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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

6 de mar de 2010

Wim Wenders e a Humanidade Perdida (I)

No Decurso do Tempo (I)




“OS IANQUES COLONIZARAM NOSSO SUBCONSCIENTE”
(1)






Dois Deslocados em Deslocamento

Em No Decurso do Tempo (In Lauf der Zeit, direção Wim Wenders, 1976), Bruno Walter navega pelas estradas da antiga Alemanha Ocidental num caminhão, consertando projetores de cinema – na carroceria se lê "transporte de móveis". Certa manhã, na beira do rio Elba (fronteira das duas Alemanhas), Bruno assiste à tentativa de suicídio de Robert, que se atira no rio com seu fusca. Não dá certo, e os dois acabam rindo de tudo. Robert se divorciou, mas toda hora telefona para a ex-esposa – diz que ela pode se suicidar. Bruno está só e parece fugir de tudo. Em cada parada, nada que substitua a estrada. Os dois seguem numa deriva sem fim, o centro é o caminho, nunca a próxima cidade. E é lá, na estrada, que o filme termina onde havia começado.

Afundando Como Um Fusca


Travessias
impos
síveis, entre fronteiras, pessoas,
s. Não existe mais
nada a fazer senão
continuar





Kamikaze foi o apelido que Bruno deu a Robert depois da tentativa motorizada de suicídio. Os dois dão risadas enquanto o fusca afunda. A idéia de naufrágio, Michel Boujut sugere, convém a um filme marcado pela sensação de fracasso e afundamento das pessoas em suas neuroses. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que Kamikaze tentou atravessar a linha dessa fronteira fluvial das duas Alemanhas – ele descobrirá que existem travessias impossíveis (2). O filme tem muita música norte-americana e inglesa, e Bruno um toca-discos portátil - modelo bem antigo, que funciona com o caminhão em movimento. Com discos de 45 rotações da década de 60, ouvimos Just Like Eddie e King of the Road – título do filme nos países de língua inglesa.


Na primeira parada, um posto de gasolina da antiga Texaco, a imagem lembra as de Walker Evans, fotografo norte-americano. Dito de outra forma, e segundo Boujut, a Alemanha de Wenders é percebida através de um ponto de vista norte-americano. Noutra seqüência, os dois amigos estão numa estação ferroviária e ouvimos Bruno cantando Love in Vain, dos Rolling Stones: “when the train comes in the station...”. Novamente a questão da andança, seja a pé, de carro, caminhão ou de trem. A música fala de um homem que leva sua mulher/namorada para a estação carregando uma mala. Desde quando sai do fusca no rio, Robert carrega uma mala vazia e nenhum destino.

Próximo ao final do filme, depois de muito tempo carregando aquela mala que salvou do rio, e depois que deixou Bruno para trás, Robert troca seus óculos de sol e ela pelo caderno de um garoto que anotava tudo que via – e que achou uma boa troca. Estaria Wim Wenders representando a passagem do fardo (da perda de identidade dos alemães depois de Hitler e dos campos de concentração e extermínio) para as novas gerações? E por falar em gerações, papai Hitler, além de figura paterna degenerada da "sua" Alemanha (o que inclusive deixou forte evidência da neutralização do poder das famílias alemães sobre seus filhos), foi também um modelo de masculinidade para seus “filhos”.

É preciso esclarecer que, depois da Segunda Guerra Mundial, as “famílias sem pai” eram muito comuns na Alemanha. Além disso, havia a questão moral diante dos filhos, pois tanto os pais que foram para a guerra, quanto as mães que ficaram em casa, apoiaram Hitler – o que gerou muitos problemas de autoridade no seio dessas famílias. Que tipo de homens se construiu nesta geração que nasceu durante ou no imediato pós-guerra? Tendo nascido na Alemanha em 1945, Wim Wenders fala de sua própria geração.

“(...) No Decurso do Tempo é um filme de homens, que trata daquilo que ignoram os filmes no estilo norte-americano habitualmente chamados de filmes de homens. ‘Essas obras, observa Wenders, são apenas filmes de repressão: filmes nos quais as relações com mulheres, mas também as relações entre homens, são reprimidas pela estória, pela a ação e pela necessidade de entreter. Esses filmes deixam de lado aquilo que interessa: porque os homens preferem ficar uns com os outros, porque se gostam mais, porque eles só se interessam pelas mulheres para passar o tempo (...) Esses filmes tem a tendência de deixar os personagens masculinos vitoriosos e seguros de si próprios. O que eu pretendi mostrar, muito ao contrário, é que toda essa fanfarronice desses heróis esconde um grande desarranjo, ou mesmo alguma coisa de lastimável’”(3)

Lá pelas tantas, à noite, Bruno reencontra Pauline, uma mulher que havia conhecido mais cedo certo dia. Ela é bilheteira num cinema, vive sozinha com a filha e diz que prefere continuar assim. Passam a noite juntos, compartilhando a solidão. No dia seguinte, ela acorda chorando, Bruno se prepara para ir embora – mas antes toca no rosto dela e transfere uma lágrima para seu próprio rosto. Poderia ser o início de uma história, mas não para o solitário Bruno. Ele volta para a estrada – para sua fuga? Mas antes vai à procura de Robert, para encontrá-lo dormindo no escritório do jornal local que seu pai administra. Nas palavras de Boujut, fechados e indiferentes, os personagens de Wim Wenders estão irremediavelmente fadados à solidão. Ensimesmados, seguem voltados para seus sonhos e seus monólogos (4).

Notas:

Leia também

Berlin Alexanderplatz (II)
Wim Wenders e o Vídeo no Cinema


1. O dvd lançado no Brasil em 2007 (Europa Filmes) fez uma tradução bizarra: “Afinal, os americanos colonizaram nossa telefonia”. Além disso, a sinopse da embalagem afirma que Bruno viaja pela Alemanha Oriental. O filme se passa na Alemanha Ocidental, como se pode ler em alemão (pois a Europa Filmes não se dignou a inserir legendas neste ponto) logo nos créditos iniciais: "Filmado entre Lüneburg e Hof, na fronteira da DDR [Alemanha Oriental]".
2. BOUJUT, Michel. Wim Wenders. Une Voyage Dans ses Films. Paris: Flammarion, 1986. P. 82.
3. Idem, p. 80.
4. Ibidem, p.88.

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