fábula. Jacques Aumont propõe [...] que pensemos O Homem com Uma Câmera [Chelovek s kino-apparatom, 1929] de Vertov como o lugar onde o cinema se funda como teoria, baseando-se numa afirmação do próprio cineasta [...]: ‘Esse filme não é apenas uma realização prática, mas também uma manifestação teórica na tela’. Denso, amplo, polissêmico, o filme de Vertov subverte tanto a visão novelística do cinema como ficção, como a visão ingênua do cinema como registro documental. O cinema torna-se, a partir dele, uma nova forma de ‘escritura’, isto é, de interpretação do mundo e de ampla difusão dessa ‘leitura’, a partir de um aparato tecnológico e retórico reapropriado numa perspectiva radicalmente diferente daquela que o originou” (23) (imagem acima, Ivan, o Terrível, parte 1, 1944)

De acordo com Machado e Dubois, é com Godard que o cinema-ensaio alcança sua expressão máxima. Machado cita a ausência de enredo e narratividade em Duas ou Três Coisas que Sei Dela (Deux or Trois Choses qui je Sais sur Elle, 1966). Não é uma ficção, não é um documentário, é um filme-ensaio. Ou ainda, como Scénario du Film Passion (1982), onde o “cinevideasta”, sentado diante de sua parafernália, redecora o antigo modelo do escritório dos filósofos. Da vida do produtor de pensamentos audiovisuais, saem a escrivaninha e os livros, entram a ilha de edição, a câmera e o computador. O produto disso se pode assistir em História(s) do Cinema [(Histoire(s) du Cinéma: Toutes les Histoires, 1988)], colagem de recordações, anotações, fotografias e vídeos que Godard mistura na mesa de edição. Não é possível compreender verbalmente um pensamento audiovisual construído pela combinação indecomponível de imagens, sons e palavras. Curiosamente, Machado nos mostra que Godard acaba reencontrando, misturado à Vertov, ao mesmo Eisenstein que havia tripudiado em O Vento do Leste:

“Godard – assim Dubois finaliza seu livro – nos ensinou a pensar em imagens (e não mais em linguagem verbal): as sobreimpressões, as incrustações, as ‘janelas’ (que começam a aparecer em Six Fois Deux [1982]) são instrumentos com os quais ele busca ligações ou relações entre personagens, coisas e ações. Em [France/tour/détour/deux/enfants, 1977] começa a aparecer na obra de Godard um elemento novo, que, segundo Dubois, ‘marca a passagem a uma outra forma de escrita’: as mudanças de velocidade de exibição das imagens, as câmeras lentas sincopadas e o congelamento dos movimentos das crianças, que parecem apontar para uma atitude analítica, uma vontade de fazer as coisas irem mais devagar para que os seus processos constitutivos possam ser melhor apreciados e compreendidos. (...) Também aqui há um eco dos métodos criativos de Eisenstein e Vertov, que operavam basicamente com a montagem, mas já adicionando fusões, janelas múltiplas, alterações de velocidade de captação, congelamento de imagens, etc. Lá como aqui, ontem como hoje, algo parece se insinuar na história do audiovisual e poderia ser sumariamente interpretado como uma ânsia de passar do visível ao invisível, do concreto ao abstrato, da mostração à demonstração, com os novos instrumentos que o pensamento criou para melhor pensar” (24) (abaixo, ¡Que Viva Mexico!, 1979)

Os Editores de Eisenstein


Em 1934, o próprio Eisenstein reclamou de uma primeira versão de ¡Que Viva Mexico! lançada nos Estados Unidos e Inglaterra no ano anterior. Intitulada Thunder over Mexico (edição Don Hayes, Carl Himm e Harry Chandlee), o tom desgostoso de Eisenstein em relação esta versão obviamente sugere que tenha sido seguido outro critério de montagem que não era o seu. Outras montagens são Death Ray (Don Hayes, 1933), Einstein in Mexico (Hayes e Chandlee, 1933), Time in the Sun (Marie Seaton e Paul Roger Bunford, 1939), Mexican Symphony (William F. Kruse, 1942), Eisenstein’s Mexican Film: Episodes for Study (Jay Leyda, 1957) e ¡Que Viva Mexico! (Grigory Alexandrov, 1979). Eduardo de la Vega Alfaro citou ainda uma edição feita por Kenneth Anger em 1950 e outra em 1994-5, por Lutz Becher (que está na cinemateca de Paris), sob os auspícios do British Film Institute  (25).
Geralmente, O Encouraçado Potemkin costuma ser o mais citado dentre os filmes que as pessoas se lembram de ter sido realizado por Eisenstein. Nesse sentido, é curioso que o cineasta italiano Michelangelo Antonioni tenha citado ¡Que Viva Mexico! como seu filme predileto dentro da obra do cineasta soviético (26). Curioso porque, na realidade, este filme não existe. O projeto original foi abortado, as versões que se conhece hoje são compilações de imagens (essas sim feitas por Eisenstein e sua equipe), realizadas por algumas pessoas que tentaram “terminar” o trabalho de Serguei. E Antonioni disse isso em 1958, quando a obra de Eisenstein já contava com seis versões! ¡Que Viva Mexico! também era da preferência de outro italiano, Pier Paolo Pasolini, que deixou isso claro em 1973, através de um comentário relativamente hostil:


“Provavelmente eu sou um dos raros intelectuais a não gostar de Eisenstein. Eu sei que ele tem um grande talento, e que sua figura é talvez a cúpula que domina o Formalismo Russo. Mas acredito que todas as suas obras são fracassos, com exceção de ¡Que Viva Mexico!, porque não foi montado por ele (e aqueles que o montaram, o fizeram de uma maneira magnificamente convencional). O Encouraçado Potemkin é um filme verdadeiramente horrível, onde o conformismo com o qual são vistos os personagens revolucionários é aquele da propaganda mais sectária, mais ao gosto particular da forma própria ao ‘pôster’ (onde Vertov se sobressaiu, na mesma época). Os marinheiros do Potemkin são seres sem alma, sem corpo, sem sexo, que se movimentam como marionetes ‘positivas’. Não é suficiente estar certo e ser um herói para estar vivo. Eisenstein somente se libera desse servilismo propagandístico na célebre ‘sequência da escadaria de Odessa’: ali explode seu formalismo (no sentido usual e não apenas histórico do termo), e a sequência é muito bela, indubitavelmente; mas é exatamente ela que destaca toda a chantagem e falta de sinceridade do resto do filme (assim como a surpreendente sequência dos Cavaleiros Teutônicos destaca o lado de teatro amador ridículo de todo o resto de Alexander Nevsky, etc.)” (27) (imagem acima, Ivan, o Terrível, parte 1)

Para alguém cujo legado foi sua contribuição no campo da montagem no cinema, não deixa de ser irônico que um dos filmes mais cultuados de Eisenstein seja justamente aquele que o cineasta não conseguiu finalizar. Some-se à anterior outra ironia, pois ¡Que Viva Mexico! acabaria por se transformar no caderno de exercícios de adivinhação de vários editores, todos remontando o material que Eisenstein filmou naquele país. Para alguém cuja pretensão foi tentar compreender as formas que tomam as histórias de acordo com a maneira que se escolhe sequenciar as cenas, o destino foi bem direto quando mostrou a Eisenstein que a morte edita a vida. Como sugeriu Pasolini certa vez, a morte edita a vida! Mas quem sabe? Talvez seja a própria vida editando a si mesma.

Citações em Tempo de Guerra


 “Os degraus em O Encouraçado Potemkin são a mãe de todos
os degraus. Indubitavelmente, a mais impressionante
cena com degraus que o cinema já nos deu (...)

Pedro Almodóvar (28)

Alguns anos antes de se tornar conhecido como pai do neorrealismo italiano no cinema, Roberto Rossellini realizou três filmes quando ainda trabalhava para Benito Mussolini - eles enalteciam cada uma das forças armadas desse que, para muitos, será lembrado apenas como o aliado trapalhão de Adolf Hitler. La Nave Bianca (1941) mostrava a marinha italiana, na sequência inicial vemos o grande canhão de um encouraçado apontado em nossa direção. Muito provavelmente, Sandro Bernardi esteja certo, tais imagens remetem diretamente à dos canhões do grande navio dos marinheiros amotinados em O Encouraçado Potemkin (29). Talvez esta referência possa também ser relacionada ao interesse que o Ministro da Propaganda de Hitler expressou pelo filme de Eisenstein.
De fato, não parece uma coincidência que o grande canhão no filme de Rossellini esteja apontado ao mesmo tempo para os inimigos da Itália e para a plateia. Como bem lembrou Ruth Ben-Ghiat, se o filme de Eisenstein cumpria primariamente uma função propagandística, certamente a referência reforçava o slogan de Mussolini (tomado de empréstimo aos bolcheviques) de que o cinema seria arma mais forte dos fascistas para influenciar e doutrinar. Nota-se que tanto os nazistas alemães quanto os fascistas italianos, anticomunistas de carteirinha, reconheciam a capacidade dos cineastas soviéticos no que diz respeito à propaganda.
Evidentemente, a sequência mais citada de Potemkin é aquela da escadaria de Odessa. Quando o norte-americano George Lucas lançou sua Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977 em diante), seguiu o modelo iconográfico das manifestações públicas nazistas (que por sua vez se inspiravam especialmente nos fascistas de Mussolini). As cenas com escadarias no filme de Lucas remetem diretamente às imagens de O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens, 1935), documentário de Leni Riefenstahl. Neste ponto, a bem da verdade, é preciso esclarecer que, conscientemente ou não, talvez Eisenstein seja aqui uma referência por linhas tortas. Seu filme é de 1925, o de Riefenstahl veio dez anos depois (embora as escadarias nazistas já existissem antes).
Por outro lado, Lotte Eisner chamou atenção para uma atração profunda do Expressionismo alemão (que Hitler e Goebbels repudiaram) por escadarias – “a escada, em determinados filmes alemães, tem tanta importância quanto a que os cossacos descem em Potemkin” (30). Embora também seja verdade que estas tinham uma geometria tortuosa, bastante distinta das escadarias perfeitamente retas (racionais?) tanto em O Encouraçado Potemkin quanto em O Triunfo da Vontade

Para os mais jovens, é possível que a citação da escadaria de Odessa em Os Intocáveis (The Untouchables, direção Brian De Palma, 1987) venha mais rapidamente à lembrança. Mas é preciso resgatar também a mesma citação feita pelo italiano Bernardo Bertolucci em Partner (1968). O filme foi realizado em Roma, mais sob a influência direta dos distúrbios de maio de 1968, em Paris. Em 1900 (Novecento, 1976), Bertolucci voltaria a citar Eisenstein. 
Desta vez, Claretta Tonetti acredita que há uma referência a Alexander Nevsky quando o fascista Giovanni Berlinghieri fala da necessidade de uma cruzada contra “bolcheviques semiasiáticos”. No filme de Eisenstein, os cavaleiros teutônicos também fazem uma referência à cruzada contra a “raça semiasiática” comandada por Nevsky (31). É importante notar também que, embora não se trate de filmes de guerra como La Nave Bianca, à sua maneira Os Intocáveis e Partner remetem a mundos em desequilíbrio. Enquanto o primeiro fala de uma sociedade vivendo fora da lei, o segundo denuncia uma onde o mercado faz as leis. Sendo um eslavo originário da região do Mar Báltico, suficientemente próximo dos países nórdicos para ser considerado “menos eslavo”, o próprio Eisenstein poderia estar incluído nessa fala dos cavaleiros teutônicos (os mesmos alemães com quem mantivera intensa interlocução quando do lançamento de Potemkin naquele país) a respeito do perigo da “raça semiasiática”. 


Salvo pela aplicação do Acordo Ortográfico e acréscimo de imagens, Serguei Eisenstein e os Outros: Prós e Contras foi originalmente publicado na Revista Universitária do Audiovisual (ISSN 1983-3725), da Universidade Federal de São Carlos (RUA/UFSCar), Edição nº 55, 15 de dezembro de 2012

Leia também:

Notas:

1. TAYLOR, Richard. Now that the Party’s Over: Soviet Cinema and Its Legacy. In: BEUMERS, Birgit (Ed.). Russia on Reels. The Russian Idea in Post-Soviet Cinema. London/New York: I.B. Tauris, 2006. P. 35.
2. BEUMERS, Birgit (Ed.). Op. Cit., p. 5.
3. FRAYLING, Christopher. Spaghetti Westerns. Cowboys and Europeans from Karl May to Sergio Leone. London/New York: I. B. Tauris, 2ª ed., 2006. Pp. 5, 6, 7, 16, 19, 28-9, 214, 223.
4. TAYLOR, R. Sergei Eisenstein. Selected Works: Writings, 1934-1947. London/New York: I.B. Tauris, Volume III, 2010b. P. 22.
5. ROBERTSON, Robert. Eisenstein on the Audiovisual. The Montage of Music, Image and Sound in Cinema. London/New York: I. B. Tauris, 2009. Pp. 71-3, 78.
6. FRAYLING, C. Op. Cit., p. 214.
7. CHION, Michel. Andreï Tarkovsky. Paris: Cahiers du Cinéma/Le Monde, 2007. P. 52.
8. TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo. Tradução Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2ª ed., 2002. Pp. 135-6, 139.
9. Idem, p. 140.
10. XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do Cinema: antologia. São Paulo: Edições Graal Ltda., 4ª Ed., 2008. P. 189.
11. Depoimento de Larissa Tarkovskaja no documentário Dirigido por Andrei Tarkovski (Directed by Andrej Tarkovskij, idéia e manuscrito de Michał Leszczyłowski, 1988), lançado no Brasil pela distribuidora Continental Home Vídeo.
12. Neste ponto da frase optei pela tradução da edição francesa [qui ne sait pas d’avance qu’il s’agit d’un “classique” du cinéma...], pois a tradução para a edição portuguesa não faz sentido: “... que ainda não foram convencidos de que se trata de um filme ‘clássico’”.
13. TARKOVSKI, A. Op. Cit., p. 142.
14. BIRD, Robert. Andrei Tarkovski. Elements of Cinema. London: Reaktion Books Ltd, 2008.
197-201; TARKOVSKI, A. Op. Cit., pp. 72, 73.
15. TARKOVSKI, A. Op. Cit., p. 198.
16. BIRD, R. Op. Cit., p. 199.
17. BAECQUE, Antoine de. Godard. Biographie. Paris: Éditions Grasset & Fasquelle, 2010. P. 54.
18. Idem, pp. 457-460.
19. HICKS, Jeremy. Dziga Vertov. Defining Documentary Film. London/New York: I. B. Tauris, 2007. P. 134; XAVIER, I. Op. Cit., p. 202.
20. TAYLOR, R. (Ed.). Sergei Eisenstein. Selected Works: Writings, 1922-1934. London/New York: I.B. Tauris, Vol. I, 2010a. Pp. 71-3.
21. BAECQUE, A. de. Op. Cit., p. 419.
22. DUBOIS, Philippe. Cinema, Vídeo, Godard. Tradução Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004. Pp. 14-5.
23. Idem, pp. 17-8.
24. Ibidem, p. 20.
25. VEGA ALFARO, Eduardo de la. Eisenstein e a Pintura Mural Mexicana. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006. P. 58; TAYLOR, R. (Ed.). Op. Cit., 2010ª, pp. 279, 325n9.
26. ANTONIONI, Michelangelo. Architecture of Vision. Writings and Interviews on Cinema. Chicago: University of Chicago Press, 1996. P. 7.
27. JOUBERT-LAURENCIN, Hervé (org.). Pier Paolo Pasolini. Écrits sur le Cinéma. Petits Dialogues Avec les Films (1957-1974). Paris/Lyon: Cahiers du Cinéma/Presses Universitaires de Lyon et Institut Lumière, 2000. Pp. 163-4.
28. DUNCAN, Paul; PEIRÓ, Bárbara. The Pedro Almodóvar Archives. Köln: Taschen, 2011. P. 362.
29. BEN-GHIAT, Ruth. The Fascist War Trilogy. In: FORGACS, David; LUTTON, Sarah; NOWELL-SMITH, Geoffrey (Eds.). Roberto Rossellini, Magician of the Real. London: British Film Institute, 2000; BERNARDI, S. BERNARDI, Sandro. Rossellini’s Landscapes: Nature, Myth, History. In: FORGACS, David; LUTTON, Sarah; NOWELL-SMITH, Geoffrey (Eds.). Op. Cit., pp. 24, 54.
30. EISNER, Lotte H. A Tela Demoníaca. As Influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Tradução Lúcia Nagib. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. P. 88.
31. TONETTI, Claretta Micheletti. Bernardo Bertolucci. The Cinema of Ambiguity. New York: Twayne Publishers, 1995. Pp. 158-9.

18 de abr. de 2018

O Cinema Francês e a Indochina


“A França sempre relutou em confrontar seu próprio passado; 
‘amnésia’  é  uma  palavra frequentemente utilizada ao se referir
  à  colonização  e  descolonização,  mesmo em trabalhos [...] como  
Lieux  de  la  Mémoire  (1997),  editado  por  Pierre Nora (...) (1)

Triângulo Amoroso e Colonialismo

Éliane Devries nasceu de pais europeus na colônia francesa da Indochina e se tornou a dona de uma fazenda de seringueiras produtora de borracha em Anam – região que compreende mais ou menos o que no futuro se transformará no Vietnã. Ela adotou a pequena Camille, na realidade filha dos reais donos da terra herdada por ela. Éliane, que nunca esteve na França, não se veste como uma ocidental e se diz filha daquela terra. Contudo, aparenta saber exatamente qual é o seu lugar e trata seus funcionários com pulso firme. Certa vez, ao repreender um deles com chicotadas perguntou: “você acha que mães gostam de bater em seus filhos?”. Durante a década de 1930, tudo vai bem para os franceses: os colonizadores tiram todo o lucro que conseguem, enquanto a população é mantida em estado de indigência e fome – exceto a elite local ananita, que é pró-Ocidente, pró-domínio colonial e anticomunista. Camille, que cresceu como uma europeia e viveu boa parte de sua curta vida na França, não parece se importar em nada saber a respeito da relação de sujeição dos habitantes locais ao invasor francês. Enquanto isso, Éliane se apaixona por Jean-Baptiste, oficial da marinha francesa. Guy, chefe da polícia francesa, também é apaixonado por Éliane, mas ela nunca se entregou a ele – embora utilize seus serviços de cão de guarda do colonizador. Camille está sendo preparada para se casar com Shen, outro filho da elite ananita local rica e pró-ocidental. Durante um atentado nas ruas da cidade, Camille será ferida. Socorrida por Jean-Baptiste, os dois se apaixonam imediatamente.


 Anam  é  a  região  da  Indochina  francesa  representada
no filme - correspondente ao futuro Vietnã. Por este motivo, em
  Indochina  os  nativos são sempre chamados de ananitas 

Depois de algumas cenas da discórdia que se segue entre mãe e filha, Camille começa a olhar para os lados e percebe como vive seu povo: subjugado, subnutrido, sem direitos e cheio de deveres para com o invasor, colonizador, que se autointitula civilizador. Ela acaba fugindo de seu idílio de herdeira da grande propriedade e termina sendo vendida como escrava – cujo comércio é “supervisionado” pelos franceses. Jean-Baptiste, que havia sido enviado para aquele local como punição por insubordinação, salva Camille e torna um proscrito ao fugir com ela – o casal será ajudado por Shen, que agora é um líder comunista comprometido com a independência do país. Eles acabam tendo um filho, Etienne, que Jean-Baptiste entrega a Éliane e se suicida. Anos depois, o “benevolente” governo colonial anistia todos os presos e Camille reencontra Éliane. É tarde demais para essa família, Camille está agora comprometida com a causa da guerrilha comunista que pretende expulsar os franceses e quer esquecer seu passado. No final, compreendemos que durante todo o tempo a voz de Éliane que escutamos como uma narração é o momento em que ela conta para o filho de Camille e Jean-Baptiste a história dele. Naquele momento todos estão em Genebra, na Suíça, onde uma comitiva vietnamita veio assinar o tratado de paz com a França, que dividirá o país em dois, o Vietnã do Norte, comunista e o sul, pró-capitalista – uma independência que não duraria muito tempo. Camille está na comitiva e Éliane pergunta ao filho dela, que já é adulto, se quer encontrá-la. Ele recusa, argumentando que seriam dois estranhos tentando conversar. Então define a situação explicando para Éliane: “você é minha mãe”.

Missão Civilizatória Defunta


(...)  [Indochina]  oferece  uma  visão consensual do colonialismo
 através da reconstrução do passado baseado em estereótipos (...)” 

Brigitte Rollet (2)

Com Indochina (Indochine, direção Régis Wargnier, 1992), o cinema francês quebraria um jejum de muitas décadas. Relutante em confrontar seu passado, especialmente em relação ao tema do colonialismo e, principalmente, da descolonização. Ao contrário de muitos cinemas nacionais que mostram as mazelas de suas sociedades, podemos citar filmes neorrealistas italianos que despertaram a fúria de personalidades conservadoras (Giulio Andreotti, primeiro ministro da Itália por vários mandatos, apoiava aqueles que diziam que “roupa suja se lava em casa”), a França parece não se enquadrar nessa tendência. De acordo com Brigitte Rollet, pelo menos até o início dos anos 2000 existia na França um silêncio amargo em torno dessas guerras que o país perdeu e que levaram ao fim do próprio império. Ainda segundo ela, “amnésia” é a palavra mais utilizada quando o assunto é colonização e descolonização, mesmo em trabalhos acadêmicos. Indochina e Argélia foram descritas como um “não lugar na memória”, o que explica em parte a ausência de filmes relativos a esses conflitos. É o que sugere Rollet, para quem este é particularmente o caso da Indochina, que, apesar de ser chamada de “a pérola do Império”, inspirou menos diretores franceses do que a colônia da África do Norte. Em torno de 150 filmes (incluindo coproduções) foram realizadas no Maghreb argelino entre 1911 e 1961, enquanto apenas alguns documentários e filmes de ficção foram feitos entre 1920 e 1930 nas colônias do oriente. Wargnier afirmou que sua intenção foi mostrar a colonização através de um filme onde nada foi inventado, mostrando uma colonização como ninguém havia visto antes. Contudo, pelo contrário, Rollet considerou que Indochina oferece uma visão consensual do colonialismo ao reconstruir o passado através de estereótipos (3). (imagem abaixo, o caótico campo de batalha em 1954 onde os franceses, entrincheirados na lama, perderam definitivamente a posse da Indochina, Diên Biên Phu, 1992)


 Em 1939 o império francês, ou seja, a soma dos habitantes da França
  e das populações das regiões que ela pretendia  “desinteressadamente 
 salvar”   da   própria ignorância,  contava  110  milhões  de  habitantes.
 Diên Biên Phu,  mostrou  a  perda do controle sobre 40 milhões deles

Entre 1945 e 1956, os franceses viam a Indochina apenas através do noticiário, como esse período cobre a guerra de independência, invariavelmente o que se apresentava era apenas a versão do governo francês. Depois da guerra, continua Rollet, alguns poucos filmes abordaram o assunto, algo entre treze ou quatorze produções. Mãos Vermelhas (Goupi Mains Rouges, direção Jacques Becker, 1942) ou O Juiz e o Assassino (Le Juge et l'Assassin, direção Bertrand Tavernier, 1976) abordam a questão apenas de forma enviesada ao incluir antigos expatriados da Indochina. O cinema francês não abordou seu passado colonial da mesma maneira como os Estados Unidos fizeram em relação a seu fiasco no Vietnã. Para Rollet, a tesoura da censura não poderia explicar sozinha o persistente silêncio do cinema francês. Dito isso, ainda mais surpreendente, na opinião de Rollet, que apenas em 1992 tenham sido lançados nada menos do que três filmes a respeito do conflito: além de IndochinaDiên Biên Phu (direção Pierre Schoendoerffer), com o maior orçamento do cinema francês até então, e O Amante (L’Amant, direção de Jean-Jacques Annaud). Este interesse repentino sobre o Extremo Oriente poderia ser explicado por alguns fatores. A então recente agitação na África do Norte; desejo por exotismo; nostalgia consciente ou inconsciente pelo império perdido; e/ou a aceitação tardia da descolonização. Em princípio, Rollet acha difícil discordar do interesse pelo exótico, agências de viagens utilizavam imagens dos filmes e críticos em artigos enfatizaram as belas paisagens, ao invés de comentar sobre a problemática relação da França com sua antiga colônia e as ambiguidades de sua “missão civilizatória”.


 Indochina é um drama  épico que se passa nos últimos vinte 
anos da presença francesa naquela região, acontecimentos históricos
são entrelaçados  com  as  vidas  de  personagens  fictícios  (4)

Rollet até admite que a escolha de Erik Orsenna e Louis Gardel como corroteiristas poderia levar a crer numa perspectiva séria em relação aos assuntos coloniais por parte de Wargnier – Orsenna havia ganhado em 1988 o prêmio Goncourt, por seu livro L’Exposition Coloniale; Gardel escreveu a respeito do império na África do norte, em Fort Saganne (1980), que virou filme em 1984. Ao mesmo tempo, Wargnier sempre admirou o britânico David Lean e considerava Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962) seu filme favorito. Inicialmente, sua intenção era reescrever Madame Butterfly no contexto da colonização francesa da Indochina. Embora tenha mantido o elemento da jovem asiática (Camille) que se apaixona pelo oficial francês, Wargnier mudou a perspectiva. O personagem principal de Indochina não é uma jovem nativa, mas uma mulher francesa Éliane Devries. O caso de amor se transforma num triângulo entre ela, Camille e Jean-Baptiste. A história é ambientada nos últimos vinte anos da presença francesa na Indochina, sendo construída como um drama épico. Alguns eventos históricos são articulados com as vidas dos personagens fictícios, como o massacre da baía Yam e suas consequências na França e na Indochina. Outro exemplo é a soltura de Camille da prisão de Poulo Condor durante uma anistia do governo direcionada aos presos políticos. Foi uma atitude do governo francês da Frente Popular, liderado por Léon Blum, em 1936. Lá Camille definitivamente se torna uma comunista, sendo chamada  de “rainha vermelha” pelo povo.


Apesar de paisagens bonitas, a abordagem de Indochina em relação
ao  colonialismo é estereotipada,  podendo  facilmente  ilustrar  a  tese
de Albert Memmi sobre a relação entre o colonizador e o colonizado

Além de melodrama (as exigências do amor, família e dever), Indochina apresenta também elementos típicos do “filme colonial” segundo Pierre Boulanger (utilização extensiva de ambientes naturais e a cor local). A sequência de abertura evoca um funeral tradicional em imagens que Rollet considera semelhantes aos documentários de “costumes nativos” do início do século XX. Ao invés do palácio Angkor, locação típica desses filmes, Wargnier optou por vistas aéreas da baía Hạ Long (o labirinto de águas e montanhas palco tanto do tráfico de escravos quanto da fuga de Camille e Jean-Baptiste), imagens típicas de outro tipo de documentário. Rollet ressalta a predominância dos brancos e do olhar ocidental. Os ananitas são secundários, sua presença se justifica apenas em função dos ocidentais, sempre presentes em todas as cenas. Na opinião de Rollet, a apresentação da colônia é completamente estereotipada, considerando inclusive os papeis no sentido definido por Albert Memmi em Retrato do Colonizador precedido por Retrato do Colonizado (Colonizer and Colonized, 1965), onde a visão do colonizador é para o exótico, enquanto o cotidiano dos nativos é só um pano de fundo. Rollet observa que, logo no início, vemos vários tipos de relação entre colonizador e colonizado. Camille, a ananita que pertence à aristocracia local e foi adotada pela ocidental, chega em um carro de luxo dirigido por um motorista indiano e vai dançar tango com Éliane. Simultaneamente, outra jovem ananita tem seus cabelos acariciados por um homem mais velho, seu amante. Na sequência seguinte, Éliane fala de maneira paternalista com seu cozinheiro ananita – no primeiro caso o colonizado é um “igual”, no segundo é “privilegiado”, no terceiro e mais inferior, não passa de serviçal doméstico.


Rollet afirma que Indochina reforça o estereótipo quando, por
 exemplo, representa  apenas  os  colonizados, não os colonizadores, 
cometendo maldades. A não ser que se considere que assim o filme
problematiza a maior  atrocidade, a própria  colonização  em si

Na primeira categoria, além de Camille no futuro, o único nativo privilegiado que muda de posição é Tanh. De volta de seus estudos na França, de onde foi expulso porque conseguiu enxergar o abismo existente entre a teoria da declaração dos direitos do homem e a realidade da vida nas colônias francesas, Tanh é mais um que foi para o Partido Comunista local. Rollet chama atenção também para o fato de que para suavizar a representação negativa dos colonizadores, os colonizados é que são mostrados agindo de forma negativa. Quando os prisioneiros políticos são torturados da delegacia de polícia (controlada por oficiais franceses), o torturador é um policial ananita. Durante a sequência do mercado de escravos (supervisionado pelo exército francês), é um mercador ananita que age de forma mais desprezível (examinando olhos e dentes dos escravos). Embora um oficial francês tenha matado uma criança minutos antes, isso não é mostrado. Ainda que possamos ouvir, também não assistimos quando Éliane chicoteia um de seus trabalhadores - quando observamos acontecer, noutra ocasião, quem bate é um ananita. (imagem abaixo, as seringueiras de Éliane)

Marguerite Duras e sua Indochina


 Embora  sua família fosse  muito pobre, a infância e adolescência de
 Duras foi boa, muitas crianças cambojanas e caminhadas na floresta

A escritora e cineasta francesa Marguerite Duras (nascida Donnadieu, 1914-1996) nasceu na Indochina de pais franceses. Mais especificamente, nascida em Saigon, na parte sul da Indochina, chamada Cochinchina – depois que os Estados Unidos foram expulsos da região, eles que “substituíram” os franceses, a cidade mudou de nome, passando a chamar-se Ho Chi Minh. O sobrenome, a escritora adotou depois que teve de seu mudar para a França. As primeiras brincadeiras de sua infância foram na companhia de crianças vietnamitas (ananitas). Ela só falava o idioma deles (que a mãe nunca conseguiu aprender) e como eles andava descalça – Éliane, que também se dizia filha da terra, nunca foi vista sem sapatos. A mãe dela insistia que os filhos compreendessem que eram franceses! Certo dia, conta a escritora, sua mãe esteve em Saigon e comprou maças vermelhas para se acostumarem com a comida francesa – lembrar aqui da preferência de Éliane por mangas, uma fruta nada francesa. Duras explicou que, embora a mãe não tivesse aprendido o idioma local, era professora de origem camponesa e, como a família era muito pobre, acabou tendo mais contato com os vietnamitas do que com os europeus. Até quatorze ou quinze anos de idade, Duras explicou, só teve amigos nativos. Se Indochina fosse baseado na biografia de Duras, ou, melhor ainda, na vida da mãe dela, a carga dramática seria outra. Embora as lembranças da infância e adolescência na colônia chamada de “pérola do oriente” sejam boas, a realidade de colonizadora da mãe era ruim e o filme não teria um final feliz.


Éliane  come  manga,  fala  o  idioma  e  se  veste  como  os  ananitas. 
A  mãe  de  Duras  não  falava  o  idioma,   porém  tinha  mais  contato
com ananitas do que europeus.  Como os autóctones,  a  escritora vivia
descalça, enquanto a mãe tentou convencê-la de que ela era francesa 
A história da mãe de Duras assume ares de saga, muito distante da “história de sucesso” da colonizadora Éliane. Os pais da escritora aceitaram o desafio de fazer a vida na colônia, logo no início o pai morreu e a mãe teve de criar sozinha os três filhos. Depois de vinte anos de serviço público, ela pegou suas economias e comprou um lote de terra no sul do Camboja, na cidade de Kampot, próxima do mar – talvez próxima demais. Então, quando perceberam a mulher sozinha, viúva, desprotegida, isolada, entregaram uma terra incultivável. Ela ignorava completamente, continuou Duras, que era preciso subornar os agrimensores que demarcariam a terra para conseguir uma terra fértil. Como resultado, recebeu uma terra que era invadida pela água durante seis meses do ano. A família foi arruinada, enquanto todo o dinheiro deles foi repartido pelos funcionários corruptos. Na opinião de Duras, quando a mãe morreu, a injustiça foi realizada completamente. Mas, antes disso, eles se mudaram para terras mais altas e Duras se lembra de ter vivido uma infância muito livre em plena floresta por dias inteiros, já que a mãe estava tão ocupada e meio louca que nem os vigiava mais. Quando se lembrava dos filhos, era para insistir com aquela coisa das maças e de ser francês (5). Para a escritora, aquele prédio de seu filme de 1975, India Song, representa o fim do mundo (especialmente do colonialismo então já praticamente morto e da Guerra Fria viva durante as décadas de 1960 e 1970).

Entre a Propaganda e o Protesto


Kabília, na Argélia, é muito mais próxima da metrópole. Tão perto
que  esta  parte  da  África  do  norte  chegou  a   ser  incorporada  ao
território   francês.    Evidentemente,  a  Indochina   também   gerava
renda  para a França, mas está localizada do outro lado do mundo

A descolonização da Argélia só foi alcançada em função da guerra pela independência, que durante bom tempo se chamou apenas a “guerra sem nome”. Naturalmente, a censura oficial francesa era muito sensível em relação aos problemas nas colônias. Lançado em 1953, o curta-metragem de Alain Resnais, As Estátuas Também Morrem (Les Statues Meurent Aussi), que fala sobre arte africana, mas também denuncia a mutilação da cultura africana pelos colonizadores, foi “guardado a chave”, para retomar a expressão de Chris Marker, seu coautor. Apenas em 1964, portanto depois da descolonização da Argélia, o filme será apresentado, mesmo assim com cortes. A adaptação do romance de Guy de Maupassant, Bel Ami, por Louis Daquin, que retraça a conquista da Argélia pelos franceses em 1830, será proibido até 1957. O Grande Crime (conhecido também como L’Objecteur, ou, ainda, Tu ne Tueras Point, Claude Autant-Lara, 1958), obra pacifista que toca no tema da objeção de consciência (recusa em obedecer ordens do superior militar quando estas vão contra os valores do indivíduo), cujo estatuto foi promulgado na França em 1963. Apresentado no Festival de Veneza como se fosse Iugoslavo, só pôde ser lançado na França em 1961, com treze sequências cortadas (6).


A França censurou todos os filmes que direta ou indiretamente
questionassem a política colonialista oficial.  Especialmente aqueles
 que  expunham  violência  policial,  tortura,  desertores  do  exército, 
e guerra homicida quando a descolonização se tornou inevitável

O projeto de Henry-Georges Clouzot, O Rio do Arroz Sangrento (Mort en Fraude, direção Marcel Camus, 1957), adaptado das histórias de Jean Hougron, que viveu o drama da Indochina, foi barrado porque sua ótica dos acontecimentos na Ásia e na África não está conforme a doutrina oficial. Rendez-vous des Quais (direção Paul Carpita, 1955), que retraça a manifestação dos estivadores de Marselha contra a guerra da Indochina, foi apreendido. A censura voltará a importunar Resnais mesmo no muito famoso documentário antinazista Noite e Neblina (Nuit et Brouillard, 1956), uma vez que o cineasta faz algumas alusões à descolonização – a seguir, também Muriel (Muriel ou le Temps d'un Retour, 1963) terá sua liberação atrasada, porque aborda a tortura. Patrouille de Choc (patrulha de choque) (Claude Bernard-Aubert, 1957), sobre a guerra da Indochina, teve de mudar o título para Patrouille de l’Espoir ou Patrouille sans Espoir (patrulha da esperança; ou sem esperança). Vários outros filmes questionando a posição do governo colonialista francês diante da Argélia foram censurados e ou os cineastas envolvidos passaram a ter dificuldades de trabalhar no cinema. Foi neste contexto que Godard lançou O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, 1963), denunciando a tortura aplicada por ambos os lados. No início da década de 1960, a censura passa a ser feita através do roteiro do filme, antes mesmo da filmagem – prática padrão na União Soviética desde Stalin.


No  documentário  La France est Notre Patrie  (2015),  o  cambojano
Rithy Panh  apresenta  imagens  das  colônias  sem  locução,   apenas
intertítulos como um filme mudo. Seu foco é a Indochina, mostrando
um povo de baixa estatura cambaleando entre os uniformes brancos

Lá por 1937, os franceses já estão desconfiados das intenções de Adolf Hitler. Quando anexou a Áustria e a Tchecoslováquia, uma série de filmes mais ou menos pacifistas já tentavam acalmar a população. Outros filmes, mostrando o império colonial, especialmente a Legião Estrangeira Francesa (unidade militar criada no século XIX, cuja função era controlar os territórios conquistados) operando no norte da África, prometiam aumentar a confiança na grandeza da França. L’Appel du Silence (direção Léon Poirier, 1936), baseado na biografia do missionário católico Charles de Foucauld, que encontrou sua vocação ao atravessar o Saara até ser assassinado, apresenta o mártir. Em Les Réprouvés (Jacques Séverac, 1937), um batalhão de renegados é atacado no deserto, para evitar prisioneiros o oficial envenena seu companheiro e explode tudo. Uma comédia, Un de la Légion (Christian-Jaque, 1936) apresenta Fernand, que prefere a Legião Estrangeira ao casamento. Em Le Roman d'un Spahi (Michel Bernheim, 1936), Jean deixa sua noiva e vai servir a pátria no norte da África (Senegal, Argélia e Guiné), depois descobre que ela vai se casar. Contudo, ele já tinha amante africana e filho. Morto em batalha, sua amante mata o filho e se suicida. No Marrocos, Les Hommes sans Nom (Jean Valée, 1937), segue a vida de um oficial da Legião Estrangeira. Em Les Hommes Nouveaux (Marcel L'Herbier, 1936), o construtor Bourron sacrifica o amor por sua mulher em função de seu objetivo, a coisa serve de pano de fundo para a exaltação de um personagem real, o general Lyautey (1854-1934), oficial francês que gostava de repetir uma frase de Shakespeare: “a alegria da alma está na ação”. O general também esteve na Indochina, onde conheceu Joseph Simon Gallieni, oficial francês que acreditava na “conquista civilizatória” (7).


A borracha da Indochina exportada para os Estados Unidos está
em La France est un Empire. Enquanto Hitler reivindicava “espaço
vital”   na   Europa,  as  colônias  francesas,   inglesas,  holandesas  e
belgas,  estavam  perfeitamente  integradas ao comércio mundial

Os franceses preferiam se agarrar às promessas das colônias, reserva de homens, comida e de matérias primas que geram confiança na metrópole. Em Légions d’Honneur (Maurice Gleize, 1938), dois amigos voltam do Saara, um deles se apaixona pela mulher do outro que o fere mesmo assim. No quartel, não acusar o amigo implica que será julgado culpado de automutilação voluntária e expulso da Legião Estrangeira. Trois de Saint-Cyr (Jean-Paul Paulin, 1939) exalta os valores da École Especiale Militaire, bandeira, casoar (cocar icônico dos cadetes de Saint Cyr), luvas brancas e virtudes patrióticas – é o mais vulnerável de três amigos que terá seu sangue derramado nas areias da Síria, outra colônia. Depois de 1938, houve uma enxurrada de filmes coloniais, reportagens, documentários e abordagens sentimentais. Les Sentinelles de l’Empire (Jean d’Esme, 1939) é um documentário que exalta o Império. L'esprit de Sidi-Brahim (Marc Didier, 1939) mostra que um comandante acusado de espionagem será salvo da morte pela confissão da verdadeira espiã – Sidi-Brahim foi o local de uma grande batalha na Argélia colonial, em 1845. Com vários segmentos, La France est un Empire (1938) passeia por algumas das colônias: Madagascar, Somália, Guiana, Antilhas, África do norte, África negra, Ásia (existe alguma coisa sobre a Indochina aqui). La Grande Inconnue (Jean d’Esme, 1939) procura analisar a alma da Legião Estrangeira. Em O Caminho da Honra (Le Chemin de l'Honneur, Jean-Paul Paulin, 1939), Martin deixa a Legião depois de cinco anos de serviço com honra. Mas é procurado por questões anteriores e convence o enfermo Paul a trocar de identidade com ele. No final Martin é apanhado, mas como tem boa ficha no exército lhe é dada a chance de morrer com honra no longínquo deserto marroquino.

“Evidentemente, [o cinejornal] semanal
  transforma  os  pontos de interrogação que
  podem surgir quanto a essa ou aquela colônia 
  em pontos de exclamação para a conclusão
obrigatória:  Viva  a  França!”  (8)

Documentários de propaganda do império se sucediam, como L’Empire Français (Philippe Este). Menos esquemático, Homme du Niger (Jean Baroncelli, 1940) exibe o colonizador francês na África como um ser gentil que veio para libertar os nativos infantilizados de suas crenças obscuras. O delírio da “missão civilizatória” transparece no discurso de Baroncelli, que definiu o filme como “uma espécie de epopeia sem afetação que mostrará a civilização colonial da maneira como a França a compreende. Nosso país produz de pobres homens seres pensantes, que compreendem e não gado para criar ou gado para a guerra” (9). Já durante a ocupação nazista da França, Pontcarral (Pontcarral, Colonel d’Empire, direção Jean Delannoy, 1942) apresenta um barão que não aceita a derrota para os ingleses em Waterloo e consegue provar sua coragem na Argélia. Durante a produção os alemães ainda estavam lá e o governo colaboracionista de Vichy censurou várias sequências (de barricadas) e diálogos (“atualmente, o lugar de homens honestos é na prisão”) (10). Também durante a ocupação Walter Kapps realiza Mahlia la Métisse (1943), finalmente ambientado na Indochina – as filmagens foram interrompidas devido ao início da invasão. Filha de um oficial francês e uma ananita, Mahlia foi criada na Indochina pelos Roussière. Seu filho, Henry, casaria alegremente com a mestiça, mas os pais se opõem. Ao mesmo tempo, Mahlia é cobiçada pelo rico e pilantra Chiang, já casado. Ela foge e Henri é morto ao protegê-la. Mahlia entra na missão católica “para criar as crianças no amor da França”.


Basicamente, pelo menos durante a década de 1930, a Indochina
nem  aparece  nas  telas.  Certamente não no sentido romantizado
daquelas  colônias   mais  próximas  da  França,  como  a  Argélia

Dois exemplos aleatórios posteriores à Segunda Guerra Mundial sugerem que as referências ao colonialismo francês foram se tornando esparsas e misturadas a fetiches sexuais. Em O Diário de um Padre (Journal d’un Curé de Campagne, 1951), do francês Robert Bresson, o religioso já está na estação de trem para ir embora da cidade quando é auxiliado por Olivier, que logo sugeriu que poderiam ser amigos. Sou da Legião (sabemos que se trata da Legião Estrangeira), informou Olivier, “sem essa roupa preta, [você] iria parecer com qualquer um de nós” (legionários). E Olivier continuou: “Admita, nosso mundo não é o deles” (os fiéis da igreja). Talvez apenas um oferecimento sincero a um padre de aspecto doente comparando-o a um soldado, ou, então, uma insinuação homossexual (na França, até meados dos anos 1980, homossexualidade era assunto do código penal). Em O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la Liberte, 1974), filme da fase francesa do espanhol Luis Buñuel, na sequência do hotel durante a tempestade padre Gabriel pergunta para mais de um dos hospedes se já não se viram nas colônias (embora imaginemos que se refere às possessões francesas, o religioso chega a especificar o Congo Belga, inserindo mais um perpetrador de atrocidades, a Bélgica, no cardápio de brutalidades do colonialismo europeu). Nenhum dos hóspedes questionado o reconhece ou afirma haver estado nas colônias. Um deles, Jean Bermans, é sado-masoquista. Com sua tendência em segredo convida todos os hóspedes ao seu quarto para tomar vinho – na verdade, ele e sua companheira procuram parceiros. Bermans pergunta outro padre a qual ordem pertence seu grupo. “Carmelitas”, respondeu o religioso. “Ótimo”, Bermans retrucou, enquanto o padre olhou para ele por dois segundos sem compreender. 


Em  Diên Biên Phu, os franceses expõem sua derrota na Indochina
num filme bem caro.  Em O Amante, baseado no livro autobiográfico
de  Marguerite Duras,  uma  francesa  nascida na Indochina não está
à vontade em família ou na escola e arruma um amante mais velho

Durante a década de 1980, mais alguns filmes coloniais franceses foram às telas abordar o sentimento de perda, embora sempre na África, próximo da metrópole. Lucien Cordier, o delegado de polícia branco de alguma colônia francesa cheia de brancos racistas na África negra, não é respeitado por ninguém (nem mesmo por sua esposa) em A Lei de Quem Tem o Poder (Coup de Torchon, direção Bertrand Tavernier, 1981), certo dia ele se revolta. O delegado Guy, em Indochina, até poderia ter sido construído como um contraponto necessário para o orgulho francês ferido pela perda das colônias. Em Chocolat (direção Claire Denis, 1988), uma mulher francesa retorna à colônia (na atual República dos Camarões) repleta de europeus racistas e onde cresceu, em busca de memórias de sua infância. Na opinião de Phil Powrie, os dois filmes articulam nostalgia com uma crise da masculinidade presente na cultura francesa contemporânea. O primeiro lida com a perda do estilo de vida colonial. No segundo, a perda é dupla, a colônia e a infância. Apresentado pela cineasta Claire Denis como autobiográfico, a carga nostálgica de Chocolat aumenta bastante (11). O que nos faz lembrar Camille, com a França sendo escorraçada da Indochina, ela recebe um país livre, mas ao mesmo tempo perde as memórias de sua infância, marcada pelo estilo de vida e valores do colonizador/explorador.

Acabou a Festa (na Casa do Vizinho)!


Desde o século XVI, potências coloniais europeias justificavam
o colonialismo como uma extensão do Império Romano. A França
dizia  ir  além  ao  não  adotar  a  brutalidade  tirânica  do  invasor, 
mas  sim  fazendo  alianças  e  sendo  “convidada”  para  entrar

Depois da Grã-Bretanha, a França foi o país europeu com um império colonial fora do continente – na América do Sul, atualmente ainda existe a Guiana francesa, de onde a França dispara seus foguetes para o espaço; na América do Norte, existe um arquipélago na costa do Canadá, Saint Pierre et Miquelon; existem também algumas ilhas na costa africana do Oceano Índico. Embora uma boa parte do norte da África tenha sentido o peso das botas da famosa Legião Estrangeira uma das colônias mais famosas foi aquela que depois da independência se chamaria Argélia. O segundo filme do então famoso cineasta Jean-Luc Godard [que nasceu na França de pais suíços] foi censurado e acabou como fracasso de bilheteria. O tema de O Pequeno Soldado é justamente a situação pré-revolucionária na Argélia e a denúncia de utilização da tortura tanto pela França quanto pelos argelinos separatistas. 

“(...) Em 1952, [o pai de Godard] o convenceu a adotar a nacionalidade suíça para evitar ter de ir lutar na Indochina. Vale a pena enfatizar que para a França o final da Segunda Guerra Mundial não significou o final do conflito militar. Tanto na Indochina quanto na Argélia o exército francês irá se envolver numa tal escala que um período de serviço militar obrigatório de três anos foi aplicado. A assinatura de acordos de paz com a Frente Nacional de Libertação argelina em março de 1962 marcou a primeira vez que a França não se envolvia num grande conflito desde antes da Segunda Guerra, que havia terminado dezessete anos antes. Entretanto, cidadãos suíços também tinham obrigações militares consideráveis: um longo período inicial de treinamento era seguido por visitas anuais de serviço. Godard se valeu de uma disposição que permitia a cidadãos suíços vivendo no exterior a evitar este serviço militar, mas para aproveitar-se disso ele deveria evitar possuir domicílio legal na Suíça. De fato, enquanto realizava O Pequeno Soldado [(filmado na Suíça)], Godard entrou em conflito com as autoridades suíças em mais de uma ocasião” (12)


Entre 1945 e 1956, o que cobre a guerra de independência,
as  representações  cinematográficas  francesas da Indochina
e  de   seu   povo   se   limitavam  ao  noticiário  semanal,  que
sempre expressava a opinião e a propaganda do governo (13)

A colonização francesa da Indochina durou de 1887 a 1964, a descolonização originou Laos, Kampuchea (antigo Camboja) e Vietnã. A França começa a perder suas colônias depois da Segunda Guerra até década de 1960. Embora a guerra de independência da Argélia talvez seja mais famosa (já que havia sido incorporada ao próprio território francês), seria um erro subestimar o peso da perda da Indochina. Quando a Argélia deixou de ser colônia em 1962 – O Pequeno Soldado teria sido lançado em 1960, mas a censura o segurou até 1963! –, a Indochina já havia sido perdida desde 1954. Como a Coréia antes dela, foi dividida em dois pedaços para adequar-se aos interesses dos senhores da Guerra Fria (Estados Unidos e União Soviética), um comunista e outro capitalista – logo os norte-americanos iriam chegar... Talvez para tentar dissimular a constatação de que o colonialismo não era outra coisa senão invasão de terras alheias e rapinagem de seus recursos naturais e humanos, portugueses, espanhóis, holandeses ingleses e franceses, cada um à sua maneira, construíram ao longo dos séculos a justificativa delirante de que sua expansão colonial se espelhava naquela do Império Romano. Mas os franceses se consideravam um passo além do romano, que era baseado na conquista tirânica de povos estrangeiros – Asterix, personagem de quadrinhos mais popular da França, é justamente o gaulês que resiste heroicamente a essa brutalidade. Os franceses consideravam a sua abordagem melhor, implantando “alianças” com os nativos e recebendo “consentimento” para se estabelecer em suas terras – essa prática foi adotada desde as conquistas do século XVI (14). Com suas sangrentas e brevíssimas conquistas italianas na África, Mussolini também acreditava estar ressuscitando o Império Romano.

Uns e Outros


 Camille, Éliane e Jean-Baptiste são todos  personagens ambíguos,  
apesar de serem referenciados individualmente.  Já  o  colonizado, é
despersonalizado e neutralizado pelo pronome pessoal na 3ª pessoa
do plural: “eles”. É assim que Camille se refere a seu próprio povo

Embora Camille seja ananita e uma dos personagens principais, nunca é claramente identificada como sendo diferente dos europeus. Se parece, fala e se veste como um deles (embora sua mãe adotiva sempre use roupas indochinesas típicas). Rollet observa que Camille se refere a “eles” quando fala de seus compatriotas ananitas, o que ilustra tanto sua identificação enquanto sujeito colonizador, quanto seu distanciamento do “outro colonizado”. Para Rollet, Camille também incorpora a visão de Memmi de que outro sinal da despersonalização do colonizado é aquilo que se chama de marca do plural. O colonizado nunca é caracterizado de forma individual, ele só tem direito de afundar num coletivo anônimo. De um ponto de vista cultural e religioso, Camille também se identifica com o europeu, mesmo quando se junta aos ananitas. O rompimento com Éliane tem mais a ver com ciúme sexual do que um conflito ideológico. Ela nunca questiona a mãe, mesmo quando esta diz para a filha que “sua Indochina está morta”. Quando Camille descobre o lado “mal” do colonialismo, ela justifica a mãe tornando-se comunista, e justificando que “é a única maneira de sobreviver”. Rollet evoca os escritos de Homi Bhabha para sugerir que Camille escapa à categorização tornando-se tanto o eu e o outro quanto uma espécie de eu colonizado ou sujeito. Para Rollet Éliane indica esse processo quando diz que “Camille está com seu povo”, e que “agora ela tem a Indochina dentro de si”. Contudo nada é simples, pois, novamente de acordo com Rollet, o fato de que quando Camille se transforma no Outro (seja através das roupas, linguagem ou estilo de vida), torna-se também ligada a Jean-Baptiste, último representante do mundo dos brancos, borra ainda mais a difícil distinção entre o eu e o outro (15).


Jean-Baptiste  é  apresentado  como um herói  moral  e  soldado com
princípios. Entretanto, só afrontou seus superiores por amar Camille

Em menor grau a ambiguidade entre Eu e Outro é encontrada em Jean-Baptiste e Éliane. Rollet explica que ele se encaixa na descrição de Memmi como “o colonizador que recusa”, um traidor – especialmente em se tratando de um instrumento do exército. Inicialmente apresentado como jovem oficial disciplinado e cumpridor de ordens sejam quais forem, Baptiste se diferencia dos outros colonizadores por não respeitar as regras não escritas do colonialismo. Como quando chama Éliane de ave de rapina, que trata seus funcionários trata suas árvores, comprando-os e sangrando-os. Mas ele não irá lutar do lado do colonizado. Para Rollet, ele é bastante individualista, ofendido com a ideia de que uma mulher possa influenciar seu destino, identificando-se com o colonizado nesse momento. Suas ações não demonstram um desejo de desertar do exército e/ou se juntar ao colonizado/oprimido. Sua posição é de princípio, não de ação. Sua razão para desertar/trair o exército não é motivada por questões políticas, mas motivos pessoais. Quando foge com Camille, recebe ajuda de Tanh, já membro do Partido Comunista clandestino, e também não demonstra qualquer interesse em sua luta. Rollet sugere que a “neutralidade” de Baptiste está aparente no papel em que atua na peça do grupo de teatro ananita onde se esconde com Camille, um personagem que não representa nada ou ninguém. Jean-Baptiste aceita o tráfico de escravos e/ou o assassinato de uma criança ananita por seu superior. Reage apenas para salvar Camille, a quem ama, mas que acaba de matar um militar ocidental. Rollet insiste que, apesar de suas ambiguidades, Jean-Baptiste é apresentado como um herói “moral” e se encaixa no estereótipo do “soldado com princípios” - em oposição direta ao amoral/imoral Guy, o chefe de polícia francês.


Éliane, que não teve filhos, se apresenta como mãe de todo mundo, 
de  Camille,   do  filho  dela,  de seus funcionários ananitas.  O  projeto
da colonização,   a   “mãe colonial”,    não   apenas   pretende  proteger
os  nativos   dos   males  do  mundo,   mas   também  de  si  mesmos

A escolha de Catherine Deneuve para o papel de Éliane não é casual. Além de ser uma embaixadora quase oficial da França na moda, se pode também sugerir que incorpore a França, já que desde 1985 sua imagem (depois de Brigitte Bardot) é utilizada em prédios públicos como modelo para Marianne, símbolo da república francesa. A história contada em Indochina é a de Éliane, rica proprietária de terras que nasceu lá e vive com seu pai no meio da plantação de seringueiras, uma das maiores propriedades do gênero na Indochina - que herdou com a morte dos pais de Camille. Suas relações compreendem tanto a classe alta local quanto europeus influentes, como o delegado de polícia. Éliane representa o que Rollet chama de “lado aceitável” do colonialismo, humanitário e paternalista, típico do papel da atriz Meryl Streep em Entre Dois Amores (Out of Africa, direção Sydney Pollack, 1985), desta vez focando o colonialismo inglês. Contudo, para Rollet, por suas relações com os autóctones Éliane não se encaixa perfeitamente nas categorias dos “colonizadores que aceitam” ou na dos que recusam – ao mesmo tempo, não rejeita o papel de colonizadora e não reage quando seu time de remadores locais (que ganhou dos militares a corrida de barcos) recebe comentários racistas. Ao contrário de Yvette, Éliane é solteira, mãe adotiva de Camille (e do filho dela) e tem um emprego (de homem, como disse Jean-Baptiste), não se vê como francesa, prefere manga (ao invés da maça europeia) e chama a mãe de Tanh de tia. Aliás, afirma Rollet, Éliane parece a mãe de seus funcionários, Baptiste é bem mais jovem, ela age com seu pai como uma mãe tolerante e confessa que nunca desejou receber o delegado Guy em seu útero. Éliane ilustra o comentário de Frantz Fanon sobre a relação com a família, fundamental para o colonialismo:

“No plano inconsciente, o colonialismo... não procura ser considerado pelo nativo como uma mãe gentil que protege sua criança de um ambiente hostil, mas como uma mãe que incessantemente restringe sua cria fundamentalmente perversa de... liberar seus instintos malignos. A mãe colonial protege sua criança de si mesma, de seu ego, e de sua fisiologia, sua biologia e sua própria infelicidade, que é sua própria essência” (16)


Leia também:


Notas:

1. ROLLET, Brigitte. Identity and Alterity in Indochina (Wargnier, 1992). In: POWRIE, Phil (Ed.). French Cinema in the 1990’s. Continuity and Difference. New York: Oxford University Press Inc., 1999. P. 37.
2. Idem, p. 38.
3. Ibidem, pp. 37-40.
4. Ibidem, p. 39.
5. DURAS, Marguerite; PORTE, Michele. Les Lieux de Marguerite Duras. Paris: Les Éditions de Minuit, 1977/2012. Pp. 56, 59-61.
6. DOUIN, Jean-Luc. Dictionnaire de la Censure au Cinéma. Images Interdites. Paris: Quadrige/PUF, 2001. Pp. 205-6.
7. CHIRAT, Raymond. Le Cinéma Français des Années 30. Renens: 5 Continents; Paris: Hatier, 1983. Pp. 45-6, 58-60.
8. Idem, p. 60.
9. Ibidem, p. 60.
10. ORY, Pascal. Le Cinéma Français sous l’Occupation, entre Enfer et Paradis. In: MANNONI, Laurent; SALMON, Stéphanie (dir.). Les Enfants du Paradis. Marcel Carné, Jacques Prévert. Éditions Xavier Barral/La Cinémathèque Française/Fundation Jérôme Seydoux-Pathé, 2012. P. 24.
11. POWRIE, Phil. French Cinema in the 1980’s. Nostalgia and the Crisis of Masculinity. New York: Oxford University Press, 1997. Pp. vii, 15.
12. MacCABE, Colin. Godard. A Portrait of the Artist at 70. London: Bloomsbury Publishing, 2004. P. 83.
13. ROLLET, B. Op. Cit., p. 37.
14. SEED, Patricia. Cerimônias de Posse na Conquista Europeia do Novo Mundo (1492-1640).
Tradução Lenita R. Esteves. São Paulo: UNESP, 1997. P. 251-3.
15. ROLLET, B. Op. Cit., pp. 41-5.
16. Idem, p. 45

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