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Roberto Acioli de Oliveira

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18 de out. de 2014

As Mulheres de Luis Buñuel


Quando a Arte Completa a Vida

Em O Bruto (El Bruto, 1953), a morena Paloma é casada com o inescrupuloso Andrés Cabrera, um proprietário que intimida seus inquilinos. Andrés contrata Pedro (o Bruto), que trabalha num matadouro protegido pela imagem da Virgem de Guadalupe, para fazer o trabalho sujo. Enquanto isso, Paloma o seduz e depois se enfurece ao descobrir que ele se apaixonou pela filha de uma das vítimas, Meche a doce filha de don Carmelo. Paloma mente para o marido, afirmando que Pedro a estuprou, um duelo se segue e Andrés é morto. Mas Pedro não será herói por muito tempo, Paloma (pomba, em espanhol) vem com a polícia e o prendem. Sozinha, saboreia a vitória enquanto uma galinha olha para ela. Charles Tesson evidencia aqui o padrão comercial do cinema mexicano operando na obra de Buñuel: A Virgem (Meche) e a prostituta (Paloma, aquela que está longe de se comparar) (1). Um padrão já encontrado em Subida ao Céu (Subida al Cielo, 1952), com a inocente esposinha Albina e Raquel, a personificação da tentação diabólica. Outro exemplo da fase mexicana de Buñuel é Nazarin (1958), onde Andara (a prostituta) e Beatriz (que ama platonicamente) formam um triângulo cujo vértice é o padre. (imagem acima, obra de Buñuel com dois títulos reconhecidos no Brasil, O Estranho Caminho de São Tiago e A Via Láctea, La Voie Lactée, 1969)

Buñuel conta uma história sobre os bastidores de O Bruto que seria suficientemente buñueliana para fazer parte do próprio filme. Pedro Amendáriz, que atuou no papel de Pedro, costumava dar uns tiros para o alto em pleno estúdio de gravação e recusava-se a usar camisas de mangas curtas. Ele achava que esse tipo de roupa era coisa de homossexual e se aterrorizava com a ideia de que o pudessem tomar por um. Numa cena do filme ele está fugindo de amigos de Carmelo quando encontra Meche, que o socorre sem saber quem ele é. Pedro está com uma faca enfiada nas costas e deve pedir que ela a retire. Amendáriz deve dizer: “Arranca-me esse negócio que eu tenho aí atrás” (2). Durante os ensaios, contou Buñuel, o ator gritava enraivecido que não diria a palavra “detrás”. Palavra que o cineasta suprimiu porque o ator acreditava ser fatal para sua reputação (3). É curioso notar como a insegurança em relação à própria masculinidade é tão intensa no mundo latino quanto o donjuanismo. 

Outra coincidência buñueliana entre a arte e a vida, agora numa chave menos sexual e mais no registro da relação amorosa, aconteceu com o filme Ensaio de um Crime (Ensayo de un Crimen, 1955). Archibaldo queimará no forno uma boneca feita à imagem e semelhança de Lavinia. Pouco tempo depois das filmagens Miroslava Stern, a atriz que interpretou Lavinia, se suicidou por mágoa de amor e havia deixado instruções para ser cremada. Voltando à chave sexual, Buñuel contou que a atriz francesa Simone Signoret não estava com a menor vontade de atuar em A Morte no Jardim (La Mort en ce Jardin, 1956), seja lá qual for o motivo, sua personagem era uma prostituta numa pequena cidade mineira, está fazendo compras numa mercearia e pede um sabonete. Ao saber que soldados estariam chegando em breve, pede cinco sabonetes. No filme anterior, Assim é Aurora (Cela s’appelle l’aurore,1956), a atriz Lucia Bosé é Clara. Buñuel disse que recebia muitos telefonemas do noivo dela na época, ele queria saber quem era o galã que contracenaria com ela. Curiosamente, esse noivo era toureiro.


Em Viridiana (1961), don Jaime faz 
a sobrinha ingerir um sonífero e tenta se 
aproveitar dela. Viridiana se parece muito com 
sua falecida esposa, que morreu na noite 
de núpcias antes de transar com ele

Tesson chama atenção para outro tipo de triângulo amoroso no último filme de Buñuel, Esse Obscuro Objeto do Desejo (Cet Obscur Objet du Désir, 1977). Ao invés de duas mulheres representando campos opostos, uma mesma personagem (Conchita) desdobrada em duas atrizes. Enquanto em O Bruto Paloma e Meche choram pelo mesmo homem, as duas Conchitas estão unidas pela falta de desejo por um. Aqui a rivalidade entre duas mulheres em busca do mesmo troféu se transfigura no desdobramento de uma mesma figura, mas agora para resistir contra um homem que gostaria de ser um troféu.

Conchita, a Última Mulher de Buñuel

Como bem lembrou Tesson, Conchita foi o último personagem feminino de Buñuel, ao mesmo tempo o mais enigmático e o mais claro. Seu nome é o diminutivo de concha, que por sua vez é diminutivo de Concepção – a mãe de Conchita se chama Anunciacion. A concha vive na água e simboliza a fecundidade, designando por sua forma o órgão sexual feminino. O comportamento de Conchita condensa a promessa de prazer sexual (Concepção e fecundidade) e cinto de castidade, da mesma forma que a Virgem Maria, outro milagre de uma fecundidade que se manteve casta. Na primeira vez que Faber encontra Conchita ela está carregando um buquê de rosas vermelhas – Tesson ensina que na França diz-se de uma mulher infiel que ela está levando um buquê para seu marido

Tesson também sugere que o vaso lembra o órgão genital feminino. Uma associação que poderia ser feita em relação a Ensaio de um Crime, quando Archibaldo oferece a uma mulher (alguém que ele crê ser casta e pura) o vaso que ele mesmo fez. Em Esse Obscuro Objeto do Desejo, durante a conversa em que Conchita afirma para Faber ser ainda virgem, um corte na imagem nos leva diretamente ao frontão de uma igreja onde se lê: Nossa Senhora da Anunciação (Notre Dame de l’Annonciation); e abaixo, “Sala Joana d’Arc”. Por essa porta sai Anunciation, a mãe de Concepcion (Conchita) (4). O suposto fim da virgindade de Conchita será representado por um vaso quebrado. 

Tristana, a Mulher Concha
Nossa Senhora já havia feito uma aparição mais problemática em Tristana, Uma Paixão Mórbida (1970), onde a personagem de Catherine Deneuve se mostra nua no balcão e logo a seguir vemos a estátua da Virgem Maria numa igreja, toda coberta com seus mantos. Estátua que abre a sequência do casamento de Tristana e don Lope, uma união não consumada onde ela estava de preto como se estivesse num enterro. Na cena do balcão, depois de sair do quarto dela sem conseguir nada, do jardim o adolescente surdo-mudo Saturno joga algumas pedras na janela dela. Já nua e coberta apenas por um roupão, ela se dirige ao balcão. Lá embaixo o rapaz olha, Tristana abre o roupão, deixando a mostra todo o seu corpo – o que incluiu mostrar-se sem a perna mecânica.

Tesson chama atenção de que quando ela chega ao balcão, Saturno faz um gesto para que ela levante a roupa. Ela abre o roupão e oferece sua nudez como quem abre uma concha. Tristana esboça um sorriso triunfante e vagamente dominador, enquanto a visão da mutilação aterradora faz o adolescente recuar até desaparecer nas folhagens. Tesson encontra uma metáfora aí: o garoto que se afunda no mato grosso de seu sexo. O encadeamento em oposição entre a nudez de Tristana e a estátua vestida da Virgem condensa uma figura obsessiva em Buñuel: a passagem de Eva à Maria, da nudez impudica (o prazer sexual e o pecado original) a uma restauração coberta (que ao mesmo tempo salva as aparências e preserva a castidade na fecundidade). 

Susana e a Mãe e as Outras Mulheres

Em Simão do Deserto (Simón del Desierto, 1965), a “coisa” (encarnada pela atriz Silvia Pinal) procura obstinadamente distrair o impassível Simão, que empoleirado no alto de sua coluna no deserto lhe manda um “vade retro satan”. Aquela mulher, encarnação do demônio, depois de ter mostrado suas pernas e seios para Simão sai dali com o corpo arqueado de uma velha. Essa passagem inverte o milagre do corpo jovem da tia que, numa cena de O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la Liberté, 1974), autoriza seu jovem sobrinho a descobri-lo retirando a coberta (5). Já em Susana (Susana, 1950), a protagonista encarna o amor louco, trazendo consigo o germe da subversão. Ela reedita o casal de A Idade do Ouro (l’Âge d’Or, 1930), ela é encarcerada e retirada do convívio social. Ela foge do reformatório (depois de rezar para o “Deus dos cárceres”), sendo acolhida por don Guadalupe e sua família. Susana seduz o filho, o capataz (chamado Jesus) e depois o pai. Estimulada pela criada, que vê Susana como a encarnação do diabo, dona Carmem supera seus freios cristãos e surra a jovem com um chicote (6).


 O  diabo  se   disfarça  de  mulher  para 
provocar o beato, em Simão do Deserto

Nos textos medievais, nos conta Tesson, Eva é descrita como sendo a porta do diabo. Ela é a porta da serpente e a faz entrar. Serpente que é a metáfora do pênis. Se Eva é a Mãe do pecado, Maria é a “outra Mãe”. Neste caso, o ventre maldito é santificado. Em Susana, dona Carmem representa os interesses de Maria (o modelo de família), e a Susana de Buñuel não é a Susana personagem bíblico que se encontra no Livro de Daniel – onde ela é uma mulher casta acusada injustamente de adultério. No final de Susana, tudo acaba bem. Mas se dependesse de Buñuel, o final seria outro: don Guadalupe retiraria dona Carmem e entregaria a fazenda a Susana. Otávio Paz sintetizou uma das características mais frequentes nos filmes do cineasta espanhol afirmando que, “o tema de Buñuel não é a culpa do homem, mas sim a de Deus” (7). Buñuel não gostou de Susana, mas se avaliamos o filme para além do clichê do melodrama talvez encontremos alguns elementos bastante recorrentes em Buñuel. Nas palavras de Augustín Sánchez Vidal:

“A originalidade de Susana reside em que a protagonista não só representa o amour fou, mas sim é a própria realidade... Libertada da prisão e... guiada já mais por Buñuel do que por Deus, se dirige a uma fazenda que é a replica exata do paraíso e do qual, consequentemente, todo mundo tem medo de ser despedido, inclusive os patrões. Recebem [Susana] como um anjo, naturalmente, mas ela leva o germe do desejo e se dedica a contagiá-lo” (8)

Wilson H. da Silva sugere inclusive que Susana antecipa algo de Teorema (direção Pier Paolo Pasolini, 1968). A presença de um ser estranho que desestabiliza um ambiente equilibrado, mas um equilíbrio baseado numa vida hipócrita. Tanto é que o happy end de Susana (ela é presa) se dá justamente na reconstituição desse padrão hipócrita (aqui o filme já se descola de Teorema). Evidentemente, Buñuel teve de se render aos padrões de produção mexicanos que determinavam a estrutura convencional do filme. Mas o filme é pontuado pelas convicções do cineasta. Linda Willians afirmou que, “até mesmo o mais convencional dos filmes mexicanos [de Buñuel] revela uma ocasional justaposição bizarra ou um desejo incongruente, que se introduz sobre a fina superfície das relações sociais” (9).

De fato, Silva afirma que podemos dizer que Susana carrega o germe de Tristana, Severine (A Bela da Tarde, Belle du Jour, 1966) e Viridiana. Mas Silva acredita que não seja tanto uma questão de gênero. Não é porque elas são mulheres que são assim. A questão mais importante seria o desejo despertado por Susana entre os moradores da fazenda. Um desejo que ameaça a ordem patriarcal e burguesa, expondo suas mesquinharias, hipocrisias, mentiras e covardias. Reafirmando a tese de Buñuel contra a moral burguesa, que para ele constitui uma imoralidade contra a qual se deve lutar. Uma moral baseada nos chamados “pilares da sociedade”, as instituições que Buñuel considera injustas: a religião, a pátria, a família e a cultura. Silva cita também um comentário de Ado Kyrou em 1966 sobre as personagens femininas em Buñuel:

“Um nome, Viridiana. Tudo começou, sem dúvida, dessas cinco sílabas, porque todo o filme está condensado nessa admirável conjunção de vírus e diana [...]. O vírus instalou-se na mulher que poderia ter sido a caçadora; faz dela uma vítima. O vírus é Buñuel, e a mulher sublime e pronta a tudo dinamitar à sua passagem é aquela eterna vítima de múltiplas fisionomias, que, de filme para filme, de Susana a O Alucinado [Él, 1953], atrai o vírus por sua feminilidade; por sua força também, porque as vítimas são frequentemente mais fortes que seus carrascos” (10)


As Mulheres de Luis Buñuel foi publicado originalmente pela RUA (Revista Universitária do Audiovisual)/UFSCar, São Paulo, em 15 de abril de 2011. Foi incluído no catálogo da Mostra Luis Buñuel, o Fantasma da Liberdade, pela Fundação Clóvis Salgado, Minas Gerais, março/abril de 2012.

Leia também:

Notas:

1. TESSON, Charles. Luis Buñuel. Paris: Éditions de l’Étoile/Cahiers du Cinema, 1995. Pp. 148-9.
2. RUIZ, Adilson. Buñuel, um Cineasta no Exílio. In: CAÑIZAL, Eduardo Peñuela (org.). Um Jato na Contramão: Buñuel no México. São Paulo: Editora Perspectiva, 1993. P. 210.
3. BUÑUEL, Luis. Meu Último Suspiro. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2009. Pp. 299, 300-1.
4. TESSON, Charles. Op. Cit., p. 150.
5. Idem, pp. 154-5.
6. RUIZ, Adilson. Op. Cit., p. 205.
7. SILVA, Wilson H. da. O Espelho de Susana. In: CAÑIZAL, Eduardo Peñuela (org.). Op. Cit., p. 51.
8. Idem, p. 52.
9. Ibidem, p. 53.
10. Ibidem, p. 52n3. 

6 de jun. de 2014

A Cineficação da União Soviética



(...) Existem outras  organizações que  mantém contato com
 a  plateia  de  modo  a  estudá-la  melhor,   como  a  Sociedade
 de Amigos  do  Cinema  Soviético, que possui  células em  todas
 as grandes fábricas, nas aldeias, em  todo  lugar,  e  cuja função é
 investigar  todos  os  aspectos  do  que a plateia da fábrica  ou  do
 Exército  Vermelho  pensa  dos  filmes.   Questiona-os  a  respeito
  das  formas  do  filme  empregadas,  sua  compreensão  do  filme, 
 aquilo   que   os   chocou,   aquilo    que    corresponde   ou    não
  às    demandas    do    público.    Esses    dados    são  coletados, 
 analisados e as lições  são  aprendidas e então aplicadas (...)

Serguei Eisenstein, 
Os Princípios do Novo Cinema Russo, 1930 (1)

Isso não é Hollywood

A ideologia da Nova Política Econômica, implantada por Lênin na União Soviética e vigente entre 1921 e 1928, foi construída em torno de uma contradição . Assim Peter Kenez define a situação naquela época, quando havia um abismo entre as muitas ambições Bolcheviques e os poucos meios para realiza-las. A “maior revolução na história do mundo”, como os Bolcheviques gostavam de alardear, era ainda muito fraca no campo, os camponeses ainda viviam relativamente intocados por Moscou. Mas isso não quer dizer que foram esquecidos, durante a década de 1920 uma série de empreendimentos pretendia modificar essa situação. “A campanha para levar filmes aos camponeses foi uma parte importante desse esforço mais amplo. A história da campanha é interessante porque mostra com excepcional clareza as atitudes Bolcheviques em relação à política e propaganda nos anos 1920. Digno de nota é o fato de que para nomear essa campanha os Bolcheviques cunharam o termo kinofikatsiia, ‘cineficação’. A analogia com eletrificação (elektrifikatsiia) é óbvia: como a eletrificação criaria as precondições materiais para uma sociedade socialista, da mesma forma a cineficação seria um importante elemento na preparação da mente do campesinato para o novo estilo de vida” (2).(imagem acima, O Velho e o Novo, direção Serguei Eisenstein, 1929; imagens abaixo, O Fim de São Petersburgo, Konets Sankt-Peterburga, direção Vsevolod Pudovkin, 1927)


“Também inovações bolcheviques, o Comboio de Propaganda
 Lênin    e   o   Estrela    Vermelha,    trem   e   navio   de     agitação, 
 respectivamente,   partiam     como     verdadeiros   centros culturais
 móveis. Suas instalações continham todo  o  equipamento necessário
para    a    projeção   de    filmes,  além   de   ocorrerem  em  seu  interior
 exposições   de    pintura  e  fotografia,  espetáculos    teatrais  e  debates. 
A cada cidade  em que paravam, convidavam o povo para  ver os filmes
 também   nas   praças   e   estações.    Esta   ação   política   e   cultural
– herança das ações desenvolvidas antes da chegada ao  poder –  era conhecida como Agit-prop, uma mistura de agitação e propaganda
com o objetivo de alcançar as grandes massas trabalhadoras”

Paulo Roberto Figueira Leal e Laura Pequeno (3)

De fato, do ponto de vista da indústria cinematográfica russa, tudo parecia muito bem. Se em 1921 foram produzidos apenas nove títulos, em 1922 a contagem subiu para dezesseis, em 1923 para vinte e seis, em 1924 houve um salto para 123 filmes, com uma queda no ano seguinte para 91 títulos – sendo que estes números nem contam os muitos curtas-metragens. Em 1928, trezentos milhões de ingressos foram vendidos na União Soviética, onde um filme poderia ser visto por uma média de dois milhões e meio de espectadores. Sovkino inaugurou um novo estúdio em Leningrado, Mezhrabpomfilm fez o mesmo em Moscou, enquanto os ucranianos começaram a produzir filmes em Kiev, Odessa e Yalta. As minorias nacionais começaram a produzir na Armênia (Yerevan), Azerbaijão (Baku) e Uzbequistão (Tashkent). Em 1928, havia treze estúdios funcionando no país sendo que quatro deles, Sovkino, VUFKU (a organização ucraniana), Goskinprom Gruzii (o estúdio da Geórgia) e Mezhrabpomfilm produziam 80 % dos filmes. Mas os ativistas Bolcheviques não estavam satisfeitos, de acordo com Kenez eles tendiam a superestimar o papel da propaganda, ao mesmo em tempo que subestimavam a capacidade do cinema para influenciar as pessoas.  Suas expectativas eram tão difíceis de ser alcançadas que criticavam o cinema soviético justamente numa época em que os melhores cineastas estavam produzindo suas obras-primas. Contudo, não resta dúvida de que a pobreza na qual se encontrava o país refletiu-se nas más condições materiais da indústria do cinema, os cineastas reclamavam e invejavam o equipamento superior usado por seus colegas europeus (4). (imagens abaixo, A Mãe, Mat, direção Vsevolod Pudovkin,  1926)


(...) É impressionante que os diretores russos tenham
alcançado reconhecimento internacional trabalhando em
 estúdios  que  nenhum ocidental teria tolerado (...) (5)

Muita coisa não era fabricada no país, fazendo com que filmar uma cena novamente fosse um luxo – geralmente o equipamento e a película virgem eram comprados da Pathé francesa e da Agfa alemã. As fábricas soviéticas não conseguiam produzir uma boa película, o resultado era filmes escuros e espectadores reclamando que mal podiam distinguir as figuras e detestavam o aspecto granulado e cinzento de imagens sem nitidez. Também havia escassez de roteiros, já que os escritores russos não se interessaram pelo cinema e viam a produção de roteiros como uma atividade desprestigiada. Além disso, a insistência dos Bolcheviques apenas na tarefa educacional do cinema os levou a desprezar qualquer produção que não tivesse um caráter didático e procuraram aumentar o prestígio dos roteiristas à custa dos cineastas. Digamos que era mais fácil para os Bolcheviques inserir mensagens ideológicas de um “roteiro de ferro” e depois julgar a capacidade do cineasta de segui-lo. Contudo, na prática os cineastas soviéticos durante a década de 1920 conseguiam driblar essas instruções vindas de cima. Serguei Eisenstein (1898-1948) não utilizou basicamente nada do roteiro escrito por Nina Agadzahanova-Shutko para O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin, 1925). Para o cineasta, o roteiro não e mais do que uma prescrição, e disparou: “(...) A presença ou ausência de um roteiro escrito não é de forma alguma tão importante” (6). Segundo Kenez, “essa habilidade do diretor para desobedecer e manter sua independência foi uma precondição para a realização de obras-primas; quando o roteiro de ferro se tornou uma realidade, a grandiosa era do cinema soviético terminou” (7). 

“Em 1926 e 1928 as autoridades realizaram pesquisas nos cinemas de Moscou que nunca foram publicadas. Verificou-se que a maior parte do público [naquela cidade] era formada por funcionários administrativos e estudantes. As plateias, então como agora, eram esmagadoramente jovens. A maioria declarou ir ao cinema para se divertir. Alguns dos entrevistados chegaram ao ponto de dizer que desejavam filmes sem ‘excessiva ideologia proletária’. Tais atitudes perturbaram profundamente os ativistas do Partido, que sempre consideraram a educação política como a tarefa primária do cinema. Eles lidavam com esta realidade desconfortável negando-a. Insistiam que os trabalhadores exigissem filmes com ‘ideologia proletária’ e que trabalhadores e camponeses desaprovassem filmes estrangeiros e [aqueles que] só foram feitos para entreter. Os historiadores soviéticos repetiram incessantemente este absurdo até tempos muitos recentes. Desnecessário dizer, eles nunca apresentaram qualquer evidencia para sustentar tal proposição. De fato, o oposto foi verdade: na medida em que filmes políticos de um Eisenstein ou um [Vsevolod] Pudovkin [1893-1953] encontravam uma plateia, era entre a intelectualidade ‘burguesa’” (8) (imagem abaixo, à esquerda, O Encouraçado Potemkin, 1925)

Agitadores e Cidadãos






(...) [Os] 
trens    e    navios    de
 agitação constituíram uma
 inovação Bolchevique
 notável (...)

Peter Kenez (9)



A grande maioria das salas de cinema estava localizada nas cidades russas. O cinema estava associado com a vida urbana, e aqueles intelectuais que desdenhavam a nova forma de entretenimento a viam como uma das consequências negativas da concentração de pessoas nas grandes cidades.  Em 1909, já eram 1200 salas de cinema no Império e 108 milhões de espectadores Em 1913, portanto quatro anos antes da Revolução, o Império russo saltou para 1453 salas: 134 em São Petersburgo, 107 em Moscou, 25 em Odessa (na Ucrânia) e 21 em Riga (na Letônia), o restante estava distribuído entre cidades menores. Nos bairros de operários, onde não havia eletricidade, eram utilizadas lâmpadas à base de éter e oxigênio, que além do cheiro forte havia constante perigo de incêndio. O governo ordenou que os cinemas fossem separados dos quarteirões de moradia por muros de tijolos e demais locais de risco, exigindo também que fosse instalada ventilação artificial. Apesar de entretenimento eminentemente urbano, alguns empresários cogitaram a possibilidade de levar filmes até os camponeses – isso provavelmente tem relação com o fato de que a população rural era infinitamente superior à urbana do ponto de vista numérico, o que talvez significasse maior lucro. Em 1906, ao longo do rio Volga, uma barcaça levou um projetor e um pequeno gerador por pequenas cidades e aldeias. Para Kenez, este método de levar filmes até o público do interior pode ser considerado um precursor do barco Bolchevique de agitação (10). (imagem abaixo, Outubro, Oktyabr, direção Serguei Eisenstein, 1928)


(...) Durante o pior período em 1921, as sessões de cinema na Rússia
Soviética  estavam   limitadas   à   exibição  de  agitki  em  estações  de
 agitação    (agit-punkty),     e     apresentações     aleatórias     de    agitki 
  em    espaços    públicos    ao     ar     livre     com     estações    de    trem. 
 Alguns   agit-trens     continuaram    a    operar    levando   consigo  a
   ajuda   de   velhos    projetores     que     frequentemente  quebravam”  

Peter Kenez (11)

Com o final da Guerra Civil que se seguiu à Revolução Bolchevique a produção de filmes quase parou nos territórios controlados pelos Sovietes (Conselhos Operários), o que levou à eliminação dos estúdios privados com a nacionalização da indústria cinematográfica. Como muitos atores, atrizes, cineastas e técnicos fugiram do país, havia poucos equipamentos e película virgem disponíveis. Os cinejornais foram o primeiro produto da União Soviética. Eram tecnicamente muito pobres e a escassez de película virgem impunha a distribuição de apenas cinco ou dez cópias de cada edição para o país inteiro. Gente jovem começou a receber maiores responsabilidades, entre eles Eduard Tisse (1897-1961) e Dziga Vertov (1896-1954). Apesar de ainda tecnicamente inferiores, os cinejornais foram levados pelos trens e navios de agitação para o interior, onde muitos camponeses puderam ver imagens de seus líderes pela primeira vez. A realidade mostrou que os novos revolucionários herdaram um problema aparentemente insuperável de organização na zona rural. Decidiram então levar o governo e sua mensagem política aos camponeses enviando um grupo de pessoas que agiria como agitadores e também como representantes dos vários departamentos do governo. Os trens e barcos possuíam suas próprias máquinas de impressão e equipamento para projeção de filmes, ativistas do Partido que viajaram nos agit-trens relataram que os cinejornais surtiam o efeito desejado. É provável, sugeriu Kenez, que no final da Guerra Civil o numero de camponeses que reconhecia Lênin e Trotsky excedesse aqueles que haviam visto um retrato do Czar deposto.

“Os cinejornais soviéticos não eram particularmente inovadores. Nesse momento, contudo, a jovem indústria cinematográfica soviética produziu um tipo de filme que nunca havia existido antes, o chamado agitki. Eram filmes curtos, entre cinco e trinta minutos e conteúdo extremamente didático, destinado a pessoas sem instrução. De forma a transmitir o sabor dos primeiros filmes soviéticos é necessário descrever o conteúdo de alguns deles em detalhe. O agitki mais simples não tem enredo e são chamados cartazes vivos, um deles foi intitulado Proletários do Mundo Uni-vos! (1919). Os intertítulos iniciais falam para os espectadores a respeito da Revolução Francesa, seguido de duas ou três cenas animadas do evento. Então um longo intertítulo explica: a Revolução Francesa foi derrotada porque não tinha líder  nem um programa concreto em torno do qual trabalhadores poderiam ter se unido. Apenas 50 anos depois da Revolução Francesa, Marx fez avançar o slogan: ‘Proletários do mundo, uni-vos!’ Em seguida a plateia viu um ator representando Marx, sentado em frente a uma mesa escrevendo: ‘Proletários do mundo uni-vos!’ Apareciam mais uns duas ou três imagens mostrando o sofrimento dos revolucionários exilados na Sibéria. O filme terminou com o texto na tela: ‘glória eterna para aqueles que com seu sangue pintaram nossas bandeiras de vermelho’. Outros agitka simplesmente exortavam os espectadores a doar roupas quentes aos soldados sofridos do Exército Vermelho, consistindo em nada mais do que um par de imagens de combatentes mal vestidos. A maioria desses filmes curtos, contudo, continha histórias simples [...], outros eram esboços cômicos [ou melodramas]. [...] A noção Bolchevique de propaganda era mais ampla do que ‘educação política’. Mesmo naqueles tempos muito difíceis alguns dos agitki visavam educar o povo. Outros agitki se devotaram à descrição da luta contra doenças como cólera e tuberculose. [...] Entre o verão de 1918 e o final da Guerra Civil os estúdios soviéticos realizaram aproximadamente 60 agitki. [...] Apesar de sua execução primitiva e mensagem simples, o agitki desempenhou um papel importante de propaganda. A partir dos relatórios dos agitadores é evidente que as plateias gostavam dos filmes; os agitadores pediam mais constantemente. Os agitki não podiam por si mesmos fazer muito pela educação comunista. O que podiam fazer era atrair uma plateia. Se um agitador fosse suficientemente hábil, poderia assumir e explicar a mensagem do filme, conectando essa mensagem com as políticas do regime soviético. Depois da Guerra Civil o agitki desapareceu gradualmente. Mas no momento da Segunda Guerra Mundial, quando o regime uma vez mais se sentiu em perigo, eles foram revividos com sucesso” (12) (imagem abaixo, à esquerda, Dura Lex, Po Zakonu, direção Lev Kuleshov, 1926)

Soldados, Operários e Camponeses






A cineficação nunca teve
como    objetivo    principal
fomentar o entretenimento
 e uma  indústria  cultural 







Na União Soviética da década de 1920 o cinema ainda continuava a ser um empreendimento basicamente urbano. De acordo com Kenez, em janeiro de 1926, de um total de 807 cinemas, 51 estavam em Moscou e aproximadamente o mesmo numero em Leningrado. A situação melhorou entre 1923 e 1925 quando o Estado baixou as taxas de aluguel e impostos sobre os ingressos, o que fez dobrar o número de cinemas, embora ainda sem chegar aos níveis de antes da revolução de 1917. Foi então que os líderes soviéticos procuraram realizar seu desejo de longa data, utilizando o cinema para educação política, focando em três tipos de plateias: soldados, trabalhadores e camponeses. A empreitada era mais simples com o exercito, considerado um objetivo de alta prioridade, porque os soldados tinham pouco entretenimento e gostavam muito de filmes. No final dos anos 20, o soldado assistia a três vezes mais filmes do que o cidadão soviético comum, mas a liderança política tomava cuidado para que nenhuma ideia heterodoxa enfraquecesse a ideologia oficial – além da censura a alguns filmes soviéticos considerados inapropriados, nenhum filme estrangeiro seria mostrado aos soldados a partir de 1928. Kenez explica que o Exército Vermelho se tornou um importante aliado na cineficação, organizado cursos para projecionistas. Os cursos incluíam educação política e, no retorno à vida civil, forneciam às aldeias um profissional em falta no mercado (13). (imagem abaixo, Terra, Zemlya, direção Alexandr Dovzhenko, 1930)


 Ao  contrário  do  mundo  atual,   na 
 União  Soviética  daquela  época  ficar 
 sentado na frente de uma tela não era 
considerado   bom   para   a   cultura

Os trabalhadores assistiam filmes em seus clubes, administrados pelo Departamento Cultural da Organização Nacional dos Sindicatos, que cuidava de todas as atividades educacionais para eles. Ali o preço do ingresso era bem mais barato, o que os tornava bastante populares. A grande expansão do cinema nos clubes se deu entre 1923 e 1926, com 1413 projecionistas apenas para a república russa. Através de um contrato com os sindicatos, a Sovkino prometeu muitos filmes soviéticos aos trabalhadores e suas famílias que frequentavam os clubes, contanto que todos fossem sindicalizados – filmes estrangeiros foram excluídos do acordo. Contudo, os líderes do movimento de sindicatos temiam que o cinema prejudicasse todas as outras atividades culturais, já que a função dos clubes não era meramente de entretenimento. Em janeiro de 1926, Seniushkin, diretor do citado departamento, recomendou a criação de grupos responsáveis pela seleção de títulos ideologicamente corretos, assim como sua integração nas demais atividades culturais. Esses grupos deveriam enfatizar os filmes soviéticos contra os estrangeiros (considerados ideologicamente dúbios) e organizar discussões após as projeções, quando a plateia seria encorajada a julgar o conteúdo político e o comportamento dos personagens. (imagem abaixo, à esquerda, A Greve, Stachka, direção Serguei Eisenstein, 1925)




Os camponeses
sempre    estão    em
desvantagem material e
 precisam ser “salvos”
pelo     Partido





Peter Kenez conta que o mais difícil de tudo era levar filmes para os camponeses, não apenas o campo era atrasado e sem energia elétrica, mas o Partido ainda tinha pouca força de organização. Naqueles tempos, o Partido contava com poucos adeptos no campo e as comunas camponesas, que muitas vezes resistia à intervenção do governo, eram organizadas do que ele. O trabalho começou em 1924 através da Glavpolitprosvet, agência estabelecida em 1920 dentro do Comissariado da Iluminação e encarregada da supervisão da educação política e dos adultos. Os Bolcheviques tratavam a cineficação da mesma forma que outras campanhas importantes como aquelas contra o analfabetismo, o alcoolismo e a Igreja. No caso especifico da cineficação, enviaram-se grupos de agitadores com projetores móveis, que deveriam incentivar movimentos de cooperativas e formar uma sociedade “voluntária”. A Sociedade de Amigos do Cinema Soviético (Obshchestvo druzei sovetskogo kino) seria fundada em 1925 (ou 1926) e seu primeiro presidente foi Felix Dzerzhinskii, que também era o chefe da polícia secreta (14). As cooperativas tiveram um papel considerável na tarefa de levar o cinema para o campo, os cooperativados eram persuadidos a comprar projetores e organizar sessões. Especialmente nos dois últimos anos da Nova Política Econômica eles fizeram muitos progressos, em 1929 possuíam aproximadamente a metade dos projetores das aldeias e vilarejos. A fundação mais importante da cineficação foi uma organização do Partido, o comitê distrital do Partido organizava turnês de cinema no campo. Pequenos grupos de agitadores e mecânicos viajavam pelo interior por mais ou menos um mês visitando entre 10 e 15 vilas, onde apresentavam um longa-metragem e uma coleção de curtas. (imagens abaixo, documentário Em Frente Soviete!, Shagay Sovet!, direção Dziga Vertov, 1926)


Vertov   chegou   a   participar   de   filmagens   e    viagens
 nos  trens  agitprop  (agitação+propaganda),  mas  sua  teoria
de    captura    da    “vida   de   improviso”    foi    vencida    quando
 partidários   do    cine-trem     como   Alexandre   Medvedkine
 incorporaram   a   encenação   no   processo   de   produção 

Jeremy Hicks (15)

Na opinião de Kenez, do ponto de vista do aumento da quantidade de espectadores, pode-se dizer que a cineficação foi um sucesso. Mas a disponibilidade de projetores continuava sendo um grande problema, pois no começo tudo era importado (o que gerou um grande problema de manutenção, especialmente no campo); entre 1925 e 1929 duas fábricas soviéticas produziram nove mil unidades, contudo menos da metade estava funcionando em 1929. Os projetores soviéticos eram caros e pouco confiáveis, além disso, continuava o problema da falta de técnicos de manutenção – em 1929, dois projetores custavam tanto quanto um trator; era compreensível que as autoridades das aldeias relutassem em gastar dinheiro nisso. A questão financeira era o tema mais controverso da cineficação. A Sovkino era atacada por, entre outras coisas (como importar filmes estrangeiros), tentar diminuir suas perdas aumentando o preço do ingresso – em 1929, quase metade das sessões de cinema acontecia nas aldeias, mas equivaliam a apenas 16 % de todo o faturamento. Os agitadores diziam que sessões gratuitas diminuiriam o prestígio dos filmes, insistindo que os camponeses pagassem pelo ingresso. Não havia clima para Sovkino reagir, estamos em plena vigência do ataque ao sistema político e social da Nova Política Econômica, e tudo que se queria era um pretexto para outro julgamento-espetáculo onde o Partido apresentava ao povo (aqueles que o regime havia escolhido agora como) seus inimigos.

“Os ataques às políticas da Sovkino aumentaram a partir de meados da década, contudo seriam expressos mais claramente numa conferencia nacional sobre cinema organizada pelo Partido em março de 1928. A resolução da conferência, entre outras coisas, dizia: ‘o cinema na zona rural deve se tornar uma arma do proletariado na transformação da visão individualista dos camponeses pequenos proprietários, uma arma na luta para ganhar os camponeses médios e pobres para a reconstrução socialista da terra dos Soviets... Ao mesmo tempo, a zona rural deve se tornar um mercado grande e rentável para os filmes soviéticos, e uma base econômica para a cineficação do país inteiro’. Está claro agora, como deveria ter sido naquela época, que os dois objetivos são mutuamente exclusivos, que as diretivas eram utópicas e não levaram em consideração o mundo real. A combinação entre educação política no campo e fazer dinheiro [com isso] foi uma tarefa impossível e estava fadada ao fracasso”  (16)

Pode Não Pode



No    que    diz    respeito
à indústria cinematográfica
 soviética durante da década de
1920, existe uma relação inversa
 entre     a     popularidade     do
cinema   e  seu  valor   como
  propaganda    comunista

Peter Kenez (17)



Os inimigos da Sovkino não paravam de repetir que não havia filmes suficientes para as plateias das vilas e aldeias, situação que piorou em meados da década de 1920 e melhorou apenas um pouquinho no final. De acordo como Kenez, o problema tinha várias fontes. Por razões políticas, os líderes da indústria cinematográfica consideravam muitos de seus filmes de maior sucesso da década como inadequados para lavradores. O grande sucesso de bilheteria nas cidades, O Casamento do Urso (Medvezhya svadba, direção Konstantin Eggert, Vladimir Gardin, 1925), por exemplo, foi considerado muito arriscado – ainda que por ironia o roteiro tenha sido escrito por Anatolii Lunacharskii (1875-1933), Comissário do Povo de Educação (Narkompros), baseado numa história de Prosper Mérimée. O filme apresenta um lorde do século XIX, loco e de comportamento assassino, além de incluir algumas cenas de sugestão sexual. Além disso, o maluco era retratado com certa simpatia. O filme de ficção científica de Yakov Protazanov (1881-1945), Aelita, a Rainha de Marte (Aelita, 1924) (imagem acima, à esquerda), não foi mostrado aos camponeses por que apresentava aspectos da vida soviética de maneira não inteiramente favorável. O ménage à trois retratado em Cama e Sofá (Tretya meshchanskaya, direção Abram Room, 1927) (imagens abaixo), ainda que segundo Kenez se trate do melhor e mais realístico filme retratando a vida diária, foi considerado muito imoral para ser mostrado a pessoas humildes do campo (18). Em 1930, com ressalvas, o próprio Eisenstein elogiou o filme:

“[Cama e Sofá] é um filme muito interessante do ponto de vista do tema. Temos muitos filmes nesse gênero que precisamos desesperadamente porque confrontam questões de moralidade familiar e outras que nos preocupam no momento. É uma espécie de teatro didático onde toda espécie de assunto é debatido. Eu não quero dizer que o que lhe falei aqui a respeito do filme intelectual é obrigatório ou que essa é a única forma que deve e pode existir em nosso país. Em nosso país, na URSS, todas as fases do desenvolvimento cultural devem ter as formas de filme que e sejam compreensíveis para elas. Se você está fazendo um filme para as aldeias, não pode ter o mesmo sistema de montagem e corte que usa para filmes destinados para as cidades porque o camponês percebe as coisas numa velocidade diferente: camponeses não podem ver e responder a uma imagem na mesma velocidade de projeção que um morador da cidade está acostumado” (19)


Outra razão para a escassez de filmes era financeira. A Sovkino, que estava sobre constante pressão para fazer dinheiro, primeiramente mandava as cópias para as cidades, onde o faturamento era maior e menor a probabilidade de dano por manuseio incorreto, somente após alguns meses elas eram enviadas para as cidades do interior, e só então para os clubes de trabalhadores e a zona rural. A Sovkino foi muito atacada por conta desta política de distribuição. Kenez observou também que só existe clareza a respeito das preferências dos espectadores citadinos, cujo interesse pode ser medido através da venda de ingressos – filmes com o norte-americano Douglas Fairbanks e Mary Pickford, canadense radicada nos Estados Unidos, sempre rendiam farta bilheteria nos melhores e maiores cinemas das grandes cidades. No caso dos soldados e camponeses não existia essa possibilidade de escolha, eles assistiam aquilo que lhes era oferecido – suspeita-se que o valor do ingresso cobrado por sessão era pago com má vontade pelos camponeses. Um filme de aventura realizado em 1923, Os Diabos Vermelhos (Tsiteli eshmakunebi, direção Ivane Perestiani), foi muito popular entre os soviéticos, inclusive os lavradores – a história apresenta as aventuras de três jovens durante a Guerra Civil que se seguiu à Revolução Russa. Outro filme muito popular entre os lavradores (mais do que os espectadores da cidade) foi Polikushka (1919, lançado apenas em 1922) (imagem abaixo), baseado em historia de Leon Tolstoi.  



(...) A  intensa  produção  de  cinejornais
era encarada como ferramenta excepcionalmente
relevante para a propaganda ideológica”

Paulo Roberto Figueira Leal e Laura Pequeno (20) 

 Kenez chamou atenção para o fato de que apenas alguns filmes soviéticos abordavam a vida contemporânea, e uma minoria se passava nas aldeias rurais. Havia reclamações dizendo que os cineastas conheciam mais sobre a selva e os tempos pré-históricos do que a respeito da vida dos camponeses. Eram pseudocamponeses com pseudoproblemas, vestindo roupas que os cineastas acreditavam que os camponeses reais vestiam, demonstrando não ter nenhum conhecimento sobre as variações regionais e os costumes locais. Kenez é taxativo: quase todos os filmes de camponeses refletiam a condescendência da intelectualidade em relação às massas, os lavradores geralmente necessitam da ajuda de gente de fora para fazer as coisas direito. Vários cineastas soviéticos mundialmente famosos não conseguiram chegar a uma plateia camponesa ou retratar sua vida contemporânea.  Dziga Vertov, por exemplo, geralmente se opunha a filmes com histórias e atores profissionais. Pudovkin não retratou a vida soviética contemporânea. Lev Kuleshov (1899-1970) só mostrava a cidade em filmes como As Aventuras Extraordinárias de Mister West no País dos Bolcheviques (Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov, 1924) e Seu Conhecido (Vasha znakomaya, 1927). Alguns dos melhores trabalhos de Aleksandr Dovzhenko (1894-1956) retratam a zona rural; contudo, seu estilo elíptico e experimental provavelmente não divertiria plateias não preparadas.


(...) A tarefa da Linha Geral [(O Velho e o Novo)], por exemplo, 
foi incutir pathos nos eventos que em si mesmos não são patéticos
[comoventes]  nem  heroicos.  É  bem  simples  e  muito  fácil  incutir
pathos   [emotividade]   em   alguma   coisa   como  o  encontro   entre
[o navio] Potemkin a esquadra, porque o tema é patético por natureza, 
por  outro  lado  é  muito  mais  difícil  encontrar  formas  de  incutir
pathos   e   provocar   uma  grande  e  poderosa  emoção   se   tudo
que  você  tem  como  seu  tema  é  uma  desnatadeira  de  leite” 

Serguei Eisenstein,
  Os Princípios do Novo Cinema Russo, 1930 (21) 

Neste ponto, Kenez é bastante crítico em relação a Eisenstein. Com exceção de O Prado de Bejin (Bezhin lug, 1935; também conhecido no Brasil como Traição na Campina), que o cineasta foi impedido de terminar, ele realizou apenas um filme mostrando o mundo contemporâneo, O Velho e o Novo (Staroye i novoye, 1929) (imagens acima). Também conhecido fora da União Soviética pelo título A Linha Geral, pouco ou nada se fala a respeito dele. Para Kenez, o estilo monumental e dramático de Eisenstein não se encaixa no assunto “campesinato”, e a estética mais apropriada a marinheiros revolucionários (referência a O Encouraçado Potemkin) não se encaixa (na verdade, Kenez achou que “fica ridículo”) quando aplicado a uma desnatadeira manual. Com relação aos não atores selecionados por Eisenstein entre os camponeses, Kenez chega a sugerir com certo exagero que a escolha de uma mulher feia e analfabeta como protagonista revela sua atitude em relação à zona rural – talvez Kenez esteja mal acostumado com rostos hollywoodianos. Kenez questionou a representação da aldeia como um local deplorável e escuro, ironizando também a desnatadeira e o casamento do gado (enfeitado para a ocasião), insistindo em afirmar que Eisenstein “não teve problema nenhum” em se adaptar aos interesses do Partido – talvez Kenez não conhecesse muito bem a trajetória do cineasta.

“O título do filme A Linha Geral está repleto de ironia involuntária. A ‘linha geral’ se refere à política do Partido em relação ao campesinato. Eisenstein começou a fazer o filme em 1926, mas o interrompeu para realizar Outubro [Oktyabr, 1928]. Infelizmente para ele, quando retornou a seu projeto original, a ‘linha geral’ estava para sofrer uma extraordinária mudança: os stalinistas estavam juntando forças para um ataque total ao campesinato. Eisenstein, é claro, não teve problema nenhum em mudar o caráter de seu filme para se enquadrar à ‘linha geral’, embora por mais que tentasse não teria a satisfação deste título bastante pretensioso. Depois que as figuras principais do Partido assistiram ao filme, incluindo Stalin, não ficaram muito impressionados. Apesar de o filme possuir a maioria dos elementos que associamos aos slogans propaganda Bolchevique da época (Kulaks cruéis matam o touro da fazendo coletiva, o padre engana os camponeses pobres, o proletariado corre para ajudar os lavradores, os camponeses reconhecem a superioridade do coletivo, etc.), o filme ainda não satisfazia aos líderes do Partido. No ponto de vista deles, o Kulak não era suficientemente mal e a função do Partido no impulso de coletivização não foi colocado de forma suficientemente clara. Permitiram que o filme fosse mostrado, mas apenas depois que o título fosse mudado para O Velho e o Novo. Contrariando as esperanças do cineasta, o filme causou pouco impacto de propaganda. Da mesma forma que outras plateias, os camponeses acharam o filme chato” (22)


Na opinião de Kenez, se desejamos encontrar filmes soviéticos que contam histórias (que ele acredita não ter sido o interesse de Eisenstein em O Velho e o Novo) e desejam representar a realidade contemporânea da década de 1920, devemos procurar entre cineastas menos conhecidos. Alguns deles, Kenez insistiu, retrataram a vida dos camponeses com uma honestidade que só seria vista novamente nas telas soviéticas a partir da chegada ao poder de Nikita Khrushchev (Secretário Geral do Partido Comunista soviético entre 1953 e 1964). Fridrikh Makovich Ermler retrata a moralidade dos jovens de uma aldeia em termos pouco lisonjeiros e celebra o heroísmo da cavalaria em Sapateiro Parisiense (Parizhskiy sapozhnik, 1927). Olga Ivanovna Preobrazhenskaia conta uma história melodramática do estupro de uma nora e compara o modo novo e o antigo de lidar com a situação em Mulheres de Riazan (Baby ryazanskie, 1927) – um filme que Kenez classifica como feminista. Ainda segundo ele, Don Diego e Pelagea (Don Diego i Pelageya, direção Yakov Protazanov, 1928) pode ser considerado talvez o melhor filme sobre vilarejo. Para começar, não se trata de mais uma obra condescendente, mas um filme “problema” que satiriza a crueldade da burocracia soviética. De modo geral, concluiu Peter Kenez, os camponeses gostavam de filmes que retratavam suas vidas de maneira mais ou menos realista.

“Em setembro de 1926 [Alexander] Katsigras [publica] uma lista completa de filmes cuja apresentação era permitida. [Incluídos estão] 73 dramas soviéticos e sete comédias, 11 filmes estrangeiros e 15 comédias. A lista não inclui a comédia de Kuleshov, As Aventuras Extraordinárias de Mister West no País dos Bolcheviques (imagem acima). Provavelmente, os censores pensaram que os lavradores poderiam levar a sério uma descrição de Moscou repleta de perigos e controlada apenas em parte pelas autoridades bolcheviques” (23) (imagem abaixo, à esquerda, Tempestade Sobre a Ásia, Potomok Chingis-Khana, direção Vsevolod Pudovkin, 1928)

Fim do Idílio Campestre  





Durante os anos 1920
 na União Soviética existiam
duas plateias vivendo em mundos
diferentes, uma nas cidades
 e   outra    no    campo







Segundo Kenez, a tolerância em relação ao povo russo (em especial aos camponeses) era um marca da visão de mundo dos Bolcheviques. Nesse sentido, disse ainda Kenez, os Leninistas eram típicos representantes da intelectualidade do século XIX. Para muitos deles não havia nada que valesse a pena no modo de vida camponês e sua tarefa era levar esse povo a modificá-lo. O que chamavam de “educação política” consistia em transformar o camponês num europeu culto, para os Bolcheviques o cinema seria um excelente instrumento se os ajudasse nessa tarefa – especialmente na medida em que apresentasse aos camponeses modos de vida diferentes do seu. E ao que parece os camponeses se interessavam muito em assistir filmes mostrando as cidades e seus costumes estranhos – ainda durante a Guerra Civil os camponeses gostavam de assistir a filmes mostrando líderes como Lênin e Trotsky. Mas continuava o debate quanto ao tipo de filme que seria politicamente mais interessante para ser apresentado, essa discussão que começou nos ali anos 1920 tinha a ver com o presente e o futuro da indústria do cinema na União Soviética. Ninguém sugeriu que a preferência deveriam ser os filmes que os camponeses gostavam de assistir, até porque os Bolcheviques acreditavam que sabiam melhor do que os camponeses o que era interessante para aquele povo rural. Alguns achavam que o baixo nível cultural dos camponeses apontava apenas para filmes educacionais, enquanto outros sugeriam que longas-metragens são a propaganda mais efetiva. Kenez conta que a pesquisa a respeito dos gostos dos espectadores camponeses realizada em 1925 talvez tenha sido o primeiro estudo desse tipo no mundo (24). (imagens abaixo, Terra, Zemlya, direção Alexandr Dovzhenko, 1930)


Na  década  de  1920,  alguns  políticos 
soviéticos      subestimaram    o    poder     do
 cinema, Enquanto  outros  o desvalorizavam 
apenas   para   destruir   seus   inimigos 

A pesquisa mostrou que os camponeses viam os filmes como diversão, estavam interessados na vida nas aldeias e nas cidades e não se interessavam pela experimentação artística. Filmes com intertítulos longos eram pouco adequados a uma plateia amplamente analfabeta, portanto aqueles com pouco texto e muita ação eram mais populares – muitas vezes os agitadores tinham que ler os intertítulos em voz alta para que o filme fosse compreendido. Conclui-se que os melhores filmes soviéticos de então, incluindo os trabalhos de Eisenstein e Dovzhenko eram considerados incompreensíveis e chatos pelos camponeses. De acordo com Kenez, essa incompreensão não era uma questão de ignorância, mas devido ao fato de que esse novo meio era novo para eles. Para Kenez, uma cineficação bem sucedida teria reduzido o fosso entre o gosto da cidade e as plateias camponesas. A Sovkino tentou se livrar das críticas (quanto a não ter filmes apropriados para as plateias camponesas) simplesmente reeditando os filmes – reduzindo o número de mudanças de cena; eliminando elementos que os camponeses achassem irrealistas e confusos; modificando os intertítulos; alguns agitadores até propuseram que se reproduzissem os filmes em câmera lenta (não há registros de como os camponeses responderam a isso). Sendo assim, no final dos anos 1920, muitas vezes existiam duas versões do mesmo filme, uma para a cidade e outra para o campo.

“Na avaliação das realizações soviéticas durante a cineficação, deve-se equilibrar as conquistas contra a tarefa ainda a realizar. Claramente, a um custo considerável e como resultado de esforços heroicos, o cinema apareceu na aldeia Soviética e isso teve algum efeito. Por outro lado, pode-se dizer que a conquista foi pequena demais para causar grande impacto e que, no final do período da Nova Política Econômica, quando ir ao cinema se tornou um passatempo favorito para os moradores da cidade, o cinema continuava sendo pouco mais do que uma curiosidade para grande parte dos camponeses. Como em muitos aspectos da vida Soviética, o fosso entre metas ambiciosas e realidade teimosa continuou grande” (25) 

1. EISENSTEIN, Serguei. The Principles of the New Russian Cinema. In: TAYLOR, Richard. Sergei Eisenstein. Writings, 1992-1934. Selected Works, Volume I. London/New York: I. B. Tauris, 2010. P. 195.
2. KENEZ, Peter. Cinema and Society. From the Revolution to the Death of Stalin. London/New York: I. B. Tauris, 2008. P. 68.
3. LEAL, Paulo Roberto Figueira; PEQUENO, Laura. Vertov: Política e Cinema na URSS dos Anos 20 In: JÚNIOR, Carlos Pernisa (org.). Vertov. O Homem e sua Câmera. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009. Pp. 39-40.
4. KENEZ, Peter. Op. Cit., pp. 69-73, 80n5.
5. Idem, p. 70.
6. EISENSTEIN, Serguei. Op. Cit., p. 46.
7. KENEZ, Peter. Op. Cit., p. 71.
8. Idem, pp. 72-3.
9. Ibidem, p. 32.
10. Ibidem, pp. 11-2, 31-2.
11. Ibidem, p. 34.
12. Ibidem, p. 32-4.
13. Ibidem, pp. 73-78.
14. EISENSTEIN, Serguei. Op. Cit., p. 320n2.
15. HICKS, Jeremy. Dziga Vertov. Defining Documentary Film. London/New York: I. B. Tauris, 2007. Pp. 6, 87.
16. KENEZ, Peter. Op. Cit., p. 78.
17. Idem, p. 84.
18. Ibidem pp. 81-4.
19. EISENSTEIN, Serguei. Op. Cit., p. 201.
20. LEAL, Paulo Roberto Figueira; PEQUENO, Laura. Op. Cit., p. 37.
21. EISENSTEIN, Serguei. Op. Cit., p. 202.
22. KENEZ, Peter. Op. Cit., p. 87n65.
23. Idem, p. 86n58.
24. Ibidem, pp. 79-81.
25. Ibidem, p. 84.

25 de nov. de 2011

A Bela e o Desejo de Buñuel




(...)  De   uns   anos   para   cá,
 assisti      ao    
desaparecimento
 progressivo,     mesmo   em   sonho,
do  meu   instinto   sexual. Me  alegro 
com   isso,   pois   é  como se tivesse me
livrado   de   um  tirano.  Se  Mefistófeles
aparecesse   e   me   oferecesse  de volta o
 que chamam  de  virilidade, eu  lhe diria:  
‘Não,     obrigado,    isso   eu   não quero, 
mas    fortaleça    meu   fígado  e meus 
pulmões      para    que     eu   possa
continuar bebendo
e fumando’”

Luis Buñuel (1)



Uma Loura e Seu Tédio

Séverine Serizy é uma dona de casa burguesa vivendo na França da década de 60 do século passado. Esposa virginal, ela não quer ter filhos (e sexo) com o marido, afirmando que isso poderia arruinar a preciosidade daquela união. Ela tem fantasias sexuais masoquistas que não se encaixam em seu casamento com Pierre, um marido afetuoso e romântico. Na cena inicial quase somos levados a pensar o contrário, já que ele arranca a loura esposa de um passeio romântico repleto de palavras gentis numa charrete em meio a um bosque, para entregá-la aos dois cocheiros, que rasgam sua roupa, a amarram, chicoteiam e estupram – inicialmente ela protesta, mas logo percebemos sua expressão de prazer (imagens abaixo, à direita e esquerda). Entretanto, logo a seguir descobrimos que se trata de mais um delírio de Séverine, enquanto se deita para dormir em sua cama burguesa. Podemos então concluir que aquela violência não foi forçada sobre ela, mas se tratava de uma fantasia de Séverine. Uma amiga comenta sobre Henriette (uma burguesa como elas), uma conhecida de ambas que estava trabalhando num bordel. Séverine acha que transar com estranhos deve ser horrível, mas fica tão curiosa que pergunta a Pierre sobre como são as coisas num bordel. Certo dia, ela acaba procurando a satisfação de seus desejos se empregando como prostituta num bordel. Sem o conhecimento do marido, a vida dupla de Séverine emergirá do sonho para a realidade. Suas fantasias envolvem ser açoitada, amarrada, estuprada, e assumir uma posição passiva diante dos homens, pelos quais irá sentir maior atração na medida em que eles forem autoritários com ela (na imagem acima, seu primeiro cliente).

(...) A Bela
da Tarde talvez
tenha   sido   o  maior
sucesso     comercial   de

minha vida, sucesso que
atri
buo mais às putas
do filme do que a
meu trabalho”


Luis Buñuel (2)




Marcel é um cliente violento de Séverine no bordel onde ela arrumou um emprego. Certa vez, com uma fotografia de Pierre na mão, se refere a ele como um obstáculo. A seguir, Pierre leva um tiro, aparentemente disparado por Marcel - que será perseguido e morto pela polícia. Em conseqüência, Pierre ficou cego e paralisado numa cadeira de rodas - coincidentemente, dias antes ele passeava com Séverine quando se deparou com uma cadeira de rodas vazia na calçada em seu caminho. Séverine comenta com Pierre que não sonhou mais desde o acidente dele - no final da primeira fantasia, no início do filme, quando ela volta para o mundo "real", Pierre demonstra saber a respeito desses sonhos dela com carruagens... Henri Husson, um amigo dele que deseja Séverine (que por sua vez o detesta), ameaça contar tudo sobre a vida dupla dela para o marido - o endereço do bordel onde ela trabalha foi indicado por Henri, que chegou a encontrá-la por lá, mas não transou com ela alegando que o que o atraia era a pureza que acreditava existir na esposa do amigo. Vemos Henri se retirando do cômodo onde está Pierre e deixando o apartamento do casal. Séverine vai até o marido, que está imóvel. Esperando pelo pior, quando ela chega perto dele o tique-taque do relógio é substituído pelo som de sinos de ovelhas. Séverine sorri e vemos Pierre se levantar da cadeira de rodas como se tudo fosse uma encenação. Séverine agora escuta o som dos guizos da charrete de sua fantasia inicial. Na imagem final, acompanhamos a charrete seguindo pelo mesmo longo e reto caminho do bosque.

A Perversão é Desejar

“A partir de
O Diário de Uma Camareira,   minha   vida praticamente se confunde com     os     filmes
 que realizei”

Luis Buñuel (3)



A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967) é uma adaptação para cinema do romance de Joseph Kessel realizada pela cineasta espanhol Luis Buñuel, com a parceria de Jean-Claude Carrière no roteiro. Ao delinear o perfil de uma jovem burguesa masoquista, Buñuel explica que pretendia dar vazão a seu interesse pelo fetichismo, que já era patente desde O Alucinado (Él, 1953) (a primeira cena) e O Diario de Uma Camareira (Le Journal d’une Femme de Chambre, 1964) (a cena das botinas). Contudo, o cineasta adverte que seu interesse pela perversão é puramente teórico. “Ela me diverte”, disse ele, que afirmou não ter nada de perverso em seu comportamento sexual. Além disso, completou Buñuel, um verdadeiro perverso não mostra em público suas perversões. Uma dessas perversões, ou diversões, de Buñuel foi cortada pela censura. É na cena em que Séverine, já como prostituta, é contratada para deitar-se num caixão enquanto um homem chama pela filha dele e aparentemente se masturba. Isso acontece numa capela, e o cineasta lamentou que a missa que veio antes (provavelmente da filha morta) tenha sido cortada. Segundo Buñuel, esse corte altera o clima da cena (4). (imagens abaixo, a expressão prostrada de Séverine é sempre a mesma: à direita, na primeira vez que ouve falar de alguém de sua classe social que foi trabalhar num bordel; à esquerda, após voltar da fantasia das chicotadas)



“[Luis]    Buñuel
e Nelson [Rodrigues
]
partilham uma obsess
ão
pelos extremos de castidade
e  de  depravação  que podem
coexistir  na  mesma  pessoa
;
basta fazer uma comparação
entre A Bela da Tarde e A
Dama do Lotação
(5) (...)”

Braulio Tavares (6)



Ao contrário do que possa parecer, quando Buñuel afirmou que a partir de 1964 sua vida praticamente se confunde com seus filmes, o cineasta não seria Séverine! Se considerarmos as declarações de sua esposa, por traz daquela máscara de surrealista risonho havia um tirano nas relações familiares. Portanto, se algum personagem de A Bela da Tarde representa Buñuel, seriam os clientes – de quem Séverine vai gostar mais na medida em que forem mais autoritários. No que diz respeito à representação do desejo feminino neste filme, Peter Evans sugere a questão é muito mais complexa do que a dicotomia entre a “boa” e a “má” representação das mulheres. Para uma feminista radical, afirma Evans, A Bela da Tarde seria apenas mais um exemplo da exploração estereotipada em relação à mulher, já que a exibição erótica do corpo feminino estará sempre ligada à violência e coerção masculinas. Por outro lado, conclui Evans, aquela que ele chamou de “feminista libertária”, consideraria a libertação e a exploração da sexualidade feminina como algo mais importante do que uma imposição masculina. Algo que teria o potencial não apenas de interrogar a sexualidade em geral, mas também de explorar situações e comportamentos extremos, ultrapassar o realismo e expandir as fronteiras da consciência.




Dividida entre o
sentimento do pecado e
a angústia da punição, Séverine
é a melhor representante de uma
longa linha de personagens
neuróticas na obra
de Buñuel
(7)




Entretanto, Harmony H. Wu esclarece que as conclusões de Evans se baseiam mais no livro de Joseph Kessel do que no filme de Buñuel. Ao contrário do filme, com poucas referências à infância de Séverine, o livro a detalha bastante, levando Evans a construir explicações freudianas para o comportamento de Séverine que acabarão por validar a conclusão de que o comportamento dela é mais uma aberração no interior da heterossexualidade patriarcal – é verdade que Buñuel ancora a suposta frigidez de Séverine numa cena primitiva traumatizante: ainda criança ela se deixa beija por um trabalhador; escutamos a voz em off da mãe dela, que pergunta se a menina já vem; não há resposta (8). De acordo com Wu, não existe nada de perverso nas fantasias e desejos de Séverine, embora a efetivação deles no mundo real talvez possa aponta para a sujeição do desejo feminino ao masculino. Mas a própria Wu Tania Modelski, para quem a fantasia masoquista de ser levava à força poderia conter, paradoxalmente, um desejo de poder e vingança. Na lógica da sexualidade feminina “normal” do ponto de vista do patriarcado, Wu sugere que a verdadeira “perversão” de Séverine é o fato de ela conseguir prazer, mesmo vivendo num sistema que tende a apagar o prazer feminino da equação sexual (9).

Após sua primeira
experiência no bordel,
Séverine joga suas roupas
 
íntimas na lareira. No início
de  Esse  Obscuro  Objeto do
Desejo
(1977)
, Faber ordena
 a  seu  empregado  faça  o
mesmo com
a calcinha
que achou na sala


Sendo assim, conclui Wu, se A Bela da Tarde não aponta para uma alternativa feminista à sexualidade feminina sob o jugo patriarcal, o filme dispara um mecanismo do desejo a partir do interior do sistema que tem o potencial de desmantelar todo o sistema – algo que, segundo Wu, acontece no final do filme. De acordo com Wu, mesmo o bordel constitui uma avenida institucionalizada desses desejos sexuais irrecuperáveis no sistema burguês da sexualidade – sob o patriarcado, os bordéis servem apenas para os homens buscarem prazer. É por esse motivo que o eventual uso do bordel para seu próprio prazer sugere um caminho subversivo no interior do sistema. É um mecanismo perfeitamente buñueliano, diria Wu: o próprio mecanismo de repressão criando as condições de erupção do desejo que irá atacá-lo. Como disse o próprio Buñuel, a grande repressão sexual na Espanha católica tornou o próprio desejo que pretendia reprimir numa força avassaladora na psicologia dos espanhóis (10). (imagem acima, à direita, Séverine é a única dentre as prostitutas que se interessa pelo conteúdo da caixinha do cliente chinês; muitas pessoas perguntaram a Buñuel o que havia ali dentro, irritado ele respondia: "o que você quiser")

Real-Fantasia-Vida


A profunda cisão
da   subjetividade   de
Séverine
,  exacerbada   por
contraditórias     imposições
patriarcais   (virgem-esposa-
mãe-prostituta)
, se  reflete
na  estrutura  narrativa
  fraturada do filme
(11)



Wu afirma também que, ao nível da forma, A Bela da Tarde trabalha no sentido de libertar o olhar e a narrativa da pressão da autoridade patriarcal. Parte do “jogo” de assistir a este filme estaria na frustração ao tentar separar o “real” da fantasia. Na medida em que as fantasias de Séverine começam a tomar uma dimensão real através do bordel, aumenta nossa dificuldade em distingui-las da realidade. Essa lógica tão comum em nossa prática cotidiana (distinguir entre o sonho e a realidade) acaba se revelando um esforço totalmente fútil. As incertezas do final do filme não apenas tornam ambíguo seu desfecho, mas acabam por comprometer todo o castelo de cartas de dicotomias que possamos eventualmente ter construído em torno da narrativa. Cada segmento do filme que estabelecemos como sendo uma seqüência de sonho se dispersa. Essa é a hipótese de Paul Sandro, que Harmony Wu endossa, lembra que esse raciocínio leva também ao envolvimento da própria subjetividade do espectador, além de minar a própria estrutura da narrativa patriarcal da narrativa: “Esse ‘rompimento’ de categorizações produz uma indeterminação que subverte completamente uma lógica narrativa que seja dependente de uma temporalidade causal estrita; porque as contradições e auto-anulações não podem ser racionalmente explicadas fora de um universo ficcional ordenado e puro” (12). (imagens acima e abaixo: à esquerda, no começo do filme ele faz juras de amor enquanto ela não permite que ele a beije; à direita, no final do filme, depois do acidente ele se torna, pelo menos por alguns momentos, o marido totalmente dependente)





A cena em que
Séverine bisbilhota

a prostituta e seu cliente

é um momento de reflexão
sobre     o     espectador

em     relação     à

   Bela da Tarde (13)






Wu acredita que o caráter subversivo de A Bela da Tarde é que, como O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, 1972) e ao contrário de Um Cão Andaluz (Un Chien Andalou, 1929), o filme age contra as convenções sem se recusar a interagir com elas. As cenas “reais” de Séverine, Wu observa, são marcadas acusticamente pelo som dos relógios, que sublinham a “realidade” com uma progressão “real” do tempo – a obsessão com o tempo marca ao mesmo tempo o mundo estruturado da burguesia e a progressão estruturada do tempo na narrativa convencional. Porém, essa distinção entre fantasia e realidade cairá por terra na conclusão do filme – o trabalho de Buñuel com a trilha sonora des constrói a narrativa tradicional e desafia o elemento visual como o aspecto mais importante num filme. Na opinião de Wu, essa utilização convencional do tempo torna ainda mais inquietante a ilegibilidade da seqüência final.

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
O Marcello de Mastroianni
Casanova de Fellini e o Infantilismo Italiano
O Peplum e a Indústria do Espétáculo

Notas:

1. BUÑUEL, Luis. Meu Último Suspiro. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2009. P. 75.
2. Idem, p. 337.
3. Ibidem.
4. Ibidem, pp. 336-7.
5. Adaptação de uma história do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980), o filme foi dirigido pelo também brasileiro Neville d’Almeida em 1978.
6. TAVARES, Bráulio. O Anjo Exterminador. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. P. 128.
7. TESSON, Charles. Luis Buñuel. Paris: Éditions de l’Étoile/Cahiers du Cinema, 1995. P. 186.
8. Idem, p. 234.
9. WU, Harmony H. Unraveling Entanglements of Sex, Narrative, Sound, and Gender: The Discreet Charm of Belle de Jour In: KINDER, Marsha (Ed.). Luis Buñuel The Discreet Charm of Bourgeoisie. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. Pp. 123-4, 125.
10. BUÑUEL, Luis. Op. Cit., p.337.
11. WU, Harmony H. Op. Cit., pp. 131-2.
12. Idem, pp.127-8, 132.
13. Ibidem, p. 134.


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