No Decurso do Tempo (I)
Dois Deslocados em Deslocamento
Afundando Como Um Fusca
nós. Não existe mais
nada a fazer senão
continuar
nada a fazer senão
continuar
É preciso esclarecer que, depois da Segunda Guerra Mundial, as “famílias sem pai” eram muito comuns na Alemanha. Além disso, havia a questão moral diante dos filhos, pois tanto os pais que foram para a guerra, quanto as mães que ficaram em casa, apoiaram Hitler – o que gerou muitos problemas de autoridade no seio dessas famílias. Que tipo de homens se construiu nesta geração que nasceu durante ou no imediato pós-guerra? Tendo nascido na Alemanha em 1945, Wim Wenders fala de sua própria geração.
“(...) No Decurso do Tempo é um filme de homens, que trata daquilo que ignoram os filmes no estilo norte-americano habitualmente chamados de filmes de homens. ‘Essas obras, observa Wenders, são apenas filmes de repressão: filmes nos quais as relações com mulheres, mas também as relações entre homens, são reprimidas pela estória, pela a ação e pela necessidade de entreter. Esses filmes deixam de lado aquilo que interessa: porque os homens preferem ficar uns com os outros, porque se gostam mais, porque eles só se interessam pelas mulheres para passar o tempo (...) Esses filmes tem a tendência de deixar os personagens masculinos vitoriosos e seguros de si próprios. O que eu pretendi mostrar, muito ao contrário, é que toda essa fanfarronice desses heróis esconde um grande desarranjo, ou mesmo alguma coisa de lastimável’”(3)
Lá pelas tantas, à noite, Bruno reencontra Pauline, uma mulher que havia conhecido mais cedo certo dia. Ela é bilheteira num cinema, vive sozinha com a filha e diz que prefere continuar assim. Passam a noite juntos, compartilhando a solidão. No dia seguinte, ela acorda chorando, Bruno se prepara para ir embora – mas antes toca no rosto dela e transfere uma lágrima para seu próprio rosto. Poderia ser o início de uma história, mas não para o solitário Bruno. Ele volta para a estrada – para sua fuga? Mas antes vai à procura de Robert, para encontrá-lo dormindo no escritório do jornal local que seu pai administra. Nas palavras de Boujut, fechados e indiferentes, os personagens de Wim Wenders estão irremediavelmente fadados à solidão. Ensimesmados, seguem voltados para seus sonhos e seus monólogos (4).
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Notas:
1. O dvd lançado no Brasil em 2007 (Europa Filmes) fez uma tradução bizarra: “Afinal, os americanos colonizaram nossa telefonia” [isto foi corrigido com a nova edição do filme pela distribuidora Obras Primas, em 2016] [Esta retificação foi realizada em 11/04/2018]. Além disso, a sinopse da embalagem afirma que Bruno viaja pela Alemanha Oriental. O filme se passa na Alemanha Ocidental, como se pode ler em alemão (pois a Europa Filmes não se dignou a inserir legendas neste ponto) logo nos créditos iniciais: "Filmado entre Lüneburg e Hof, na fronteira da DDR [Alemanha Oriental]".
2. BOUJUT, Michel. Wim Wenders. Une Voyage Dans ses Films. Paris: Flammarion, 1986. P. 82.
3. Idem, p. 80.
4. Ibidem, p.88.
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1. O dvd lançado no Brasil em 2007 (Europa Filmes) fez uma tradução bizarra: “Afinal, os americanos colonizaram nossa telefonia” [isto foi corrigido com a nova edição do filme pela distribuidora Obras Primas, em 2016] [Esta retificação foi realizada em 11/04/2018]. Além disso, a sinopse da embalagem afirma que Bruno viaja pela Alemanha Oriental. O filme se passa na Alemanha Ocidental, como se pode ler em alemão (pois a Europa Filmes não se dignou a inserir legendas neste ponto) logo nos créditos iniciais: "Filmado entre Lüneburg e Hof, na fronteira da DDR [Alemanha Oriental]".
2. BOUJUT, Michel. Wim Wenders. Une Voyage Dans ses Films. Paris: Flammarion, 1986. P. 82.
3. Idem, p. 80.
4. Ibidem, p.88.