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Roberto Acioli de Oliveira

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24 de mai de 2011

Godard e a Distopia de Alphaville (III)




“O filme acontece
num momento em que
comunismo e capitalismo não
são antagonistas políticos, mas
apenas dois sistemas distintos
de planejamento. Um deseja
programar a mente antes do
corpo, o outro trabalha
ao contrário”


Godard ao jornal
Le Monde, 1965 (1)




O
Encontro Entre Homem e Máquina

Godard estava cético em relação à tendência daquela época à tecnocracia, a sociedade humana se padroniza cada vez mais. Estamos cada vez mais parecidos com a sociedade dos cupins ou das formigas, disse o cineasta em 1965. No filme, ele diz isso de forma mais sutil quando Lemmy Caution chega ao hotel logo no começo do filme. Ele se apresenta como Ivan Johnson, repórter do jornal Figaro-Pravda, um nome derivado de dois jornais da época – Le Figaro, jornal francês de direita, e Pravda, jornal da antiga União Soviética. Ao discurso do “planejamento” Godard contrapõe a poesia e o romantismo: “Alphaville é um mundo sem romantismo. O mundo dos grandes conjuntos é um mundo que procura eliminar a aventura em favor do planejamento. A tarefa do artista é fazer armadilhas para o planejamento” (2). É isso que Lemmy deve fazer para levar Alfa 60 a entrar em curto-circuito, forçar a máquina pensante a pensar como um ser humano. Nesse momento, como diz Lemmy, a máquina se metamorfoseará “à minha semelhança, em meu irmão”. O tema de Alphaville também é o encontro entre o homem e a máquina.


Embora poesia fosse
a arma contra Alfa 60,
Jean-Luc Godard era
hostil à sua inclusão no
conceito de cinema de
poesia proposto por
Pie Paolo Pasolini


Alphaville
desenha uma caricatura do França tecnocrática do pós-guerra. Godard apontou dois tipos de tecnocrata, o funcionário e o visionário. O primeiro tipo inclui o engenheiro chefe e os professores Heckell e Jeckell, que raciocinam em termos de causa e efeito. O segundo tipo é o professor von Braun, o cientista que Lemmy deve persuadir a acompanhá-lo aos países exteriores ou matar. Ao lado da tecnocracia, Godard via o estruturalismo apenas como mais uma faceta dela, uma ideologia que desvalorizava o ser humano. O cineasta convidou Roland Barthes, um dos proponentes da crítica literária estruturalista, para ser um dos cientistas em Alphaville. Segundo Godard, Barthes não foi porque estava com medo de parecer ridículo. Chris Darke chamou atenção para o fato de que a reputação de Barthes como alguém que dissecava os elementos da cultura de massas (em Mitologias, 1957) não está distante da opinião de Godard em relação à cultura do consumo. Contudo, Godard era muito hostil em relação às análises estruturalistas do cinema baseadas em modelos lingüísticos desenvolvidas por Christian Metz, Pier Paolo Pasolini e pelo próprio Barthes. Em retrospecto, conclui Darke, parece compreensível a falta de interesse de Barthes em participar de Alphaville.

Godard Romântico




Em Alemagne Année
90 Neuf Zéro
(1991)
, Godard apresenta uma série de ecos
e citações de
Alphaville

Chris Darke (3)



Darke destacou a tendência de Godard neste filme à nostalgia e alienação ou desencantamento. De fato, quando jovem Godard era um entusiasta dos luminares do Romantismo alemão, especialmente Novalis (1772-1801). Portanto, alienação era mais do que um tema nessa fase de seu trabalho como cineasta. No sentido de que, através da tecnologia e da ciência, a divisão do trabalho e a economia de mercado, a modernidade parece ter alienado as pessoas de si mesmas, umas das outras e em relação à natureza. Nesse contexto, a arte seria um meio de re-encantar o mundo. Nas palavras de Novalis, “o objetivo do artista é romantizar o mundo, enxergar o infinito no finito, o extraordinário no lugar comum, o maravilhoso no banal”. Na opinião de Darke, esse pensamento poderia servir de lema para a abordagem de Godard em Alphaville. Segundo Darke, se a missão da arte romântica é restaurar a unidade e sua finalidade restaurar a mágica, o mistério e a beleza da natureza perdidos para a tecnologia, então certamente a personagem de Natasha von Braun assume a dimensão de uma heroína romântica. As últimas palavras dela no filme (“eu te amo”), mais do que simplesmente protagonizar um final feliz bastante diferente do estilo de Godard, são uma declaração de fé no credo do Romantismo (4).




Alphaville ia se chamar
Tarzan versus IBM
. Será que
Godard sabia da aliança entre
a IBM e os nazistas para o
extermínio dos judeus?
(5)




Mas Darke avisa que Godard não para por aí, em Alphaville o passado não é apenas um mundo de onde Lemmy vem. A velha questão sobre quais os planos das máquinas para o homem recebe uma resposta do passado que assombra Alphaville. Muitos notaram que Godard espalhou em seu filme várias referências à Alemanha nazista: os números tatuados na pele das sedutoras, a notável mudança de nome do pai de Natasha (de Nosferatu para von Braun) e o “SS” no botão do elevador em close-up (o que talvez sugira que ele não leva apenas ao “sous-sol”, subsolo). O professor von Braun carrega um nome cheio de ressonâncias históricas. Werner von Braun é o nome de um cientista que trabalhou para os nazistas e foi responsável pela invenção dos foguetes V-1 e V-2 no final da guerra. Ele fazia parte também de um seleto grupo de cientistas nazistas que os aliados retiraram da Europa depois do conflito numa operação conhecida como Paperclip. Quando o foguete norte-americano Apollo 11 decolou da Flórida em 1969, von Braun era um dos vários ex-nazistas que trabalharam no projeto.





“Tudo já foi dito. Sem
dúvida
. Se as palavras não tivessem mudado de sentido,
e o sentido de palavras”


Jean Paulhan, Clef de la Poésie
Uma dentre as várias citações
que Godard escrevia na folha
de serviço das filmagens (6)




Notas:


Leia também:



1. DARKE, Chris. Alphaville. New York: I.B. Tauris, 2005. P. 70.
2. BERGALA, Alain. Godard au Travail. Les Années 60. Paris: Éditions Cahiers du Cinéma, 2006. P. 249.
3. DARKE, Chris. Op. Cit., p. 90.
4. Idem, pp. 75-7.
5. Herman Hollerith, norte-americano de origem germânica, desenvolveu sistemas de classificação de cartões perfurados que permitiram a organização e coordenação do projeto dos nazistas para o extermínio dos judeus. A IBM era a detentora quase global do monopólio dessa tecnologia. Edwin Black escreveu um livro sobre o tema, IBM and the Holocaust: The Strategic Alliance between Nazi Germany and the America’s Most Powerful Corporation (2002). Ibidem, pp. 8, 77 e 81n84. No Brasil, IBM e o HOLOCAUSTO. Aliança Estratégica com a Alemanha Nazista e a Mais Poderosa Empresa Americana (Editora Campus).
6. BERGALA, Alain. Op. Cit., p. 251.

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