soviético era um sistema fechado
de estabilidade dinâmica, no qual
os fluxos naturais e os desejos
individuais são aparelhados para
máxima eficiência, Tarkovski
procurou dramatizar a forma
que esses mesmos fluxos naturais entram no tempo humano, como
uma força que ao mesmo tempo capacita e adultera (...)" (1)
De Sasha a Ivan
Em O Rolo Compressor e o Violinista (Katok i Skripka, 1961) Sasha é um menino que mora em Moscou e sempre é perseguido pelos outros garotos do prédio, que pretendem destruir o violino dele. Em frente ao edifício, dois rolos compressores asfaltam a rua. Um dirigido por uma mulher, que sempre se insinua para o motorista da outra máquina. Sasha desenvolve uma amizade com Sergei, o motorista, que corresponde e defende o garoto dos ataques dos outros garotos. Sasha e Sergei, um pequeno artista e um trabalhador braçal, estabelecem uma ligação de companheirismo à margem das vidas de ambos.
Tarkovski foi muito criticado por membros do Conselho artístico governamental soviético, que decretaram que o filme não era suficientemente educativo – já que tinha sido autorizado pelo governo como um filme para crianças. A resposta de Tarkovski foi direta. Afirmou que não entenderá nunca como os membros do Conselho enxergaram um pequeno violinista rico e seu amigo trabalhador pobre. O cineasta explicou que o filme enfocava o contraste entre arte e trabalho, que só seria resolvido com a chegada da sociedade finalmente comunista. O problema é que sua abordagem dos temas convencionais e estórias do sistema soviético não tomava partido em posições explícitas. Essa “atitude cinematográfica” foi considerada “perigoso silêncio” (2).
De uma forma ou de outra, O Rolo Compressor e o Violinista foi um trabalho de conclusão de curso, para obtenção do cargo de direção. Aos 28 anos de idade, Tarkovski parte para sua próxima empreitada. O Estúdio Mosfilm o escolheu para adaptar Ivan (1958), uma estória de guerra escrita por Vladimir Bogomolov e que se chamará A Infância de Ivan (Ivan Detstvo, 1962).
O Espaço e Suas Paredes
“(...) Não é característico de Tarkovski inserir seus filmes em qualquer paisagem identificável ou reconhecível; seus espaços emergem no plano visual de personagens concretos, não como o receptáculo contendo a ação, mas como sua conseqüência”. (...)” Edifícios sempre carregam traços de sua construção e – evidentemente – sua gradual desintegração. Os fluxos naturais continuam a dominar a terra de ninguém que separa as moradias entre si. Entre seu lar e sua aula de violino, o jovem Sasha está pela compaixão [do saguão de seu prédio] e das ruas. Espaços abertos provam ser não menos ameaçadores do que a escadaria de seu prédio. Quando a bola de demolição abre a vista sobre uma das construções stalinistas que circundam Moscou, a verticalidade absoluta é assustadora e opressiva. Apenas uma forma arquitetural está livre tanto da claustrofobia e da vertigem: o arco, talvez a mais proeminente característica da Moscou de Tarkovski (não apenas em O Rolo Compressor e o Violinista, mas também em Andrei Rublev e [na montagem da ópera] Boris Godunov). O arco descreve o espaço como epifania e área cercada, duas forças opostas cuja tensão compõem a experiência” (6)
O Tempo e os Espelhos
Em O Rolo Compressor e o Violinista já podemos vislumbrar Tarkovski explorando o tempo como uma forma de descrição do mundo. Quando Sasha deixa a aula de violino, podemos ver o que sobrou da maça que ele deu para a menina que estava na sala de espera. Num plano geral, a câmera passa de Sasha que se afasta para a maça que estava fora de foco, conseqüentemente a imagem do menino agora de desfaz fora de foco (última imagem do artigo. Na primeira imagem do artigo, encontramos a maça ainda intacta em close. A menina pareceu hesitar em comê-la. Enquanto ela comia, estamos fixados na imagem turva e brilhante que só momentos mais tarde percebemos que se trata de um copo d'água; imagem abaixo).
A exploração da experiência do tempo e seu potencial imagético está bastante explícito num momento lúdico de Sasha quando ele ainda está a caminho da aula. Ele para e admira uma vitrine, que surge quando um letreiro de propaganda sobre o 1º de Maio é erguido. Sasha nem percebe as grandes letras, ele está fixado nos espelhos no mostruário da loja, que refletem sua imagem multiplicada por quatro. Mudando de posição, o menino vê quadruplicadas cenas do mundo atrás dele. A imagem multiplicada de um relógio indica, na opinião de Bird, que esses reflexos modificam o fluir do tempo.
Celebração da Dissonância
Durante a aula de violino, Sasha repete uma passagem três vezes. A professora chama atenção dele e coloca um metrônomo para marcar o tempo. Mas ela não consegue despertar Sasha de seu sonho acordado, pois é aí que ele para de tocar. Ela mostra a nota dele, que acata sem questionar. Sai da sala e passa pela menina para quem ele deu sua maça e vai embora. Durante todo o filme, Sasha não vai além da repetição de um pequeno número de frases sonoras, que entram em contraponto com a trilha sonora. O efeito é que tanto a música quanto o enredo do filme são uma celebração da dissonância e da descontinuidade (7). Sasha não avança em sua música, assim como sua mãe frustra sua tentativa de ir ao cinema com o novo amigo Sergei.
Entretanto, a repetição de notas pelo menino é capaz de levar Sergei a sonhar acordado com as memórias da guerra. Essa parece ser, de acordo com Bird, a fonte do bloqueio de Sergei e de seu comportamento excessivamente sério – que só no final se rende ao interesse de sua colega de trabalho, a companheira motorista de rolo compressor. Sua única resposta parece ser o trabalho, que no universo do filme é igualado à música curta de Sasha. O final do filme, ainda segundo Bird, tem exatamente na falta de clareza de ligação o seu sucesso. O final... “ressoa com todas as dimensões da experiência que foi mostrada durante todo o filme, dentro e fora de foco, perto e longe, em espelhos e caleidoscópios, em fragmentos sonoros e música articulada, criando um mundo denso no qual os personagens compartilham sem controlar – ou mesmo compreender – sua causalidade e significância” (8)
Entretanto, a repetição de notas pelo menino é capaz de levar Sergei a sonhar acordado com as memórias da guerra. Essa parece ser, de acordo com Bird, a fonte do bloqueio de Sergei e de seu comportamento excessivamente sério – que só no final se rende ao interesse de sua colega de trabalho, a companheira motorista de rolo compressor. Sua única resposta parece ser o trabalho, que no universo do filme é igualado à música curta de Sasha. O final do filme, ainda segundo Bird, tem exatamente na falta de clareza de ligação o seu sucesso. O final... “ressoa com todas as dimensões da experiência que foi mostrada durante todo o filme, dentro e fora de foco, perto e longe, em espelhos e caleidoscópios, em fragmentos sonoros e música articulada, criando um mundo denso no qual os personagens compartilham sem controlar – ou mesmo compreender – sua causalidade e significância” (8)
Notas:
1. BIRD, Robert. Andrei Tarkovski. Elements of Cinema. London: Reaktion Books Ltd, 2008. P. 132.
2. Idem, pp. 32, 33 e 240.
3. Ibidem, p. 42.
4. Ibidem, p. 131.
5. Ibidem, p. 132.
6. Ibidem, pp. 54 e 55.
7. Ibidem, p. 36.
8. Ibidem.