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Roberto Acioli de Oliveira

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2 de jul de 2010

Kieślowski Não Era Um Cinemaníaco




Só muito tarde
Filip percebe que
fazer   filmes   com
boas intenções não
impede  que  eles
sejam   usados
para  o  mal



 

A Tragicomédia de Um Polonês

Filip Mosz era o pacato e típico funcionário público. Trabalha uma fábrica polonesa, o apartamento que habitava era num conjunto habitacional, possuía um carro, era casado com Irka e tinha uma filha recém nascido. Certo dia ele compra uma câmera de filmagem (custou-lhe dois meses de salário) para acompanhar o crescimento da filha. Seu patrão pede que filme a festa do jubileu da fábrica. O patrão pede que corte algumas cenas, mas antes disso Filip já havia mandado o pequeno filme para um concurso. Tira um terceiro lugar, a partir daí o patrão passa a incentivar essa nova função de Filip, mas sempre mantendo rédea curta em relação a o que deve ser filmado. Enquanto isso, Irka começa a se ressentir do novo interesse do marido. Ela chega a dizer que se casou com ele e deu-lhe uma filha porque achava que ele desejava a mesma coisa que ela: paz e tranqüilidade. (abaixo, à direita, incomodada, a esposa de Filip começa a se afastar)



 A  primeira a se
 incomodar  com o 
novo  interesse de
Filip foi a esposa





Pressionado pelo patrão e por sua esposa, Filip passa a viver uma longa agonia. Mergulha mais e mais em seu novo interesse, estuda o assunto e repassa seu conhecimento à equipe que o acompanha no laboratório que montou. Filma o depoimento de um funcionário da fábrica, que será transmitido pela televisão nacional e colocará a vida conjugal de Filip em risco. Irka vai embora e leva a filha pequena. Filip está tão envolvido com o cinema que, quando ela sai depois de anunciar sua decisão de partir, ele só consegue pensar no tipo de enquadramento que faria para filmar a saída dela do quarto da criança onde estavam discutindo. Seu próximo trabalho leva a demissão de um grande amigo, pois ele era o encarregado de fazer o serviço que não foi feito, e que, sendo filmado, serviu como denúncia do descaso das autoridades responsáveis em relação a suas funções e tarefas. Isso leva Filip a destruir um documentário recém concluído antes que fosse divulgado. No final, já que não queria prejudicar a mais ninguém, Filip vira a câmera em sua direção e filma a si mesmo (primeira e última imagens do artigo, pode-se ver Filip na lente da câmera na primeira imagem).

A Censura e os Seres Humanos




Kieślowski era hostilizado
pela direita e pela esquerda
.
O  patrulhamento  ideológico
de  ambos  os 
lados   parece
tão  comum  lá   como   cá







Com Cinemaníaco (Amator, 1979), o nome do cineasta polonês Krzystof Kieślowski chega ao mundo ocidental. Mas ele ainda teria de esperar até que Sem Fim (Bez Końca, 1985) e Decálogo (Dekalog, 1988-9) fizessem sua reputação se espalhar. A essa altura, Kieślowski já havia dirigido vários longas-metragens e inúmeros documentários. Para as gerações mais novas, falar que o nome de alguém “chegou ao mundo ocidental” pode soar estranho. É que em 1979 o mundo ainda estava dividido pelo muro de Berlin, tornando a troca de experiências e informação uma tarefa muito difícil – e até perigosa. Embora Kieślowski afirme que todos os seus filmes menos um (Trabalhadores ’71, Robotnicy 1971 – Nic o nas bez nas, 1971) falem sobre indivíduos e não sobre política, Danusia Stok sugere que é difícil negar que grande parte (especialmente os primeiros) traduz o clima político de seu tempo. Na media em que seu trabalho o expôs, a opinião dos poloneses em relação à Kieślowski era dividida. Existiam aqueles que o amavam e aqueles que achavam que ele flertava com o poder (no caso, o Partido Comunista). Foi acusado de oportunismo e de trair a si mesmo e a Polônia (1). (imagem acima, o patrão de Filip)



“Como você sabe o que
é  ser   um   cinemaníaco?
É   um   filme   sobre   mim”.
“Você plagiou minha vida
.
De onde me conhece?”

 

Algumas das frases que Kieślowski
encontrava  nas  cartas  que  recebia
depois de dirigir  Cinemaníaco (2)



Cinemaníaco
reflete essa situação claustrofóbica, Filip é ao mesmo tempo auxiliado e pressionado pelo patrão. Deve mostrar as coisas, mas não todas as coisas... Deve criar algo que possa ser utilizado pela propaganda estatal (ou dos interesses econômicos dominantes), mas não deve mostrar tudo! Eis porque um filme como este pode nos dizer muito sobre a problemática relação do cinema com os interesses do Estado autoritário – de esquerda ou de direita. O comentário de Irka sobre querer apenas paz e tranqüilidade talvez deva ser lido como uma constatação do conformismo generalizado reinante na Polônia sob regime comunista. Talvez parte das críticas a Kieślowski advenha do fato dele imaginar que, sendo todos seres humanos, não haveria porque acreditar que as pessoas “do outro lado” não sejam “seres complexos como nós”. Evidentemente, neutralizar o maniqueísmo é uma atitude sempre vista com desconfiança, já que assim fica mais difícil (ou torna impossível) transformar numa “coisa” aquele que se deseja destruir/usar/manipular. A esse respeito, o comentário de Kieślowski em relação ao personagem do patrão de Filip foi o seguinte:

“(...) Mesmo quando, em Cinemaníaco, um homem parece representar o assim chamado outro lado, quer dizer, o diretor da fábrica que corta algumas cenas do filme de [Filip], ele também é um ser humano. Ele não é meramente o representante de burocratas obtusos que cortam cenas de filmes. Ele é também um homem que está tentando explicar porque intervêm. Ele é igual ao censor em Varsóvia que costumava cortar vários pedaços de meus filmes. Através de Cinemaníaco eu queria observá-lo e descobrir o que está por trás de suas ações. Ele é apenas um obtuso executando ordens? Está ele desejando uma vida mais confortável? Ou talvez tenha razões com as quais eu não concorde, mas que mesmo assim são razões” (3)

As Profissões e as Probabilidades


Os documentários
de Filip sob
re as calçadas
e
m frente a sua casa e sobre
aquele   funcionário   e   amigo
anão da fábrica eram filmes
que Kieślowski
queria ter
feito no passado
(4)




Kieślowski faz algumas citações em Cinemaníaco. Enquanto Filip folheia um livro sobre cinema, nas fotografias podemos identificar pelo menos três filmes, Cinzas e Diamantes (direção Andrzej Wajda, 1958), Amor (direção Károly Makk, 1971) (imagem acima, à direita) e Kes (direção Ken Loach, 1969). Além disso, o cineasta polonês Krzysztof Zanussi faz uma aparição como ele mesmo. Com seu próprio nome Zanussi aparece no filme como um cineasta dando uma entrevista, quando Filip se aproxima e pergunta se ele poderia comparecer ao cineclube da cidade dele. Quando isso acontece, Filip mostra sua última experiência cinematográfica a Zanussi, que o sugere a fazer um contato com Jurga. Também estão presentes em Cinemaníaco o escritor Tadeusz Sobolewski e Andrzej Jurga, ambos atuando como eles mesmos. Ator e diretor polonês, Jurga é aquele personagem que esculacha a todos os filmes da competição onde foi inscrito o filme que Filip havia feito do Jubileu da fábrica. Posteriormente, Filip o reencontra pela indicação de Zanussi e acaba conseguindo através dele que seu documentário sobre o operário anão da fábrica de sua cidade transmitido pela tv. (imagem acima, e abaixo, à direita, Filip concetrado em seu primeiro trabalho como cineasta, a festa do jubileu da fábrica, ele chega a incomodar as pessoas)



Para   Kieślowski, 
a infelicidade no casamento
de Filip não é fruto de seu interesse
obsessivo   por cinema, nem
do egoísmo de Irka



Com relação à tentação de interpretar Cinemaníaco como um filme autobiográfico, Kieślowski faz algumas considerações que enterram definitivamente tal possibilidade. O cineasta afirmou que nunca teve a fascinação de Filip em relação à câmera. Ele disse que fazia filmes porque era sua profissão, e também porque era muito preguiçoso ou estúpido demais para mudar de profissão a tempo. Kieślowski disse ainda que só depois que o tempo passou percebeu como essa profissão é difícil, mas que a vida particular e o cinema podem coexistir. Para Kieślowski, não há nenhuma diferença entre a profissão de cineasta e outra qualquer no que diz respeito às dificuldades para conciliar o público e o privado. Ver a família muito, ou pouco como Filip, não significa maior ou menor possibilidade de resolver os problemas de convivência. O amor é possível, afirma Kieślowski, estando sempre ou não estando nunca, presente na família ou na relação afetiva. A desarmonia é tão provável numa relação onde as pessoas estão muito presentes uma na vida da outra, quanto naquela em que elas estão quase sempre ausentes. Kieślowski também esclareceu que nunca teve de destruir um filme como Filip o fez, mas que o faria se soubesse que um filme seu estivesse em vias de ser confiscado. Kieślowski encerra o assunto:



“Porque   Filip,
o cinemaníaco, destrói
o filme perto do fim? O que
isso significa? (...) Ele não desistiu
porque virou a câmera para si mesmo
no final.  Ele apenas percebeu que,  como
amador, se encontrava numa armadilha
e que, filmando com boas intenções
ele   seria   útil   àqueles   que

usam   os   filmes   com 
más intenções” (5)




Notas:

1. STOK, Danusia (ed.). Kieślowski on Kieślowski. London: Faber & Faber, 1993. Pp. xiii-iv.
2. Idem, p. 210.
3. Ibidem, p. 145.
4. Ibidem, p. 208.
5. Ibidem, p. 112.

 

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