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Roberto Acioli de Oliveira

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13 de set de 2008

Contestadores Integrados Franceses (I)



É com este título jocoso que Yannick Dehée se refere à estrelas do cinema francês como Alain Delon, Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve (imagem acima). Estes seriam os heróis que povoariam as telas de cinema nos anos 70 do século passado, fornecendo modelos de vida para a geração que nasceu no imediato pós-guerra. A característica básica destas três carreiras cinematográficas seria uma ruptura com o conservadorismo das gerações precedentes, mas sem a revolta dos adolescentes de maio de 68. Daí a alcunha de “contestadores integrados” (1).

No começo, Belmondo e Delon apareciam como personagens sem escrúpulos e sem moral. Enquanto Deneuve se apresentava como menina modelo. A partir de certo ponto da carreira, entretanto, os três se bandeiam para o lado da burguesia. Eles se integram ao sistema econômico, mas mantém independência no plano moral. A sua maneira, afirma Dehée, estes heróis populares caminham juntos com a nova sociedade liberal que tenta se estabelecer em meados dos anos 70 na França.

Alain Delon



“Sua força está em sua solidão,
ele a cultiva com afinco, criando
um vazio em torno de si”

La Solitude de l’acteur Delon
Telerama, 30/06/1973 (2)



Na bilheteria, Belmondo e Delon são vistos como os dois lados da mesma moeda. A imprensa os colocava como rivais. São da mesma geração, heróis de filmes de ação, aplicam as mesmas receitas e foram aprovados pelo público. As escolhas de Delon, afirma Dehée, são menos monolíticas do que as de Belmondo. Mas Delon tinha o mesmo cuidado de Belmondo em controlar sua própria imagem, o que significava muitas vezes interferir no trabalho do diretor dos filmes. (imagem acima, Delon em A Primeira Noites de Tranquilidade)

Como Belmondo, Delon é um herói positivo, esportivo e sedutor, que encarna os valores modernos aos olhos do público da década de 70 do século passado. Entretanto, seus personagens não se confundem. Para Belmondo, a zombaria e a espontaneidade. Para Delon, o mutismo, o orgulho e o caráter objetivo. Homicida inquieto em A Piscina (La Piscine, direção, Jacques Déray, 1969), gangster em Borsalino (direção Jacques Déray, 1970), O Círculo Vermelho (Le Cercle Rouge, direção Jean-Pierre Melville, 1970) Sol Vermelho (Soleil Rouge, direção Terence Young, 1971) e A Viúva (La Veuve Cordec, direção Pierre Granier-Deferre, 1971), Delon marcou presença como fora-da-lei. Se ele amadureceu durante os anos 70, se ele se juntou aos mensageiros da ordem, foi no interior da sociedade civil: juiz em O Crime das Granjas Queimadas (Les Grands Brûlées, direção Jean Chapot, 1973), doutor em Tratamento Diabólico (Traitement de Choc, direção, Alain Jessua, 1972), advogado em Encontros Cruzados (Les Seins de Glace, direção, Georges Lautner, 1972), ele gosta de viver com certos luxos sem perder seu dinamismo (3). Sem esquecer que em Um Amor de Swann (Un Amour de Swann, direção Volker Schlöndorff, 1984), Delon interpreta um homossexual.

Embora Dehée deixe de citar O Sol por Testemunha (Plein Soleil, direção René Clément, 1960), onde Delon é Ripley, um homem frio e amoral (imagem ao lado), seus comentários são muito centrados nos filmes franceses que Alain Delon estrelou. Isso faz com que deixemos de perceber pelo menos quatro filmes italianos em que ele atuou e cujos personagens diferem do estilo senão homem frio, pelo menos de fora-da-lei: Em Rocco e Seus Irmãos (Rocco e i Suoi Fratelli, direção Luchino Visconti, 1960), temos o inocente, mas confuso; em O Leopardo (Il Gattopardo, também dirigido por Visconti, 1963), temos o oportunista; em O Eclipse (L’Eclisse, direção Michelangelo Antonioni, 1962) temos uma espécie de alienado; em A Primeira Noite de Tranqüilidade (La Prima Notte de Quiete, direção Valério Zurlini, 1972), Delon é a frustração em pessoa. (imagem abaixo, Rocco e Seus Irmãos, onde Delon é Rocco, um personagem moralmente forte, mas que faz escolhas erradas)

Em Rocco e Seus Irmãos, o cineasta italiano Luchino Visconti mostrou a saga de uma família que parte do sul pobre da Itália após a Segunda Guerra Mundial para tentar a sorte no norte industrializado. Quase um documentário da situação real daqueles tempos, todos os ingredientes estão presentes: pobreza, desemprego, subemprego, preconceito e prostituição. Delon é Rocco, um personagem mais contraditório do que frio, que procura manter os valores tradicionais da família numa sociedade que já não é a mesma. No final, a família tende a se pulverizar. Quanto a Rocco, ele que abriu mão de tudo em sua vida, tanto amorosa quanto profissional, para ajudar um irmão desgarrado a se erguer: perde o amor de sua vida, assassinada pelo desgarrado, e abraça uma profissão (boxeador) que não lhe agrada para pagar os débitos do irmão.

O Leopardo, também dirigido por Visconti, traz um Alain Delon da aristocracia rural do sul da Itália do século 19, que adere ao movimento de Giuseppe Garibaldi pelo fim da sociedade de privilégios (imagem ao lado). Trata-se de um filme histórico que retrata um momento conturbado da história italiana. O tempo passa e os garibaldinos são derrotados pelas tropas governistas, Tancredi rapidamente muda de lado. Por insistência de seu tio, o príncipe de Salina, Tancredi vai se casar com Angélica, que representa uma aliança entre a aristocracia decadente com a burguesia rica ascendente. É o personagem de Delon, Tancredi Falconeri, que ouvimos uma frase lapidar que serve para muitos países em muitas épocas diferentes: “é preciso que tudo mude para continuar como está”. Portanto, Delon aqui desempenha o papel de um oportunista.

Em O Eclipse, última parte da chamada Trilogia da Incomunicabilidade, dirigida pelo cineasta Michelangelo Antonioni, Delon é Piero, um operador da bolsa de valores e totalmente insensível às necessidades da mulher que dele se aproxima (imagem ao lado). Apenas o fluxo do dinheiro parece excitá-lo. Entre Piero e Vittoria, sempre haverá o mercado de capitais. Um homem frio, aparentemente cínico, mas uma frieza nascida da crescente falta de sensibilidade, da falta de lugar/tempo para que as pessoas tentem se adaptar às novas circunstâncias do mundo moderno. A existência torna-se um fardo, a não ser para aqueles que se tornaram alheios a si mesmos, como o personagem de Alain Delon.

Para inicio de conversa, em A Primeira Noite de Tranqüilidade, Delon interpreta um homem que chora no final do filme. Aparentando estar cansado do mundo, é difícil que alguém diga alguma coisa que o deixe impressionado. Pode-se dizer que Delon representa aqui um homem frio, embora não no sentido cínico da palavra. Divide seu tempo entre tentar não se entediar com o sectarismo político de seus alunos, o jogo de cartas onde consegue dinheiro para pagar suas despesas e uma aluna que passa a cortejar. É um homem desiludido com tudo e com todos que acaba se apaixonando por uma mulher mais jovem apenas para se desiludir novamente no final.

Se, para além dos diretores que o laçaram ao estrelato, como Luchino Visconti ou Jean-Pierre Melville, os filmes de Alain Delon foram um sucesso (muitas vezes apenas por sua presença) é porque ele encarna em estado bruto um fantasma em vôo. Longe da contestação universitária comum na passagem entre as décadas de 60 e 70 do século 20, Delon cristaliza as aspirações de uma certa classe média, mais individualista, à promoção social e aos prazeres materiais (4).

Notas:

1. DEHÉE, Yannick. Mythologies Politiques du Cinéma Français. Des Anées 1960 Aux Anées 2000. Paris: Puf, 2000. P. 127.
2. Idem, p. 132.
3. Ibidem, p. 133.
4. Ibidem, p. 134.

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