Melhor visualizado com Mozilla Firefox e Windows Internet Explorer (resolução 1024x768/fonte padrão Times New Roman 16)
Carregando...

Roberto Acioli de Oliveira

01/02/2008

As Mulheres de Rainer Werner Fassbinder (I)

“Muitas mulheres foram
educadas para se satisfazer
completamente quando esses mecanismos
de repressão se fixam. Isso não
significa que elas não sofram...
Claro que sim”
(1)

Rainer Werner Fassbinder



A Simbiose Entre Dominador e Dominado

Em seus filmes do princípio da década de 70 do século 20, Fassbinder mostrava tanto mulheres quanto homens sendo capturados por estruturas sociais opressivas (2). Entretanto, era muito criticado pelas feministas, que o acusavam de mostrar as mulheres basicamente como vítimas que internalizam a opressão sofrida ao invés de tentar se liberar. Fassbinder admitia isso, porém insistia que essa aceitação da vitimização por parte das mulheres era o resultado de poderosas forças sociais.

Em Effi Briest (Fontane Effi Briest, 1973) (imagem acima), Fassbinder procura clarear a questão do mecanismo de opressão (3): exercer o poder convencendo os dominados de que serem explorados é bom para eles. É o que faz Effi perdoar seus opressores e culpar a si mesma por seus problemas. O marido dela aumenta seu controle sobre a esposa manipulando os medos dela. A questão de dominar alguém estimulando seus temores: talvez, na fraqueza dos personagens masculinos, estimular os medos dos personagens femininos para poder sentir-se superior a alguém. Assim, ao invés de livrar-se do problema, transferi-lo para outra pessoa e torná-la mais fraca que si mesmo: fazer alguém ficar pior que eu.

Ao contrário de Martha (1973), cuja fonte de ansiedade é um marido, ou de Effi, que teme o marido, o medo de Margot, em O Medo do Medo (Angst vor der Angst, 1975), não tem explicação objetiva. Um das hipóteses sugere que a fonte de sua ansiedade seria a reação do governo alemão e da sociedade às posturas da esquerda e aos atos terroristas do grupo Baader Meinhof. A fonte desse estado de coisas seria a repressão da sociedade à ansiedade que ela própria cria: a repressão necessária para segurar a frustração que ela própria engendra. Em Uma Mulher de Negócios (Bremer Freiheit, 1972), temos Geesche Gottfried, uma mulher executada em 1831 pela acusação de envenenamento e outros crimes. Fassbinder consultou os arquivos da época, mas o filme se afasta deles de forma significativa, no esforço de mostrar as pressões que teriam levado esta mulher a isso (4). No fim, a sugestão do filme é a futilidade da resistência feminina à opressão da sociedade patriarcal. Para Geesche, resta a capitulação, o desespero, nenhuma independência, solidão, além da certeza de sua morte.

Em Mulheres em Nova York (Frauen In New York, 1977), um grupo de ricas mulheres americanas fofocam, difamam e fazem intrigas em butiques caras, salões, ou em suas salas, quartos e banheiros luxuosos. São servidas por cabeleireiras, manicures, vendedores, professores de ginástica, empregados e secretárias. Os homens não estão presentes, mas são o tema básico das conversas e ciúmes entre essas mulheres. Em contraste com as personagens femininas de Uma Mulher de Negócios (Bremer Freiheit, 1972) ou de Nora Helmer (1973), elas nunca protestam contra a hegemonia masculina, atitude que reflete o pessimismo e a resignação presentes no trabalho posterior de Fassbinder. Enfim, o que temos aqui são mulheres felizes com sua condição inferior num mundo dirigido por seus maridos (5).

Notas:

Leia também:

As Deusas de François Truffaut
Kieslowski e o Outro Mundo
Berlin Alexanderplatz (I), (II), (final)
As Mulheres de Rainer Werner Fassbinder (II)


Este artigo foi publicado no catálogo da Mostra Filmes Libertam a Cabeça

1. WATSON, Wallace Steadman. Understanding Rainer Werner Fassbinder: Film as Private and Public Art. USA: University of South Carolina Press, 1996. P. 133.
2. Idem, p. 150.
3. Ibidem, p. 142.
4. Ibidem, p. 147.
5. Ibidem, p. 149.

Postagens populares (última semana)

Marcadores

1984 A Bela da Tarde A Doce Vida A Hora do Lobo A Idade do Ouro A Infância de Ivan A Paixão de Ana A Religiosa A Rua sem Alegria A Terceira Geração Acossado Agnieszka Aguirre Alain Delon Alemanha no Outono Alexander Nevsky Alexanderplatz Alphaville Alucinado Amigo Americano Andrei Rublev André Bazin Angelopoulos antipsiquiatria Antiteatro Antonioni As Favelas de Berlim Asas do Desejo Através de Um Espelho Aurora Baader Meinhof Barthes Bergman Bertolucci Bibi Andersson Bolwieser Brecht Bresson Brigitte Bardot Burguesia Buñuel Béla Balász Cahiers du Cinema Caligari Carl Dreyer Carlos Saura Carmem Catherine Deneuve Cenas de um Casamento Censura Chabrol Chaplin Cinema do Medo Cinema Novo Alemão Cinzas e Diamantes Claude Lelouch Close Cocteau Comunismo Coração de Cristal Corpo Costa-Gavras Crítica Cubismo Da Manhã à Meia Noite Dadaísmo Decálogo Diabel Dostoyevski Double Bind Dovjenko Dusseldorf Efeito Kulechov Efeitos Especiais Effi Briest Eisenstein Eric Rohmer Escola de Carteiros Escola Polonesa Espaguete Estudante de Praga Expressionismo Fahrenheit Fanny e Alexander Fassbinder Fausto Fellini Ficção Científica Filmes Zille Fisiognomonia Fitzcarraldo Franju François Ozon Freud Fritz Lang Gance Genuine Geração Gilles Deleuze Godard Goebbels Golem Griffith Gritos e Sussurros Herzog Hiroshima Meu Amor Hitchcock Hitler Hollywood Holocausto Homossexualismo Homunculus Igreja Indústria Cultural Istvan Szabó Ivan o Terrível Jean Epstein Jean Mirtry Jean-Paul Belmondo Jean-Pierre Léaud Judeu Judeu Süss Jung Kafka Kanal Karl May Katyn Kawalerowicz kieslowski Kracauer Kubrick Kuhle Wampe Kulechov Kurosawa Károly Lacan Lars von Trier Lili Marlene Liv Ullmann Lola Lotna Lotte Eisner Luz de Inverno Mabuse Makk Mastroianni Medo do Medo Melodrama Mephisto Metropolis Metrópolis Misoginia Modernismo Mon Oncle Monika e o Desejo Morte Morte Cansada Mulher Murnau Máscara Nazarin Nazi-Retrô Nazismo Neo-Realismo Noite e Neblina Nosferatu Nostalgia Nouvelle Vague Nova Objetividade Nudez O Anjo Exterminador O Direito do Mais Forte O Espelho O Fantasma da Liberdade O Medo Devora a Alma O Outro O Ovo da Serpente O Prado de Bejin O Rito O Rolo Compresor e o Violinista O Rosto no Cinema O Sacrifício O Silêncio O Sétimo Selo Orwell Os Incompreendidos Os Nibelungos Outubro Pandora Paris Texas Pasolini Pequeno Soldado Persona Picasso Playtime Poesia Polanski Pornografia psicanálise Pudovkin Raskolnikov Realismo Realismo Socialista Religião Renoir Resnais Riefenstahl Rivette Roger Vadim Romantismo Rossellini Rosto Sadomasoquismo Sarabanda Sartre Schroeter Sexo Sirk Sokúrov Solaris Sombras Sonhos de Mulheres Stalker Stroszek Suicídio Surrealismo Syberberg Tarkovski Tati Terrorismo Trilogia da Incomunicabilidade Trilogia do Silêncio Trotta Truffaut Um Cão Andaluz Veronika Voss Viridiana Visconti Wagner Wajda Wenders Zanussi Zarah Leander Zulawski Último Homem

Minha lista de blogs

COMO CITAR ESTE BLOG: clique no título do artigo, verifique o link no alto da tela e escreva depois do nome do autor e do título: DISPONÍVEL EM: http://digite o link da página em questão ACESSO EM: dia/mês/ano

Visitantes

Flag Counter
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil License.