
Entre a Fé e a Igreja

“Não me interessam
os personagens sem
aspectos contraditórios,
porque então sabemos
tudo sobre eles desde o
primeiro momento”
Luis Buñuel
Quem não se lembra das caveiras de arcebispos (imagem acima, à esquerda), ou do marquês (uma referência aos nobres espanhóis) vestido de Jesus Cristo que sai de uma orgia no final de A Idade do Ouro (l’Âge d’Or, 1930) - em uma cena inspirada em texto do marquês De Sade. Ou ainda, de Viridiana (Viridiana, 1961), uma beata que deseja ser a noiva de Cristo, mas acaba rendida pelos desejos sexuais. Inesquecível neste filme é a seqüência em que os mendigos, que Viridiana achava que através de orações e trabalho seguiriam o caminho do Bem, invadem a casa onde mora e fazem um banquete e uma orgia. Em certo momento, Buñuel distribuiu os mendigos em uma grande mesa, recriando a imagem da Última Ceia de Cristo, famoso mural de Leonardo Da Vinci pintado no século 15. (imagem abaixo)
Em A Via Láctea, (La Via Láctea, 1969), dois vagabundos resolvem fazer a peregrinação a Santiago de Compostela. Pelo caminho escutam toda sorte de comentários religiosos e com seres sobrenaturais. O filme já foi comparado ao estudo de uma espécie de inseto: o homo christianus. Seus detalhes físicos, seu comportamento, as heresias, a transubstanciação, a origem do mal, a natureza dual de Cristo, o livre arbítrio, a trindade e o nascimento da Virgem. Buñuel, apesar de ateu, tinha interesse pelos mistérios da fé. Mas mostra que a Igreja sempre quis impô-los à força. (obedecer a Igreja = ter fé)
Qualquer personagem que expressasse uma idéia herética seria advertido pelas autoridades eclesiásticas que receberá um castigo caso não se submeta. O castigo apenas muda com os séculos (2). Em O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la Liberté, 1974), Buñuel ataca a hipocrisia da Igreja colocando um grupo de monges jogando pôquer. Talvez se referindo às contradições (embora a contradição estimule seu pensamento) entre a fé e a Igreja Católica enquanto instituição, Buñuel disse: “Posso blasfemar sobre o amor louco, caso isso me ocorra. É vivificante, às vezes, blasfemar contra aquilo em que se acredita”.
A Fé Verdadeira?

Qualquer personagem que expressasse uma idéia herética seria advertido pelas autoridades eclesiásticas que receberá um castigo caso não se submeta. O castigo apenas muda com os séculos (2). Em O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la Liberté, 1974), Buñuel ataca a hipocrisia da Igreja colocando um grupo de monges jogando pôquer. Talvez se referindo às contradições (embora a contradição estimule seu pensamento) entre a fé e a Igreja Católica enquanto instituição, Buñuel disse: “Posso blasfemar sobre o amor louco, caso isso me ocorra. É vivificante, às vezes, blasfemar contra aquilo em que se acredita”.
A Fé Verdadeira?

“Eu não gosto
dos donos da verdade,
sejam quem forem. Me aborrecem e me dão medo.
Eu sou anti-fanático (fanaticamente)”
Luis Buñuel
Mon Dernier Soupir, p. 282



Através de outra seqüência de Nazarin, Buñuel chama nossa atenção para uma outra questão: a idealização dos pobres. Em sua peregrinação, Nazarin, Andara e Beatriz encontram uma mulher moribunda. Ela está quase morta, mas deseja ardentemente a presença do marido. Nazarin, seguindo seus rituais cristãos, tenta fazê-la se arrepender de seus pecados e prestar contas a Deus. Mas a mulher não quer saber disso, quer seu marido. Quando o marido retorna, expulsa os três beatos a pedido de sua mulher. Nazarin não compreende como alguém pode ignorar a salvação eterna desta forma. Beatriz, que sofre com a ausência do amado, concorda com a mulher (4). Destrói-se assim um ideal de bondade, mostrando as pessoas reais (contraditórias) por baixo da casca dos estereótipos (identidades fixas). (imagens acima e abaixo, Nazarin)
Ateu Graças a Deus
Luis Buñuel
O acaso, uma das forças do surrealismo, mostra para Nazarin que “ser bom” não faz do mundo um lugar melhor. Ele não compreende porque sua bondade não gera bondade. Portanto, tanto faz crer ou não crer. Foi nesse sentido que o ladrão que o defendeu na cela da prisão concluiu pela irrelevância, tanto de sua maldade quanto da bondade de Nazarin. Será esta conclusão que levou Buñuel a se dizer “ateu graças a Deus”? Seja como for, no mundo de Deus, acredita Buñuel, não há lugar para o acaso. Para Buñuel, o mundo é regido por um princípio de ambigüidade, não existem verdades redentoras, soluções definitivas, nada que impeça o crescimento da dúvida sobre aquilo que se tem como estabelecido (5). O real é contraditório e ambíguo.
no progresso social.
Só posso acreditar em
alguns poucos indivíduos excepcionais de boa fé,
ainda que fracassem,
como Nazarin"
Só posso acreditar em
alguns poucos indivíduos excepcionais de boa fé,
ainda que fracassem,
como Nazarin"
Luis Buñuel
O acaso, uma das forças do surrealismo, mostra para Nazarin que “ser bom” não faz do mundo um lugar melhor. Ele não compreende porque sua bondade não gera bondade. Portanto, tanto faz crer ou não crer. Foi nesse sentido que o ladrão que o defendeu na cela da prisão concluiu pela irrelevância, tanto de sua maldade quanto da bondade de Nazarin. Será esta conclusão que levou Buñuel a se dizer “ateu graças a Deus”? Seja como for, no mundo de Deus, acredita Buñuel, não há lugar para o acaso. Para Buñuel, o mundo é regido por um princípio de ambigüidade, não existem verdades redentoras, soluções definitivas, nada que impeça o crescimento da dúvida sobre aquilo que se tem como estabelecido (5). O real é contraditório e ambíguo.

Podemos reunir as interpretações dadas à Nazarin em dois grupos. No primeiro, o filme seria profundamente cristão. No segundo, o filme mostra ilusão da divindade e a descoberta da realidade do homem. Buñuel discorda das duas interpretações. Para o cineasta, qualquer homem na mesma situação de Nazarin seria movido por impulsos contraditórios (8).
Notas:
1. RENTERO, Juan Carlos. Interview with Carlos Saura In WILLEN, Linda M. (ed.). Carlos Saura: Interviews. USA: University Press of Mississippi, 2003. P. 29.
2. KROHN, Bill; DUNCAN, Paul (ed.). Luis Buñuel. Filmografia Completa. Köln: Taschen, 2005. P. 154.
3. Idem, p. 145.
4. HOLANDA, Samuel. Nazarin, Um Devorador Ambíguo de Sistemas In CAÑIZAL, Eduardo Peñuela (org.) Um Jato na Contramão: Buñuel no México. São Paulo: Editora Perspectiva, 1993. Pp. 94-5.
5. Idem, Pp. 89 e 93.
6. Ibidem, p. 92.
7. KROHN, Bill; DUNCAN, Paul (ed.). Op. Cit., p. 112.
8. HOLANDA, Samuel. Op. Cit., p. 96.