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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

6 de mai de 2011

Godard e a Distopia de Alphaville (II)




Godard
não gostava de
atores muito maquiados
, mas o expressionismo de Alphaville o faria mudar de idéia, especialmente com relação aos olhos de
Karina (1)




Uma Luz no Fim da Sombra

Alphaville é um filme sobre a luz que em sua maior parte foi filmado à noite. Quando Natasha aparece pela primeira vez, ela para na porta do quarto de Lemmy e pergunta se ele pode acender seu cigarro. Natasha ainda está em parte na escuridão do corredor, acende o cigarro e se posiciona entre a luz e a sombra, num movimento que define sua jornada através do filme. Em Alphaville encontram-se muitas referências ao claro-escuro do expressionismo alemão e do film noir. De fato, embora existam algumas vozes discordantes, é geralmente aceito que o segundo emergiu do primeiro. A forte oposição entre o preto e o branco, personagens com sombras enormes e ângulos de câmera impossíveis, fazem da luz parte da história que está sendo contada através dela. Aquelas imagens de Alphaville em negativo são uma citação do Nosferatu (Nosferatu, ein Symphonie des Grauens, 1922) de Murnau, mas também do Orfeu (Orphée, 1949), de Jean Cocteau. A diferença é que Godard inverteu a conotação das imagens em negativo nestes dois filmes, criando um sinal de transição entre a terra dos mortos (Alphaville) e a dos vivos (as terras exteriores e além) (2).

A voz
de Alfa 60
é de um homem
operado de câncer

na laringe que fala
através de um

equipamento
eletrônico (3)


Alphaville
tem uma ligação com Acossado (À Bout de Souffle, 1960), mais especificamente com as técnicas desenvolvidas aí para a filmagem das cenas noturnas. Mas os cafés e bulevares foram substituídos por letreiros de neon e cortinas envoltas nas sombras expressionistas. Como observou Chris Darke, de Cidade da Luz e lar dos “irmãos na luz” que “inventaram” o cinema (os irmãos Lumières), Paris se transforma em Alphaville, Cidade da Luz e Capital da Dor - tecnocracia noturna iluminada por um brilho pós-atômico que brilha mais do que mil sóis. Godard explicou que “Lemmy é um personagem que traz a luz para pessoas que não sabem mais o que é isso”. Os habitantes de Alphaville dependem da eletricidade para sobreviver, mas parece que se esqueceram das origens sagradas da luz. Com seu isqueiro, Lemmy pretende religar as memórias deles, como um Prometeu novamente levando o fogo dos deuses para a humanidade. A evidência, Darke não nos deixa esquecer, está lá desde a primeira vez que vemos Lemmy. Sentado no escuro dentro de seu carro branco, seu rosto será momentaneamente iluminado pelo fogo do isqueiro ao acender o primeiro de tantos cigarros que aparecem em Alphaville.

Labirinto de Retas e Curvas



Para
God
ard, o círculo
representaria o
mal





Logo no início de Alphaville, Godard aponta para a luz, o círculo e a linha: quando Alfa 60 começa a “falar”, vemos um foco de luz branca e uma seta de neon. O próprio casaco preto de Natasha, ao final de seu primeiro encontro com Lemmy, é um exemplo. Em sua base encontra-se pelúcia branca fazendo um círculo em volta de suas pernas e subindo na frente, desenhando uma linha que vai até a cintura. O círculo e a linha estão espalhados pelo filme, em detalhes gráficos (discos piscando e setas de neon) e elementos arquiteturais (corredores e escadas), até mesmo no movimento de câmera e no diálogo. Incontáveis são os corredores e uma escada em caracol remete ao discurso de Alfa 60 momentos antes: “o tempo é como um círculo que gira sem fim. O arco que desce é o passado e o que sobe é o futuro”. Lemmy sai antes do fim e depois comenta com Natasha que não entendeu nada. Ela explica que “esta noite aprendemos que a vida e a morte existem na mesma esfera”. Enquanto Natasha fala, Chris Darke chama atenção, a câmera circula em torno dela, circularidade acentuada pela estrutura linear do pilar contra o qual ela se inclina (4).



Lemmy erra
em seu futuro como
num labirint
o de Jorge Luis
Borges
. Um futuro onde a sensibilidade é alterada
pela su
pressão de certas
palavras
, noções e
significados
(5)



Para Richard Roud, Godard dá uma conotação negativa ao círculo. Em Alphaville, tudo que representa a tirania dos computadores é circular. O quarto de hotel de Lemmy é quadrado, mas as pessoas caminham em círculos dentro dele. Os corredores podem ser retos, mas os personagens sempre terminam onde começaram. Sem esquecer que Alfa 60 descreve o tempo como algo circular. Mas num sentido tecnocrático, um tempo presente permanente que tem mais a ver com uma prisão – Natasha vai procurar o significado da palavra “amor” na bíblia, Lemmy verifica que se trata de um dicionário; e pior, de onde várias palavras foram suprimidas. Lemmy, por outro lado, mantém que se deve ir direto em frente, na direção daquilo que se ama – como quando Lemmy caminha por um corredor abrindo todas as portas em busca de Natasha. Segundo Kaja Silverman, os cumprimentos que se repetem (onde as pessoas cumprimentam como se já tivessem sido cumprimentadas) durante o filme sugerem alguém girando sobre si mesmo: “eu estou muito bem, obrigado, você é bem vindo”.

Godard é Uma Bomba 
 

Alfa 60
: Você veio das
terras exteriores
. O que sentiu ao passar pelo espaço galáctico?
Lemmy
: o silêncio desses espaços infinitos me aterrorizou




Em 1945, a teoria da relatividade elaborada por Albert Einstein em 1905 foi demonstrada através de efeitos devastadores quando os Estados Unidos detonaram as bombas atômicas sobre as populações civis das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Alphaville foi lançado em 1965, em plena guerra fria e sob a ameaça de uma guerra nuclear. Três anos antes, com a crise dos mísseis em Cuba (em função dos mísseis norte-americanos colocados na Turquia e apontados para a União Soviética), foi quase isso que aconteceu. Em 1964, Stanley Kubrick dirige Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Stop Worrying and Love the Bomb), uma sátira sobre o impensável. Um pouco antes, Alain Resnais abordou o tema de maneira um pouco menos hilariante em Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima Mon Amour, 1959). E=MC² (a energia de um objeto é equivalente a sua massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz), a fórmula de Einstein, aparece no filme de Godard e até ganha uma parceira. HF=MC² é a equação e Bertrand Roussel se arrisca a decifrá-la. Godard teria construído um jogo de palavras em francês, “h” significaria “homme” (homem) e “f” “femme (mulher). A equação heterossexual resultante: homem-mulher= para amar é preciso dois (6).

“Chegaremos mais e
mais a formas de sociedade
primitiva
. Mas em lugar de
povos diferenciados pela
nacionalidade, o russo ou o
americano
, teremos diferentes
categorias de tribos técnicas
.
Povo I.B.M
, povo Olivetti, povo
General Motors
, etc, cada um
possuindo seus próprios
totens tecnológicos”

 

Godard na estréia de Alphaville (7)


Godard também mostra uma “rue Enrico Fermi” e um “boulevard Heisenberg” (8), além de um “Mathematics Park”. No primeiro interrogatório de Lemmy por Alfa 60, perguntado sobre o que sentiu no espaço ele diz que teve medo. A resposta de Lemmy é uma citação de Blaise Pascal (1623-1662), que entre outras coisas é creditado como tendo inventado a primeira calculadora digital – conhecida como Pascaline. Talvez, sugere Darke, Lemmy esteja tentando lembrar à Alfa 60 (a máquina que sabe tudo) suas origens modestas no século 17. Na opinião de Darke, Godard estava plenamente consciente do paradoxo de expressar ceticismo em relação à tecnologia utilizando esta mesma tecnologia. Enquanto um filme “sobre a luz”, Alphaville é necessariamente um filme sobre a forma pela qual leis óticas possibilitam a existência do cinema, o qual mostra, desloca e distorce o mundo. Darke chama atenção para uma faceta romântica de Jean-Luc Godard nessa tentativa de unir a ciência e a arte.



Alfa 60
: qual
o pr
ivilégio
dos mortos?
Lemmy
: não
morrer mais

Purgatorium: A História de Uma Palavra (I), (II), (final)
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Abismo Labiríntico

1. BERGALA, Alain. Godard au Travail. Les Années 60. Paris: Éditions Cahiers du Cinéma, 2006. P. 234.
2. DARKE, Chris. Alphaville. New York: I.B. Tauris, 2005. Pp. 39-41, 55, 59.
3. Idem, p. 39.
4. Ibidem, pp. 60-1.
5. BERGALA, Alain. Op. Cit., p. 230.
6. DARKE, Chris. Op. Cit., p. 79n44.
7. BERGALA, Alain. Op. Cit., p. 249.
8. Fermi (1901-1954) recebeu o Nobel de física em 1938, co-inventor do primeiro reator nuclear, colocado em funcionamento nas dependências da Universidade de Chicago, em 1942. Fermi também foi um dos líderes do Projeto Manhattan, que construiu a primeira bomba atômica. Heisenberg (1901-1976) foi um dos maiores físicos do século 20. Ele também é conhecido por seu papel como líder do projeto nuclear alemão durante a Segunda guerra Mundial. Sua participação ainda é objeto de controvérsia. Ibidem, n45.  


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