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Roberto Acioli de Oliveira

26/06/2008

As Mulheres de Rainer Werner Fassbinder (III)





Oportunismo e Heroísmo

No período final de sua carreira, Fassbinder criou cinco obras que, a partir de cinco mulheres, permitem que se tenha um quadro da história da Alemanha no pré-guerra (República de Weimar), durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra. Bolwieser (1976-7) cobre o período final da República de Weimar. Lili Marlene (Lili Marleen, 1980) é ambientado durante a guerra. O Casamento de Maria Braun (Die Ehe der Maria Braun, 1978), começando em 1943, durante a guerra, e pulando para o imediato pós-guerra, terminando em 4 de julho de 1954. O Desespero de Veronika Voss (Die Sehnsuch der Veronika Voss, 1981), cobrindo algumas semanas em 1955, terminando no Domingo de Páscoa. E Lola (1981), ambientado entre 1957-8 (1). Os três últimos filmes constituem a Trilogia da República Federal da Alemanha.

Nestes filmes, mesmo a mulher mais dogmática ou positiva se dobra aos poderes da sociedade patriarcal. Alguns sugeriram que seria um gesto de desesperança por parte de Fassbinder. Um gesto nascido de uma “melancolia da esquerda” em relação à direção que tomava a política na Alemanha Ocidental do final da década de 70 e início dos anos 80 do século passado. Mais especificamente, em relação tanto a problemática da desesperança dos revolucionários idealistas que viraram terroristas (o grupo Baader Meinhof), quanto à reação autoritária do governo em relação à questão (2).

Entre Casamentos e Amantes

Bolwieser é ambientado numa pequena cidade da Bavária em 1920, onde um chefe de estação ferroviária vive com uma mulher que o domina e trai com dois homens (imagem ao lado). Para além do melodrama, o filme constitui um retrato realista da vida alemã pouco antes do começo do nazismo. Xaver Bolwieser, o marido, é a variação de um tipo freqüente em Fassbinder: traído, maltratado, e finalmente abatido. Em seu uniforme de chefe, ele impõe respeito aos subordinados. Porém, em relação a sua esposa, ele é um dependente masoquista que não pode satisfazê-la sexualmente. Hanni, a esposa, acaba fazendo com que Xaver testemunhe num tribunal a favor de um de seus amantes.


Depois de ser abandonado em favor de outro, o primeiro amante acusa Xaver de perjúrio. O resultado é que Xaver vai preso e acaba concordando com o pedido de divórcio de Hanni. Seja como for, Hanni, constitui uma das personagens femininas mais independentes dos filmes de Fassbinder. Por sua atitude senhorial em relação a seus subordinados na estação ferroviária, Xaver representaria o oficial subalterno autoritário que logo encontraria um lugar na burocracia das forças armadas nazistas.

Amores Proibidos

Em Lili Marlene temos uma cantora (Willie) de cabaré que vê sua carreira decolar rapidamente durante a vigência do Estado Nazista na Alemanha. Baseado na autobiografia da cantora alemã Lale Anderson, que ficou famosa durante a Segunda Guerra com sua música (chamada Lili Marlene) sobre um soldado que deseja reencontrar sua namorada, o filme mostra como Willie parece não perceber os desdobramentos de suas escolhas naquele momento histórico conturbado (ao lado). O filme também mostra seu dilema profissional. O problema é que sua música virou uma espécie de hino nos campos de batalha durante a Segunda Guerra Mundial. Embora sua canção fosse admirada por vários exércitos inimigos entre si, os nazistas fizeram dela uma espécie de namorada do soldado alemão.

Sua vida se complica quando ela se apaixona por um maestro suíço, que, além de judeu, era um espião trabalhando para tirar outros judeus da Alemanha. O pai do maestro esforça-se em vão para separá-los, julgando que essa ligação pode colocar a vida do filho em perigo. Os alemães começam a desconfiar dela também. No final, desmascarada, ela se vê forçada a continuar apoiando publicamente o regime nazista para não ser morta. Como chegou a dizer, ela era apenas uma cantora com uma música. O que você faria se sua única chance profissional depende-se de fazer amizade com alguns crápulas, ou os crápulas de um governo corrupto ou de um burocrata durante uma ditadura?

Entre a Falta de Opção e o Oportunismo

O Casamento de Maria Braun nos apresenta a situação de uma das milhões de viúvas de soldados alemães depois da guerra (ao lado). Sem opção de sobrevivência numa Alemanha destruída, a mulher se prostitui num bar que serve os soldados dos exércitos vitoriosos. Um soldado americano negro se interessa por ela, que, ou não pode recusar, ou vê nele uma chance de resolver seus problemas de sobrevivência. Casam-se. De repente, ela descobre da pior forma possível que seu marido ainda está vivo: ele mata o americano ao encontrá-lo com sua esposa. Vai preso. Enquanto isso, a mulher faz progressos profissionais e encontra outro homem que se apaixona por ela. Além de maltratá-lo muito, ela deixa claro que é casada. Enquanto isso, seu marido sai da prisão e desaparece.


Na cena final, depois de ouvir que o homem que ela maltratava havia morrido e deixado tudo para ela, seu marido explica porque havia sumido. Enquanto ele estava na prisão, foi procurado pelo masoquista que amava sua mulher. Fizeram um acordo: ele pagaria para que o marido de Maria desaparecesse, só podendo voltar após a morte do masoquista. Maria Braun, que durante todo o tempo acreditava ter o controle de sua vida no mundo dos homens, subitamente percebe que foi negociada como uma mercadoria. Ela acende um cigarro no fogão, mas não fecha o botão do gás. Em poucos minutos o gás explode, enquanto ouvimos no rádio a partida da copa do mundo que daria a vitória a Alemanha em 1954. Fassbinder não nos dá uma pista para sabermos se foi acidente ou suicídio.

Um Mundo sem Futuro ou Um Futuro sem Mundo

O Desespero de Veronika Voss mostra, numa surreal atmosfera em preto e branco, a decadência de uma famosa atriz (ao lado). O filme é baseado na vida de Sybille Schmitz, uma estrela de cinema durante o nazismo, que vê sua carreira desmoronar depois da guerra. Schmitz é colocada sob os cuidados de uma neurologista que deliberadamente a viciou em morfina, além de controlar sua vida através de soníferos depois que a atriz passou seus bens para a médica. Certamente, este é um comentário de Fassbinder sobre a corrupção oficial na República Federal da Alemanha (3) (o nome do país antes da queda do muro de Berlin em 1989), levando-se em consideração a relação entre a neurologista e um funcionário da saúde pública que coopera com ela.

A dependência de Veronika em relação à morfina funciona como uma metáfora em relação ao que Teodor Adorno chamou de “a sociedade administrada”: os representantes da sociedade (a doutora, a enfermeira e o funcionário da saúde publica) vitimam exatamente as pessoas que eles deveriam proteger (4).

Robert, um repórter de futebol que é convocado para entrevistá-la, acaba tomando suas dores. Tenta livrá-la das garras dos traficantes, mas acaba morto. Em Veronika Voss Fassbinder, além de mostrar uma mulher tentando deixar sua marca num mundo de homens, reapresenta o tema da exploração emocional nas relações íntimas. Não apenas Veronika é vitima da neurologista e do funcionário da saúde pública, mas Robert é explorado por Veronika e a namorada de Robert é explorada por ele (5).

A própria Veronika não tem outro fim senão também morrer no final. O mundo de Veronika virou de cabeça para baixo. Não pertence mais a ela, assim como a própria Alemanha não pertence mais a si mesma (dividida entre os vitoriosos da guerra recém terminada, a Alemanha também está incerta em relação a seu futuro).

Manipule a Vida dos Outros e Seja Feliz

Lola é um filme tão pessimista quando os anteriores (ao lado). Entretanto, nele fica mais claro, mais rapidamente, quem é quem. Lola é uma dançarina de cabaré e prostituta. Vive e trabalha numa boate cujo proprietário (que é seu amante) é também um grande empresário da cidade. Seus clientes no prostíbulo, muitos dos funcionários públicos da cidade, acabam trabalhando para ele ao manipular as decisões da prefeitura. Portanto, o cenário de Lola é a corrupção entre empresários e funcionários públicos na Alemanha. O filme se passa no momento do pós-guerra em que a Alemanha está se reconstruindo, quando as oportunidades de lucro são imensas. Eis que na cidade surge de repente um novo funcionário público encarregado das licenças para as obras.

Incorruptível, ele se torna um problema! Lola entra em ação e consegue fazer desse “funcionário problemático” um animalzinho de estimação. Mas ele ainda não sabe que ela é uma meretriz local. Lola conquistou aquele homem fazendo-se passar por uma mulher pura e de bons sentimentos. Passa-se um tempo até que o funcionário público descubra a verdadeira identidade da mulher. Então, quando imaginamos que a estória tomaria outro rumo e que os bons venceriam os maus, temos uma surpresa. O homem aceita casar-se com ela, assim como aceita render-se aos interesses do empresário (que em segredo continua amante de Lola).

De fato, Lola colocou um homem de joelhos, por outro lado, ela é “funcionária” de outro. Portanto, o mundo patriarcal masculino ainda dá a palavra final. Além do tema da exploração emocional nas relações íntimas, Fassbinder retrata aqui a realidade econômico-financeira-industrial da Alemanha durante as duas décadas seguintes à Segunda Guerra. Qualquer semelhança com a situação do serviço público de certo país da América do Sul talvez seja mera coincidência...

Notas:

Leia também:

Berlin Alexanderplatz (I), (II), (final)

As Mulheres de Rainer Werner Fassbinder (I), (II) e (IV)

Este artigo foi públicado no catálogo da mostra Filmes Libertam a Cabeça

1. WATSON, Wallace Steadman. Understanding Rainer Werner Fassbinder: Film as Private and Public Art. USA: University of South Carolina Press, 1996. P. 206.
2. Idem.
3. Ibidem, p. 221.
4. Ibidem, p. 225.
5. Ibidem, p. 224.

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