olhar, registrar e mostrar
com insistência, como em um
close-up, é o que há ‘por detrás das
imagens’, o que o cinema jamais
pode ver, assim como nosso
olho não pode ver (tomemos
Wenders ao pé da letra)
nosso próprio traseiro"
Philippe Dubois (1)
A Importância da Montagem
Originalmente, Wim Wenders desejava realizar um filme a quatro mãos com Nicholas Ray - Nick. Seria uma ficção a respeito de um homem que quer se reencontrar antes de morrer, reencontrar sua auto-estima. Ray já estava fraco em virtude de um câncer de pulmão, então Wenders decidiu que seria melhor entregar a montagem a Peter Przygodda. Desta forma Wenders procurava evitar que o filme traísse as intenções de Nick, já que Wenders achava que poderia desvirtuar o ponto de vista do filme. Entretanto, Wenders não gostou do resultado, muito centrado na figura doente de Ray, decidindo remontar o filme (2).
“(...) O problema da segunda montagem consistia então em encontrar um bom equilíbrio entre dois olhares ou, dito de outro modo, entre dois suportes, o cinema e o vídeo. (...) A principal questão que Wenders se coloca ao longo da filmagem (e que justifica a segunda montagem) lhe pesa tanto que ele vai enunciá-la várias vezes no próprio filme. Podemos formulá-la assim: como traduzir e respeitar a intensidade de sua amizade por Nick sem cair em uma atração doentia por sua figura nem recalcar, por excesso de respeito, uma doença e seu sofrimento?” (4)
Chegando à Casa de Nick
O prólogo, a primeira seqüência no apartamento de Nick, é exemplar quanto à montagem, incluindo o “balé” entre os dois suportes. Intercalando imagens de vídeo e 35 mm, Wim Wenders chega ao apartamento de Nicholas Ray e se aloja em primeiro plano, enquanto Nick está no fundo da imagem (imagem acima, ao lado direito. Podemos ver Tom fazendo as imagens de vídeo. Como que representando a irrupção do vídeo no cinema produzido pelos dois). Entre eles um corredor que, como sugeriu Philippe Dubois, caracteriza um espaço simbólico: entre o filho e o pai, entre Europa (Wenders) e os Estados Unidos (Nicholas Ray). A inserção do vídeo faz ressurgir toda “sujeira oculta” pelo corte cinematográfico.
Voltando Para Casa
“(...) A montagem opera sobre
o material do filme (que consiste
de fragmentos muito longos ou muito
curtos, de tantos planos-sequência
quanto de tomadas e perspectivas
subjetivas possíveis) aquilo que
a morte opera sobre a vida”
Pier Paolo Pasolini
Osservazioni Sul Piano-Sequenza, 1967
“De resto, Nós Não Podemos Voltar Para Casa Novamente é, concretamente, o Nick’s Movie (filme de Nick) que está na origem da curta ficção construída inicialmente por Ray e Wenders para o filme que eles queriam realizar juntos [e que foi interrompido pela morte de Ray, sendo montado por Przygodda e depois remontado por Wenders]. Esta primeira trama narrativa, esboçada, mas não respeitada em seguida, devia contar a história de Ray tentando recuperar a todo custo os negativos de Nós Não Podemos Voltar Para Casa Novamente, filme maldito, rejeitado pelos produtores e confiscado por um laboratório do qual Ray devia, por fim, roubá-lo para poder terminá-lo. Este filme, do qual podemos ver um breve trecho na montagem final de Um Filme Para Nick, se tornou para Wenders e sua equipe um verdadeiro filme fetiche, projetado várias vezes ao longo das filmagens, emblema deste outro cinema pessoal e insubmisso ao qual Ray e Wenders sempre aspiraram - um cinema marginal (...), que se finaliza na ilegalidade para ser mostrado a alguns amigos, intimamente, afetuosamente” (6)
O Olhar Impossível
Durante o processo de remontagem que reformularia o trabalho que o próprio Wim Wenders havia demandado a Przygodda, ele percebeu que as imagens em vídeo gravadas por um dos atores, retratando os bastidores da filmagem de Um Filme Para Nick, seriam capazes de transmitir uma verdade que o cinema (a película em 35 mm) não tinha conseguido. No final, a própria montagem do filme seguiu o padrão dos elementos presentes na seqüência inicial: saúde e doença, um cineasta (Nick) e seu seguidor (Wenders), distância e proximidade (entre os dois). Agora película de 35 mm e fita magnética de vídeo se encontram para mostrar o que é possível ser visto de Nick e das incertezas de Wenders. A respeito da inserção das imagens de vídeo, Wim Wenders esclarece:
“Tom Farrel havia decidido registrar tudo em vídeo. Nenhum de nós imaginou que estas imagens poderiam servir. Mas durante a montagem, nos demos conta que o que Tom havia percebido, sem nenhuma limitação de espaço, de luz, de preparação, era mil vezes mais direto e mais verdadeiro que as imagens muito lisas, muito próprios do 35 mm. O filme em 35 ganhou em presença pela confrontação com o vídeo. É na combinação da crueza do vídeo e da superfície polida do 35 que o filme se constitui. Na colaboração das duas fontes de imagens” (9)
Wenders procurava deslocar o objeto do filme, da doença de Ray, enfatizado na montagem de Przygodda, para uma situação de confrontação entre o cinema e o vídeo. Passando da doença para o cinema, Wenders parece sugerir que não apenas Nick está doente, mas também o próprio cinema: “(...) o cinema está doente por não saber mais olhar toda a realidade que seja excessiva (como a da lenta agonia de Nick) e que, portanto, lhe resista” (10). O filme é de 1980, e sabemos que nesta época o cinema mundial passava por uma crise. Wenders tratará mais explicitamente desta crise em Quarto 666 (Chambre 666, 1982) (11), um documentário de curta-metragem onde vários cineastas são convidados a expor suas reflexões a respeito do futuro da sétima arte.
“Tom Farrel havia decidido registrar tudo em vídeo. Nenhum de nós imaginou que estas imagens poderiam servir. Mas durante a montagem, nos demos conta que o que Tom havia percebido, sem nenhuma limitação de espaço, de luz, de preparação, era mil vezes mais direto e mais verdadeiro que as imagens muito lisas, muito próprios do 35 mm. O filme em 35 ganhou em presença pela confrontação com o vídeo. É na combinação da crueza do vídeo e da superfície polida do 35 que o filme se constitui. Na colaboração das duas fontes de imagens” (9)
“Eis aí o impossível do dispositivo cinematográfico em torno do qual giraram todos os filmes (alguns dos quais notáveis) que quiseram mostrar o cinema se fazendo. Pois o impossível não é o que se vê no espelho, nem o que está por detrás dele; o impossível é a passagem contínua do que está ‘diante de’ para o que está por detrás, passagem que o olhar (o nosso, ou o da câmera) não chega a transpor. Não há, portanto, em sentido próprio, ‘doença’ do cinema. Simplesmente, o prólogo de Um Filme Para Nick procura avisar o espectador que um ‘impossível’ apareceu no dispositivo cinematográfico. Este ‘impossível’ já foi encontrado, no curso de outro encaminhamento, por Raymond Bellour, que o designou com o termo mais adequado de ‘infilmável’” (12)
Notas:
1. DUBOIS, Philippe; DUBOIS, Colette ; MÉLON, Marc-Emmanuel. Vídeo e Cinema: Interferências, Transformações, Incorporações (Communications, 1988) In DUBOIS, Philippe. Cinema, Vídeo, Godard. Tradução Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004. P. 225.
2. Idem, p. 218.
3. O título original está em inglês. Nick’s Movie foi o título do filme no mercado norte-americano. Este foi também o título escolhido pela Europa Filmes, distribuidora responsável pelo lançamento do filme em dvd no mercado brasileiro. Embora a variação de título cause alguma confusão, nada foi pior do que lançar o filme omitindo a data original. Ao invés de 1980, o dvd trás apenas a data de lançamento do dvd no Brasil, 2007 - e ainda por cima em letras minúsculas.
4. DUBOIS, Philippe. Op. Cit., p. 219.
5. BOUJUT, Michel. Wim Wenders. Une Voyage Dans Ses Films. Paris: Flammarion, 1986. P. 115.
6. DUBOIS, Philippe. Op. Cit., P. 217.
7. BOUJUT, Michel. Op. Cit., 118.
8. Idem, p. 119.
9. Ibidem, pp. 114-5.
10. DUBOIS, Philippe. Op. Cit., p. 224.
11. O título original está em francês.
12. DUBOIS, Philippe. Op. Cit., pp. 225-6.