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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

23 de jan de 2009

Hiroshima Meu Amor (II)



“Se não esquecemos, não podemos viver, nem agir.
O esquecimento deve ser construção. O desespero é
a inação, a dobra sobre si mesmo. O perigo é parar.

Alain Resnais (1)


Memória e Esquecimento

O Tempo é um dos principais temas de Hiroshima Meu Amor, um dos primeiros filmes a propor uma narração tão desconstrutiva e uma temporalidade tão estilhaçada (como se ela própria tivesse sido vítima da bomba atômica). Além do holocausto nuclear, o cineasta Alain Resnais conhecia também o holocausto dos campos de extermínio nazistas, tendo realizado um documentário sobre o tema, Noite e Neblina (Nuit et Brouillard, 1955). Portanto, para Resnais tornou-se impossível imaginar um filme linear, que ignorasse a instabilidade de um mundo que estava se decompondo em fragmentos e farrapos (2).

Em Hiroshima Meu Amor, às vezes o tempo corre rápido (como na visita ao museu), às vezes lento (a errância noturna pelas ruas de Hiroshima). As lembranças virão à superfície desordenadamente. O tempo em Hiroshima é paradoxal, instável, algo para ser repensado. Na opinião de Luc Lagier, Resnais faz uma citação muito direta de Casablanca (direção Michael Curtiz, 1942), o famoso filme de Hollywood. Próximo ao final de Hiroshima Meu Amor, a mulher está num bar chamado Casablanca (imagem ao lado). Seria uma citação rápida e singela se não estivéssemos a par de que Casablanca também funciona a partir de uma temporalidade contrariada.

Conhecemos a estória, Ingrid Bergman e Humphrey Bogart se reencontram por acaso no bar dele, numa cidade do Marrocos chamada Casablanca, durante a Segunda Guerra Mundial. Ela acompanha seu marido, que está fugindo dos nazistas. Bergman e Bogart haviam sido um casal em outra cidade (Paris), num outro tempo. O pianista toca a musical preferida do antigo casal apaixonado de Paris e eles se apaixonam novamente uma segunda vez. Como eles, os amantes de Hiroshima Meu Amor também vivem amores impossíveis. Paralelamente à grande História (uma guerra mundial), os dois casais se apaixonam enquanto o mundo desaba. Os dois desafiam o tempo (3).

Hiroshima Meu Amor funda-se, observa Lagier, sobre a rima, a repetição, o retorno do mesmo. Os personagens repetem palavras, as imagens se repetem: as bicicletas de Hiroshima levam a mulher de volta para sua bicicleta em Nevers, um gato branco em Hiroshima lembra o gato preto na França. Revivendo uma história de amor impossível, a mulher cria um eco (como quando a cabeça decepada de Orfeu chama por Eurídice). Pela repetição (pelo eco), ela cria uma fantasia, uma via paralela ao tempo. Lembremos que o filme termina no mesmo quarto de hotel onde começa. Lagier assemelha a estrutura do filme à concha espiralada do caracol, como um eterno retorno.

O tempo surge através de metáforas. Como é o caso dos rios, que o próprio Resnais vê como uma metáfora da História. O tempo histórico é representado em Hiroshima pelo rio Ota, em Nevers pelo Loire (respectivamente, imagens abaixo e ao lado). Os rios estão em toda parte no filme: o banho de chuveiro, o suor, o sangue, a chuva, a bebida no bar, as lágrimas. Tudo escorre, fluxo de palavras, derramamento de lembranças e de sentimentos. Esse caracol que é o filme se desenvolve na beira do rio, nos atracadouros, no cais, no porto. Como se os rios fossem uma metáfora dos dedos da francesa que sempre recolhe os seus e mal segura os objetos, as pessoas, a própria vida.

Os amantes em Nevers se encontram na floresta nas margens do Loire, o soldado alemão que ela amou morrerá em outro cais, entre as pedras. Em Hiroshima, a francesa e seu amante japonês aparecem na casa de chá na margem do rio Ota (ao lado, numa fotografia tirada a grande altura, os braços, ou "dedos", do rio Ota agarram a cidade). Eles devem se segurar no atracadouro se pretendem resistir as forças da corrente fluvial. Talvez por essa razão Resnais mostre as unhas da mulher arranhando as costas do seu amante e as paredes úmidas do porão onde ficou presa em Nevers. Não é de se estranhar, portanto, a presença de gatos no filme. Um animal com garras afiadas, felinos cúmplices dela.

Orfeu e Eurídice 

Com a ajuda do amante japonês, a francesa procurar desenterrar (trazer à consciência) as dolorosas lembranças de Nevers envolvendo o antigo namorado alemão. Não é por acaso que o filme é marcado por imagens de mãos, pois os dois amantes não se comunicam com os olhos, eles quase não se olham (nas imagens ao lado e abaixo, à direita, durante a errância noturna pela cidade, dois dos raros momentos do filme em que eles se olham nos olhos, embora no segundo caso não se possa garantir). Como no mito grego de Orfeu, Hiroshima Meu Amor lembra uma viagem contra o tempo, numa zona fora do tempo. Orfeu se apaixona e se casa com Eurídice. Mas ela morre no dia do casamento.

Inconformado, desce às trevas do Hades para trazê-la de volta. Plutão e Perséfone, dois seres divinos, impõem uma condição a Orfeu: ele deve seguir na frente e ela atrás, não pode virar-se para vê-la enquanto não tiverem deixado o mundo das sombras. Ele aceita. Entretanto, impaciente ele se vira. Como resultado, ele vê Eurídice transformar-se para sempre numa sombra, morrendo pela segunda vez. Uma das versões do mito conta que, inconsolável, Orfeu passou a repelir todas as mulheres. Furiosas, elas acabam por matá-lo e esquartejá-lo, lançando seus restos no rio. Podia-se ouvir sua cabeça chamando por Eurídice. O nome dela ecoava nas duas margens do rio (4).

Hiroshima Meu Amor propõe essa mesma travessia impossível. Alain Resnais se refere muitas vezes a adaptação cinematográfica do mito por Jean Cocteau (com seu Orfeu; Orphée, 1949) como uma referência para seu próprio filme. Na representação do mundo subterrâneo que se vê no filme de Cocteau, denominado “a zona”, podemos enxergar Hiroshima como um espaço-tempo feito de sombras e ruínas. Quando está caminhando contra o vento durante a errância noturna entre seus fantasmas do tempo, a atriz francesa lembra a imagem de Orfeu (5). Logo atrás dela, podemos ver seu amante japonês. Momentos depois eles se olham nos olhos (imagem acima, à esquerda).

Notas:

1. LAGIER, Luc. Hiroshima Mon Amour. Paris: Cahiers du Cinéma, 2007. P. 52.
2. Idem, p. 35.
3. Ibidem, pp. 36-7.
4. BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, vol. 2, 1987. Pp. 142-3.
5. LAGIER, Luc. Op. Cit., pp. 42-3. 


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