Orlok, o Terror das Alemãzinhas
Eric Rentschler traça um paralelo entre a atmosfera de Nosferatu, Uma Sinfonia do Horror e A Luz Azul (Das Blaue Licht, 1932), dirigido e estrelado por Leni Riefenstahl. De acordo com Bela Balázs, seu filme traria de volta a atmosfera frígida do Dia do Juízo Final que caracterizaria o filme de Murnau. Frieda Grafe apontou a semelhança entre a aproximação do personagem Vigo à aldeia na montanha em A Luz Azul à entrada de Hutter no reino do vampiro. Tanto Riefenstahl como Murnau, e aqui Rentschler reitera as observações de Lotte Eisner quanto à Murnau, reeditam as naturezas-mortas da pintura do romantismo transformadas em imagens móveis. Murnau desejava filmar o pensamento, afirma Rentschler, criar imagens que tivessem mais força do que as palavras (2). Robin Woods salientou que também existe uma “tentação psicanalítica” em relação à interpretação do significado subjacente ao filme de Murnau: “Nosferatu é o símbolo da neurose resultante da sexualidade reprimida (natureza reprimida); a neurose é exorcizada quando revelada à luz do dia. Mas o processo de sua emergência e reconhecimento foi tão terrível que a vida positiva... é destruída com ele” (3)
Do ponto de vista da ideologia nazista que tomou conta da Alemanha na década de 30 do século passado, costuma-se traçar um paralelo entre Nosferatu, Uma Sinfonia do Horror e Judeu Süss (Jud Süß, direção Veit Harlan, 1940), um filme anti-semita patrocinado por Josef Goebbels, o Ministro da Propaganda de Hitler. A estória gira em torno de um judeu que manipula os puros e honestos de uma cidade alemã. O discurso anti-semita da década de 20 regularmente mostrava os judeus como uma praga infectando o corpo germânico. O filme de Murnau pode ser resumido como o relato da visita de uma praga a uma cidade alemã (4). Além disso, num trecho bastante negligenciado nas análises deste filme, acompanhamos uma aula do Dr. Bulwer, que mostra aos seus alunos a natureza vampiresca de plantas carnívoras, aranhas e águas-vivas (imagem abaixo, à direita; acima, Nosferatu chega à cidade)
Süss. Um inescrupuloso
que não é considerado
humano. Está montado
o palco do genocídio
Joseph Süss Oppenheimer pode ser visto como um a espécie de Drácula que, sob o pretexto de legitimar seus negócios, infecta a pureza germânica. Como o vampiro Orlok, ele embaralha as aparências, possuidor de misteriosa capacidade de adaptação física: esse ou, na verdade, todos os judeus, dissimulam e se disseminam. Noutro filme anti-semita da época, O Judeu Eterno (Der ewige Jude, Fritz Hippler, 1940), muito menos sutil que Judeu Süss, os judeus aparecem literalmente como parasitas nômades. Como Orlok, eles vem da Europa oriental, invadindo o mundo a maneira de vermes. “Onde quer que apareçam”, explica o narrador, “eles trazem a ruína, destruindo seus bens e alimentos. Eles espalham praga e doença... São ardilosos, covardes e cruéis” (5). O Judeu Eterno tinha muitas imagens nojentas de ratos e outros bichos, a platéia não agüentava e ia embora. Mas Judeu Süss, sem falar de pragas ou mostrar ratos, foi totalmente efetivo em disseminar a praga do anti-semitismo (6). (imagem abaixo, de seus caixões no porão do navio, Nosferatu sai toda noite. Tira o sangue e rouba a alma de cada um dos marinheiros)
acompanhava o mundo
de Nosferatu passa agora a caracterizar o estilo de vida
dos judeus. Hoje em dia,
os judeus são os
palestinos
As maquinações de Süss levam a economia local à falência, ele derruba casas e atormenta a comunidade. Tortura um homem para conseguir submeter uma mulher, Dorothea. Como Orlok, o instinto de destruição de Süss seria originado numa transgressão sexual contra uma mulher alemã. Puras de coração, Dorothea e Ellen Hutter submetem-se ao aproveitador, sacrifício que poupará seus amados de um destino cruel. Orlok e Süss, conclui Rentchler, vindos direto do reino das trevas (seja um castelo na Transilvânia no caso do primeiro, ou um gueto judeu em Römerberg no caso do segundo), representam um desafio para a autoconfiança da civilização germânica. A figura de nosferatu é muito similar às representações nazistas das fisionomias dos “judeus degenerados”. Süss, por sua vez, parece a encarnação de um monstro vindo do inconsciente. Rentschler nos faz questionar até que ponto essa associação Orlok-Süss difere da manipulação da massa para amar ou odiar alguém real ou algum personagem fictício nos filmes de Hollywood ou na televisão (seja em novelas ou, principalmente, nos telejornais)? Por que, por exemplo, a mídia só mostra árabes como fanáticos suicidas? (7) Por que, por exemplo, a mídia brasileira tende a mostrar os pobres como bandidos em potencial e/ou pessoas dissimuladas e sempre prontas a destruir a “pureza” das classes altas?
Demonização do Cinema Alemão
Kracauer, mesmo que de
forma metafórica, o cinema alemão entre 1918 e 1933
deixa explícitas tendências psicológicas que vieram
a produzir Adolf Hitler
Resumindo a tese de Siegfried Kracauer sobre o cinema alemão entre 1918 e 1933, Rentchler afirma que o Nosferatu de Murnau, e o Dr. Mabuse de Fritz Lang, prefiguram Hitler, mas também seriam projeções de estereótipos anti-semitas presentes na cultura alemã (8). Escrevendo em 1947, portanto após o Holocausto da Segunda Guerra Mundial, Kracauer o cinema alemão antecipou o surgimento do nazismo na Alemanha (9). Por outro lado, Thomas Elsaesser salienta que embora a tese de Kracauer tenha lhe valido a fama de teórico da conspiração, em seu livro ele também afirmou que a mídia de massa no sistema capitalista pode ser uma forma de auto-alienação (10).
O livro de Kracauer, De Caligari a Hitler. Uma História Psicológica do Cinema Alemão, de qualquer forma constitui, na opinião de Elsaesser, a mais importante tentativa de compreender não os filmes, mas a mentalidade de um período histórico. Kracauer se referia aos filmes mais como uma espécie de “super-texto” (hoje talvez fosse um hipertexto), pela semelhança familiar e repetição de temas (11). Outro livro, A Tela Demoníaca. As Influências de Max Reinhardt e do Expressionismo, escrito por Lotte Eisner, também é citado como uma tentativa de compreender ou mapear o cinema alemão da época da República de Weimar. Enquanto Kracauer tem uma abordagem sociológica, Eisner está mais preocupada com os elementos artísticos. (imagem acima, à direita, Ellen tem episódios de sonambulismo enquanto Hutter está no castelo de Orlok-Nosferatu; abaixo, um relógio no castelo do conde-vampiro)
O filme de F. W. Murnau
foi importante também
porque lançaria a moda
dos vampiros no cinema (12)
Notas:
Leia também:
Bernardo Bertolucci e o Parceiro Ideal (I)
Entre o Rosto e o Corpo
Retrato e Auto-Retrato
Fassbinder: Anti-Semita ou Ingênuo?
O Porteiro da Noite e a Cumplicidade da Vítima
Pasolini e o Sexo Como Metáfora do Poder (I), (II), (III), (IV), (V)
Yasujiro Ozu e Seus Labirintos
1. EISNER, Lotte H. A Tela Demoníaca. As Influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Tradução Lúcia Nagib. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. P. 48.
2. RENTSCHLER, Eric. The Ministry of Illusion. Nazi Cinema and it’s Afterlife. Massachusetts: Harvard University Press, 1996. P. 37.
3. Idem, p. 314n55.
4. Ibidem, pp. 359n39 e 372n80.
5. Ibidem, p. 156.
6. “Goebbels, Mestre da Propaganda” In 4º Poder, série “O Poder e a Mídia”, TVE, canal 2, Rio de Janeiro - Brasil. 05/09/1996. Original BBC.
7. A propósito desse questionamento em relação aos árabes ver SHAHEEN, Jack G. Reel Bad Arabs. How Hollywood Vilifies a People. Massachusetts: Olive Branch Press, 2º ed., 2009.
8. RENTSCHLER, Eric. Op. Cit., p. 361n62.
9. KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler. Uma História Psicológica do Cinema Alemão. Tradução Tereza Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. P. 7.
10. ELSAESSER, Thomas. Weimar Cinema and After. Germany’s Historical Imaginary. New York: Routledge, 2000. P. 34.
11. Idem, p. 30.
12. KRACAUER, Siegfried. Op. Cit., p. 96.
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O Porteiro da Noite e a Cumplicidade da Vítima
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1. EISNER, Lotte H. A Tela Demoníaca. As Influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Tradução Lúcia Nagib. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. P. 48.
2. RENTSCHLER, Eric. The Ministry of Illusion. Nazi Cinema and it’s Afterlife. Massachusetts: Harvard University Press, 1996. P. 37.
3. Idem, p. 314n55.
4. Ibidem, pp. 359n39 e 372n80.
5. Ibidem, p. 156.
6. “Goebbels, Mestre da Propaganda” In 4º Poder, série “O Poder e a Mídia”, TVE, canal 2, Rio de Janeiro - Brasil. 05/09/1996. Original BBC.
7. A propósito desse questionamento em relação aos árabes ver SHAHEEN, Jack G. Reel Bad Arabs. How Hollywood Vilifies a People. Massachusetts: Olive Branch Press, 2º ed., 2009.
8. RENTSCHLER, Eric. Op. Cit., p. 361n62.
9. KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler. Uma História Psicológica do Cinema Alemão. Tradução Tereza Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. P. 7.
10. ELSAESSER, Thomas. Weimar Cinema and After. Germany’s Historical Imaginary. New York: Routledge, 2000. P. 34.
11. Idem, p. 30.
12. KRACAUER, Siegfried. Op. Cit., p. 96.