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Roberto Acioli de Oliveira

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21 de set de 2009

A Nostalgia de Andrei Tarkovski (I)


...Não estava interessado
no   desenvolvimento   do

enredo,  no   encadeamento
dos fatos a cada filme que faço sinto cada vez menos necessidade   deles... (1)


Você Tem Sede de Que?

Em Nostalgia (Nostalghia, 1983), o cineasta russo Andrei Tarkovski referia-se a uma incapacidade de seu povo. Os russos, dizia ele, não são bons emigrantes. Não se adaptam facilmente a novos costumes, pois são muito apegados às suas raízes. Tarkovski chega a se referir a um “apego fatal” dos russos a sua cultura, passado, família e amigos. O próprio Tarkovski, ele mesmo confessa, foi vítima desta “asfixiante sensação” enquanto dirigia Nostalgia na Itália (2) – exilado, não voltaria mais à sua terra natal, vindo a falecer de câncer anos depois, logo após a realização de O Sacrifício (Offret, 1986), seu último filme.

O filme acompanha Gorchakov, um poeta russo que vai a Itália pesquisar sobre a vida de um compositor russo que no passado havia sido mandado para lá devido a sua aptidão para a música. Chamava-se Beryózovsky (1745-1777), e viveu na Itália por vários anos, até que foi tomado por uma nostalgia de sua terra e voltou para uma Rússia feudal e atrasada. Pouco tempo depois, enforcou-se. Esmagado pelas lembranças de sua pátria, Gorchakov sente-se um marginal na Itália. Tarkovski esclareceu que a história de Beryózovsky é uma paráfrase da situação de Gorchakov, do estado mental em que se encontra.

Desorientado com as impressões com que é bombardeado, também não é capaz de compartilhar suas impressões com as pessoas. É incapaz de incorporar a nova experiência ao passado no qual está preso desde o nascimento. Neste resumo que Tarkovski nos dá de Nostalgia, inclui a si mesmo e confessar admirar os artistas medievais japoneses, que mesmo no auge da fama eram capazes de recomeçar tudo mudando de nome, local e estilo. Surpreendeu-se também ao perceber como a câmera captou seu próprio estado de melancolia por estar longe de casa. De acordo com Tarkovski, isso demonstra que a arte do cinema pode ser um molde da alma do indivíduo (3). Tarkovski definiu Nostalgia como...

“O retrato de alguém em profundo estado de alienação em relação a si próprio e ao mundo, incapaz de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a harmonia pela qual anseia, num estado de nostalgia provocado não apenas pelo distanciamento em que se encontra de seu país, mas também por uma ânsia geral pela totalidade da existência” (4)

O Cinema, Entre o Humano e o Clichê  


“(...) Desde o início, o cinema
enquanto   filme   de   aventura
no estilo americano  nunca  teve
interesse  para   mim.  A  última
coisa   que   estou   interessado
 
em fazer é inventar atrações”

Andrei Tarkovski, 

Esculpir o Tempo, p. 245


Tarkovski nunca pretendeu fazer um cinema comercial. O resultado foi seu crescente desinteresse pelo encadeamento de fatos. No que diz respeito à Nostalgia, ele disse, “não fiquei satisfeito com o roteiro até o momento em que ele se unisse finalmente numa espécie de todo metafísico”. Sua preocupação estava voltada para o mundo interior da pessoa, sua psicologia. Admite que seja mais “vantajoso” usar clichês comerciais. Mas insiste... “Meu interesse centra-se no homem, pois ele carrega o universo dentro de si; e, para encontrar a expressão para a idéia, para o significado da vida humana, não há necessidade de colocar por trás dela, por assim dizer, uma tela com muitos acontecimentos” (5).

Gorchakov morre por ser incapaz de sobreviver à sua própria crise espiritual. Domenico, um professor de matemática se contrapõe ao personagem de Gorchakov. Domenico zomba da própria pequenez e clama as pessoas a resistir. Para ele, as pessoas devem ser resgatadas da insanidade impiedosa da civilização moderna. Gorchakov procura defender Domenico da “opinião pública dos bem alimentados e satisfeitos, da maioria cega para quem ele não passa de um lunático grotesco”. Como forma de convencer as pessoas de que está realmente preocupado com elas, Domenico ateia fogo em si mesmo.

A Casa e a Catedral 



“(...) Sempre gostei de
pessoas que são incapazes
de  adaptarem-se   a   vida

de modo  prático (...)”

Andrei Tarkovski,

Esculpir o Tempo, p. 249




Em Nostalgia, explica Tarkovski, ele procurou desenvolver o tema do “fraco”. Aquele que não é um lutador, mas que para o cineasta é um vencedor. Em seus outros filmes o tema também foi abordado. Em Stalker (1979), o Stalker fala em defesa dessa fraqueza e como ela é o preço e a esperança da vida. Nunca houve heróis nos filmes de Tarkovski – a única exceção, Tarkovski admite, seria Ivan, em A Infância de Ivan (Ivan Detstvo, 1962). O que encontramos em seus filmes são pessoas cuja força reside em sua convicção espiritual, e que assumem a responsabilidade por outros. O monge Rublev, em Andrei Rublev (Andrei Rubliov, 1966), ou Kelvin, em Solaris (Soliaris, 1972), ou o homem de O Espelho (Zerkalo, 1974), ou ainda Alexander, em O Sacrifício, pessoas que foram capazes de superar sua fraqueza e egoísmo, num mundo em que o oportunismo cresce como um câncer. Tarkovski traça um paralelo direto entre o Stalker e Domenico:

“Assim como Stalker, Domenico procura sua própria resposta, escolhe sua própria forma de martírio, em vez de ceder à busca cínica e generalizada de privilégio material, numa tentativa de bloquear, com seus próprios esforços, como exemplo do seu próprio sacrifício, o caminho pelo qual a humanidade se precipita irracionalmente rumo à própria destruição. Nada é mais importante do que a consciência, que se mantém alerta e proíbe o homem de se apoderar do que deseja da vida e depois acomodar-se, gordo e satisfeito” (6)

Tarkovski insiste que esse homem consciente, movido pela compaixão e não autocomplacente, existia na Rússia, e Gorchakov seria uma prova disso. A fraqueza da qual fala Tarkovski está naqueles que são incapazes de manipular outras pessoas em função de seus próprios interesses. Tarkovski está interessado no homem que reconhece que o significado da existência está na luta contra o mal dentro de nós mesmos. A vida cotidiana e a pressão para a acomodação são as forças poderosas que desejam destruir esse homem. Tarkovski assim resume as coisas: “(...) Sou fascinado pela capacidade que tem um ser humano de resistir a forças que impelem os seus semelhantes para a competição, para a rotina da vida prática: e esse fenômeno contém o material de muitas outras idéias para meus futuros trabalhos” (7).

A imagem final de Nostalgia, onde vemos uma casa russa dentro de uma catedral italiana em ruínas, é uma metáfora da situação de Gorchakov (imagem no início do artigo). Entre o mundo e a tradição na qual sua vida está ancorada, instaura-se uma divisão que o impede de continuar a viver como sempre fez. Por outro lado, admite Tarkovski, essa metáfora também pode apontar para a nova totalidade de Gorchakov, onde as colinas da Toscana na Itália fundem-se ao interior da Rússia. Entretanto, simultaneamente, a realidade o empurra de volta para a Rússia. Tarkovski insiste que esta cena não fala de outra coisa senão daquilo que está acontecendo no interior do protagonista. Embora admita que as obras de arte necessariamente ultrapassem as idéias teóricas elaboradas pelo artista justamente para realizá-las (8).

Notas:

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Kieślowski e o Outro Mundo

1. TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo. Tradução Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. 244.
2. Idem, p. 242.
3. Ibidem, p. 244.
4. Ibidem, P. 246.
5. Ibidem, p. 245 e 246.
6. Ibidem, pp. 250.
7. Ibidem, p. 254.
8. Ibidem, pp. 258-9. 


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