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Roberto Acioli de Oliveira

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31 de jul de 2009

A Nudez No Cinema (VI): Ingmar Bergman



(...)   O   sonho   de
Peter   em   Da   Vida
das  MarionetesLonga
cena  de  pura  brancura
imaterial, bruma visual
onde nadam os nus”

Jacque Aumont (1)



De acordo com Alain Bergala, no cinema de Bergman a fronteira entre a nudez e a morte será sempre frágil (2). Isto fica bastante claro em filmes como Da Vida das Marionetes (Aus Dem Leben Der Marionetten, 1980), onde a equivalência nu-morte está mesmo no centro do que o filme define como a catástrofe de um homem. A atitude de um tal Peter Egerman que acabará por assassinar Ka, uma dançarina de strip-tease e prostituta. Este “curto-circuito emocional”, como definiu o psiquiatra consultado por Peter, tem lugar no cruzamento de duas imagens cujo ponto de interseção é a nudez de sua esposa. Peter revela ao psiquiatra que há dois anos pensa em matar Katarina, sua esposa. Ele pede que Peter explique como pretende fazer isso.

“Está tudo tão silencioso no apartamento. E uma intensa luz do sol inunda o ambiente”. (...) “Consigo vê-la andar pelo banheiro”,(...) “sempre adorei observar minha esposa”.(...) “Sempre gostei do seu modo de andar”. “Ela se virou para o espelho, ela me observava no espelho. Ela está perdida em seus próprios pensamentos, mas está suspirando. Eu estou ao seu lado e estou segurando a navalha com a mão esquerda. Ela me olha o tempo todo. E agora ela realmente me vê. Um sorriso imperceptível paira sobre seus lábios. Consigo sentir sua agitação, um leve pulsar na sua garganta”

A segunda imagem que atualiza a nudez de sua esposa acontece no encontro com Ka, a prostituta que "casualmente" (somente podemos dizer isso entre aspas no caso dos personagens de Bergman) tem como “nome” uma abreviação do nome da mulher de Peter. O trabalho de Ka é justamente se mostrar nua (strip-tease). Depois do show, quando Peter vem ao seu encontro num lugar muito iluminado onde se prostitui, ela está sentada em frente ao espelho, nua e retirando a maquiagem. Peter pede que ela se levante e olhe para ele. Com isso ele cria um paralelo entre aquela realidade objetiva e sua imaginação. Depois de matá-la, Peter Egerman calmamente liga para seu psiquiatra, solicitando sua presença.

Peter tem alguns sonhos, como aquele em que acorda num lugar branco sem portas, janelas, teto ou paredes. Está nu e sua mulher dorme ao seu lado. Pesquisa o corpo nu dela, toca a pele daquela mulher jovem. Afirma que a ponta de seus dedos tem olhos. Sentia como se flutuasse. Sensação que acreditava estar ligada a sua nudez. Então veio a sua mente o seguinte pensamento: “Se você é a morte, então eu lhe saúdo, querida morte. Se você é a vida, então eu lhe saúdo, querida vida”. Katarina continuava imóvel, dormindo a seu lado. Ele procurou não entrar em pânico. Sua esposa acorda, mas é como se ela não soubesse ou percebesse que Peter estava lá, ele tenta falar com ela. Tentou fazer sexo com ela, mas a mulher não permitiu.

Ela olhava nos olhos dele e sorria, Peter sentiu vontade de matá-la. Procurou se controlar. Eles brigaram e então houve um momento de ternura. Depois disso, Katarina morre. Dando a entender que sequer percebera como tudo aconteceu, Peter diz que sabia que deveria tê-la matado de um modo pavoroso e cruel. Então ele acorda do sonho num pulo e encontra Katarina dormindo a seu lado. Este sonho ele estava contando em uma carta (que não foi enviada) para um amigo antes de tentar suicidar-se. No final da carta ele pergunta: “Pode me ajudar? Posso ser ajudado? Posso continuar a viver? Estou realmente vivo? Ou meu sonho foi o único momento fugaz de vida que tive? De uma realidade vivenciada e derrotada?”

Bergala ressalta que a nudez no cinema de Bergman segue mais um protocolo mórbido do que um ritual erótico. Naturalmente, sabemos que em Monika e o Desejo (Sommaren Med Monika, 1953), Bergman nos traz uma jovem mulher em sua nudez solar, inocente, quase naturista e sem culpas. Um nu tão célebre criado por Bergman que foi homenageado por François Truffaut em Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959), quando aqueles meninos roubam a fotografia de Monika em pose sensual afixada no corredor do cinema. Entretanto, insiste Bergala, trata-se de uma exceção, em se tratando do cineasta sueco.

Notas:

Leia também:

A Nudez no Cinema (VII)

1. AUMONT, Jacques. Ingmar Bergman. “Mes Films sont L’explication de mes Images”. Paris: Cahiers du Cinema, 2003. P. 129.
2. BERGALA, Alain. Ingmar Bergman In BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs) Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque. P. 53-4.

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