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Roberto Acioli de Oliveira

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18 de ago. de 2017

Ingmar Bergman e a Dona de Casa Sueca


[O Sétimo Selo] também mostra uma atitude
 amistosa  quanto  à  imagem  da  família   (...) 

Ingmar Bergman

Referindo-se à família perfeita do filme de 1957, mas deixa entrever uma visão mais geral em relação ao “agrupamento
humano”  ligado  por  laços  afetivos  ao  mostrar  também  a  adultera  que  troca  o  marido  pelo  ator  mambembe (1)

Uma Família Sueca

É notório o interesse de Ingmar Bergman a respeito de casais e famílias. Para o bem ou para o mal, o cineasta disseca as relações humanas sem preocupar-se com finais felizes. Em Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957), por exemplo, Evald, filho de Isak Borg, fica irritado quando a esposa, Marianne, comunica que está grávida e não tem dúvida do que deseja: “também quero dizer que vou ter este filho”. Colocar um filho nesse mundo é um absurdo, afirma o marido, e informa a Marianne que terá de escolher entre ele e o bebê. No meio da discussão Evald dispara: “Eu fui um filho indesejado de um casamento infernal. Será que sou filho de meu pai?”. “Não existe certo ou errado”, explica para Marianne, “apenas fazemos o que é necessário”. “O que é necessário?”, ela quer saber. “Para você é viver, existir, procriar. (...) Para mim, morrer. Simplesmente morrer” - esta referência à procriação como “tarefa” da mulher assume caráter muito particular na Suécia. Pouco antes, acompanhamos o pai em sua recordação da vez que viu sua esposa transando com o amante - o que de certa forma justifica a desconfiança de Evald, caso fosse esse seu único problema em relação à paternidade e maternidade. Ainda que o próprio Bergman admitida, em Imagens (1990), sua autobiografia, que Isak Borg (em sueco: IS = gelo, Borg = fortaleza) se assemelha a seu pai, mas inteiramente também a ele mesmo, o cineasta explicita paralelo inequívoco em relação à Evald: 

“Se continuar minha ponderação, penetrando um pouco mais no espaço difuso de Morangos Silvestres, encontro no espírito da equipe que nele trabalhou, no esforço coletivo realizado, um caos negativo de relações humanas. O desquite da terceira esposa ainda me fazia sofrer muito. Foi uma experiência estranha aquela de amar alguém com quem não era possível viver. Minha vida em comum com Bibi Andersson [que atua no papel de Sara], uma vida branda e criativa, havia começado a ruir, já não me recordo por que motivo. Com meus pais mantinha uma guerra aberta. Com meu pai não queria ou não podia falar, com minha mãe tentei repetidas vezes uma reconciliação temporária, mas, como dizemos em sueco, ‘havia demasiados cadáveres no guarda-roupa’, demasiados mal-entendidos ainda frescos [Bergman também admitiria publicamente haver simplesmente abandonado vários de seus filhos (2)]. Sem dúvida que nos esforçamos, pois queríamos, sim, fazer as pazes, mas os fracassos eram contínuos. Suponho que um dos motivos mais fortes que se esconde atrás de Morangos Silvestres está justamente nisso. Eu fazia uma ideia a partir da pessoa que meu pai era e procurava uma explicação para os conflitos acérrimos [implacáveis] que tinha com minha mãe. Percebia que eu fora um filho não desejado, parido durante uma crise física e psíquica de minha mãe. Seus diários confirmaram, mais tarde, minhas suposições: perante o filho que teve, e que quase morreu de debilidade, minha mãe revelou uma terrível atitude ambivalente” (3) (imagem abaixo, Stina feliz da vida com o barrigão de grávida, sua vontade quase delirante de parir causa reações variadas nas outras grávidas, No Limiar da Vida)


 Em  No Limiar da Vida (1958),  Stina é louca para parir,  mas o bebê
 morre  no  parto. Para o papel Bergman escolheu Eva Dalhbeck, que
 considerava modelo  de  beleza, mais fiel do que leviana, encarnação
 de sua  terceira esposa, duas porta-vozes  da  feminilidade  vitoriosa

Jacques Aumont (4)
No final de 1946, quando estreou com Crise (Kris), Bergman já havia se divorciado, recasado e gerado dois filhos. Na contagem final, teve cinco casamentos, oito filhos e relações íntimas e filhos com várias de suas atrizes, como Bibi Andersson e Liv Ullmann. Quando realizou Fanny e Alexander (Fanny och Alexander, 1982), reuniu sua esposa na época e as anteriores, antigas amantes, filhos e enteados, além de seus colaboradores antigos. De acordo com Peter Cowie, continua sendo um mistério a capacidade do cineasta em manter uma amizade com as esposas que abandonou. Os filmes realizados por Bergman no início de sua carreira muitas vezes lidam com as circunstâncias estressantes da vida em comum de um casal jovem - nenhum dos quais fez sucesso na Suécia. Os mais ou menos doze filmes de sua primeira década na Svensk Filmindustri variam em estilo, desde o Neorrealismo urbano corajoso de Porto (Hamnstad, 1948) e o fatalismo melodramático de Prisão (Fängelse, 1949), até o erotismo lírico de Juventude (Sommarlek, 1951) e Mônica e o Desejo (Sommaren med Monika, 1953), resistência de personagens jovens, inquietos, em relação às convenções da sociedade sueca. Lloyd Michaels dessa lista exclui Noites de Circo (Gycklarnas afton, 1953), que chamou de anomalia antecipatória dos dramas de costumes de meados da década de 1950 (5). 

“Uma fraqueza geral reina em meus filmes desse período [Bergman parece se referir às obras da década de 1950]. Tive problemas para tentar descrever a felicidade da juventude. Acredito que o problema é que eu mesmo nunca me senti jovem, apenas imaturo. Quando criança, nunca associei com outros jovens. Eu me separei dos meus pares e me tornei solitário. Ao mesmo tempo, fiquei perigosamente encantado por um romancista e dramaturgo sueco, Hjalmar Bergman, e seus contos de juventude elaboradamente construídos. Sua influência pode ser vista em Juventude, e criou, eu acredito, dano mais sério em Morangos Silvestres. O mundo da juventude era estranho para mim. Eu fiquei de fora, olhando para dentro. Quando tive que formular diálogo para meus personagens jovens, procurei clichês literários e adotei uma sedução boba” (6) (imagem abaixo, Fanny e Alexander, 1982)

Infância, Mulheres e Consciência Crítica


(...) Certa vez [Bergman] disse a seu filho que ele
tinha sido um péssimo pai. O filho respondeu: ‘Um pai?
De  forma  alguma  você  tem  sido  um  pai!’ (...)

É provável que o comentário tenha sido feito por Jan, um dos filhos de seu segundo casamento,
 nascido  em  1946.  Os  filhos  deste  casamento  também  seguiram  carreira  no  cinema  (7)
Bergman nunca escondeu que sua infância foi problemática em relação aos pais. Embora Bergman tenha insistido que Fanny e Alexander (Fanny och Alexander, 1982) não é um filme autobiográfico. Claro que as referências existem, mas Bergman acredita que o foco era a cidade onde filmou – na prática, se poderia dizer, seu foco era a sociedade sueca, na qual, naturalmente, estava inserido. Seja como for, muitas punições infligidas a Alexander por seu pai (que também é um pastor protestante como o de Bergman na vida real) eram consideradas pelo cineasta como sendo irracionais (reproduzindo àquelas que seu próprio pai fazia com ele). Era basicamente uma série de humilhações impostas à criança, especialmente quando lhe era dito que o que o pai fazia com ele era por amor e depois a criança deveria beijar a mão do pai. Portanto, foi apenas na década de 1980, com Fanny e Alexander, que Bergman superou a dificuldade puramente psicológica que admitiu ter em relação a trabalhar com crianças, e confessou: “nunca pensei que fosse tão divertido trabalhar com crianças” (8). Até então o cineasta negava, por exemplo, que a inexistência de interação das filhas com o casal em crise de Cenas de um Casamento (Scener ur ett äktenskap, 1973), interação que pareceu relevante e até crucial para alguns críticos quando o tema é casamento, tivesse outra razão que apenas o fato de não considerar relevante para o enredo. (imagem abaixo, Persona, 1966)


Para  além  das  questões  universais  apresentadas por um gênio
do cinema, Persona é um melodrama subjetivo que permite refletir
em  termos  brechtianos a respeito daquele momento histórico,  em
especial sobre a atitude Ocidental em relação a gênero e classe (9)

A maioria dos filmes de Bergman, incluindo Persona (também conhecido no Brasil como Quando Duas Mulheres Pecam, 1966), são melodramas: ruptura da esfera doméstica, convenções sociais causando frustração do desejo, expressão do conflito pessoal através de exibições intensas de emoção. Christopher Orr lembra que, em geral, Persona não é analisado levando em conta uma reflexão a respeito da ansiedade cultural em torno dos papéis de gênero e das diferenças de classe. Susan Sontag e Robin Wood insistiram que a Bergman faltava consciência política. Contudo, Orr insiste que Persona pode ser interpretado politicamente. O status social de elite de Elisabet Vogler, a artista que parou de falar interpretada por Liv Ullman, difere daquele mais baixo da enfermeira Alma, interpretada por Bibi Andersson. Na opinião de Orr, embora levante questões em torno da natureza frágil da identidade pessoal, a interação entre as duas também expressa inveja de classe e exploração. Ainda segundo Orr, Persona pode ser inserido no contexto daquilo que em 1967 foi considerado um subgênero do filme de arte: o cinema brechtiano. Seus proponentes rejeitam a catarse aristotélica das emoções, em favor de interromper a identificação do espectador com a narrativa através do efeito de alienação, permitindo assim que possa refletir criticamente em relação às questões ideológicas presente. Embora a cena do monge budista se autoimolando remeta diretamente aos protestos contra a política belicista dos Estados Unidos contra o Vietnã, os críticos divergem quanto a considerar Persona um exemplo genuinamente brechtiano devido à ausência de conteúdo explicitamente político (10). (imagem abaixo, Mônica e o Desejo, 1953)

Família (Burguesa): Utopia Falida


(...) 50%  dos  homicídios  cometidos [na
Suécia  ocorrem]  no  seio da família  (...)

Alexandre Pastor, 2012

Da nota preliminar na edição portuguesa de Lanterna Mágica (1987), primeira
autobiografia  de  Bergman,  traduzida  por  Pastor  para  o  português  lusitano

O casal de namorados fugitivos em Mônica e o Desejo é imaturo e irresponsável, a ponto de não prever/programar a possibilidade de gravidez dela. Como se não fosse suficiente, o fato de engravidar não impediu Mônica de abandonar o pai de seu futuro filho e arrumar outro namorado, mesmo antes do primeiro namorado se mudar do local onde moravam precariamente – tudo isso acontece enquanto o casal não tem emprego e mal tem onde morar. Resumindo, ao retornarem do idílio em Ornö, aquela ilha na costa sueca do Mar Báltico, próximo a Estocolmo, não serão capazes de construir um núcleo familiar burguês (ou qualquer outro). O filme pode ser classificado facilmente como “um Bergman”, embora o roteiro tenha sido escrito por Per Anders Fogelström, e não de Ingmar. Bergman afirmou que pessoas da direção da Svensk Filmindustri, até se demitiram por não concordar em aprovar a realização de um filme que consideravam obsceno. A censura cortou duas cenas. A primeira era de uma briga entre bêbados, um deles o futuro pai do bebê de Mônica. A outra mostrava o casal de namorados embriagado na beira do mar evoluindo para uma relação sexual. Bergman deixa claro a autoridade do orgão de censura ao admitir que nem reclamou porque não havia nada que se pudesse fazer, apenas aceitar. Em 1953, explicou o cineasta, até mesmo o close de alguns segundos no rosto de Mônica, quando na cena final ela olha diretamente para o espectador (rompendo a quarta parede), poderia ser considerado um tempo “indecentemente longo” (11). (imagem abaixo, Face a Face, 1976)


(...) Estou fazendo um thriller psicológico sobre
o  colapso  de  uma  mulher  e  seus  sonhos  (...)

Ingmar Bergman,

explicando  para  o  produtor   Dino  De  Laurentiis   sobre   o   que  estava
escrevendo, o argumento de Face a Face (Ansikte mot Ansikte, 1976) (12)
Evidentemente, poderíamos citar influências como Arroz Amargo (Riso Amaro, direção Giuseppe De Santis), que em 1949 já havia apresentado na Itália uma protagonista mulher bandida, impudica, e pivô de um triângulo amoroso. De qualquer forma, é fruto de confusão o fato de que muitos comentadores apontam a presença abundante de fornicação e crime na obra de Bergman: “Em minha obra, só aparecem três prostitutas e uma ninfomaníaca” (13). Em Uma Lição de Amor (En lektion i kärlek, 1954), as questões da fidelidade e do casamento vêm à tona mais diretamente. O cineasta, que havia acabado de se divorciar, insistiu que não pretendia fazer nenhuma espécie de revelação, apenas entretenimento e uma forma de ganhar dinheiro. “Esta poderia ter sido uma tragédia”, como anuncia a voz em off antes dos créditos iniciais. David Erneman é um ginecologista casado por 16 anos com Marianne. Então ele parte numa aventura com Suzanne, uma de suas pacientes. Em retaliação, Marianne vai para Copenhagen ao encontro de seu antigo namorado. O comportamento rebelde da filha levará David a reconsiderar seu estilo de vida mulherengo e buscar de volta o afeto de Marianne. O tema central aqui são os efeitos da Andropausa, e o filme termina com uma nota de otimismo. Um garotinho vestido de cupido chega sorridente pelo corredor do hotel em Copenhagen, chegando ao quarto onde marido e mulher fizeram as pazes, então troca o aviso na porta: “não perturbe” se transforma em “Silêncio! Uma Lição de Amor”. Sorrisos de uma Noite de Amor (Sommarnattens leende, 1955), explicou Bergman, desenvolve o tema de Uma Lição de Amor, brincando com o conceito de que o amor é possível embora o casal não viva junto (14). As palavras de Bergman em 1955 acabam por trai sua crença na utopia que esteve sempre pronto para criticar:

“[Uma Lição de Amor] foi realizado inteiramente sem nenhuma pretensão. Foi uma fantasia, um capricho. Eu não fui fundo, queria fazer uma peça simpática, não pretendia fazer qualquer revelação, apenas me divertir às minhas custas e de meus camaradas seres humanos. Na estreia, contudo, fiquei satisfeito e surpreso ao descobrir que um suspiro podia de vez em quando ser ouvido na parte feminina da plateia; por exemplo, quando Marianne chama seu ex-marido de ‘preguiçoso do lar’ [(homelazy/familjelat)]. Obviamente, este neologismo satisfaz uma necessidade linguística, já que muitos homens se aproximaram de mim afirmando que suas esposas dizem que poucas palavras podem descrevê-los tão precisamente quanto ‘preguiçoso do lar’. Por outro lado, as mulheres não gostaram da declaração de Suzanne, a amante, de que ‘a fidelidade existe enquanto você for fiel’. Correndo o risco de ser mal interpretado, digo que a fidelidade desempenha muitas vezes papel abrangente num casamento. Estar casado é também uma espécie de talento. Embora eu já tenha percebido que não possuo talento para o casamento, estou longe de aderir a uma filosofia amarga. Eu acredito nele. Isso está bem claro no filme” (15) (imagens abaixo, de cima para baixo, da esquerda para a direita, Anna afaga seu filho; os anões vestem o pequeno Johan com roupas de mulher; as duas irmãs se confrontam, entre elas um amante casual de Anna; insinuação lésbica de Ester sobre Anna, O Silêncio, 1963)


Na Suécia,  a  sexualidade  era  problemática, foi  o  que concluiu
Bergman pelas ameaças que recebeu em função de O Silêncio (16)

Em Morangos Silvestres, a frieza de Evald em seu casamento com Marianne emana de seu relacionamento frio com o próprio pai, Isak Borg, que por sua vez herdou da mãe. Bergman chega a colocar nos lábios dela uma referência velada a isso quando diz: “eu me sinto tão horrivelmente fria, qual será o motivo disso, particularmente aqui em meu estômago”. O cineasta disse que pensou nisso ao ouvir falar de crianças que nasceram de úteros frios. Bergman admite que no filme exista uma crítica da estrutura tradicional de família centrada na figura patriarcal paterna (17). Em 1963, com O Silêncio (Tystnaden), Bergman ultrapassa outro limiar. Certo dia Johan, o filho de 10 anos de idade, vê a mãe entrando no quarto de hotel com um desconhecido, ele olha pela fechadura e chega a vê-la nua e volta a perambular pelo corredor – não sabemos o que realmente se chegou a ver. A irmã de Anna, Ester, parece desejar uma relação lésbica incestuosa. Ao encontrar os anões do circo, Johan deixa que o vistam de mulher. Em Fanny e Alexander, o enigmático Ismael parece representar um terceiro sexo, já que um papel masculino é apresentado por uma atriz, Stina Ekblad. Alguns comentadores sugerem que Johan oscila entre os extremos ainda que inserido num mundo onde os adultos se enquadram em gêneros definidos, com características masculinas ou femininas. De acordo com Marilyn Blackwell, é ele o foco deste filme, questionando as relações entre os gêneros. Maaret Koskinen concorda, grande parte da obra de Bergman é devotada à constituição da subjetividade humana, oscilando entre os polos masculino e feminino (18). Stig Björkman pediu que Bergman comentasse sua constatação de que o cineasta nunca se interessou muito pela mulher consciente dos problemas que a cercam:

“Não, e, aliás, também não pelo homem consciente. Os personagens dos meus filmes são exatamente como eu, quer dizer, animais movidos por instintos e que, no melhor das hipóteses, pensam [apenas] quando falam. Nos meus filmes, a capacidade intelectual é relativamente reduzida. O corpo constitui a parte principal, com um pequeno espaço para a alma. A matéria de meus filmes são experiências da vida, cujo suporte intelectual e lógico é muitas vezes ruim” (19) (imagem abaixo, Da Vida das Marionetes, 1980)


Peter e Katarina, que contracenam com o casal protagonista
de  Cenas de um Casamento,   Johan  e  Marianne,   retornarão
 vivenciado  seu  próprio  inferno  em  Da Vida das Marionetes. 
 Eles   não  podem   viver   nem   juntos   nem   separados   (20)

Stig Björkman também concorda que o pequeno Johan seja a figura central de O Silêncio, tanto que Ester só se torna uma figura positiva no filme em função do que ela significa para ele. Bergman concorda, explicando que as duas mulheres, Ester e Anna, orientam seus lados positivos na direção do garoto. Uma atitude positiva em relação à vida surge desse interesse em torno de Johan. De fato, completa Bergman, Johan escapa do filme quase incólume. O tempo todo ele se mostra curioso em relação ao mundo, e passa a enxergar sua mãe de maneira mais objetiva. Para Lasse Bergström, O Silêncio visita uma vasta terra de mulheres onde a dor e o prazer são irmãs. Nessa terra, o macho é um velho resignado, um gnomo num ato triste de conjuração ou um garotinho de short que perambula por corredores infinitos de portas fechadas, com sexo, gente adulta e o medo de morrer (quando criança, Bergman tinha fixação com o medo da morte). No que diz respeito a Johan, para Bergström ele parecia ver tudo, mas não compreender nada. Ainda segundo Bergström, o filme constitui um drama conjugal disfarçado, dolorosamente como em Strindberg. As duas irmãs estão bloqueadas nessa situação de ruptura com as portas da crueldade escancaradas. Uma delas se liberta (Anna) e sai para caminha na cidade desconhecida, testemunha um encontro sexual do casal de estranhos, e tenta se inspirar para esquecer como se sente solitária nos braços do primeiro parceiro que encontra (21). Certa vez (presumidamente em artigo de 1994), o cineasta polonês Krzysztof Kieślowski saiu em defesa de Bergman:

“Eu me pergunto o que foi isso que, há 30 anos, distinguiu O Silêncio, de Bergman, em relação a outros filmes realizados na época e por que tantas pessoas em tantos países por todo o mundo desejavam assistir a esse filme. Era a atmosfera. Um sentimento tão difícil de expressar em palavras, mas que ainda, quando você assiste ao filme, e muito tempo depois, é manifesto e discernível. Foi o primeiro filme intransigentemente pessoal e homogêneo de Bergman em termos de estilo e narrativa. Após trabalhar no cinema por 17 anos, Bergman percebeu que a força de um filme está na honestidade brutal de seu criador e em ser suficientemente bravo para não dar sequer um passo atrás. Você não encontra a estrutura filosófica de O Sétimo Selo [Det sjunde inseglet, 1957] (que eu não gosto); tampouco as cenas de sonho originais e belas, o pesadelo depressivo de Morangos Silvestres; nem o contexto social dos eventos dramáticos em Mônica e o Desejo (que eu gosto muito...); mas no retrato ambivalente de um sentimento que todos nós sentimos quando somos constantemente sacudidos e rasgados entre o amor e o ódio, entre o medo da morte e o desejo de paz, entre o ciúme e a generosidade, entre a dolorosa degradação e o desejo sensual de vingança. O Silêncio é decretado na atmosfera terrena depois de um dia e uma noite quentes, com espaço para o erotismo e o desejo, mas não para o amor, e onde a ausência de perdão e compaixão tornou-se um estado natural. Neste filme sombrio e assassino, um raio de esperança surge de lugar nenhum, para lá do diálogo e da narrativa. Eu sei de onde, apesar da temática sombria, esse traço brilhante vem: da forte crença de Bergman na humanidade, mesmo nas situações em que os atores são forçados a ser cruéis e impiedosos” (22) (imagem abaixo, Stina, a grávida feliz com sua gravidez, acompanha o drama de uma mulher com gravidez de risco, No Limiar da Vida, 1958)


“É   claro  que  também   foi   delicioso  ser  capaz  de  matar
 os  mitos  sobre  ‘o  desespero  e  felicidade  da  maternidade’; 
todas essas mentiras sobre o aspecto físico da maternidade

Ingmar Bergman

A respeito de No Limiar da Vida (23)

Reza a lenda que a profusão de papéis femininos em seus filmes significa que Bergman entendia muito bem as mulheres. Contudo, um incidente durante as filmagens de O Silêncio envolvendo a nudez da atriz Gunnel Lindblom (que atua como a mãe de Johan) sugere outra coisa – a não ser que fosse apenas interesse comercial na nudez da mulher. Durante entrevista a revista Playboy em 1964, Bergman afirmou que não teve problema nenhum em convencê-la do que ele desejava. Não foi o que Lindblom disse. Nas cenas tórridas no quarto de hotel, ela aparece com uma combinação – essa peça do vestuário feminino que caiu em desuso atualmente. Furioso, Bergman disse que o roteiro determina que ela estivesse nua (o que não era pedido ao ator eu contracena com ela na cama). O que fazemos então, perguntou a ela. Encontre uma dublê, respondeu Gunnel. No final, a atriz filmou com a combinação, mas ainda teve de ouvir um comentário do cineasta para o maquiador: “o que é tão importante a respeito daqueles malditos pingos de gordura do inferno?”. Gunnel disse que olhou para seus seios, que eram muito pequenos, e sentiu-se um pouco tola. Alguns anos depois, ela admitiu que foi imperdoavelmente estúpida e pudica, mas naquela época só tinha um pensamento na cabeça: “Tudo ok virar minha alma do avesso, mas quero continuar vestida” – o ponto, insistiu Koskinen, é a nítida disparidade na relação de poder de Bergman em relação à Lindblom. Seja como for, Gunnel nos lembrou de que só será chamada por Bergman novamente dez anos depois, em Cenas de um Casamento – como a amante de Johan. Nesta série para televisão em seis episódios, acompanhamos a lenta agonia do casamento de Marianne e Johan, suas relações com os amantes e finalmente os dois novos casamentos. Mas o filme só termina quando, já casados, Marianne e Johan tornam-se amantes. Sucesso internacional na época, durante sua veiculação na televisão sueca, consta que metade da população ficou colada na telinha... (imagem abaixo, Gritos e Sussurros, 1972)

Contextos Perdidos (de um País Bizarro)


Na opinião de Bergman, a escola ensina muita coisa, menos
 por  qual  razão  odiamos  uns  aos  outros.  O “germe mofado”
 do puritanismo  nos  impede de entender a alma e o espírito

Jonas Sima

Entrevista por telefone no dia do lançamento de Gritos e Sussurros na Suécia (24)

Os vários casamentos e/ou relacionamentos afetivos problemáticos que podemos encontrar espalhados por toda a obra de Bergman talvez possam ser tomados como uma medida da crítica a certo modelo ajustado (inclusive à sociedade de mercado) e idílico de família, disseminado através do cinema pelo Estado sueco. Antes de impor uma visão pessimista dos relacionamentos amorosos, as famílias e os casais disfuncionais de Bergman provavelmente constituem uma resposta (consciente ou não) do cineasta a uma utopia falida (pelo menos do ponto de vista existencial). Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o setor público foi crescendo na Suécia (de seguros e serviços médicos, até creches e escola pública). Para sustentar tudo isso, a partir de 1947 o sistema de tributação acompanhou o crescimento. O número de postos de trabalho no setor público também, cada vez mais ocupados por mulheres. Se em 1950 apenas 15% das mulheres casadas entraram no mercado de trabalho, em 1980 esse número havia crescido para 64%, embora em grande parte empregadas em serviços de baixa remuneração ou ocupações de meio expediente. Em 1959 foi introduzida a escola secundária estatal, apenas então houve um afastamento em relação ao modelo antigo, de acordo com o qual o padre da paróquia era um membro natural da direção das escolas. Doze anos depois, foi estabelecida a escolaridade compulsória durante nove anos. Ocorre que as crianças escandinavas não partiam para a escola antes dos sete anos de idade, o que fazia com que ficassem em casa até os dezesseis anos ou mais, adiando também a entrada dos jovens no mercado de trabalho por alguns anos. Concluímos com Tytti Soila que tais mudanças tinham consequências para a vida das famílias, seus padrões de consumo e contribuiu para a disseminação de uma cultura juvenil (25). Entretanto, por ocasião do lançamento de Gritos e Sussurros (Viskningar Och Rop, 1972), Bergman faz um desabafo em relação à Suécia e a Noruega durante uma entrevista para Jonas Sima:

“Infelizmente, me diz Bergman tossindo, somos, e continuamos a ser, todos analfabetos em matéria de sensibilidade e de sensação morais. Todos. Bloqueamos nossos sentidos. Pegue, por exemplo, a escola. Ensina-se às crianças tudo sobre agricultura em Pretória, sobre os molares dos coelhos e sobre o mecanismo da ereção do pênis. Mas por que as pessoas ficam com raiva umas das outras – como funcionam a alma e o espírito – Nada! Nem uma palavra! O puritanismo – este gérmen mofado – subsiste. É por isso que não há bidês nos hotéis noruegueses” (26) (imagem abaixo, Prisão, Fängelse, 1949)


“O  tema  da  humilhação  é  central  em  todos os
seus filmes que tratam da condição do artista (...)

Jonas Sima

Durante entrevista com Bergman, 3 de julho de 1968 (27)

Uma rápida comparação entre as datas de certos filmes de Bergman e a implementação de tais mudanças institucionais sugere com que tipo de mulheres e homens (esposas e maridos) o cineasta estava dialogando (pelo menos inicialmente, antes dele fazer sucesso mundialmente). Portanto, como descrito no parágrafo anterior, uma nova ordem se instalou bem no interior dos lares suecos durante as primeiras décadas do pós-guerra. De acordo com Soila, e aqui mais um contraponto com Bergman, uma interessante documento dessa época foram os chamados filmes de dona de casa, apresentados gratuitamente por todo o país (em nome, entre outros, da Associação de Cooperativas por Atacado, cujo interesse era puramente comercial). Esses filmes de dona de casa eram extremamente populares e foram realizados até meados dos anos 1970. Enquanto documento histórico, Soila continua, tais filmes retratam a ideologia dominante naquela sociedade, com seu foco nos lares e sua dependência do Estado do bem estar social (a retórica Folkhem, casa das pessoas, conceito político importante na história do Partido Social Democrata sueco, entre 1932 e 1976). Sua função era educar a dona de casa, incentivando-a para abraçar ideal estabelecido desde a década de 1930: no centro do Folkhem está a dona de casa, bem treinada ela dirige as tarefas e deveres do lar. Os outros membros da família também eram alvo desses filmes, deveriam ajudar a mãe cumprindo suas próprias tarefas. A família era descrita como uma corrente cujos elos individuais não podem sofrer muito stress, para evitar o rompimento. Soila enfatiza que, nos filmes de dona de casa, o bem estar material era considerado a fundação da saúde espiritual. Apesar do quadro aparentemente idílico, Bergman não tem boas lembranças de sua infância, especialmente no quesito humilhação. Durante entrevista em 1968 a Jonas Sima, o cineasta explica:

“Você sempre volta a esta ideia da condição do artista e do romantismo! É bem possível que sobre esse ponto minhas ideias sejam caducas. Não sei. Existe uma concepção mais moderna da arte, dos artistas, de sua situação, não há dúvida, mas o tema da humilhação é essencial. É um dos sentimentos que marcaram minha infância e dos quais me lembro mais: a humilhação, ser humilhado, fisicamente, por palavras ou numa dada situação. Eu pergunto se as crianças não sentem continuamente e muito intensamente esse sentimento de humilhação em suas relações com os adultos e com as outras crianças. Tenho a impressão, por exemplo, que as crianças têm prazer em se humilhar umas às outras. Todo o nosso sistema de educação é, na verdade, uma humilhação, e quando eu era pequeno, isso era ainda mais evidente do que é hoje. O medo de ser humilhado e o sentimento de o ser me causaram muitos problemas na minha vida adulta. (...) Humilhar e ser humilhado, são, na minha opinião, dois sentimentos que constituem uma componente ativa de todo nosso sistema social e não falo somente pelos artistas [aqui Bergman cita como exemplo a burocracia que envolve a sociedade, uma coisa que o brasileiro conhece bem]. (...) A pessoa humilhada se pergunta constantemente como vai poder humilhar uma outra pessoa, como ela vai poder replicar, esmagar o adversário, paralisá-lo até eliminar nele a própria ideia de revanche” (28) (imagem abaixo, Através de um Espelho, Såsom i en spegel , 1961)


Através de um Espelho (1961) é um filme ligado a meu casamento
com  Käbi  Laretei.  Como  escrevi  em  Lanterna Mágica,  havíamos
criado   em   nosso   casamento    uma   encenação    cansativa   (...)

Ingmar Bergman (29)

Através das tarefas diárias mostradas na tela, quase todos os filmes anunciavam vários tipos de produtos, para tal utilizando-se de humor e frequentemente quebrando a quarta parede (quando o ator ou atriz se vida para a câmera e se dirige abertamente ao espectador). Soila explica que a palavra mais frequentemente utilizada nos filmes de dona de casa é “moderno”, seguida por “prático” e “planejamento”. Se a cozinha precisa de mudanças, especialistas na relação entre a dona de casa e a cozinha são chamados. O planejamento financeiro deve ser de longo prazo, paga-se uma parte dos gastos e se financia o restante. Existia também uma retórica contra o desperdício e o excesso, seja de dinheiro, seja do prato de comida. Os filmes de dona de casa representam um ideal onde a ordem determina um padrão global para as vidas das pessoas. Mas não parou por aí, procurando controlar o futuro através da genética, o Estado social democrata do bem estar social incluía a eugenia desde a década de 1920 (que podia abranger desde o incentivo à abstinência sexual, a esterilização e o aborto, até o incentivo financeiro do Estado para a população procriar). Essa fusão era considerada moderna. O projeto sueco, primeiro no mundo a nível estatal, inspirou e sobreviveu ao extermínio em massa que resultou da implementação do projeto na Alemanha nazista, sendo desativado apenas em meados da década de 1970 (30). (imagens abaixo, da esquerda para a direita, de cima para baixo, o filme de vampiros de Bergman, A Hora do Lobo, 1968; Sebastian Fischer e Thea, dois alter egos de Bergman, O Rito, 1969; Para não Falar de Todas Essas Mulheres, 1964; O Olho do Diabo, 1960)


Bergman disse que a opinião sobre ele na Suécia importava
mais do que no estrangeiro. Contudo, durante os anos 1960 ele
estava  isolado,   seu   cinema   contrastava   com   as   questões
 sociais contemporâneas  que  interessavam a seus pares   (31)

Talvez seja mais produtivo levar em conta este contexto para compreender o comentário de Bergman a respeito do agressivo cotidiano do casal de Cenas de um Casamento: “Pode parecer uma coisa descuidada para  dizer, mas escrever  sobre Johan e  Marianne foi muito agradável  (...)” (32). Liv Ullmann, que interpretou o papel da esposa, admitiu que, ao assistir ao filme incógnita numa plateia de cinema nos Estados Unidos (na versão reduzida para cinema), chorou junto com a espectadora do lado quando viu Johan abandonar a mulher. Liv Ullmann explicou que Marianne é do tipo que por muitos anos permitiu que parte dela hibernasse sem função. Tudo aquilo que uma educação tradicional sufocou. Seu ponto de vista em relação à vida foi construído em torno de convenções e ausência de fantasia. Em grande medida, o amor se traduzia por um sentimento de dependência. Ela procurou justificar sua vida em função de outro ser humano, partindo da crença otimista de que possuía força suficiente para ambos. Durante anos Marianne sufocou aquilo que sentia por si mesma; agora (que Johan se mandou), tudo é silêncio. Ela grita de angústia, que Liv reconhece como sua também e que tem certeza que é a mesma da mulher da poltrona ao lado. Inicialmente, Marianne se enrola numa coberta e decide não sair nunca mais, até que a tempestade passa e ela decide mudar sua vida (futuramente será feliz como amante de um homem casado, o próprio Johan). Bergman descreveu Cenas como um filme a respeito de duas pessoas que se desligam um monte de convenções, especialmente a mulher (33). (imagem abaixo, após mais uma demonstração de fraqueza masculina, Johan bate em Marianne, Cenas de um  Casamento, 1973)


“Johan e Marianne salvaram centenas de casamentos”

Manchete do jornal Expressen, 27 de maio de 1973, referindo-se
ao  enorme  sucesso  de  Cenas de um Casamento  na  Suécia 

Na Suécia, depois de Cenas de um Casamento, as consultas de terapia familiar duplicaram. Bergman ficou muito feliz em saber que os índices de divórcio na Dinamarca aumentaram muito depois da veiculação da série. No sentido de que as pessoas se sentiram estimuladas a por um fim em situações dolorosas que poderiam se arrastar indefinidamente (34). “(...) Na época, [em 1973,] a série levantou fortes discussões sobre o casamento. A audiência do programa aumentava à medida que a agressividade dos personagens aumentava. Ver o casal na televisão despertou algo em vários espectadores que os afetou por muito tempo, para o melhor e para o pior” (35). Outro filme de Bergman que repercute indiretamente os filmes de dona de casa e a eugenia é No Limiar da Vida (Nära Livet, 1958). Filmado no interior de uma maternidade, onde três mulheres dividem suas dúvidas e respeito da maternidade, faz uma apologia ao parto como milagre – ou, como sugeriu Olivier Assayas, das dores do parto. Muito da grandeza de Bergman, insiste Assayas, está na atenção ao sofrimento das pessoas, no reconhecimento da dor delas – enquanto os filmes de dona de casa estão focados no ajuste dos membros da família a certo modelo de comportamento (e ao mercado, é claro), aparentemente sem questionar se tal modelo se ajusta às pessoas. Trazendo à luz essa dor escondida no âmago de cada um, Bergman nos alivia por um instante, por um momento de ilusão de conforto. Para Assayas, “é aí neste ‘lugar’ que acontece alguma coisa relacionada à verdadeira função da arte. O verdadeiro lugar do cinema, longe da cinefilia contemporânea calmante e domesticada” (36).


Leia também:


Notas:

1. BERGMAN, Ingmar. Imagens. Tradução Alexandre Pastor. São Paulo: Martins Fontes, 1996. P. 234.
2. No documentário A Ilha de Bergman (Bergman Island/Bergman och Fårö, Marie Nyreröd, 2004), distribuído no Brasil por Versátil Home Vídeo, 2006.
3. BERGMAN, I. Op. Cit., pp. 17-8.
4. AUMONT, Jacques. Ingmar Bergman. “Mes Films sont L’explication de mes Images”. Paris: Cahiers du Cinema, 2003. P. 232n12.
5. MICHAELS, Lloyd. Bergman and the Necessary Illusion. An Introduction to Persona In: MICHAELS, Lloyd (Ed.). Ingmar Bergman’s Persona. Cambridge/New York: Cambridge University Press, 2000. Pp. 10-2.
6. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). The Ingmar Bergman Archives. Köln: Taschen, 2008. P. 218.
7. YOUNG, Barbara. The Persona of Ingmar Bergman: Conquering Demons through Film. London: Rowman & Littlefield Publishers, 2015. P. 34.
8. Bergman dá adeus ao Cinema. Entrevista (não datada) do cineasta nos extras do DVD de Fanny e Alexander (versão para cinema), distribuído no Brasil por Versátil Home Vídeo, 2012.
9. ORR, Christopher. Scenes from the Class Struggle in Sweden. Persona as Brechtian Melodrama In: MICHAELS, Lloyd (Ed.). Op. Cit., p. 88.
10. Idem, pp. 87-8.
11. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). Op. Cit., pp. 142, 143, 145.
12. BERGMAN, I. Op. Cit., p. 77.
13. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). Op. Cit., p. 147.
14. BERGMAN, I. Op. Cit., p. 343.
15. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). Op. Cit., p. 160.
16. Entrevista a Stig Björkman, 10 de fevereiro de 1969. In: BJÖRKMAN, Stig; MANNS, Torsten; SIMA, Jonas. O Cinema Segundo Bergman. Tradução Lia Zats. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. 153-4.
17. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). Op. Cit., p. 216.
18. KOSKINEN, Maaret. Ingmar Bergman’s The Silence. Pictures in the typewriter, writings on the screen. Seattle/Copenhagen: University of Washington Press, Museum Tusculanum Press, 2010. Pp. 55-6, 61-4.
19. Entrevista a Stig Björkman. Op. Cit., p. 154.
20. BERGMAN, I. Op. Cit., p. 212.
21. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). Op. Cit., pp. 307-8.
22. Idem, p. 308.
23. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). Op. Cit., p. 224.
24. SIMA, Jonas. Gritos e Sussurros. In: BJÖRKMAN, Stig; MANNS, Torsten; SIMA, Jonas. Op. Cit., p. 229.
25. SOILA, Tytti. Sweden. In: IVERSEN, Gunnar; WIDDING, Astrid Söderbergh; SOILA, Tytti. Nordic National Cinemas. London: Routledge, 1998. Pp. 192-4.
26. SIMA, Jonas. Op. Cit.
27. Idem, p. 67.
28. Ibidem, pp. 67-8.
29. BERGMAN, I. Op. Cit., p. 243.
30. Documentário Homo Sapiens 1900. Direção Peter Cohen, 1998. Distribuído no Brasil por Versátil Home Vídeo, 2007.
31. DUNCAN, Paul; WANSELIUS, Bengt (Eds.). Op. Cit., p. 324.
32. Idem, p. 414.
33. Ibidem, pp. 416-7.
34. Depoimento de Bergman durante entrevista (não datada) nos extras do DVD de Cenas de um Casamento. Distribuído no Brasil por Versátil Home Vídeo, 2006.
35. Locução incorporada na mesma entrevista da nota anterior.
36. ASSAYAS, Olivier. Itinéraire Bergmanien. In: ASSAYAS, Olivier; Björkman, Stig. Conversation Avec Bergman. Paris Cahiers du Cinéma, 2006. Pp. 116-8.

18 de set. de 2014

As Deusas de François Truffaut


“As  mulheres,  tal  como  Truffaut  as  descreve,
muitas vezes existem  menos  como  presença  (em)  (a)
(para)  si mesmas do que como realização das visões masculinas. 
 Primeiramente,   os  homens  e  espectadores  percebem
 a imagem, em seguida a mulher que a encarna”

Annette Insdorf (1)

Mais Complexas do que Alguns Homens Imaginam

Antipáticas e atraentes, destrutivas e aconchegantes, dominadoras e conciliadoras, desesperadamente loucas e desesperadamente apaixonadas. A lista de qualidades das personagens femininas que Annette Insdorf encontrou em filmes de Truffaut sugere que ele foi capaz de compreender que o contraditório é um traço básico que elas compartilham com os homens! (2). Antoine Doinel, personagem/alter ego do cineasta em vários de seus filmes, vivia se questionando e perguntando para todo mundo se as mulheres são mágicas. Insdorf acredita que a esta poderia somar-se pelo menos mais duas perguntas: As mulheres são vulneráveis? Elas são mais complexas do que os homens supõem? Para Insdorf, levando-se em consideração os tipos femininos criados por Truffaut, a resposta é sim. Ainda de acordo com Insdorf, a coexistência de diversas personalidades numa mesma mulher é um padrão tão recorrente em Truffaut que o “duplo” é uma presença marcante em sua obra. Por um lado, temos os filmes onde um personagem masculino sente-se atraído por duas figuras femininas complementares. É o caso de Thérésa/Léna em O Tiro no Pianista (Tirez sur le Pianiste, 1960), Franca/Nicole em Um Só Pecado (La Peau Douce, 1964), Linda/Clarisse em Fahrenheit 451 (1966) (interpretadas pela mesma Julie Christie), Christine/Fabienne em Beijos Proibidos (Baisers Volés, 1968), Christine/Kyoko em Domicílio Conjugal (Domicile Conjugal, 1970) e Anne/Muriel em As Duas Inglesas e o Amor (Les Deux Anglaises et le Continent, 1971). Por outro lado, existem também aqueles filmes em que as mulheres possuem pelo menos duas facetas. É o caso de Catherine em Jules e Jim (Jules et Jim, 1962), Julie/Marion em A Sereia do Mississipi (La Sirene du Mississipi, 1969), Julie/Pámela em A Noite Americana (La Nuit Americaine, 1973) e Adèle/Madame Pinson em A História de Adèle H (Adèle H, 1975). (imagem acima, O Homem que Amava as Mulheres, 1977; abaixo, A Sereia do Mississipi, 1969)


A obra de Truffaut gira em torno das relações entre os adolescentes e sua deusa. Insdorf sugere que a atitude do cineasta em relação aos personagens femininos se assemelha à dos pivetes. Outro tema recorrente é o movimento que vai da adoração (Bernadette em Os Pivetes, Les Mistons, 1957) ao ressentimento (Théresa e Léna em O Tiro no Pianista, e Catherine em Jules e Jim, morrem; poderíamos incluir a mãe de Antoine em Os Incompreendidos, já que ele desejou a morte dela), passando pelo testemunho da morte do herói/rival (em Um Só Pecado, Fahrenheit 451, A Noiva Estava de Preto e A Sereia do Mississipi, as esposas destroem os homens, Linda sendo a menos direta), chegando ao distanciamento (Camille Bliss e Adèle H) (3).

Julie Kohler e Camille Bliss, Múltiplas Personalidades


 Cinco homens diferentes equivalem a cinco
  maneiras  distintas  de  perceber  uma  mulher, 
ou  poderia  ser  a  descrição  de  cinco  maneiras
diferentes  dessa   mulher   utilizar   sua  visão
 feminina    para    alcançar   seus   objetivos

Para cada um de seus pretendentes, Julie em A Noiva Estava de Preto (La Mariée Était en Noir, 1967) (imagens acima) e Camille em Uma Jovem Tão Bela Como Eu (Une Belle Fille Comme Moi, 1972) (imagens abaixo) apresentam cinco personalidades. Adaptações de dois romances distintos, as duas se encaixam na obra de Truffaut como mulheres fatais. Num sentido literal, Julie é extremamente moral e mata por vingança, enquanto Camille é amoral e mata por prazer. Um pouco antes, Bernadette Lafont (que interpreta Camille) foi o fetiche de cinco garotos em Os Pivetes. Eles a seguem e chegam a hostilizar o namorado dela até que descobrem a respeito da morte do rapaz. No final, ao vê-la passar vestida de preto, os garotos já não sentem prazer. Na opinião de Insdorf, A Noiva Estava de Preto retoma esse filme onde parou: o que acontece com a mulher depois da morte do homem que ela amava - com Julie, o amor frustrado se transforma em hostilidade. Seus pretendentes são mais velhos, embora não menos ingênuos, assegura Insdorf. De fato, Insdorf acredita que em Uma Jovem Tão Bela Como Eu pode-se dizer que Bernadette se vinga dos garotos de Os Pivetes.


A culpabilidade masculina é o contexto de A Noiva Estava de Preto, clichê da mulher que imagina ganhar o amor de um homem adaptando-se ao modelo de mulher ideal dele, ela se insinua na vida de seus cinco pretendentes/vítimas, encarnando os sonhos de cada um. Truffaut explicou que através desses cinco homens poderia descrever cinco maneiras de perceber as mulheres, mas era também um meio de descrever cinco maneiras de uma mulher utilizar sua visão feminina para alcançar seus objetivos. Cinco homens diferentes entre si (a única ligação é o interesse comum pela caça, e também pela caça às mulheres), aquilo que os une é o que assombra Truffaut: acreditar no ideal para além do imediato, no eterno para além do efêmero, na deusa sonhada para além da mulher. E cada um deles será punido por isso. Insdorf mapeia o perfil das vítimas de Julie, mostrando os pontos fracos decorrentes das ilusões deles. Playboy prestes a se casar, Bliss (mesmo sobrenome de Camille, em Uma Jovem Tão Bela Como Eu) enxerga Julie como um possível conquista. Ela aparece misteriosamente vestida de branco. Julie é evasiva, acreditando que está apaixonada por ele, Bliss se apaixona por ela. Solteiro e sentimental, Coral é tímido e solitário (o que o assemelha a Charlie Kohler, segunda personalidade de Edouard Saroyan em O Tiro no Pianista). Julie se transforma no alimento romântico dos sonhos dele, uma mulher ideal que Coral imagina destinada a ele. Aspirante a político, Bertrand está fechado em sua complacência e pretensão, incapaz de enxergar mais longe do que seus interesses mesquinhos. Ele parece satisfazer-se com o papel de mulher servil de Julie, a mulher como um bibelô conveniente. Artista e playboy, Fergus faz dela seu próprio molde particular de uma deusa. Fazendo-a posar como Diana a caçadora, ele não sabe que será a caça. Em certo momento, Fergus está atrás de Julie e pede que não se mexa, pois não consegue dizer “eu te amo” quando ela está de frente - Julie o matará pelas costas. Delvaux é um escroque brutal, seu ideal feminino é uma prostituta (4). (imagens abaixo, à esquerda, A Noiva Estava de Preto; à direita, Uma Jovem Tão Bela Como Eu)


A associação de Camille Bliss com a morte é mais cômica que aterrorizante, é uma das personagens femininas mais liberadas de Truffaut. Acusada de assassinato, está presa quando o sociólogo Stanislas Previne vai entrevistá-la e se apaixona. Ao encontrar um filme que mostra o morto se suicidando, ele descobre que Camille não é culpada. Ela se torna cantora e certa noite Stalislas aparece depois de um espetáculo. Clovis, o marido dela, os descobre juntos. Camille mata o marido e consegue que Stanislas seja acusado pelo assassinato. O marido dela só se interessa por bebida e sexo – e tem medo da mãe. Arthur adora Camille e a coloca num pedestal, ele perdeu a virgindade com ela e queria que os dois se suicidassem saltando da torre da igreja - ele saltou sozinho e ela foi acusada de assassinato. Fergus (papel interpretado pelo mesmo ator) é artista e playboy. Sam Golden é cantor e só consegue transar ao som de carros de corrida. Murène é advogado, escroque e obcecado por sexo. Stanislas é um intelectual tímido, mas louco de amor. De acordo com Insdorf, essas são as vítimas de Camille, mas também aqueles que a vitimam. No final, ela ainda seduzirá o advogado de Stanislas. Ao contrário de Julie, nunca vemos Camille realmente matar alguém.

Catherine: Ou Você Ama ou Odeia


“Nós temos com as mulheres a mesma 
relação que tivemos com a nossa mãe” 

François Truffaut (5)

Em 1969, Truffaut teceu uma série de elogios à atriz francesa Jeanne Moreau, que para ele era portadora de uma espécie de autoridade moral. Disse que Moreau é muito física, muito carnal, mais que não exprime nada de sujo nas telas, porque está mais para o amor do que para a devassidão. Quando você a conhece, explicou, descobre nela qualidades masculinas e femininas, com a vantagem de não possuir o lado racional deles e sem o lado vaidoso das mulheres. Jeanne Moreau atuou nos papéis de Julie em A Noiva Estava de Preto (adaptação do romance homônimo [1940] de William Irish) e Catherine em Jules e Jim (adaptação do romance também homônimo [1955] de Henri-Pierre Roché). Se Catherine (imagem acima) é a encarnação do precioso objeto de arte de dois homens, Julie é o modelo dos quadros de Fergus. Como ele, Jules e Jim colocam aquela mulher num pedestal. Mas assinam a própria sentença de morte ao venerar o mítico e dispensar o humano. Julie preenche o papel que Fergus lhe atribuiu: Diana caçadora. Catherine se torna uma deusa – por definição, insistiu Insdorf, uma destruidora de homens. A Noiva Estava de Preto apresenta uma inversão interessante. Como bem notou Insdorf, Fergus se apaixona por Julie porque ela o lembra de sua arte. No final, ele passa a amar o retrato pintado porque ele lembra sua mulher amada. Ao desenhá-la ao lado de sua cama, ele completa o processo da arte-feita mulher e da mulher-feita arte, e se conforta com a ilusão de que capturando seus traços ele possuirá a alma dela. Jules e Jim não terão mais sorte em seu desejo de possuir Catherine, porque ela é mais complexa do que uma estátua e mais misteriosa do que um modelo. Catherine diz que ama a heroína de uma peça sueca porque ela quer ser livre e inventa sua vida a cada instante. E essa é a meta de Catherine, fazer de sua vida uma obra de arte fluida, improvisada, espontânea e rica de personagens. Insdorf identifica a autodeterminação dela com a de Julie, embora esta canalize suas forças para a vingança, enquanto Catherine está focada na liberdade e no amor (6).

“As duas mulheres possuem força e energia admiráveis, mas são antipáticas de uma forma fundamentalmente similar: seus princípios se tornam mais do que os homens que elas amam e, em sua sede pelo absoluto, perdem a capacidade de saborear o que vivem. Nesse sentido, elas são, em última análise, tão culpadas quanto as vítimas [de Julie], por escolher a frieza do ideal em detrimento do terno calor que lhes é oferecido” (7)

Ao contrário de Julie, Catherine é impulsiva, imprevisível e com um senso de liberdade apurado. Ainda assim, Insdorf acha que o fato da preferência de Catherine oscilar diariamente (um dia prefere Jules, no outro Jim) faz dela uma personagem inconstante – como se tal comportamento não fosse previsível. Radiante e ao mesmo tempo misteriosa, calma e apaixonada, Catherine é criadora e destruidora, fonte e encarnação da vida e da morte. De família aristocrata, mas gosta de trabalhos rústicos. Resistente a todas as etiquetas, ela é amante, mãe (“vamos, crianças!”), criança mimada e figura andrógina. Enumerando todas essas características de Catherine, Insdorf pretendia reforçar um caráter ambíguo que afinal caracteriza a própria vida. Talvez a primeira coisa que salta aos olhos em Jules e Jim é que, apesar do título, Catherine é a personagem dominante. Na opinião de Jules, ela é “a mulher”, não foi feita para apenas um homem, mas para todos. Ele a vê como “uma força da natureza que se exprime através de cataclismos”, “uma rainha”, “uma mulher de verdade”. Fogo e água são as duas imagens associadas e contribuem para enfatizar o ardor e o entusiasmo dessa personagem. Catherine volta à água quando pula no rio Sena e toca o fogo (ela se queima) ao queimar velhas cartas de amor. Quando está chovendo, ela quer ir para o litoral, até que a chuva a traz de volta à Paris. A água é a morte que ela escolhe quando joga o carro da ponte, depois é o fogo que destrói os caixões. O Vitríolo, fogo líquido que Catherine carrega, é aquilo que na opinião de Insdorf caracteriza melhor essa personagem.


É possível colocar uma mulher no pedestal
 sem   ao   mesmo   tempo   venerar   o   mítico
em   detrimento   de    seu   lado   humano?

O próprio Truffaut via Catherine como uma deusa, e como tal ela consome vorazmente a imagem que os adoradores lhe devolvem dela mesma, uma necessidade infinita de atenção. Enquanto Julie nutre um sentimento a respeito de si que a impedirá de perceber a forma como os homens a veem (como uma mulher para amar), o de Catherine gira totalmente em função do olhar dos outros. Insdorf arrisca uma resposta à pergunta levantada pelo filme (o que resta do ser quando não existe mais amor para defini-lo?), talvez Catherine não permita jamais que a solidão se instale, para que essa pergunta nunca seja feita. Insdorf aponta como um tema frequente em Truffaut justamente a fonte da tensão para Catherine: a colocação em perspectiva da própria identidade, independentemente da forma como achamos que os outros nos veem. (imagens acima, As Duas Inglesas e o Amor, 1971)

“O que Catherine é para si mesma permanece um mistério: seu egocentrismo, paradoxalmente, a impede de se conhecer. A supressão de uma linha do romance por Truffaut é instrutiva. [No livro] Catherine diz, ‘eu sou uma mãe (…), uma mãe antes de tudo’. Mas o filme apaga esse sentimento, insistindo na personagem da amante, mais brilhante e coerente. De fato, seu desejo de maternidade poderia ser conectado à sua necessidade permanente de adoração. A procriação dá ao ato de amor seu potencial absoluto. Sua relação com Jim repousa inteiramente sobre seu desejo de ter um filho com ele. Quando ela falha, eles se separam (…). A seguir, quando ela engravida, é com paixão que declara a Jim que ele vive nela. E, quando acontece um aborto espontâneo, ela o deixa. Reclamando uma liberdade que não concede aos outros, ela manifesta uma falta de responsabilidade e de lucidez que condicionam sua maneira de ser. Ela chega mesmo a dizer a Jim: ‘eu não quero que me compreendam’. Incapaz de aceitar sua própria vulnerabilidade ou de compreender a de seus amantes, ela prova mesmo que é mais uma deusa do que uma mulher realizada. Como as divindades mitológicas, suas emoções humanas lutam com sua natureza sobre-humana: ela é orgulhosa, mesquinha, ciumenta e egoísta – implacavelmente destruidora ao sentir-se insuficientemente adorada (…)” (8)

Quando Vimos Uma, Vimos Todas

 
“Já fui muitas vezes acusado de retratar
 homens fracos e mulheres decididas, mulheres que
 conduzem  os  acontecimentos,  mas  eu  penso que
é  assim que  as  coisas são na vida real”

François Truffaut (9)

Com O Homem que Amava as Mulheres (l’Homme qui Aimait les Femmes, 1977) encontramos mais um homem-criança, embora o foco agora recaia sobre um grupo de mulheres. Na opinião de Insdorf, somos apresentados a heroínas de uma força e maturidade novas com Marion e Bárbara, respectivamente em O Último Metrô (Le Dernier Metro, 1980) e De Repente num Domingo (Vivement Dimanche!, 1983). Além de Uma Jovem Tão Bela Como Eu, Os Pivetes teria sua continuação também em O Tiro no Pianista. Aqui também encontramos cinco adolescentes, mais crescidos, e suas preocupações com as mulheres. Os dois gângsteres, Ernst e Momo, Plínio, Edouard Saroyan e sua segunda personalidade, Charlie Kohler. Para Truffaut, o verdadeiro tema do filme é o amor e as relações entre homens e mulheres. Logo no começo, um homem comenta sobre seu casamento e o número de virgens em Paris. Na sequência do bar, uma série de cenas se dedica ao tema. Comentários sobre a fascinação dos homens; outro que olha insistentemente para os seios da mulher com quem está dançando; um baixinho acaba batendo na mulher que parecia rir dele – enquanto isso, o corpo dela é analisado por dois adolescentes. O tema da canção é o sexo – a música que ouviremos no rádio posteriormente fala de emoção e busca pelo amor (10). (imagens acima, A História de Adèle H, 1975)

Noutra cena, um dos gângsteres conta como seu pai morreu num acidente de carro porque ele olhou para uma mulher. O comentário de Charlie (“quando vimos uma, vimos todas”) vem depois de um monte de frases sobre como as mulheres provocam os homens com suas maquiagens e roupas. Plínio, o dono do bar, acredita que a “mulher é pura, delicada, frágil, a mulher é suprema, a mulher é mágica”. Plínio gosta de Léna, e vai brigar com Charlie porque ele transou com ela. Thérésa morre porque Edouard busca a fidelidade de um amor idealizado e não uma experiência imperfeita. Incapaz de aceitar o adultério altruísta de sua esposa (ela cedeu ao assédio de um empresário que prometeu dar um impulso na carreira de Edouard) e de consolá-la, ele exige amor absoluto – portanto, impossível. Nesse particular, ele é como Plínio, Adèle H e também Catherine. Como os pivetes, Insdorf sugere, Edouard destrói aquilo que não compreende, neste caso, a mulher que ele ama. Desse ponto de vista, conclui Insdorf, Truffaut parece estabelecer um contexto de culpabilidade masculina sobre a qual se debruçarão suas futuras personagens femininas.

As Mulheres de Antoine Doinel


Ida: E a forma do rosto? Antoine: Um rosto oval perfeito…Quero
 dizer,  um  oval  levemente  triangular…  Mas  a sua  pele é brilhante, 
 como  se   fosse    iluminada    por    dentro!   Ida:   Escute     Antoine. 
Queremos um relatório, não uma declaração de amor. Boa Noite.

Antoine descrevendo Fabienne Tabard, em Beijos Proibidos

Em Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959), Antoine está na adolescência e certo dia involuntariamente teve oportunidade de cometer o crime perfeito. Estava matando aula com um amigo pelas ruas de Paris quando encontra sua mãe. Mas ela está aos beijos com um amante. Mãe e filho fazem apenas um contato visual. Foi o suficiente para que à noite sua mãe começasse a tratá-lo melhor em casa (ela é muito impaciente com Antoine) e nem sequer pergunta o que o filho estava fazendo fora da escola. Numa dessas escapadas pela cidade, Antoine e um colega roubam a fotografia de Mônica no saguão de um cinema. Tratava-se da sensual e inconsequente menina/mulher de Mônica e o Desejo (Sommaren Med Monika, 1953), uma homenagem que Truffaut prestou ao realizador do filme, o cineasta sueco Ingmar Bergman. Neste filme ela aparece nua e chega a colocar a mão de seu namorado em seus seios, decididamente algo que não aconteceria na obra de Truffaut.


Em    Beijos    Proibidos,    quando  Fabienne
 invade seu apartamento,  a primeira  reação de 
Antoine  foi  se  cobrir quase totalmente   e ele
só estava sem camisa em seu próprio quarto
No média-metragem Antoine e Colette (episódio de Amor aos Vinte Anos, l’Amour à Vingt Ans, 1962), ela é o primeiro amor dele, que já está no início da idade adulta. Antoine tenta seduzir Colette, que se mantém distante. Esta personagem feminina é interpretada por Marie-France Pisier, por quem o homem casado Truffaut se apaixona (11). Pisier retornará em Beijos Proibidos novamente como Colette, o antigo primeiro amor de Antoine. Antoine e Colette é uma história parcialmente autobiográfica, onde Truffaut fala de sua paixão por Liliane Litvin quando ele tinha 18 anos de idade. Exatamente como Antoine, Truffaut arrumou um quarto em frente ao de Colette – 20 anos depois, Truffaut faria a mesma coisa em A Mulher do Lado (La Femme d’à Cote, 1981), agora com um fim trágico. Mas ele mudou algumas coisas, especialmente o desfecho infeliz – Truffaut tentou suicídio depois de ser ignorado por Liliane (12).

No roteiro, Liliane se tornou Colette (embora tenha cogitado em usar o nome de Liliane num primeiro tratamento do roteiro), mas Truffaut ainda pode ter representado Liliane nas instruções que deu a Pisier para fazer certos gestos. Carole Le Berre explicou que o cineasta pediu para que Jean-Pierre Léaud (mais conhecido como Antoine Doinel) mantivesse um olhar firme e também lhe deu instruções precisas sobre para onde olhar, experimentando com uma forma de mostrar o início de uma obsessão erótica que seria desenvolvido a seguir em Um só Pecado (La Peau Douce, 1964). Truffaut também experimentou com um sistema de flashbacks que seria aprofundado posteriormente em O Amor em Fuga (l’Amour en Fuite, 1979). Convidado para o apartamento de Colette, Antoine diz aos pais dela que ele não tem se encontrado com os seus (originalmente Truffaut pretendia que Antoine os tivesse visitado, mas mudou de ideia porque a conversa que o rapaz teria com os pais poderia criar problemas entre o cineasta e os seus próprios pais). Truffaut disse que desejava compensar Os Incompreendidos, apresentando agora adultos simpáticos. Procedendo desta forma, Truffaut acreditava que Antoine e Colette ficaria mais leve, e mais próximo da vida.


As mulheres são mágicas?  Antoine  deveria
parar…   parar   de   fugir…   tirar   vantagem   do
presente… não mais ajustar as contas com a mãe
 através  de  cada  garota  que  ele  encontra… 

Comentário de Truffaut a respeito do 
personagem Antoine Doinel, seu alter ego

O cineasta admitiu que o filme não saiu a comédia que pretendia. Ainda que o final fosse mais irônico do que o que Truffaut viveu com Liliane, ele próprio considerou que o humor do filme se mistura um pouco com amargura. Na última sequência, Antoine perdeu seu posto ao lado de Colette para um rival, restou-lhe assistir televisão com os pais dela. “‘É a terceira vez que isso acontece comigo’, Truffaut escreveu após terminar Jules e Jim, ‘começar um filme que eu penso que será divertido e perceber ao longo do caminho que apenas a tristeza o salvará’” (13). Como Catherine em Jules e Jim, Fabienne Tabard também é uma espécie de aparição para Antoine, em Beijos Proibidos. Como Jules, Jim e Fergus (este último em A Noiva Estava de Preto), Antoine se apaixona por uma mulher porque ela corresponde às visões românticas que encontrou na arte. Quando o encontramos pela primeira vez nessa nova etapa de suas aventuras, ele começa a ler O Lírio do Vale (Le Lys dans la Vallé), de Balzac – história do amor impossível entre Félix de Vandenesse por Madame de Mortsauf, uma mulher mais velha. Insdorf mostra que a imagem da mulher perfeita forjada por Antoine está ligada ao romantismo/sublimação/absolutismo do século XIX (14). (imagens acima, Domicílio Conjugal, 1970)


Insdorf sugere que Antoine tenta desenvolver com uma prostituta o amor ideal (portanto não consumado) de Félix. Procura beijá-la e acariciar os cabelos dela, mas a mulher se comporta de maneira impessoal. Quando Fabienne surge na sapataria onde Antoine trabalha, é como se uma aparição se materializasse. Ele está hipnotizado por essa aparição (e a câmera subjetiva nos faz compartilhar com Antoine esse primeiro olhar). Felizmente para Antoine, desta vez Fabienne se mostra calorosa e lúcida o suficiente para escapar da armadilha romântica. Ao visitá-lo, e após receber uma declaração desesperada de amor, ela explica que eles não são personagens de um romance do século XIX, mas um homem e uma mulher num quarto, situação que em si já é mágica. Fabienne diz para Antoine que O Lírio do Vale é lamentável porque aquele amor não se concretiza. Então ela propõe que eles fiquem juntos um tempo e depois não se encontrem mais. Insdorf concorda com a conclusão de Dominique Fanne de que Fabienne despedaça o sonho de Antoine, mas ao mesmo tempo obrigando-o a parar de olhar para a vida e começar a vivê-la. Para Insdorf, a proposta de Fabienne era um compromisso necessário e afetuoso entre o vulgar e o não consumado, ainda assim constituindo um triunfo da vida sobre a ilusão. (imagem acima, O Amor em Fuga, 1979)

Aparentemente, depois deste encontro com Fabienne, Antoine foi capaz de apreciar as qualidades de sua amiga Christine. De acordo com Insdorf, esta é uma das primeiras “mulheres modernas” e leves no universo de Truffaut. Tudo indica que ele e ela conseguirão seguir juntos, já que antes de tudo são amigos. Insdorf não compreende muito bem o destino de Fabienne. Para Antoine, e, segundo Insdorf, para Truffaut também, ela se encaixa na tradição francesa da mulher madura conduzindo um homem jovem pelos caminhos do amor e desaparecendo em seguida. Ao marido dela Truffaut deu uma dimensão cômica, mas Fabienne ficou com ele. Insdorf não se conforma e acha inexplicável que Fabienne fique com esse marido e que seu objetivo seja apenas tratar da educação sentimental dos empregados da loja. “Num filme que tenta combater toda uma imagem do século XIX, Fabienne Tabart é paradoxalmente utilizada num papel próprio ao século XIX” (15).


Em  Beijos  Proibidos,  Fabienne
tranca a porta do apartamento de Antoine
e,   numa    alusão   sexual   explícita,  enfia
a  chave  dentro  de  uma garrafa

Insdorf esclarece que apenas em O Homem que Amava as Mulheres Truffaut joga alguma luz nessa situação através de Hélène, da loja de lingeries. Mulher na faixa dos 40 anos, quando Bertrand a convida para sair ela recusa educadamente. Ela explica que prefere homens mais jovens! Seja como for, cada uma ao seu modo, Fabienne e Hélène são sujeitos em suas relações, não apenas objetos – no caso da primeira, pelo menos nos casos extraconjugais. Na sequência de Beijos Proibidos, em Domicílio Conjugal encontramos Kyoko. Incapaz de ultrapassar as banalidades, ela é “o objeto” por excelência. Antoine está com Christine, mas esse caso com Kyoko o leva a mais um beco sem saída (ela é superficial e ele não sabe o que quer). Durante um encontro com ela, Antoine fica telefonando para Christine, procurando um meio de voltar a fazer parte da vida dela. Em certo momento ele diz que Christine é como uma irmãzinha, uma filha, uma mãe. A resposta dela: “gostaria de ter sido sua esposa também”.

“(…) Christine é uma das raras esposas na obra de Truffaut [a não tocar na morte]. Catherine, Franca (Um só Pecado) e Linda (Fahrenheit 451) querem um marido de acordo com seus desejos, senão nada feito. Marion (A Sereia do Mississipi) tenta matar Louis por seu dinheiro, e Thérésa (O Tiro no Pianista) se suicida. Julie Koehler e Camille Bliss são profissionais do assassinato e Mathilde (A Mulher do Lado) mata aquele que ela ama antes de se suicidar” (16)

De acordo com Paul Duncan e Robert Ingram, a decisão de Truffaut quanto a voltar a filmar uma história em torno de Antoine Doinel não tem outra razão senão o fraco retorno financeiro de O Quarto Verde (La Chambre Verte, 1978). O cineasta não tinha mais planos de voltar a Doinel, duvidando da empatia do personagem agora em idade adulta.  Felizmente para Truffaut, o filme foi um sucesso comercial (17).  De acordo com Truffaut, Domicílio Conjugal deveria ter sido o último filme com Antoine Doinel, reconhecendo a grande oportunidade que foi poder seguir um ator (Jean-Pierre Léaud) e um personagem dos 14 aos 30 anos de idade. O Amor em Fuga apresenta uma série de flashbacks (dos filmes anteriores da série e outros inventados) articulados numa estrutura que o cineasta considerava artificial. Originalmente, disse ele, o roteiro contava a história de Antoine passando por uma crise nervosa, num divã de analista contando episódios de sua vida e tendo seu antigo primeiro amor (Colette) como psicanalista (ela lhe explicaria que por razões óbvias não poderia ser sua analista) (18). (imagens abaixo, A Noite Americana, 1973)


O Amor em Fuga revisita e resume a vida passada de Antoine enquanto ele tenta levá-la mais alguns passos adiante. Prestes a se divorciar, Antoine está agora com Sabine. Contudo, ao reencontrar Colette (que conhecemos em Antoine e Colette) ele já deixa Sabine esperando e tenta reconquistar o antigo primeiro amor – Truffaut escolheu Dorothée para atuar como Sabine por considerar que ela representava a mulher jovem contemporânea, combinando ingenuidade com uma natureza franca e sem medo. Colette lê a autobiografia de Antoine e, ao encontrar com Christine, as duas riem do fato de pertencerem ao clube das “ex” de Antoine. Ele terá um encontro marcante com o amante de sua mãe, o senhor Lucien (aquele mesmo que ele viu pelas costas na Place Clichy quando ainda matava aula em Os Incompreendidos). Segundo Carole Le Berre, é um encontro de reconciliação póstuma com a mãe de Antoine (para cuja tumba no cemitério de Montmartre o senhor Lucien o leva), mas também com a mãe do cineasta. Truffaut fará uma trapaça misturando sua biografia com a de Antoine: quando o senhor Lucien afirma que o rapaz não poderia ter ido ao enterro da mãe porque estava no exército (embora tenha estado no exército quando tinha mais ou menos a idade de Antoine, não seria o caso do cineasta, pois sua mãe faleceu em 1968, ano em que realizou Beijos Proibidos).

Contemporâneo de Truffaut, o cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder disse certa vez que os problemas que trazia de sua infância não eram nada se comparados aos de pessoas como o cineasta francês. Em certo sentido, o comentário de Fassbinder é até positivo em relação a Truffaut, já que o alemão quis dizer que não teve problemas porque simplesmente não teve infância (19). Fassbinder também construiu em seus filmes uma galeria de personagens femininas marcantes. Além disso, assim como o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, o alemão escalou sua própria mãe em vários papéis de seus filmes, atitude que Truffaut não chegou a tomar – será que chegou a pensar nesta hipótese? Quando Truffaut deu indicações para escrever a letra de uma música que comissionou de Alain Souchon para O Amor em Fuga, o cineasta escreveu: “As mulheres são mágicas? Antoine deveria parar… parar de fugir… tirar vantagem do presente… não mais ajustar as contas com a mãe através de cada garota que ele encontra…” (20). “As mulheres são mágicas?” é uma pergunta muito frequente na boca de Antoine Doinel. Em O Amor em Fuga, Antoine vê alguém terminando um relacionamento por telefone e rasgando uma fotografia. Doinel vai até a cabine telefônica, recolhe os pedaços da foto e passa a procurar a mulher (em Beijos Proibidos ele trabalhou numa agência de detetives, adquirindo certa prática no assunto). Foi assim que conheceu Sabine, mas nunca contou a ela que o encontro deles não foi casual. Durante a edição de O Amor em Fuga, Truffaut cortou parte da carta que Antoine escreverá para Sabine: “Minha memória deve estar pregando peças em mim ao me permitir lembrar apenas imagens ameaçadoras de minha mãe. Pobre ou não, em [cada um desses momentos] ela me disse apenas uma coisa: que o amor é a única coisa que conta”. Durante as filmagens, Truffaut escreveu à mão no canto do roteiro a resposta de Antoine à Sabine sobre porque ele não contou há mais tempo para ela a respeito de seus sentimentos: “Porque… Porque por toda a minha vida eu me acostumei a esconder minhas emoções, e a não dizer as coisas diretamente” (21).

As Mulheres Vestidas de François Truffaut


“Que seja erótica, esportiva ou natural, o cinema
de    François    Truffaut    abomina    a    nudez”

Anne Gillain

Salvo por alguns seios de fora aqui e ali, Gillain acredita que os filmes de Truffaut são no mínimo bastante pudicos – considerando a época em que foram realizados (imagem acima, A Noiva Estava de Preto). Não que a nudez seja obrigatória (embora algumas vezes fique essa impressão, tanto no cinema quanto na televisão), porém Gillain acredita que os corpos cobertos na obra de Truffaut sugerem mais do que aquilo que se esconde por baixo das roupas. O cineasta declarou que, em sua opinião, a cena mais erótica do cinema acontece em O Silêncio (Tystnaden, direção Ingmar Bergman, 1963), quando ao retornar de um encontro sexual casual – do qual o espectador não viu quase nada – a mulher volta para seu quarto de hotel, desliza a mão sob o vestido e tira a calcinha para lavar na pia. “Durante muito tempo”, dirá Bernard Coudray em A Mulher do Lado, “eu pensava que várias coisas extraordinárias aconteciam debaixo das saias das mulheres”. Em A Sereia do Mississipi, ao ouvir a voz de Louis que chega de repente, Marion se levanta da cama e se veste rapidamente para recebê-lo. Gillain acredita que a cena de O Silêncio aponta o fantasma de um mistério que não chega a se revelar (22).

Não se mostra do corpo senão aquilo que o esconde, lingerie, sapatos, meias, etc. Do corpo mesmo, apenas alguns detalhes: uma parte da coxa em O Último Metrô, alguns seios em O Homem que Amava as Mulheres, uma nuca em Jules e Jim, saias apertadas e um desfile de pernas de A Noite Americana e Um só Pecado. Mas nunca nenhum nu integral. Truffaut admirava a franqueza sexual dos livros de Henry Miller, e Roger Vadim que mostrou Brigitte Bardot em E Deus Criou a Mulher (Et Dieu Créa la Femme, 1956) lhe pareceu trazer uma liberdade nova para o cinema. Gillain se refere ao pudor na obra de Truffaut como algo que esconde uma violência e um terror. O corpo feminino dá medo, disse ela, é por isso que seus filmes só o mostram de forma velada. Para Gillain, O Quarto Verde levará ao limite esse percurso do imaginário para fazer do objeto do desejo um corpo morto guardado aos pedaços como relíquia. No outro extremo, Gillain aponta para A Mulher do Lado. Especificamente na última cena, quando Mathilde tira sua meia calça e se oferece para Bernard uma última vez, antes de dar um tiro na cabeça dele e depois na própria. Enquanto acompanhamos a retirada dos corpos, a senhora Jouve sugere um epitáfio para Bernard e Mathilde: “Nem com você, nem sem você”. Por sua vez, no padrão da pudicícia, Marion imóvel na cama em A Sereia do Mississipi retoma uma cena de Um só Pecado, onde Nicole repousa de olhos fechados numa cama de hotel enquanto seu amante levanta lentamente a saia dela e acaricia suas pernas.


Na  opinião de Annette Insdorf, em
 O Homem que  Amava as Mulheres  Truffaut
 nos apresenta mais um dos seus personagens
 masculinos  sexualmente  imaturos

Robert Ingram e Paul Duncan nos lembram de que Truffaut gostava de mostrar as pernas das mulheres (23). Também à vontade na cama, as pernas de Catherine em Jules e Jim estão mais visíveis do que seu rosto enquanto Jim tira a bota dela. Novamente na cama, Marion também mostra suas pernas ao espectador. Em Uma Jovem Tão Bela Como Eu, Camille literalmente mostra sua perna para nós, além de mostrá-las também na cama, como as outras. Em O Amor em Fuga, sentada na cama de sua cabine no trem, Colete, o primeiro amor de Antoine Doinel, mostra as coxas para nós enquanto lê a autobiografia dele e ri dos erros. Em O Último Metrô somos apresentados a mais algumas pernas. Antes dela se matar, Truffaut nos mostra as pernas de Mathilde, também numa cama, em A Mulher do Lado. Em seu último filme, De Repente, Num Domingo, nos mostrará as pernas da mesma Fanny Ardant, desta vez na pele de Bárbara Becker. Mas também veremos a perna de Marie-Christine, enquanto tenta seduzir o próprio marido após confessar que é uma adúltera. Bertrand delira e imagina pernas de mulheres mesmo quando está olhando para pernas de homens, em O Homem que Amava as Mulheres. Teorizando sobre o assunto ele sugere que, “as pernas das mulheres são compassos que percorrem o globo terrestre em todos os sentidos, dando-lhe seu equilíbrio e sua harmonia” (24).

“A estrutura fetichista do erotismo em Truffaut nem precisa mais ser demonstrada. O instrumento sexual é o olho e não o sexo. O prazer nasce de superar o obstáculo diante dos olhos. A verdadeira nudez permanece horripilante porque revela a diferença sexual que é preciso ignorar. ‘Eu sei, mas de qualquer maneira…’ Não é tanto o corpo nu que espreita por trás dos pedaços de roupas ou dos enquadramentos que retalham a mulher, mas o sexo feminino, medusa que assusta e petrifica. O rito fetichista afasta esta ameaça, exorcizando o corpo da mãe e o caos do incesto” (25)

Gillain também se refere a um corpo clínico para além do corpo erótico, onde a nudez também será evitada. Passamos de um corpo sugerido, fragmentado pelos closes da câmera, capturado a partir do exterior pelo olhar do voyeur, para a alquimia assustadora do corpo interno. Esse é o corpo que domina As Duas Inglesas e o Amor. O corpo erótico vestido, coberto por lingerie, afasta a visão inquietante do corpo visceral, desastre úmido incontrolável constituído de vômitos e lágrimas de sangue. De acordo com Gillain, Truffaut queria filmar gotas de esperma no sexo de Muriel, neste filme que se pretendia uma denúncia impiedosa do amor romântico. O cineasta optou pelo close de uma mancha de sangue sobre o lençol branco para assinalar a defloração da jovem. (imagens abaixo, a partir do alto, em sentido horário, O Homem que Amava as Mulheres, O Quarto Verde, Beijos Proibidos e A Noiva Estava de Preto)


O corpo clínico, disse Gillain, é um corpo mutilado que apenas o culto fetichista restaura, no instante do gozo de sua integridade. Na última cena de O Homem que Amava as Mulheres, encontramos Bertrand imobilizado numa cama de hospital, mas, para conseguir ver/tocar as pernas da enfermeira que se aproxima, ele se debruça e acaba se espatifando no chão. O filme começa pelo final, estamos no enterro de Bertrand e todas as suas mulheres desfilam diante da cova. Narrando a cena, uma delas (Geneviève, a editora que concordou em publicar o livro de memórias de Bertrand, para o qual ela mesma escolheu o título: O Homem que Amava as Mulheres) explica que ele agora está bem posicionado para ver por uma última vez aquilo que ele mais gostava nas mulheres. Se por um lado concluímos com Gillain que Truffaut abomina a nudez (26), resta uma sensação de que no mundo atual, saturado com a mercantilização da nudez feminina, algumas peças de roupa poderiam ajudar os homens a reeducar sua libido. Contudo, Gillain aprofunda sua hipótese até chegar ao corpo masculino. No extremo oposto de As Duas Inglesas e o Amor, Gillain coloca os filmes da série Doinel. O corpo de Antoine está vivo e sempre em movimento, não se deixando levar pelos desastres do corpo interno. Desconhece desmaios como os das jovens inglesas e de Adèle H. Nós o veremos nu ou seminu pelo menos duas vezes. Em Os Incompreendidos, quando ele ouve os conselhos da mãe, e em Beijos Proibidos, quando nu sob os lençóis escuta a senhora Tabard vestida com um conjunto Chanel, que lhe propõe transar e não se encontrarem nunca mais. Duas cenas que ecoam uma de O Homem que Amava as Mulheres, onde a mãe de Bertrand costumava andar seminua pela casa, sem se importar com a opinião dele – ele descobriria que sua mãe tinha muitos amantes. Mais um traço autobiográfico de Truffaut:

“A minha mãe não suportava o barulho, ou, devo dizer, para ser mais preciso, ela não me suportava. Seja como for, eu tinha que fingir que ali não estava e ficava sentado numa cadeira a ler. Não me era permitido brincar ou fazer qualquer barulho. Eu tinha que fazer com que as pessoas se esquecessem de que eu existia” (27)

Nas três cenas, o silêncio do filho (simbolicamente, no caso da senhora Tabard) evidencia a ausência de reciprocidade e de confiança. Gillain conclui que essas relações são marcadas por duplicidade, distanciamento e dominação. Segundo Gillain, poderíamos ver aí uma ferida original que os acompanhará até a idade adulta. Ainda de acordo com Gillain, o único nu inocente e harmonioso na obra de Truffaut encontra-se em O Garoto Selvagem (l’Enfant Sauvage, 1970), onde o doutor Itard (papel do próprio Truffaut) não cessa de vestir Victor. Durante todo o filme existe um contraste entre o corpo do menino selvagem e o de Itard, coberto com cartola e fraque. Certamente numa provocação a propósito de A Noite Americana, embora com ressonâncias curiosas, Jean-Luc Godard se perguntou por que o personagem do cineasta (papel do próprio Truffaut novamente) é o único que não beija ninguém – é bom que se esclareça que os dois cineastas franceses eram inimigos nessa época (28).

“(…) O objeto que sofre na obra de Truffaut é o corpo masculino. (…) Incapaz de assumir sua nudez, preso em roupas sombrias como as do protagonista de O Quarto Verde ou do burguês de Um só Pecado que odeia os esportes e morre diante das fotografias de esquiadores. A fúria das histórias contra o feminino reflete essa imagem negativa de um corpo de alguma forma desconectado, marcado por uma cisão entre psyche e soma. Assombrado por fantasmas da castração que as histórias vêm inscrever por deslocamento no corpo da mulher” (29) (imagem abaixo, Antoine flagra sua mãe com um amante; a partir daí ela muda o comportamento, passando a tratá-lo bem em casa,  nem mesmo perguntará o que ele estava fazendo na rua naquela hora, concluindo que o garoto estava matando aula, Os Incompreendidos, 1959)

Para não Concluir 


“Metade dos meus filmes são românticos,
os   outros  tentam  destruir  o  romance”

François Truffaut (30)

O francês François Truffaut não seria o primeiro homem a expor suas dúvidas e fraquezas em relação às mulheres, embora certamente esteja entre os poucos que o fez de forma tão direta. As personagens femininas do cineasta italiano Federico Fellini são um deleite, mas geralmente são figuras de sonho. Fellini dizia que a maioria habitava seu passado, por outro lado ele também se declarava “um grande mentiroso”. Em geral, as personagens femininas do espanhol Luis Buñuel vivem numa espécie de desespero também encontrado nas personagens femininas de Truffaut. A diferença, talvez, seja que “as mulheres de Buñuel” são latinas… (desconsiderando aqui seus três últimos filmes, da sua “fase francesa”). Quero dizer, são mais explícitas, mais… diretas! – é mais simples descobrir o que elas estão sentindo. Pode não parecer razoável classificar comportamentos a partir dessa tese antiga do determinismo geográfico, mas isso dá o que pensar quando se procura escutar o tom de voz do olhar das personagens femininas do sueco Ingmar Bergman. De qualquer forma, muito ainda deveria ser dito em relação a várias personagens femininas de Truffaut. Uma descrição de tipos humanos que não termina nunca, sendo apenas adiada por um ponto final.


Exceto por variações de configuração do texto que não modificam seu conteúdo, As Deusas de François Truffaut foi publicado originalmente na Revista Universitária do Audiovisual (seção Panorama), da Universidade Federal de São Carlos, São Paulo (RUA/UFSCar). Julho de 2011.

Leia também:

Notas:

1. INSDORF, Annette. François Truffaut. Le Cinéma Est-il Magique? Paris: Éditions Ramsay, 1989. P. 150.
2. Idem, p. 135.
3. Ibidem, p. 138.
4. Ibidem, pp. 140-1.
5. GILLAIN, Anne. Le Cinéma Selon François Truffaut (1988). Citado em DUNCAN, Paul; INGRAM, Robert (Eds.). François Truffaut. A filmografia completa. Köln: Taschen, 2004. P. 4.
6. INSDORF, A. 1989. Op. Cit., pp. 145, 184.
7. Idem, p. 146.
8. Ibidem, pp. 148-9.
9. DESJARDINS, Aline. Aline Desjardins s’entretient avec François Truffaut (1988). Citado em INGRAM, Robert; DUNCAN, Paul (Eds.), 2004. P. 73.
10. INSDORF, Annette. Op. Cit., pp. 138-9.
11. NEYRAT, Cyril. François Truffaut. Paris: Cahiers du Cinéma Éditions, 2007. P. 38.
12. LE BERRE, Carole. François Truffaut at Work. London: Phaidon Press Ltd, 2005. Pp. 60-3.
13. Idem, p. 63.
14. INSDORF, A. 1989. Op. Cit., pp. 150-4.
15. Idem, p. 153.
16. Ibidem, p. 154.
17. DUNCAN, Paul; INGRAM, Robert (Eds.). François Truffaut. A filmografia completa. Köln: Taschen, 2004. P. 159, 162, 164.
18. LE BERRE, Carole. Op. Cit., pp. 256-8.
19. WATSON, Wallace Steadman. Understanding Rainer Werner Fassbinder: Film as Private and Public Art. USA: University of South Carolina Press, 1996. P. 16.
20. LE BERRE, Carole. Op. Cit., p. 258.
21. Idem.
22. GILLAIN, A. François Truffaut. In: BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs). Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque, 1991. Pp. 381-3.
23. DUNCAN, P.; INGRAM, R. Op. Cit., pp. 62, 76, 96, 124, 168, 172, 178.
24. Idem, p. 152.
25. GILLAIN, A. 1991. Op. Cit., p. 382.
26. Idem, p. 381.
27. DESJARDINS, A. Op. Cit., p. 12.
28. NEYRAT, C. Op. Cit., pp. 62-3.
29. GILLAIN, A. Op. Cit., 1991. P. 383.
30. Idem, p. 334.

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