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Roberto Acioli de Oliveira

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26 de abr de 2011

A Mulher de Jean-Luc Godard



A única menção
que Brigitte Bardot
fez de seu trabalho em
O Desprezo
com Godard
foi de ele ter dito para
ela “ser  mais  como
Karina”
. Ele nega (1)




Deixando para trás uma infância e adolescência difíceis na Dinamarca, Hanne Karin Bayer foi mandada embora por sua mãe de seu “quase nunca lar” – só viu seu pai duas vezes na vida e sua mãe nunca lhe deu afeto, muito menos amor. Chegou a Paris de carona em 1958 e morava num quarto na Maison Danoise, próximo ao Champs Élysées. Ela não falava francês, certo dia num restaurante Hanne achou algo no cardápio que só custava 20 centavos e pediu. Então um garçom gentil explicou que aquilo queria dizer “couvert artístico”. Certa vez ela estava no Les Magots, um bar que o filósofo Jean-Paul Sartre tornou famoso, e foi abordada por uma fotógrafa. Em princípio desconfiada, Hanne aceitou ao saber que haveria dez pessoas no mesmo local. Depois do trabalho, a fotógrafa disse que ela não tinha muito talento, mas deu-lhe alguns endereços. A partir daí, choveram ofertas de trabalho. Hanne estava fotografando para a revista Elle quando conheceu Coco Channel. Questionada sobre o futuro, Hanne disse queria ser atriz. Com aquele nome ficaria difícil, retrucou Channel. Nascia então o pseudônimo Anna Karina (2). (imagens, Viver a Vida)


    
O Pequeno Soldado,
primeiro filme de A
nna
Karina
, seria proibido
pela censura francesa
durante três anos




Ela estava ganhando dinheiro agora, mas como ainda era menor tinha muitos problemas – como não ter direito a um talão de cheques, mesmo morando num pequeno apartamento no Champs Élysées e sendo vizinha de Marlon Brando. Seu sonho era juntar dinheiro e entrar para a escola dramática. Ela sabia que o importante agora era aprender francês e conseguiu passando todo o tempo livre no cinema. Assistia aos filmes vezes sem conta até que os diálogos fizessem sentido. Era o final do verão de 1959, já fazia um ano que estava em Paris quando ela recebeu um telegrama. Godard ainda não havia terminado as filmagens de Acossado (A Bout de Souffle, 1960), quando concordou em fazer o próximo, O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, 1960). Anna se apresentou a Godard, ele a olhou de cima a baixo e disse que ela estava contratada. Confusa, ela perguntou sobre filme. “Um filme político”, disse Godard. Anna disse que não sabia nada sobre o assunto e ele insistiu que bastava ela fazer o que ele mandasse. Houve um mal entendido quando a imprensa noticiou que Godard encontrou uma “amiga” para seu próximo filme. Em lágrima Anna disse que não era prostituta, mas Godard se explicou – levando 50 rosas na mão. O próximo problema era a minoridade de Anna, mas depois de duas tentativas conseguiram que a mãe dela viesse a Paris assinar uma autorização.



“Anna  Karina,

  que é realmente uma
 atriz nórdica, tem muito
 em comum com os atores
 do cinema mudo. Ela atua
 com seu corpo todo, de
 modo   algum   num
estilo psicológico”

Godard (3)



Godard e Anna Karina se casam em 1961, durante as filmagens de Uma Mulher é Uma Mulher (Une Femme est Une Femme), uma comédia musical que Colin MacCabe classifica como “o mais alegre dos filmes de Godard” ou talvez seu único filme alegre de fato. Depois do sucesso de Acossado, O Pequeno Soldado foi censurado e Uma Mulher é Uma Mulher foi um fracasso comercial. Então veio Viver a Vida (Vivre sa Vie, 1962), a tragédia de uma prostituta. Se o sinal de Uma Mulher é Uma Mulher é alegria e nascimento, o de Viver a Vida é tristeza e morte. E ao que parece foi o destino de Anna Karina, a gravidez que havia chegado durante o filme anterior acabou num aborto espontâneo que a deixou infértil. Triste destino de uma mulher filha de pai ausente e que nunca foi amada pela mãe. Anna Karina participará ainda de Band à Part (1964), Alphaville (1965), O Demônio das Onze Horas (Pierrot le Fou, 1965), Made in USA (1966). Seis anos depois do encontro de amor da completamente carente Hanne Karin Bayer com um Godard ciumento e obcecado pelo cinema o casamento acaba. Esta fase da obra de Godard passou à história como “os anos Karina”.

Notas:

1. MacCABE, Colin. Godard. A Portrait of the Artist at 70. London: Bloomsbury Publishing, 2004. P. 396n72.
2. Idem, pp. 127-9, 135, 141.
3. Ibidem, p. 160.  

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“As blasfêmias de Buñuel são uma  espécie de maledicência terapêutica ,   onde  o  indivíduo procura ,   mais do que  atingir o   ...

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