Este sítio é melhor visualizado com Mozilla Firefox (resolução 1024x768/fonte Times New Roman 16)

Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

18 de abr de 2009

A Nudez no Cinema (II): Ingmar Bergman

“A verdade nua e crua é
que vivo continuamente na
minha infância
(...). Descolo-me a
uma
velocidade incrível, pois no
fundo vivo permanentemente
em me
u sonho e faço
visitas à realidade”

Ingmar Bergman (1)

A Nudez Feminina nos Subterrâneos de um Homem

De acordo com Alain Bergala (2), a relação do filho de pastor protestante chamado Ingmar Bergman com a nudez é temperada por culpa, erotismo e morte. É o próprio Bergman que nos conta, em seu livro Lanterna Mágica, o que aconteceu quando ele tinha 10 anos de idade. Seu pai era pastor num hospital e eles viviam por lá. O pequeno Bergman é amigo do jardineiro, que o apresenta ao necrotério. Certo dia, a porta bateu e Bergman ficou sozinho lá dentro, rodeado de cadáveres. Ele logo notou o corpo de uma mulher jovem coberta por um lençol. Ao invés de pânico, Bergman foi tomado por um “desejo violento”.

Ele se aproximou dela, retirou o lençol e viu aquele corpo nu com um curativo que começava na garganta e chegava aos pêlos pubianos. Bergman a tocou no ombro e no pequeno seio flácido. Notou seus dentes brancos entre os lábios e o sexo entre as pernas – que ele afirma não ter ousado tocar. Cadáveres e corpos vistos por partes freqüentarão obsessivamente a cinematografia de Bergman.

Está Tudo Lá

“Que minha
educação tenha
fornecido um terreno
fértil para os demônios
da neurose, disso
não há nenhuma
dúvida”

Ingmar Bergman

O famoso prólogo de Persona (1966) constitui uma tentativa de exorcizar essa cena inaugural. Neste caso, um cadáver de mulher velha irá substituir o da jovem. Vários corpos são mostrados em close de rostos, de narizes e de mãos. Bergman aparece (fora do necrotério) na pele de um menino folheando um livro. Ele está deitado e coberto por um lençol como se estivesse ele próprio morto (imagem acima). Em seguida, tenta tocar a face das duas protagonistas do filme que serão projetadas ao fundo, ocupando toda a tela. De imediato lembramos de outro necrotério da filmografia Bergmaniana, desta vez nada metafórico, em O Ovo da Serpente (Das Schlangenei, 1977). (imagem abaixo, à direita)


Em A Hora do Lobo (Vargtimmen, 1968), voltamos ao necrotério, trata-se da seqüência onde Verônica está deitada nua numa mesa de autópsia como morta. Johan retira o lençol e toca o corpo dela. De repente, ela se levanta e começa a rir (imagem ao lado). No cinema de Bergman, lembra Bergala, é comum que o enquadramento em close e a montagem transformem um corpo em cadáver potencial. Em O Silêncio (Tystnaden, 1963), o sobrinho se aproxima de sua tia adormecida. Ele olha de muito perto, por fragmentos, em close e por ângulos tão raros que o corpo transforma-se em algo totalmente estranho. Mas nós só podemos imaginar tudo isso, pois Bergman não mostra o ângulo de visão do menino. (imagem acima)


A fronteira entre a nudez e a morte será sempre frágil no cinema de Bergman. Em Da Vida das Marionetes (Aus den Leben der Marionetten, 1980), essa equivalência nudez-morte está patente na mente de Peter. Ele acabará por matar Ka, uma dançarina de strip-tease, logo após um show. Esse “curto-circuito emocional”, nas palavras do psiquiatra de Peter, acontece no cruzamento de duas imagens cujo ponto de interseção é a nudez da mulher. Antes de tudo, Peter se vê assassinando Katarina, sua esposa. Ele descreve três variações da cena, mas todas possuem em comum a nudez de sua mulher.

Primeira versão: Katarina sai nua do banheiro. Peter está na cama e estende a mão para ela, que sorri... Segunda versão: Peter está em seu escritório e quer matá-la enquanto ela vem em sua direção com os cabelos humidos e sorrindo. Terceira versão: a porta do banheiro está aberta e Peter pode vê-la de onde está. Ela está nua, penteando o cabelo e andando para um lado e para o outro, ela se olha no espelho. Peter diz que sempre gostou de olhar sua esposa nua. O fantasma que habita essas três versões se atualizará quando ele encontrar Ka, cujo trabalho é precisamente mostrar o corpo, cujo o nome é o diminutivo do de sua esposa. (imagem ao lado, Ka é perseguida por Peter em Da Vida das Marionetes)


A nudez, nos filmes de Bergman, é mais mortal na medida em que está exposta à luz. Antes de matar, Peter pede à prostituta que diminua a luz, mas ela diz que não é possível, pois se trata de um defeito que ninguém quer consertar. Luminosidade que encontramos também em A Fonte da Donzela (Jungfrukällan, 1960), onde o corpo muito branco do cadáver de Karin estuprada e assassinada foi filmado como uma nudez superexposta, muito luminosa naquela paisagem florestal sombria. Como se ela estivesse ainda mais nua por conta dessa luz dolorosa que machuca o olhar. O garoto que assistiu a tudo e que fica sozinho com o cadáver recobrirá o corpo com um pouco de terra, menos para enterrá-la do que para fazer parar o fascinante e terrível clarão dessa nudez mais que nua.

Notas:

Leia também:

A Nudez no Cinema (I), (III)

1. BERGMAN, Ingmar. Imagens. Tradução Alexandre Pastor. São Paulo: Martins Fontes, 1996. P. 22.
2. BERGALA, Alain. Bergman In BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs) Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque. Pp. 53-7. O artigo resume o verbete.


Postagens populares (última semana)

Quadro de Avisos

Salvo quando indicado em algum ponto da página ou do perfil, este blog jamais foi patrocinado por ninguém e não patrocina nada (cursos, palestras, etc.) e jamais "doou" artigos para sites de "ajuda" a estudantes - seja no passado, presente ou futuro. Cuidado, não sejam enganados por ladrões da identidade alheia.

e-mail (no perfil do blog).

......

COMO CITAR ESTE BLOG: clique no título do artigo, verifique o link no alto da tela e escreva depois do nome do autor e do título: DISPONÍVEL EM: http://digite o link da página em questão ACESSO EM: dia/mês/ano

Marcadores

1984 A Bela da Tarde A Chinesa A Concha e o Clérigo A Doce Vida A Dupla Vida de Véronique A Fraternidade é Vermelha A Grande Testemunha A Hora do Lobo A Idade do Ouro A Igualdade é Branca A Infância de Ivan A Liberdade é Azul A Mãe e a Puta A Paixão de Ana A Religiosa A Rua sem Alegria A Terceira Geração A Última Etapa A Vida dos Outros Acossado Aelita Agnieszka Holland Aguirre Alain Delon Alemanha no Outono Alexander Nevsky Alexanderplatz Alphaville Alucinado Amigo Americano Amores do Faraó André Bazin Andrei Rublev Angelopoulos antipsiquiatria Antiteatro Antonioni Artaud As Favelas de Berlim Asas do Desejo Através de Um Espelho Aurora Baader Meinhof Barbara Sass Barthes Béla Balász Bergman Bertolucci Bibi Andersson Bolwieser Brecht Bresson Brigitte Bardot Buñuel Burguesia Cahiers du Cinema Caligari Carl Dreyer Carlos Saura Carmem Catherine Deneuve Cenas de um Casamento Censura Chabrol Chantal Akerman Chaplin Cineficação Cinema do Medo Cinema Livre Cinema Novo Alemão Cinema Novo Tcheco Cinemaníaco Cinzas e Diamantes Claude Lelouch Clichê Close comédia Comunismo Coração de Cristal Corpo Costa-Gavras Crítica Cubismo Da Manhã à Meia Noite Dadaísmo Decálogo Deus Dia de Festa Diabel Diferente dos Outros Disney Dorota Kędzierzawska Dostoyevski Double Bind Dovjenko Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela Dusseldorf Efeito Kulechov Efeitos Especiais Effi Briest Eisenstein Eric Rohmer Escola de Carteiros Escola Polonesa Espaguete Esse Obscuro Objeto do Desejo Estudante de Praga Expressionismo Fahrenheit Fanny e Alexander Fassbinder Fausto Fellini Ficção Científica Filhos da Guerra Filmes Zille Fisiognomonia Fitzcarraldo François Ozon Franju Freud Fritz Lang Gance Genuine Geração Gerhard Lamprecht Germaine Dulac Germanin Gilles Deleuze Godard Goebbels Golem Greta Garbo Griffith Gritos e Sussurros Herói Herzog Hiroshima Meu Amor História Hitchcock Hitler Hollywood Holocausto Homossexualismo Homunculus Igreja India Song Indústria Cultural Istvan Szabó Ivan o Terrível Jean Cocteau Jean Epstein Jean Eustache Jean Genet Jean Mirtry Jean Vigo Jean-Paul Belmondo Jean-Pierre Léaud Jeanne Dielman Judeu Judeu Rico Judeu Süss Jung Kafka Kanal Karl May Károly Makk Katyn Kawalerowicz Ken Loach Kes Kieślowski Kluge Kracauer Kristina Söderbaum Kubrick Kuhle Wampe Kulechov Kurosawa Lacan Lars von Trier Lili Marlene Lilian Harvey Lindsay Anderson Liv Ullmann Lola Lotna Lotte Eisner Louis Malle Lubitsch Luz de Inverno Mabuse Manifesto de Oberhausen Mãos de Orlac Marguerite Duras Marika Rökk Marlene Dietrich Martha Máscara Masculino Feminino Mastroianni Max Linder Medo do Medo Méliès Melodrama Mephisto Metropolis Miklós Jancsó Misoginia Modernismo Mon Oncle Monika e o Desejo Morte Morte Cansada Mulher Murnau Na Presença de um Palhaço Nathalie Granger Nazarin Nazi-Retrô Nazismo Neo-Realismo Noite e Neblina Nosferatu Nostalgia Nouvelle Vague Nova Objetividade Nudez O Anjo Azul O Anjo Exterminador O Ano Passado em Marienbad O Direito do Mais Forte O Discreto Charme da Burguesia O Espelho O Fantasma da Liberdade O Judeu Eterno O Medo Devora a Alma O Outro O Ovo da Serpente O Prado de Bejin O Rito O Rolo Compresor e o Violinista O Rosto O Rosto no Cinema O Sacrifício O Sétimo Selo O Silêncio Orwell Os Incompreendidos Os Nibelungos Outubro Pandora Paris Texas Pasolini Pequeno Soldado Persona Philippe Garrel Picasso Pickpocket Playtime Poesia Polanski Pornografia Potemkin Praunheim Prostituta Protazanov psicanálise Pudovkin Puta Sagrada Quarto 666 Querelle Raskolnikov Realismo Realismo Poético Realismo Socialista Reinhold Schünzel Religião René Clair Renoir Resnais Revolução dos Bichos Riefenstahl Rio das Mortes Rivette Roger Vadim Romantismo Rossellini Rosto Sadomasoquismo Sarabanda Sartre Schlöndorff Schroeter Se... Sem Fim Sexo Sirk Slavoj Žižek Sokúrov Solaris Sombras Sonhos de Mulheres Stalin Stalker Sternberg Stroszek Suicídio Surrealismo Syberberg Tabu Tambor Tarkovski Tati Tempo Terrorismo Tio Krüger Trafic Trilogia da Incomunicabilidade Trilogia das Cores Trilogia do Silêncio Trotta Truffaut Último Homem Um Cão Andaluz Um Filme Para Nick Velho e Novo Veronika Voss Vertov Viridiana Visconti Wagner Wajda Wanda Jakubowska Wenders Whity Zanussi Zarah Leander Zero em Comportamento Zulawski

Minha lista de blogs

Visitantes

Flag Counter
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil License.