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Roberto Acioli de Oliveira

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15 de mai de 2009

A Nudez no Cinema (V): Ingmar Bergman



(...) Recebi uma
carta anônima com
papel higiênico sujo
.
Assim
, veja só, esse filme
que parece hoje tão
inocente teve certa
repercussão
na
época
(...) (1)


Terceiro filme de sua Trilogia do Silêncio, O Silêncio (Tystnaden, 1963) constitui outro caso limite, algo como o exato oposto do erotismo solar e naturista de Mônica e o Desejo (2). Desta vez Bergman estava de comum acordo com Sven Nykvist, fotógrafo de grande parte dos filmes do cineasta, quanto a criar algo sem as rédeas da discrição. Essa decisão mostra que Bergman tinha consciência de que o erotismo é muito mais uma questão de imagem e luz do que conteúdo. Um dos resultados foi a cena em que Ana está num cine-teatro e percebe um casal na penumbra transando (imagem acima). A penumbra tem sua importância já que, em Bergman, a culpa e a angústia são sempre mostradas na luz plena.


Segundo Bergman,
as ameaças em fun
ção do
filme demonstram
como
na Suécia a sexualidade
era problemática




Ana e Ester são irmãs e viajam de trem com Johan, o filho de Ana. Ester é inibida, lésbica e está doente. Ana, heterossexual ninfomaníaca, chega a ser assediada pela irmã, mas a rejeita e despreza. Ana transa com o garçom do bar anexo ao cine-teatro, enquanto seu filho observa pela fechadura durante alguns minutos, mas se desinteressa. Ana percebe a presença de Ester atrás da porta e induz sua entrada, deixando-se ver junta com seu amante. O menino, com o mesmo livro que folheava em O Silêncio, reaparecerá no prólogo de Persona (1966), estendendo sua mão na direção dos rostos em close gigante das duas protagonistas do filme. (na imagem acima, à direita, o que o pequeno Johan consegue enxergar de Ana pelo buraco da fechadura)

Alguns críticos acusaram Bergman de ser um puritano anti-sexual e reacionário em relação à mulher. Referindo-se a O Silêncio, alguém comentou que o filme passou perto da obscenidade e que, “(...) por sua atitude negativa frente à sexualidade, torna-se um filme pornográfico”. (...)”O filme é franco, mas é uma franqueza reacionária e anti-sexual”. O cineasta comentou que, para algumas feministas de esquerda as duas protagonistas femininas de Persona são a materialização de uma postura reacionária em relação à mulher. Felizmente, Bergman lembrou, alguém as fez compreender que as mulheres nem mesmo eram o assunto do filme (3). (na imagem abaixo, o garçom se "aproxima" de Ana)



Por causa deste filme
,
Bergman e a esposa foram ameaçados de morte




Mas quanto à moral puritana Bergman admite ser um fardo que teve de arrastar por toda a infância. Segundo ele, nos anos 20 do século passado, no meio burguês era parte da boa educação nunca falar sobre duas coisas: dinheiro e sexo. O cineasta conta que foi “salvo” aos 14 anos por uma menina da mesma idade. Ela era grande, gorda e nem era bonita, agradável e boazinha. Sobre ela, Bergman decreta: “se ela não tivesse existido, eu provavelmente teria ficado completamente louco”. De alguma forma deve incomodar o fato de os filmes dele mostrarem muitos corpos – alguns deles provocantes. Bergman se diz fascinado pelas mulheres, mas vai além da sexualidade. Embora isso possa implicar uma ambivalência, ele não aceita o rótulo de “anti-sexual”. (na imagem abaixo, à direita, olhando nos olhos da irmã, Ana faz questão de afrontar com uma voluptuosidade heterossexual o interesse de Esther, que vem escutar os dois atrás da porta)

O cineasta foi criticado por nunca se interessar muito pela mulher consciente dos problemas que a cercam, mas Bergman completa a informação com certa ironia, lembrando que também não se interessa pelo homem consciente. Meus personagens, afirma, são exatamente como eu, animais movidos por instintos, e que, na melhor das hipóteses, pensam ao mesmo tempo que falam. Em meus filmes, esclarece (certamente contrariando a opinião de alguns cinéfilos a seu respeito), a capacidade intelectual é relativamente reduzida e o corpo constitui a parte principal, com um pequeno espaço para a alma. Bergman conclui dizendo que a matéria de seus filmes são as experiências de vida, cujo suporte intelectual e lógico é muitas vezes ruim.

Os filmes da Trilogia do Silêncio referem-se especificamente ao silêncio de Deus. De acordo com Bergman, seus críticos afirmam que os problemas religiosos que O Silêncio descreve são, na verdade, problemas psicanalíticos. Enquanto o pessoal psicanalítico afirma exatamente o oposto, que se trata de problemas religiosos. O cineasta confessou não conseguir compreender tais críticas, mas que elas certamente não são sequer pertinentes ao tema de O Silêncio (4).

Na opinião de Alain Bergala (5), tudo se passa neste filme como se Bergman, desejando inverter seus mecanismos de defesa, tivesse instalado um “sistema anti-incêndio estético” para tentar escapar de si mesmo. As seqüências eróticas neste filme são sem dúvida as mais quentes do cinema de Bergman. Ester é inibida, lésbica e está doente. Ana, sua irmã heterossexual e ninfomaníaca. É a partir dessa divisão que Bergman chega a viver alegremente essa tentativa de ultrapassar suas próprias angústias e seus limites estéticos. (na imagem abaixo, após a discussão com Esther, que bisbilhotava o casal. Entretanto, ao contrário do que possa parecer, o rosto escondido de Ana não é de prazer. Ela está em lágrimas, enquanto o homem serve-se daquilo que ela mesma foi atrás dele oferecer)


“Existe neste filme
uma voluptuosidade
cinematográfica que eu
vejo ainda com alegria
. Foi
loucamente divertido
filmar O Silêncio



Notas:

Leia também:

A Nudez no Cinema (VI)


1. BJÖRKMAN, Stig. O Cinema Segundo Bergman. Tradução Lia Zats. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. P.146.
2. BERGALA, Alain. Bergman In BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs) Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque. Pp. 53-7. Exceto quando explicitado, o artigo resume o verbete. Pp. 53-57.
3. BJÖRKMAN, Stig. Op. Cit., p. 153.
4. Idem, p. 154 e 155-6
5. BERGALA, Alain. Op. Cit.

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