Este sítio é melhor visualizado com Mozilla Firefox (resolução 1024x768/fonte Times New Roman 16)

Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

17 de jan de 2012

Caligari e a Trilha Sonora de Um Delírio





(...) Uma coisa parece
certa para mim
: o cinema
em particular irá se tornar
mais  e  mais  o  domínio
da música ‘atonal’”


Harburger, “Ueber Filmmusik”,
Neue Muzikzeitung, 49, 1928 (1)



Afinal, Qual é a Música?

Ao assistir filmes mudos, quantas vezes nos perguntamos se aquela música que ouvimos é a mesma que tocava quando ele era apresentado nos cinemas. Antes do filme sonoro como era transmitida esta informação? Cada cinema decidia o que iria tocar? Os filmes eram acompanhados de partituras musicais? Consta que já em 1914 o cineasta norte-americano D. W. Griffith preparou indicações musicais para Judith of Bethulia, que deveriam ser reproduzidas pelos exibidores. Para O Nascimento de uma Nação (Birth of a Nation, 1914), Griffith se preocupou em criar uma identidade com as músicas da época da guerra civil americana. Entretanto, na maior parte dos casos, o acompanhamento musical na época era improvisado. E o caso desses novos arranjos musicais escritos por músicos atuais, o DVD deveria vir com as trilhas antigas caso não aprovemos as novas. Contudo, como saber se, pelo fato de serem antigas, as trilhas são originais? Posteriormente, alguns cineastas passaram a encomendar partituras orquestrais especialmente para seus filmes (2). No limite (insuportável), os filmes mudos deveriam ser vendidos como vieram ao mundo: silenciosos (sem trilha musical). A responsabilidade por sonorizar os filmes ficaria a cargo do ouvinte – o que poderia ser um enorme problema adicional. Qual seria a trilha sonora musical de um filme símbolo do Expressionismo alemão no cinema como O Gabinete do Doutor Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, direção Robert Wiene, 1920)?



Caligari só foi
importado para a

América   em   função
de Madame Dubarry
,
grande sucesso de
Ernst Lubitsch





Joachim Fontaine nos revela alguns dados da história de Giuseppe Becce (1877-1973), um homem que viveu no tempo em que o cinema na Alemanha se transformara de uma atração de feira numa forma de arte (3). Prédios começavam a ser construídos especialmente para a projeção de filmes em telas grandes para platéias enormes, sem mencionar os longas-metragens que começaram a substituir as comédias pastelão de curta duração – alguns longas podiam chegar a quase três horas de duração, um padrão totalmente distinto daquele de quando pequenos rolos de filme eram apresentados em feiras. Os roteiros passaram cada vez mais a serem escritos considerando os padrões literários de peças teatrais consagradas. Atores e autores de teatro são incorporados ao sistema de produção da nova mídia – na Alemanha, durante muito tempo o cinema foi desdenhado pelas classes dominantes, que questionavam os padrões culturais daquela “atração de feira”. Desenvolvimentos tecnológicos combinado a novas estratégias de marketing criaram uma nova platéia de alta classe para os novos filmes.

As   peças
musicais de Becce
acabaram  com  toda
a prática de coletâ
neas
aleatórias de música
de salão impostas
ao cinema
(4)




O primeiro contato de Becce com o cinema foi em 1913, quando se comemorava o centenário do nascimento do compositor alemão Richard Wagner (1813-1883). Becce era compositor, maestro e possuía uma semelhança física com Wagner, o que levou o diretor de cinema Oscar Messter a convidá-lo para atuar como protagonista num filme sobre Wagner. Posteriormente Becce se tornaria chefe do departamento de música do estúdio alemão de cinema Decla-Bioscop AG e maestro principal de sua orquestra. Certo dia, Becce seria convidado para contribuir para a trilha sonora de Caligari, já que uma primeira partitura não havia feito sucesso – alguém selecionou músicas de acordo com o gosto estabelecido: passagens de Franz Schubert, Gioacchino Rossini, Vincenzo Bellini, Gaetano Donizetti e Paul Lincke. Apesar da fama de Becce e de seu orgulho em ter participado dessa empreitada, parece que a maior parte de suas partituras para o filme se perdeu. Estilisticamente, os trabalhos de Becce pertencem ao romantismo tardio. Embora os padrões da época também não tivessem sido descartados, os modelos para a melodia e a harmonia foram partituras expressionistas de Richard Strauss (1864-1949) ou mestres do Verismo italiano altamente dramático.

O vocabulário dos
críticos para classificar
O Gabinete do Doutor Caligari
 

incluiria Cubismo”, “Futurismo”, passando pelo Impressionismo”  o Expressionismo”. A novidade na 
época era tão grande que não 
havia categorias estéticas
para classificá-lo
(5)


Transições fluidas foram substituídas por “montagens duras” e busca de efeitos de choques de extremos. Uma abordagem composicional que poderia facilmente ser relacionada com a técnica de montagem de Caligari. Para a estréia nos Estados Unidos em 1921, a cargo de organizadores não ligados a Becce, foram selecionadas peças de Richard Strauss, Claude Debussy, assim como os “ultramodernos” Igor Stravinsky (1882-1971) e Arnold Schoenberg (1874-1951) – a imprensa local citou também Leo Ornstein (1893-2002), Serguei Prokofiev (1891-1953), Modest Mussorgsky (1839-1881), Alexander Scriabin (1872-1915) e Erik Satie (1866-1925). De fato, a seleção de muitas peças musicais nunca ouvidas nos Estados Unidos sendo apresentadas na estréia de Caligari receberia tanta publicidade quanto as primeiras performances naquele país do Pierrot Lunaire de Schoenberg em 1923 e A Sagração da Primavera, de Stravinsky, em 1922. Juntamente com Fontaine podemos nos perguntar se a música da vanguarda fazia sentido no contexto de O Gabinete do Doutor Caligari, ou se a música de concerto tradicional faria um serviço melhor. A verdade é que, afirma Fontaine, a estréia de Caligari nos Estados Unidos se mantém como um marco na história de música para cinema (a trilha musical do vídeo abaixo é de Timothy Brock, 1996).

“A revista Musical America de 16 de abril 1921 devotou uma página inteira ao fenômeno num artigo intitulado ‘Comes Stravinsky to the Film Teather’, com o empresário Roxy Rothafel explicando em de talhe como a música ultramoderna do filme foi ‘calculada para reforçar o caráter exótico e aspectos fantásticos do filme ainda mais’. Para o personagem louco de Caligari, Rothafel e Rapée escolheram o tema do poema sinfônico de Richard Strauss Till Eulenspiegels Lustige Streiche, Opus 28 (1895) como fio condutor, enquanto para o sonâmbulo Cesare foi [poema sinfônico] de Debussy Prelude à l’aprés-midi d’un faune (1895). Não passou despercebido que a vanguarda de Stravinsky e Schoenberg, e também a música do ‘louco futurista’ Seguei Prokofiev e o ‘jovem selvagem’ Leo Ornstein, ‘o ‘alto apóstolo da nova arte na América’, estivessem tendo estréias glamorosas para grandes platéias durante a exibição de filmes. Rothafel usou a extravagância da música tanto para legitimar quanto para enobrecer o Expressionismo do filme: ‘Caligari é, em minha opinião, uma obra prima da imaginação e um triunfo [de] direção. Musicalmente não menos do que pictoricamente ele abre um país virgem. Há tão pouco tempo quanto cinco anos atrás, Stravinsky ou Schoenberg no cinema pertencia ao inconcebível. Hoje isso pode acontecer calmamente, e a platéia engolir calmamente a pílula” (6)



Notas:

Leia também:

As Mulheres de Luis Buñuel
Luis Buñuel, Incurável Indiscreto
Alain Resnais em Marienbad
Fassbinder em Petra von Kant
Duas Mulheres Italianas e o Mundo dos Homens
Caligari e o Expressionismo Alemão: O Contexto de Um Filme Alucinante
Expressionismo Internacional
O Corpo Expressionista
Ettore Scola e o Milagre em Roma
Ettore Scola e o Filme Dentro do Filme
Mussolini e a Sombra de Auschwitz

1. FONTAINE, Joachim. Caligari Meets Schoenberg. Music, Art, and Film as Total Artwork in Expressionism. In: BEIL, Ralf; DILLMANN, Claudia (Eds.). The Total Artwork in Expressionism: art, literature, theater, dance and architecture, 1905-25. Ostfildern, Alemanha: Hatje Cantz Verlag, 2011. Catálogo de exposição. P. 320n32.
2. MANZANO, Luiz Adelmo. Som-Imagem no Cinema: A Experiência Alemã de Fritz Lang. São Paulo: Perspectiva/FAPESP, 2003. Pp. 30-1.
3. FONTAINE, J. , pp.316-20, 320n4.
4. Idem, p. 316.
5. Ibidem.
6. Ibidem. 


Postagens populares (última semana)

Quadro de Avisos

Salvo quando indicado em algum ponto da página ou do perfil, este blog jamais foi patrocinado por ninguém e não patrocina nada (cursos, palestras, etc.) e jamais "doou" artigos para sites de "ajuda" a estudantes - seja no passado, presente ou futuro. Cuidado, não sejam enganados por ladrões da identidade alheia.

e-mail (no perfil do blog).

......

COMO CITAR ESTE BLOG: clique no título do artigo, verifique o link no alto da tela e escreva depois do nome do autor e do título: DISPONÍVEL EM: http://digite o link da página em questão ACESSO EM: dia/mês/ano

Marcadores

1984 A Bela da Tarde A Chinesa A Concha e o Clérigo A Doce Vida A Dupla Vida de Véronique A Fraternidade é Vermelha A Grande Testemunha A Hora do Lobo A Idade do Ouro A Igualdade é Branca A Infância de Ivan A Liberdade é Azul A Mãe e a Puta A Paixão de Ana A Religiosa A Rua sem Alegria A Terceira Geração A Última Etapa A Vida dos Outros Acossado Aelita Agnieszka Holland Aguirre Alain Delon Alemanha no Outono Alexander Nevsky Alexanderplatz Alphaville Alucinado Amigo Americano Amores do Faraó André Bazin Andrei Rublev Angelopoulos antipsiquiatria Antiteatro Antonioni Artaud As Favelas de Berlim Asas do Desejo Através de Um Espelho Aurora Baader Meinhof Barbara Sass Barthes Béla Balász Bergman Bertolucci Bibi Andersson Bolwieser Brecht Bresson Brigitte Bardot Buñuel Burguesia Cahiers du Cinema Caligari Carl Dreyer Carlos Saura Carmem Catherine Deneuve Cenas de um Casamento Censura Chabrol Chantal Akerman Chaplin Cineficação Cinema do Medo Cinema Livre Cinema Novo Alemão Cinema Novo Tcheco Cinemaníaco Cinzas e Diamantes Claude Lelouch Clichê Close comédia Comunismo Coração de Cristal Corpo Costa-Gavras Crítica Cubismo Da Manhã à Meia Noite Dadaísmo Decálogo Deus Dia de Festa Diabel Diferente dos Outros Disney Dorota Kędzierzawska Dostoyevski Double Bind Dovjenko Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela Efeito Kulechov Efeitos Especiais Effi Briest Eisenstein Eric Rohmer Escola Polonesa Espaguete Esse Obscuro Objeto do Desejo Estudante de Praga Expressionismo Fahrenheit Fanny e Alexander Fassbinder Fausto Fellini Ficção Científica Filhos da Guerra Filmes Zille Fisiognomonia Fitzcarraldo Franju Freud Fritz Lang Gance Genuine Geração Germaine Dulac Gilles Deleuze Godard Goebbels Golem Greta Garbo Griffith Gritos e Sussurros Herói Herzog Hiroshima Meu Amor Hitchcock Hitler Hollywood Holocausto Homossexualismo Homunculus Igreja India Song Indústria Cultural Istvan Szabó Ivan o Terrível Jean Cocteau Jean Epstein Jean Eustache Jean Genet Jean Mirtry Jean Rouch Jean Vigo Jean-Paul Belmondo Jean-Pierre Léaud Jeanne Dielman Judeu Judeu Rico Judeu Süss Jung Kafka Kanal Karl May Károly Makk Katyn Kawalerowicz Ken Loach Kes Kieślowski Kluge Kracauer Kristina Söderbaum Kubrick Kuhle Wampe Kulechov Kurosawa Lacan Lars von Trier Lili Marlene Lilian Harvey Lindsay Anderson Lola Lotna Lotte Eisner Louis Malle Lubitsch Luz de Inverno Mabuse Manifesto de Oberhausen Mãos de Orlac Marguerite Duras Marika Rökk Marlene Dietrich Martha Máscara Masculino Feminino Mastroianni Max Linder Medo do Medo Méliès Melodrama Mephisto Metropolis Miklós Jancsó Misoginia Mon Oncle Monika e o Desejo Morte Morte Cansada Mulher Murnau Na Presença de um Palhaço Nazarin Nazi-Retrô Nazismo Neo-Realismo Noite e Neblina Noli me Tangere Nosferatu Nostalgia Nouvelle Vague Nudez O Anjo Azul O Anjo Exterminador O Ano Passado em Marienbad O Direito do Mais Forte O Discreto Charme da Burguesia O Espelho O Fantasma da Liberdade O Judeu Eterno O Medo Devora a Alma O Outro O Ovo da Serpente O Prado de Bejin O Rito O Rolo Compresor e o Violinista O Rosto O Rosto no Cinema O Sacrifício O Sétimo Selo O Silêncio Orwell Os Esquecidos Os Incompreendidos Os Nibelungos Out1 Outubro Pandora Paris Texas Pasolini Pequeno Soldado Persona Philippe Garrel Picasso Pickpocket Playtime Poesia Polanski Pornografia Potemkin Praunheim Prostituta Protazanov psicanálise Pudovkin Puta Sagrada Quarto 666 Querelle Raskolnikov Realismo Realismo Poético Realismo Socialista Reinhold Schünzel Religião René Clair Resnais Revolução dos Bichos Riefenstahl Rio das Mortes Rivette Roger Vadim Romantismo Rossellini Rosto Sadomasoquismo Sarabanda Sartre Schlöndorff Schroeter Se... Sem Fim Sexo Slavoj Žižek Sokúrov Solaris Sombras Sonhos de Mulheres Stalin Stalker Sternberg Suicídio Surrealismo Syberberg Tabu Tambor Tarkovski Tati Tempo Terrorismo Tio Krüger Trafic Trilogia da Incomunicabilidade Trilogia das Cores Trilogia do Silêncio Trotta Truffaut Último Homem Um Cão Andaluz Um Filme Para Nick Veronika Voss Vertov Viridiana Visconti Wagner Wajda Wanda Jakubowska Wenders Whity Zanussi Zarah Leander Zero em Comportamento Zulawski

Minha lista de blogs

Visitantes

Flag Counter
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil License.